A “Geração de Ouro” de Xerém: como quatro jogadores nascidos em 2001 chegaram à Seleção Brasileira?

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A convocação de Martinelli para a Seleção Brasileira, em setembro de 2026, poderia ser tratada apenas como mais um capítulo importante na carreira de um jogador formado pelo Fluminense. Mas havia uma coincidência especialmente simbólica naquela chamada: o volante foi convocado para substituir João Pedro, cortado por lesão. Saía da lista um integrante da geração 2001 de Xerém e entrava outro.

Com a convocação de Martinelli, quatro jogadores nascidos naquele ano e formados juntos no Fluminense já haviam recebido uma chamada para a Seleção principal: André, João Pedro, Luiz Henrique e Martinelli.

Não são atletas que simplesmente passaram pela base do mesmo clube em períodos diferentes. Eles dividiram campo, treinamentos e competições quando ainda tentavam atravessar uma das etapas mais incertas do futebol: a passagem entre ser uma promessa das categorias inferiores e se transformar efetivamente em jogador profissional.

Em 2018, os quatro faziam parte do sub-17 do Fluminense. Registros oficiais da Copa do Brasil daquela temporada mostram André, Martinelli, Luiz Henrique e João Pedro atuando pela mesma equipe. Ao redor deles estava uma geração que ainda reunia outros jogadores nascidos em 2001, como Marcos Paulo, Gabriel Teixeira, o Biel, Wallace e Luan Freitas.

O mais interessante é que ninguém precisou esperar oito anos para perceber que havia algo diferente naquele grupo. Ainda em 2018, aquela safra já era tratada como uma das mais promissoras de Xerém e recebia o rótulo de “Geração de Ouro”.

O que ninguém poderia saber era exatamente quais daqueles adolescentes chegariam mais longe.

Quando as maiores promessas ainda eram outras

Naquele momento, os holofotes estavam direcionados principalmente para João Pedro e Marcos Paulo.

João Pedro havia marcado 34 gols em 35 partidas em 2018, segundo levantamento publicado pelo GE naquele período. Marcos Paulo somava 14 gols em 17 jogos e também dividia sua rotina entre convocações, treinamentos em categorias superiores e o próprio sub-17. Os dois eram apresentados como os grandes expoentes daquela geração.

João Pedro confirmou rapidamente boa parte daquela expectativa. Negociado ainda muito jovem com o Watford, construiu praticamente toda a carreira adulta na Inglaterra, passou pelo Brighton e chegou ao Chelsea. Sua primeira convocação para a Seleção principal aconteceu em novembro de 2023.

Mas o desenvolvimento dos outros integrantes daquela equipe mostrou como é difícil estabelecer, aos 16 ou 17 anos, qual será o limite de um jogador.

André percorreu um caminho diferente. Em vez de sair rapidamente, tornou-se peça fundamental do Fluminense e se consolidou entre os principais volantes do futebol brasileiro. Sua primeira convocação para a Seleção aconteceu em março de 2023. Meses depois, seria um dos protagonistas da conquista inédita da Libertadores pelo Fluminense, antes de seguir para o Wolverhampton em 2024.

Luiz Henrique também construiu sua trajetória em etapas. Depois de se profissionalizar pelo Fluminense, foi negociado com o Betis, retornou ao futebol brasileiro pelo Botafogo e viveu em 2024 uma temporada que mudou seu patamar, com as conquistas do Campeonato Brasileiro e da Libertadores. Foi naquele período que recebeu sua primeira convocação para a Seleção. Atualmente defende o Zenit.

Martinelli foi quem permaneceu mais ligado ao clube formador. Estreou profissionalmente em 2020, atravessou diferentes momentos do Fluminense e participou do ciclo que culminou na Libertadores de 2023. Em setembro de 2026, aos 24 anos, recebeu sua primeira convocação para a Seleção principal.

Quatro jogadores nascidos no mesmo ano, formados no mesmo clube e integrantes da mesma equipe sub-17 chegaram ao mesmo destino por caminhos completamente diferentes.

A geração não terminou nos quatro convocados

Restringir a análise aos jogadores de Seleção também esconderia parte da dimensão daquela safra.

Gabriel Teixeira, o Biel, chegou ao time principal do Fluminense, passou por Grêmio e Bahia e posteriormente foi negociado com o Sporting, de Portugal, antes de seguir a carreira por empréstimos.

