A transferência de Bruno Guimarães do Newcastle para o Arsenal, concluída por um valor reportado em aproximadamente £75 milhões, chamou atenção não apenas pelo tamanho da operação. No Brasil e na França, parte da repercussão rapidamente se deslocou para os clubes que também poderiam ser beneficiados financeiramente pelo negócio, especialmente Athletico Paranaense e Lyon.
Os dois casos têm razões para aparecer nas notícias, embora não necessariamente pela mesma razão. O Lyon preservou interesses contratuais relacionados à transferência do brasileiro ao Newcastle, enquanto o Athletico integra o histórico de formação do jogador e, por isso, pode ser beneficiário do Mecanismo de Solidariedade da FIFA.
O caso mais interessante é que a história não termina nos dois clubes, e ninguém está se dando conta da importância.
Uma análise do Passaporte Esportivo de Bruno Guimarães mostra que sua trajetória dentro do período considerado pela FIFA envolve outros clubes. CFZ do Rio, GPA Audax Rio, FC SKA Brasil e Grêmio Osasco Audax também aparecem nos registros. Quando esses períodos são confrontados com as regras do Mecanismo de Solidariedade, surge uma distribuição potencial muito mais ampla do que aquela normalmente associada à transferência.
O resultado é um bom exemplo de como a formação de um jogador pode continuar produzindo consequências econômicas muitos anos depois de sua saída. Também revela uma característica pouco conhecida da regulamentação: mesmo uma transferência entre dois clubes ingleses pode gerar solidariedade para clubes brasileiros.
O Passaporte Esportivo muda a perspectiva da transferência
No futebol, expressões como “clube formador” e “jogador revelado por” são utilizadas com relativa liberdade. Para o Mecanismo de Solidariedade, entretanto, a análise precisa ser muito mais objetiva. O que interessa não é apenas a associação histórica do atleta com determinado clube, mas o período em que ele esteve efetivamente registrado durante os anos considerados pela regulamentação.
Bruno Guimarães nasceu em 16 de novembro de 1997. O Passaporte Esportivo analisado pelo Jogo Real registra, dentro do intervalo relevante para esta apuração, passagens por CFZ do Rio, GPA Audax Rio, FC SKA Brasil, Audax-SP, Athletico Paranaense e Olympique Lyonnais.
Essa cronologia é fundamental porque o Mecanismo de Solidariedade não distribui uma parcela igual entre todos os clubes pelos quais um jogador passou. O valor atribuído a cada instituição depende do período de formação correspondente.
O artigo 21 e o Anexo 5, artigo 1, do Regulations on the Status and Transfer of Players da FIFA estabelecem a base normativa do Mecanismo de Solidariedade. O artigo 21 determina que, quando um jogador profissional é transferido antes do término de seu contrato, os clubes que contribuíram para sua formação e educação têm direito a uma proporção da compensação relacionada à transferência. O próprio dispositivo remete ao Anexo 5 para as regras detalhadas de distribuição.
O Anexo 5, artigo 1, especifica essa distribuição. Quando um profissional se transfere durante a vigência de seu contrato, 5% da compensação paga no âmbito da transferência, excluída eventual training compensation, são destinados ao Mecanismo de Solidariedade e distribuídos proporcionalmente aos clubes que participaram de sua formação e educação. A parcela de cada clube é determinada pelo tempo em que o jogador esteve registrado naquela instituição entre os anos civis de seu 12º e 23º aniversários, com cálculo proporcional quando o período é inferior a um ano.
A regulamentação também estabelece pesos diferentes conforme a idade do jogador. Nos anos civis de seus 12º, 13º, 14º e 15º aniversários, cada ano completo corresponde a 5% da contribuição total de solidariedade, o que equivale a 0,25% da compensação da transferência. Do ano civil do 16º ao 23º aniversário, cada ano completo corresponde a 10% da contribuição de solidariedade, equivalente a 0,50% da compensação da transferência.
Quando o atleta permanece menos de um ano completo em determinado clube, a participação é calculada proporcionalmente ao tempo efetivamente registrado. O Commentary on the Regulations on the Status and Transfer of Players é explícito ao afirmar, especificamente no capítulo dedicado ao Mecanismo de Solidariedade, que a DRC anteriormente utilizava aproximações mensais, mas passou, nos anos mais recentes, a calcular a contribuição de solidariedade até o nível diário.
