Bastaram noventa minutos para que uma parcela da torcida brasileira encontrasse um novo culpado. Após a estreia da Seleção nesta Copa do Mundo, Casemiro rapidamente passou a ocupar, para muitos, o posto de “inimigo público número um”. Curiosamente, poucos dias depois, foi justamente dele o gol que iniciou a reação brasileira contra o Japão no mata-mata, em uma partida na qual Carlo Ancelotti manteve sua confiança no volante apesar das críticas recebidas durante o primeiro tempo.
Mas esta não é uma história sobre Casemiro.
Antes dele, esse papel já foi ocupado por Barbosa, Dunga, Felipe Melo e tantos outros jogadores que, em diferentes gerações, acabaram personificando frustrações que jamais foram produzidas por uma única pessoa.
É um comportamento curioso. O futebol é provavelmente uma das atividades humanas mais complexas de explicar. O resultado de uma partida depende da qualidade dos jogadores, das escolhas táticas, da preparação física, do estado emocional, das decisões da comissão técnica, do desempenho do adversário, da arbitragem, de pequenos detalhes e, muitas vezes, até do acaso. Ainda assim, poucas horas após o apito final, boa parte da discussão pública costuma convergir para uma única pergunta: quem foi o culpado?
Talvez essa seja uma das características mais fascinantes da nossa relação com o esporte. Diante de um fenômeno coletivo, buscamos quase instintivamente uma responsabilidade individual. É como se vinte e dois jogadores em campo, dezenas de profissionais fora dele e uma sucessão de acontecimentos imprevisíveis pudessem ser resumidos ao erro, ou ao suposto erro, de uma única pessoa.
O mais interessante é que esse comportamento não nasceu no futebol, nem é exclusividade do torcedor brasileiro. Há décadas, psicólogos, sociólogos e cientistas do comportamento estudam por que sociedades inteiras demonstram tanta facilidade para transformar problemas complexos em histórias simples, quase sempre protagonizadas por um herói ou por um vilão.
Talvez a pergunta mais importante, portanto, não seja por que Casemiro foi criticado, nem por que Barbosa carregou durante décadas o peso de uma derrota, ou por que Felipe Melo ainda hoje é lembrado por um único lance. A pergunta realmente interessante é outra: Por que nós sentimos uma necessidade quase irresistível de procurar culpados?
Nosso cérebro não gosta de respostas complicadas
Se perguntássemos a um treinador por que sua equipe perdeu uma partida importante, dificilmente a resposta caberia em uma única frase. Talvez ele mencionasse uma pressão mal executada, uma transição defensiva lenta, uma oportunidade desperdiçada, o desgaste físico acumulado pelo calendário, o mérito do adversário ou até um desvio inesperado que mudou completamente a trajetória da bola. No futebol profissional, derrotas quase sempre são resultado da interação entre diversos fatores.
Nosso cérebro, porém, parece pouco confortável com esse tipo de explicação.
Ao longo das últimas décadas, a psicologia cognitiva demonstrou que seres humanos recorrem frequentemente a atalhos mentais, as chamadas heurísticas, para interpretar uma realidade que seria complexa demais para ser analisada em todos os seus detalhes. Em vez de processar cada informação disponível, tendemos a construir explicações suficientemente convincentes para que possamos compreender rapidamente o que aconteceu. Foi justamente esse tipo de mecanismo que Daniel Kahneman e Amos Tversky ajudaram a demonstrar em uma série de estudos que transformaram a compreensão moderna sobre a tomada de decisão.
Essa tendência se torna ainda mais intensa quando estamos emocionalmente envolvidos com o problema. A derrota do clube ou da seleção não representa apenas um resultado esportivo. Ela produz frustração, ameaça expectativas construídas durante semanas ou até anos e cria uma necessidade imediata de encontrar alguma explicação que devolva sentido aos acontecimentos.
É nesse contexto que ganha importância outro conceito bastante estudado pela psicologia social: a necessidade de fechamento cognitivo (Need for Cognitive Closure), desenvolvida pelo psicólogo Arie Kruglanski. Em linhas gerais, sua teoria mostra que, diante da incerteza, as pessoas tendem a preferir uma resposta rápida e relativamente estável a permanecer convivendo com dúvidas prolongadas. Em outras palavras, a mente humana costuma considerar mais confortável uma explicação imperfeita do que a ausência de explicação.
O futebol oferece um ambiente quase perfeito para que esse mecanismo apareça. Poucos minutos depois do apito final, programas esportivos precisam explicar a derrota, jornalistas precisam escrever suas análises, comentaristas precisam distribuir notas, torcedores querem discutir o jogo e as redes sociais exigem opiniões instantâneas. O problema é que partidas complexas dificilmente produzem respostas simples. Ainda assim, a necessidade de oferecer uma narrativa imediata permanece.
Encontrar um culpado atende exatamente a essa demanda. A explicação pode não ser completa, mas ela reduz a sensação de incerteza. Em vez de admitir que dezenas de fatores contribuíram para o resultado, basta apontar um personagem central. A história fica mais fácil de compreender, de contar e de compartilhar.