Marcos Paulo é um caso ainda mais interessante porque ajuda a compreender a enorme dificuldade de projetar a carreira de um adolescente. Quando aquela geração começou a ganhar notoriedade, ele estava entre seus maiores talentos e era tratado como uma das principais joias de Xerém.

Chegou ao profissional, disputou 79 partidas e marcou 14 gols pelo Fluminense, mas sua trajetória posteriormente não alcançou o patamar que aquela projeção sugeria. Após deixar o clube, seguiu para o Atlético de Madrid e passou por diferentes equipes. Em 2026, defende o Juventude.

Isso não diminui sua carreira. Na verdade, torna a história daquela geração mais reveladora.

Quando analisamos uma categoria de base oito anos depois, já sabemos quem chegou à Seleção, quem foi negociado por milhões e quem se tornou protagonista. Aos 16 ou 17 anos, essas certezas simplesmente não existem. Desenvolvimento físico, capacidade de adaptação, oportunidades, lesões, escolhas profissionais, ambiente e o contexto encontrado no futebol adulto podem alterar completamente uma trajetória.

Em 2018, seria muito difícil afirmar com segurança que André, Martinelli e Luiz Henrique chegariam à Seleção ao lado de João Pedro.

Uma geração que não precisou ganhar tudo para dar certo

Os resultados mostram que aquele Fluminense também era competitivo.

Na Copa do Brasil Sub-17 de 2018, eliminou Cruzeiro, Corinthians e Palmeiras antes de disputar a decisão contra o Flamengo. Contra o Cruzeiro, foram duas vitórias e um placar agregado de 8 a 0. Na semifinal diante do Palmeiras, a classificação veio nos pênaltis. Na decisão, depois do empate por 1 a 1 na primeira partida, o Flamengo venceu o segundo jogo por 1 a 0 e ficou com o título.

Na Taça BH, o Fluminense também chegou à final e terminou vice-campeão após perder por 3 a 1 para o Atlético-MG. Em âmbito estadual, conquistou o Campeonato Carioca Sub-17.

Oito anos depois, porém, dificilmente alguém avaliaria aquela equipe prioritariamente pelos troféus conquistados ou pelas finais perdidas. Seu principal legado estava nos jogadores que estavam sendo desenvolvidos.

Essa distinção é importante porque as categorias de base convivem permanentemente com dois objetivos que nem sempre apontam para a mesma direção. Competir para vencer faz parte do processo, assim como aprender a disputar partidas decisivas. Mas o resultado de uma equipe juvenil não pode ser o único indicador da qualidade do trabalho realizado.

Um time sub-17 pode conquistar vários títulos sem produzir jogadores capazes de atuar no mais alto nível. Outro pode perder finais e entregar ao futebol profissional quatro futuros atletas convocados para a Seleção Brasileira.

A geração 2001 de Xerém é um exemplo particularmente claro dessa diferença.

Por que Xerém consegue levar jogadores ao profissional?

Ter quatro jogadores de uma mesma geração convocados para a Seleção Brasileira exige, antes de qualquer coisa, uma concentração incomum de talento. Mas talento na categoria de base não garante uma carreira profissional.

Entre identificar um adolescente promissor e transformá-lo em jogador capaz de atuar em alto nível existe uma etapa decisiva: criar condições para que ele continue se desenvolvendo e, principalmente, encontre espaço quando chegar ao futebol adulto.

É nesse ponto que o contexto do Fluminense nos faz compreender a trajetória daquela geração.

Xerém ocupa há décadas uma posição estratégica dentro do clube. Não funciona apenas como um lugar onde o Fluminense mantém suas categorias inferiores, mas como parte de um modelo que envolve captação, formação e abastecimento da equipe profissional. O Centro de Treinamento reúne campos, alojamento e departamentos de medicina, fisioterapia, fisiologia, nutrição, psicologia, serviço social e captação, formando uma estrutura dedicada ao desenvolvimento dos jogadores antes da chegada ao time principal.

O mais interessante é que Xerém não possui necessariamente o mesmo nível de investimento ou o “luxo” encontrado nas estruturas de alguns dos clubes mais ricos do país. Sua relevância está menos na sofisticação das instalações e mais na capacidade de fazer essa estrutura cumprir sua função: identificar jogadores, desenvolvê-los e criar caminhos para que cheguem ao futebol profissional.

A quantidade de atletas revelados pelo Fluminense ao longo dos anos ajuda a demonstrar que, em formação, uma estrutura funcional e integrada pode ser mais importante do que simplesmente possuir instalações mais caras ou sofisticadas.