Foi com base exatamente nesses critérios: período de registro, ano civil correspondente à idade do atleta e proporcionalidade temporal, que o Jogo Real reconstruiu a participação estimada dos clubes identificados no Passaporte Esportivo de Bruno Guimarães.
Quanto cada clube pode receber
O Jogo Real reconstruiu os períodos de registro constantes no Passaporte Esportivo e aplicou proporcionalmente os critérios previstos pela FIFA. Considerando £75 milhões como base da transferência, os períodos identificados correspondem a aproximadamente 4,88% da operação, o equivalente a cerca de £3,66 milhões em Mecanismo de Solidariedade.
O Athletico Paranaense aparece com a maior participação estimada. Os períodos registrados correspondem a aproximadamente 1,37% da transferência, o que representaria cerca de £1,03 milhão.
Logo depois aparece o Grêmio Osasco Audax. A reconstrução de seu período de formação resulta em aproximadamente 1,30%, equivalente a cerca de £975 mil sobre uma transferência de £75 milhões.
O GPA Audax Rio teria participação estimada de aproximadamente 0,98%, correspondente a cerca de £740 mil. Já o CFZ do Rio aparece com aproximadamente 0,50%, ou cerca de £380 mil.
O Olympique Lyonnais também integra essa conta. Pelo período relevante para o Mecanismo de Solidariedade, sua participação estimada é de aproximadamente 0,46%, equivalente a cerca de £345 mil. O FC SKA Brasil, por sua vez, aparece com aproximadamente 0,25%, o que representaria cerca de £192 mil.
Somados, portanto, os períodos de formação identificados no documento analisado resultam na seguinte estimativa:
£1,03 milhão para o Athletico Paranaense;
£975 mil para o Grêmio Osasco Audax;
£740 mil para o GPA Audax Rio;
£380 mil para o CFZ do Rio;
£345 mil para o Lyon; e
£192 mil para o FC SKA Brasil.
O total chega a aproximadamente £3,66 milhões.
Esses valores precisam ser interpretados corretamente. Eles representam uma estimativa elaborada pelo Jogo Real, construída a partir das datas constantes no Passaporte Esportivo, das regras da FIFA e de uma base de transferência de £75 milhões. Não são valores oficialmente determinados pela FIFA nem significam que os respectivos clubes já tenham recebido essas quantias.
A definição oficial depende do Electronic Player Passport (EPP) e dos Allocation Statements gerados no âmbito da FIFA Clearing House, além da compensação efetivamente considerada para cada pagamento relacionado à transferência.
Os 5% não precisam necessariamente aparecer integralmente
A reconstrução também revelou uma particularidade que ajuda a demonstrar a importância de trabalhar diretamente com o Passaporte Esportivo. A soma dos períodos identificados chega a aproximadamente 4,8823%, e não aos 5% máximos associados ao Mecanismo de Solidariedade.
A diferença encontra explicação, ao menos parcialmente, na própria cronologia disponível. Como Bruno nasceu em novembro de 1997, 2009 corresponde ao ano civil de seu 12º aniversário e, portanto, já integra o período considerado pela FIFA. Entretanto, o primeiro registro apresentado no passaporte analisado começa apenas em 4 de junho daquele ano, no CFZ do Rio.
Isso deixa o intervalo entre 1º de janeiro e 3 de junho de 2009 sem atribuição a qualquer clube no documento disponível. Há ainda pequenos intervalos de registros posteriores.
Não é possível concluir, apenas a partir disso, se Bruno esteve vinculado a alguma outra instituição nesses períodos ou se simplesmente não existe registro relevante a ser considerado. Qualquer afirmação nesse sentido exigiria documentação adicional. Por isso, esses dias não foram atribuídos a nenhum clube no cálculo do Jogo Real.
Esse detalhe também mostra por que o cálculo da solidariedade não deveria ser feito simplesmente a partir de uma lista dos clubes pelos quais o atleta passou. O momento exato de cada registro pode alterar a distribuição, sobretudo quando o jogador muda de clube durante um mesmo ano civil.