Mas existe outro mecanismo psicológico que torna essa conclusão ainda mais provável, e talvez ele explique por que quase sempre escolhemos culpar pessoas, e não circunstâncias.
Um jogo nunca tem apenas um responsável
Existe um segundo mecanismo estudado há décadas pela psicologia social que ajuda a explicar por que a busca por culpados parece tão natural. Em 1977, o psicólogo social Lee Ross cunhou a expressão erro fundamental de atribuição (Fundamental Attribution Error) para descrever nossa tendência de explicar o comportamento das pessoas principalmente por suas características individuais, subestimando a influência das circunstâncias em que elas estavam inseridas.
No futebol, esse fenômeno aparece de forma quase didática.
Quando um atacante desperdiça uma oportunidade decisiva, costuma-se concluir que lhe faltou qualidade ou personalidade. Quando um zagueiro falha em um lance, afirma-se que foi incompetente. Quando um volante perde a posse de bola, rapidamente se transforma no responsável pela derrota. Raramente a análise pública dedica o mesmo espaço para investigar o contexto em que aquela decisão foi tomada.
Um erro individual, entretanto, quase sempre nasce muito antes do momento em que ele se torna visível.
O atacante talvez tenha recebido um passe imperfeito, chegado exausto após repetir dezenas de movimentos de alta intensidade ou enfrentado um goleiro que tomou a decisão correta no momento certo. O zagueiro pode ter sido exposto porque a primeira linha de marcação foi rompida, porque um companheiro não fez a cobertura esperada ou porque a equipe perdeu seu equilíbrio alguns segundos antes. O volante, por sua vez, pode ter recebido a bola cercado por adversários, sem linhas de passe disponíveis ou pressionado por um sistema coletivo que deixou de funcionar.
Nenhuma dessas circunstâncias elimina a responsabilidade individual. Jogadores profissionais convivem justamente com a obrigação de tomar boas decisões em ambientes de enorme pressão. O ponto, porém, é outro: responsabilidade não significa exclusividade.
Essa distinção costuma desaparecer quando a emoção domina a análise.
Em esportes de alta complexidade, os erros que chamam atenção normalmente são apenas o último elo de uma cadeia muito maior de acontecimentos. Ainda assim, nossa memória tende a registrar apenas o jogador que apareceu na fotografia final do lance.
Basta fazermos um exercício simples de memória. Tente se lembrar das disputas por pênaltis envolvendo a Seleção Brasileira em Copas do Mundo. Muito provavelmente, você se recordará com facilidade do último jogador que desperdiçou uma cobrança, o vilão da eliminação, ou do último que converteu o pênalti decisivo, o herói da classificação. Em compensação, lembrar quem cobrou o primeiro, o segundo ou o terceiro pênalti costuma ser muito mais difícil, mesmo quando uma dessas cobranças também não foi convertida. Nossa memória parece funcionar como se resumisse um acontecimento extremamente complexo ao personagem que encerrou a história.
É justamente por isso que atletas diferentes acabam ocupando, em épocas diferentes, o mesmo papel simbólico. O nome muda, mas o mecanismo permanece. Barbosa, Dunga, Roberto Carlos, Felipe Melo e, agora, Casemiro não representam exatamente o mesmo tipo de erro. Eles representam algo mais profundo: a necessidade humana de condensar acontecimentos complexos em uma única narrativa, preferencialmente protagonizada por uma única pessoa.
No caso de Casemiro, porém, cabe uma ressalva importante. Ele não cometeu um erro técnico evidente que, por si só, justificasse a condição de principal responsável pelo desempenho da equipe. Tornou-se alvo principalmente em razão de uma atuação abaixo das expectativas, assim como grande parte da equipe. E o futebol nos ensina que a memória costuma ser extremamente seletiva: caso o Brasil conquiste o título, é bastante provável que essa atuação sequer seja lembrada pela maioria dos torcedores.
É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas psicológica para se tornar também social. Porque encontrar um culpado não serve apenas para explicar o que aconteceu. Muitas vezes, serve para organizar a frustração de todo um grupo.
Por que precisamos de um vilão?
Se a psicologia ajuda a explicar por que indivíduos procuram respostas simples para acontecimentos complexos, a sociologia e a antropologia oferecem uma perspectiva complementar: elas mostram que essa necessidade também cumpre uma função coletiva.
Foi essa a ideia desenvolvida pelo filósofo e antropólogo René Girard ao formular sua teoria do mecanismo do bode expiatório. Em linhas gerais, Girard argumenta que grupos humanos frequentemente canalizam tensões, frustrações e conflitos para um único indivíduo ou para um pequeno grupo de pessoas. Ao concentrar a responsabilidade em um personagem específico, a comunidade reduz sua própria tensão interna e recupera, ainda que temporariamente, uma sensação de ordem.
O importante é perceber que, nesse mecanismo, o personagem escolhido nem sempre é objetivamente o maior responsável pelo problema. Sua principal função é outra: tornar o problema compreensível.