Quando a geração 2001 estava atravessando suas principais etapas de formação, esse processo também passava por uma reorganização metodológica. Em 2017, o Fluminense incorporou profissionais específicos para desenvolver e atualizar uma metodologia contínua entre as categorias, do Sub-11 ao Sub-20. A proposta era reduzir rupturas durante a formação e estabelecer princípios comuns ao longo do caminho percorrido pelos atletas dentro de Xerém.

Mas formar é apenas parte do problema. Um dos maiores obstáculos para qualquer categoria de base aparece justamente na passagem para o futebol profissional. Um jogador pode dominar sua faixa etária e ainda encontrar poucas oportunidades quando passa a disputar espaço com atletas adultos, estrangeiros e contratações realizadas pelo próprio clube.

O Fluminense criou mecanismos para tentar diminuir essa distância. Durante determinado período, utilizou uma equipe Sub-23 como estágio intermediário entre Xerém e o elenco principal. Martinelli esteve entre os jogadores que passaram por esse processo antes de se estabelecer definitivamente no profissional. André e Luiz Henrique também atravessaram etapas de transição dentro do clube até conquistarem espaço na equipe principal.

Essa utilização dos jogadores formados em casa não ficou restrita à geração 2001. Em 2024, o então presidente Mário Bittencourt afirmou que o Fluminense trabalhava com uma regra interna para manter pelo menos 30% do elenco profissional composto por atletas oriundos da base. Em outros períodos recentes, a participação dos jogadores formados em Xerém chegou a aproximadamente 40% do grupo principal.

Existe, algo importante para entender o sucesso daquela geração. André, Martinelli e Luiz Henrique não foram apenas identificados como bons jogadores quando adolescentes. Eles estavam inseridos em um clube que possuía mecanismos para levá-los progressivamente em direção ao futebol adulto e que mantinha espaço relevante para jogadores formados internamente.

João Pedro percorreu uma trajetória diferente e igualmente reveladora. Seu desempenho nas categorias inferiores despertou interesse internacional tão cedo que o atacante foi negociado com o Watford ainda em 2018, antes mesmo de estrear profissionalmente pelo Fluminense. Nesse caso, o valor produzido pela formação apareceu antes que o jogador pudesse gerar retorno esportivo significativo para a equipe principal.

Nada disso permite afirmar que existe uma fórmula capaz de produzir jogadores de Seleção. O próprio destino dos integrantes daquela equipe demonstra o contrário. Alguns chegaram ao mais alto nível, outros construíram carreiras profissionais em patamares diferentes e várias promessas não confirmaram as expectativas existentes aos 16 ou 17 anos.

O que o caso de Xerém mostra é algo menos espetacular, mas provavelmente mais importante: identificar talento não basta. Um clube formador precisa criar uma sequência entre captação, desenvolvimento, transição e oportunidade.

A geração 2001 tinha jogadores acima da média, mas encontrou também uma estrutura acostumada a tentar transformar formação em futebol profissional.

Quando formar também é uma necessidade econômica

Existe ainda outra característica do Fluminense que ajuda a explicar por que Xerém ocupa uma posição tão importante dentro do clube: durante boa parte de sua história recente, utilizar e negociar jogadores formados internamente também foi uma necessidade econômica.

O Fluminense convive há anos com um passivo elevado e com capacidade de investimento inferior à de alguns de seus principais concorrentes nacionais. Mesmo depois de alcançar faturamento superior a R$ 1 bilhão e registrar superávit em 2025, o balanço daquele exercício ainda apontava dívida de aproximadamente R$ 1,04 bilhão. A melhora recente das receitas, portanto, não elimina o peso financeiro acumulado pelo clube ao longo dos anos.

Nesse cenário, Xerém cumpre duas funções complementares. A primeira é esportiva: produzir jogadores capazes de ocupar posições que, de outra maneira, poderiam exigir contratações no mercado. A segunda é financeira: desenvolver ativos que posteriormente possam ser negociados e gerar recursos para o próprio funcionamento do clube.

Essa dependência não é apenas uma interpretação construída a partir das transferências realizadas pelo Fluminense. Em 2024, Mário Bittencourt afirmou que as vendas de jogadores representavam, em média, aproximadamente 45% das receitas do clube havia vários anos e explicou que essas negociações eram necessárias para financiar a operação, inclusive os investimentos realizados na própria formação.

