Antes de discutir SAF, governança ou modernização da gestão, é preciso encarar uma premissa frequentemente ignorada: o problema financeiro do futebol não nasce na sua forma jurídica, mas na sua própria natureza econômica.
Receita incerta, custo rígido
O futebol opera sob uma lógica diferente da maioria dos setores. Enquanto empresas tradicionais conseguem planejar crescimento com base em razoável previsibilidade de receita e controle sobre demanda, o futebol depende de variáveis que não controla. Grande parte da sua receita está diretamente ligada ao desempenho esportivo, algo inerentemente incerto. Premiações variam conforme resultados, classificações impactam diretamente o faturamento e a venda de atletas depende de mercado, timing e performance individual.
Do outro lado, os custos seguem outra lógica. São rígidos, contínuos e, na prática, crescentes. Contratos de atletas e comissões técnicas são compromissos assumidos independentemente do desempenho. Estrutura, operação e competitividade exigem investimento permanente. Diferentemente da receita, esses custos não recuam quando o resultado esportivo não vem.
O desequilíbrio estrutural
Esse desalinhamento, receita variável contra custo fixo crescente, é o núcleo do problema.
E ele é agravado por um fator estrutural: o futebol não permite estabilidade. Cada clube não compete apenas consigo mesmo, mas com adversários que também estão investindo, evoluindo e elevando o nível de gasto. Isso cria um ambiente de inflação estrutural de custos, em que qualquer ganho de receita é rapidamente absorvido por salários, transferências e comissões. Mais dinheiro no sistema não melhora a eficiência, ele apenas eleva o nível mínimo necessário para competir.
Mais investimento, mais risco
Nesse contexto, aumentar investimento não garante retorno proporcional. Na prática, muitas vezes apenas aumenta o nível de risco em um negócio onde, no final das contas, o que define a diferença entre sucesso e fracasso é a “performance humana”, que está atrelada a diversas variáveis que muitas vezes não se alinham com a quantidade de recurso investido.
Se o risco é alto, por que o dinheiro entra?
E é aqui que surge uma pergunta inevitável: se o risco é tão elevado, por que os investidores continuam colocando dinheiro no futebol?
A resposta está no objetivo.
Diferentemente de setores tradicionais, o investidor no futebol raramente busca lucro operacional imediato. O foco está na valorização do ativo. Ganhos vêm, em muitos casos, do aumento de receita, do crescimento da marca, da eventual venda futura da participação societária ou de efeitos indiretos estratégicos, institucionais ou reputacionais.
Ou seja: não se trata de maximizar lucro no curto prazo, mas de capturar valor ao longo do tempo por meio da valorização do ativo e do crescimento estrutural da operação. O problema surge quando esse processo não está ancorado em uma estratégia clara de geração de valor.
A promessa da SAF
É justamente nesse ambiente que a SAF surge como solução. A narrativa é clara: profissionalização, governança, transparência, acesso a capital privado e definição de uma estratégia clara de geração de valor. No papel, faz sentido. Um clube organizado como empresa deveria operar com mais eficiência e responsabilidade financeira.
O que a SAF realmente muda
Para entender o efeito da SAF, é preciso observar como o desequilíbrio se manifestava antes e depois da sua implementação.
Antes, o desequilíbrio era difuso. Manifestava-se em atrasos, dívidas acumuladas e passivos ocultos, muitas vezes transferidos de uma gestão para outra. Era um problema real, mas pouco transparente.
Com a SAF, esse mesmo desequilíbrio passa a ser formalizado. O que antes era atraso vira prejuízo. O que antes era invisível passa a ser auditado. O que antes era promessa passa a ser necessidade de aporte.
A SAF muda aspectos importantes. Cria separação patrimonial, aumenta a transparência, impõe maior disciplina de gestão e viabiliza a entrada de investidores. Em última instância, o controlador passa a responder dentro de uma estrutura formal de governança, com maior transparência sobre decisões e resultados sem que isso, por si só, elimine os riscos inerentes ao modelo.
O que ela não muda é a lógica econômica do futebol.
O erro de análise
E esse é o ponto central. O erro mais comum na análise do tema é tratar o futebol como um negócio tradicional. Em empresas convencionais, via de regra, investir mais tende a gerar retorno proporcional. No futebol, o retorno não é linear, a receita depende de fatores humanos muito mais incertos e o investimento não garante resultado financeiro.