Uma transferência inglesa que pode remunerar clubes brasileiros
Talvez a característica mais interessante do caso Bruno Guimarães esteja fora dos números. Newcastle e Arsenal pertencem à mesma associação e, portanto, a operação é uma transferência doméstica inglesa. Isso poderia levar à conclusão de que o Mecanismo de Solidariedade da FIFA não alcançaria os clubes brasileiros envolvidos na formação do jogador.
Essa conclusão teria sido compatível com a antiga estrutura regulatória, mas não corresponde à regra atualmente vigente.
O Commentary oficial da FIFA registra que, desde 1º de julho de 2020, o Mecanismo de Solidariedade também passou a alcançar determinadas transferências domésticas. Quando um jogador é transferido entre dois clubes afiliados à mesma associação, um clube formador pode receber sua parcela caso esteja afiliado a uma associação diferente daquela dos clubes envolvidos na transferência.
É o que a própria documentação da FIFA denomina transferência doméstica com dimensão internacional. As Explanatory Notes on the FIFA Clearing House Regulations incluem expressamente uma domestic transfer with an international dimension entre os eventos capazes de gerar training rewards.
É exatamente essa configuração que aparece na transferência de Bruno. Newcastle e Arsenal estão vinculados à associação inglesa, enquanto CFZ do Rio, Audax Rio, FC SKA Brasil, Grêmio Osasco Audax e Athletico pertencem ao sistema brasileiro. O Lyon, por sua vez, pertence ao francês.
Portanto, a operação permanece doméstica sob a perspectiva dos clubes negociadores, mas possui a dimensão internacional necessária em relação aos clubes formadores vinculados a outras associações.
O regulamento da FIFA Clearing House de 2026 reforça essa arquitetura ao tratar especificamente das transferências nacionais envolvendo compensação financeira e prever procedimentos para situações nas quais clubes formadores estão vinculados a outra associação-membro.
Essa mudança é particularmente relevante para clubes formadores. O direito à solidariedade deixou de depender exclusivamente de uma nova transferência internacional do atleta. Em determinadas condições, movimentações dentro de um mesmo mercado nacional também podem produzir novos pagamentos para clubes de formação localizados em outros países.
O Audax mostra quanto o tempo pode valer
Entre os clubes identificados, o Grêmio Osasco Audax oferece um exemplo especialmente ilustrativo da lógica econômica do mecanismo.
O Passaporte Esportivo registra Bruno no Audax-SP a partir de setembro de 2014. Depois de uma breve interrupção no registro, um novo vínculo aparece em fevereiro de 2015, permanecendo até sua ida por empréstimo ao Athletico em maio de 2017.
Aplicando a proporcionalidade correspondente a esses períodos, chega-se a aproximadamente 1,30% da compensação relevante. Sobre uma transferência de £75 milhões, isso representaria cerca de £975 mil.
O aspecto mais significativo desse número talvez não seja o valor absoluto, mas a distância entre a formação e a geração da receita. O Audax participou do desenvolvimento de Bruno em uma fase muito anterior àquela em que ele se tornaria um jogador de alto valor no mercado internacional. Depois vieram Athletico, Lyon e Newcastle, até a transferência atual para o Arsenal.
O clube brasileiro não participou da negociação de £75 milhões, não definiu o preço do jogador e não controla sua carreira atual. Ainda assim, o período de formação registrado anos atrás pode produzir um direito econômico decorrente da regulamentação da FIFA.
É precisamente essa distância temporal que ajuda a explicar a função do Mecanismo de Solidariedade: permitir que uma parcela do valor criado posteriormente na carreira retorne às instituições que participaram da formação do atleta.
O dinheiro do Lyon mostra por que é preciso separar contrato de formação
O caso do Lyon acrescenta outra camada à discussão. O clube francês aparece associado financeiramente à transferência de Bruno por razões que não devem ser confundidas.
Quando vendeu o jogador ao Newcastle, o Lyon negociou condições contratuais que poderiam gerar receitas futuras. Esse tipo de cláusula, normalmente estruturada como participação em uma venda posterior ou no ganho econômico produzido por ela, decorre diretamente do contrato celebrado entre os clubes.
A solidariedade possui fundamento completamente diferente. Ela não depende de o clube ter negociado previamente uma participação econômica. O direito decorre do período de formação reconhecido pela regulamentação da FIFA.