O futebol reproduz esse comportamento de maneira quase perfeita, e existe uma razão emocional para isso.
Enquanto o fracasso permanece distribuído entre dezenas de fatores, ele continua difícil de compreender e, principalmente, difícil de corrigir. Mas, quando toda a responsabilidade é concentrada em uma única pessoa, surge uma solução aparentemente simples: basta retirar o culpado. O volante sai do time. O treinador é demitido. O diretor de futebol é substituído.
A sensação produzida é a de que o problema foi resolvido.
Não por acaso, essa lógica ultrapassa o futebol. Empresas frequentemente trocam seus executivos após resultados ruins. Governos substituem ministros em momentos de crise. Organizações públicas e privadas recorrem à mesma estratégia quando precisam demonstrar que alguma providência está sendo tomada. Em muitos casos, a troca pode até ser necessária. O ponto é que ela também exerce uma função simbólica: transmite a ideia de que o sistema identificou a origem do problema e já começou a corrigi-lo.
O problema é que existe uma diferença importante entre produzir uma narrativa satisfatória e compreender as verdadeiras causas de um acontecimento. A primeira atende à nossa necessidade emocional de fechar a história. A segunda exige aceitar que, muitas vezes, o futebol não oferece respostas tão simples quanto gostaríamos.
O verdadeiro problema de procurar culpados
Nada do que foi discutido até aqui significa que jogadores, treinadores ou dirigentes não devam ser responsabilizados por seus erros. Evidentemente, decisões equivocadas existem, falhas individuais acontecem e pessoas diferentes contribuem em graus diferentes para um mesmo resultado. O problema surge quando confundimos responsabilização com simplificação.
No futebol, essa diferença é enorme.
Responsabilizar significa analisar uma decisão dentro do contexto em que ela foi tomada, compreender quais fatores estavam sob controle daquele profissional e avaliar se existiam alternativas melhores. Simplificar significa atribuir a derrota quase exclusivamente a uma pessoa, ignorando tudo o que aconteceu antes e ao redor dela.
Essa distinção é importante porque soluções simplistas costumam produzir apenas uma sensação temporária de controle.
O próprio futebol oferece inúmeros exemplos disso. Quantos clubes trocaram diversos treinadores em uma mesma temporada e continuaram apresentando exatamente os mesmos problemas? Quantas equipes reformularam quase todo o elenco sem conseguir alterar seu desempenho? Quantos dirigentes foram substituídos enquanto dificuldades financeiras, problemas de formação de atletas, falhas de gestão ou limitações estruturais permaneceram exatamente onde estavam?
Isso acontece porque organizações complexas raramente fracassam por uma única razão.
Uma derrota pode ter começado meses antes, durante o planejamento da temporada. Um elenco desequilibrado talvez seja consequência de decisões tomadas em diferentes janelas de transferências. Um jogador pressionado pode estar inserido em um ambiente emocional deteriorado há semanas. Da mesma forma, uma eliminação pode resultar da combinação entre mérito do adversário, escolhas táticas, desgaste físico, momentos de inspiração individual e pequenos acontecimentos impossíveis de prever.
Reduzir toda essa complexidade ao nome estampado na manchete pode aliviar a frustração imediata, mas dificilmente melhora a capacidade de compreender o problema.
Talvez seja exatamente por isso que tantos erros se repitam no futebol. Quando acreditamos ter encontrado o culpado, criamos também a sensação de que encontramos a causa. E essas duas coisas nem sempre caminham juntas.
Existe ainda uma reflexão que raramente fazemos. Será que julgamos um jogador apenas pelo erro cometido ou também pela imagem que construímos dele ao longo do tempo? A psicologia social demonstra que tendemos a interpretar novas informações de maneira compatível com crenças que já possuímos, um fenômeno conhecido como viés de confirmação. Quando um atleta passa a ser visto como “o problema” de uma equipe, cada novo erro parece confirmar essa narrativa. Em contrapartida, quando admiramos profundamente um jogador, muitas vezes relativizamos falhas que seriam duramente criticadas se tivessem sido cometidas por outra pessoa. Talvez, em muitos casos, o primeiro passo da caça ao culpado não seja descobrir quem mais errou, mas identificar quem melhor se encaixa na narrativa que já estava sendo construída.
Alguns dos nomes citados neste texto cometeram erros importantes. Outros talvez pudessem ter feito mais. E outros sequer cometeram erros capazes de justificar a condição de principais responsáveis pelo resultado. Nenhum deles, entretanto, foi capaz de explicar sozinho acontecimentos produzidos por sistemas muito maiores do que qualquer indivíduo.
Talvez essa seja a principal lição. Encontrar um culpado oferece conforto emocional porque transforma uma realidade complexa em uma história fácil de contar. Compreender as verdadeiras causas exige muito mais esforço. Exige aceitar que, no futebol como na vida, problemas coletivos quase nunca cabem dentro de uma única pessoa.
É justamente essa dificuldade que torna o culpado tão sedutor. Ele encerra a discussão, enquanto as causas obrigam a continuar pensando.