Isso cria uma dinâmica particular. Para clubes com maior capacidade financeira, utilizar um jovem da base pode ser uma alternativa entre diversas possibilidades disponíveis no mercado. Para o Fluminense, em diferentes momentos, produzir seus próprios jogadores também significou reduzir a necessidade de buscar soluções externas e criar ativos capazes de financiar novas etapas do projeto esportivo.

Mas essa relação não deve ser confundida com a ideia de que basta estar endividado para revelar jogadores. A restrição financeira pode aumentar a necessidade de utilização da base, mas não produz talento nem garante qualidade na formação. O que torna o caso do Fluminense relevante é a combinação entre necessidade econômica e uma estrutura de formação construída durante décadas.

Por isso, entender aquela geração exige olhar também para o modelo econômico no qual ela foi formada. Em Xerém, desenvolver jogadores nunca significou apenas preparar o próximo atleta do Fluminense. Em diferentes momentos da história recente do clube, significou também produzir parte do patrimônio necessário para sustentar o próprio futebol.

Formação também é patrimônio

O trabalho de base possui ainda uma dimensão que ultrapassa o campo.

Naquele período, o Fluminense demonstrava preocupação em transformar a formação de jogadores também em patrimônio econômico. Em 2018, considerando os 21 atletas inscritos na Taça BH daquela geração 2001/2002, o clube possuía, em média, 87,6% dos direitos econômicos dos jogadores e detinha 100% de 15 deles.

Os anos seguintes mostraram diferentes maneiras de transformar formação em valor.

João Pedro foi negociado com o Watford ainda em 2018, antes mesmo de estrear profissionalmente pelo Fluminense. Luiz Henrique permaneceu até se consolidar no time principal antes da transferência para o Betis. André ficou tempo suficiente para se tornar protagonista, conquistar a Libertadores e posteriormente ser negociado com o Wolverhampton. Martinelli continua representando o retorno esportivo dentro do próprio clube.

Mas possuir direitos econômicos e formar um jogador valorizado não significa necessariamente conseguir capturar todo esse valor.

Marcos Paulo é o melhor contraponto dentro da própria geração. Deixou o Fluminense ao término de seu contrato e chegou ao Atlético de Madrid como jogador livre. O clube teve direito aos mecanismos compensatórios previstos para a formação, mas não realizou uma transferência convencional pelo jogador.

O caso mostra que formação, valorização esportiva e transformação desse ativo em receita são etapas diferentes de um mesmo processo.

Uma categoria de base pode gerar valor de diversas maneiras. Há jogadores negociados antes mesmo de se estabelecerem no profissional, outros que entregam temporadas de alto nível antes de serem vendidos e aqueles que permanecem por muitos anos, convertendo formação diretamente em desempenho esportivo.

Poucas gerações conseguem reunir tantos caminhos ao mesmo tempo.

O que realmente faz uma geração ser de ouro

Talvez o aspecto mais interessante daquela safra esteja justamente naquilo que não podia ser previsto em 2018.

Uma das maiores promessas poderia não se transformar no jogador de maior carreira. Um atleta menos badalado poderia amadurecer posteriormente. Outro poderia precisar sair do país, voltar ao Brasil e encontrar um ambiente diferente para atingir seu melhor nível. E alguém poderia permanecer no clube durante anos antes de receber sua primeira oportunidade na Seleção.

Isso não significa que o sucesso dos quatro convocados possa ser atribuído exclusivamente ao trabalho realizado em Xerém. Depois da formação inicial vieram treinadores, clubes, oportunidades, escolhas individuais e diferentes ambientes de desenvolvimento. João Pedro, Luiz Henrique, André e Martinelli continuaram sendo formados pelo próprio futebol depois que deixaram o sub-17.

O que pode ser afirmado é que o Fluminense conseguiu reunir, desenvolver e levar ao futebol profissional uma quantidade incomum de talento dentro de uma única safra.

Quando Martinelli foi chamado para substituir João Pedro em setembro de 2026, aquela geração ganhou uma espécie de fechamento simbólico. André, João Pedro, Luiz Henrique e Martinelli, quatro jogadores nascidos em 2001 que haviam dividido a mesma equipe em Xerém, já tinham sido convocados para a Seleção Brasileira principal.

Em 2018, o Fluminense tinha uma excelente equipe sub-17 e uma geração que já despertava enorme expectativa. Oito anos depois, ficou mais fácil perceber que o resultado mais importante daquele trabalho nunca esteve apenas no placar.

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