Como Bruno esteve registrado no Lyon durante parte do ano civil correspondente aos seus 23 anos, esse período também aparece na reconstrução realizada pelo Jogo Real. A participação estimada é de aproximadamente 0,46%, equivalente a cerca de £345 mil sobre a base considerada de £75 milhões.
Assim, um mesmo clube pode receber valores relacionados à mesma transferência por fundamentos distintos. O Lyon pode ter receitas decorrentes de direitos contratuais preservados na venda ao Newcastle e, separadamente, uma parcela associada ao Mecanismo de Solidariedade.
Misturar essas duas fontes de receita produz uma leitura incorreta da operação. Uma decorre da negociação contratual. A outra, da formação.
O valor estimado não significa dinheiro imediatamente disponível
Também é necessário separar o cálculo econômico do efetivo recebimento. A existência de uma participação estimada não significa que o clube receberá automaticamente todo o montante em uma única operação imediatamente após a transferência.
A FIFA Clearing House estabelece um procedimento próprio para identificação e distribuição dos training rewards. As regras relacionam o processamento da solidariedade ao EPP e às provas dos pagamentos efetuados no âmbito da transferência.
No caso específico do Mecanismo de Solidariedade, o regulamento de 2026 estabelece que o Allocation Statement é produzido depois da finalização do EPP e do recebimento da prova do respectivo pagamento.
Essa estrutura importa porque uma transferência de £75 milhões não necessariamente significa um pagamento único de £75 milhões em determinada data. A operação pode ser estruturada em parcelas e outras obrigações financeiras previstas contratualmente.
Há, portanto, uma diferença importante entre calcular a participação potencial de um clube, ter essa participação reconhecida pelo sistema da FIFA e efetivamente receber os valores correspondentes. Os números apresentados nesta análise pertencem ao primeiro desses estágios.
Quanto vale formar um jogador que você já não possui?
A transferência de Bruno Guimarães ajuda a revelar uma característica econômica da formação que normalmente recebe menos atenção do que a venda inicial do atleta.
Quando um clube desenvolve um jovem jogador, é natural avaliar o retorno daquele trabalho pela possibilidade de aproveitá-lo esportivamente ou negociá-lo no futuro. Sob essa perspectiva, a relação econômica parece terminar quando o atleta é transferido.
O Mecanismo de Solidariedade altera essa lógica ao preservar uma conexão entre parte do valor futuro da carreira e as instituições que participaram de sua formação. Um jogador pode deixar o clube, mudar de país, disputar outra liga, valorizar-se e ser novamente transferido muitos anos depois. Em determinadas condições, aquela formação continua economicamente relevante.
O caso Bruno é especialmente ilustrativo porque alguns dos clubes identificados no passaporte participaram de sua trajetória há mais de uma década. Desde então, o jogador passou pelo Athletico, foi vendido ao Lyon, transferiu-se para o Newcastle e agora chegou ao Arsenal em uma operação reportada em aproximadamente £75 milhões.
Uma parcela aparentemente pequena dessa transferência pode representar centenas de milhares de libras para organizações cuja capacidade financeira é incomparavelmente menor do que a dos grandes clubes da Premier League. No caso do Grêmio Osasco Audax, a estimativa se aproxima de £1 milhão.
Esse potencial também ajuda a dimensionar a importância da gestão administrativa da formação. Manter registros corretos, acompanhar o histórico federativo dos atletas e compreender os mecanismos regulatórios relacionados às transferências não deveria ser tratado apenas como obrigação burocrática. Existe valor econômico associado a essas informações, e esse valor pode surgir quando o clube menos participa diretamente da operação que o produz.
No futebol, formar um jogador não significa apenas desenvolver talento para o presente. Em determinadas condições, significa construir um direito econômico-regulatório cujo valor pode reaparecer anos depois, em outro clube, outro país e em uma transferência da qual o formador sequer participou.
*Nota metodológica: os percentuais e valores apresentados neste artigo são estimativas elaboradas pelo Jogo Real a partir dos períodos constantes no Passaporte Esportivo analisado, da regulamentação da FIFA e de uma base de transferência de aproximadamente £75 milhões. Os montantes efetivamente reconhecidos e distribuídos dependem do Electronic Player Passport (EPP), da compensação considerada no processamento da transferência e dos respectivos Allocation Statements da FIFA.