Na prática, o aumento de investimento eleva o nível de exposição, não necessariamente a rentabilidade.
Quando a operação não consegue sustentar esse nível de custo, o sistema recorre a mecanismos de compensação. O principal deles é a venda de atletas.
O falso equilíbrio
Na prática do futebol brasileiro, isso é facilmente observável: uma parcela relevante da receita dos clubes está associada à negociação de atletas, inclusive incorporando previsões mínimas de venda nas projeções anuais de receita. Uma única venda pode transformar um prejuízo operacional significativo em um resultado contábil positivo.
Levantamentos de mercado indicam que, na última década, as transferências representaram, em média, cerca de 20% da receita total dos clubes brasileiros, segundo estudo da EY. Isso significa que o resultado financeiro frequentemente depende de eventos não recorrentes.
A venda de jogadores não é uma fonte estável de receita. Depende de mercado, timing e desempenho individual. É, na essência, uma forma de ajustar desequilíbrios que a operação principal não consegue absorver.
Mesmo nos modelos considerados mais organizados, a dependência de receitas não recorrentes ainda é relevante, o que reforça que o equilíbrio não vem apenas da operação recorrente.
O que o balanço não mostra (totalmente)
Outro ponto que distorce a análise é a forma como os resultados são apresentados. Nem todo prejuízo no futebol representa saída imediata de caixa. Parte relevante dos números negativos decorre de efeitos contábeis, como a amortização de contratos de atletas, que representa a diluição, ao longo do tempo, do valor investido em contratações.
Esse efeito, no entanto, não elimina o custo econômico: contratos amortizados tendem a ser renovados a valores mais altos ou substituídos por novos investimentos, transferindo para o futuro a pressão de caixa.
Os dados recentes do futebol brasileiro reforçam esse padrão. Em 2024, os 20 maiores clubes do país registraram receitas superiores a R$ 10,9 bilhões, mas ainda assim apresentaram déficit agregado superior a R$ 1,3 bilhão e endividamento total na casa de R$ 12,2 bilhões, segundo relatório da Sports Value.
Em 2025, estimativas preliminares de mercado indicam continuidade do crescimento de receita e da dependência de receitas não recorrentes; os dados consolidados ainda não contam com auditoria concluída
Os números são claros: mesmo com receitas em níveis históricos, o crescimento dos custos tem sido suficiente para neutralizar ganhos de eficiência operacional.
O padrão de resultados negativos revela um problema mais profundo: a dificuldade estrutural de gerar caixa suficiente para sustentar o nível de investimento exigido. O sistema gera mais dinheiro, mas esse crescimento continua sendo absorvido pelo aumento dos custos e pela necessidade de financiamento externo.
Regulação não resolve o problema
Nem mesmo ambientes mais regulados conseguem eliminar esse desequilíbrio. Regras de controle financeiro, como as adotadas na Europa, não foram desenhadas para tornar o futebol lucrativo, mas para evitar colapsos. Elas limitam o tamanho do problema, mas não alteram sua causa.
Receita não é aporte
Nesse contexto, um dos equívocos mais comuns na análise das SAFs é confundir receita com aporte de capital.
Receita representa a capacidade do clube de gerar caixa por meio de sua atividade operacional. O EBITDA, utilizado como proxy de geração de caixa operacional, indica se essa operação cobre seus custos diretos.
Um clube pode apresentar prejuízo contábil e, ao mesmo tempo, gerar caixa operacional positivo, especialmente em fases de maior investimento ou capitalização.
Aporte, por sua vez, é financiamento. Quando a atividade depende sistematicamente de capital externo para fechar a conta, o modelo deixa de ser autossuficiente. O clube não está se pagando — está sendo financiado.
O que os números mostram
Os balanços recentes indicam um padrão consistente: crescimento de receita acompanhado por aumento ainda maior de custos, resultando em prejuízos operacionais ou dependência recorrente de capital externo.
A consequência é clara: dependência.
Quando o futebol não se paga, ele depende. E dependência, no longo prazo, não é um modelo, é uma condição.
A resposta
Diante disso, a pergunta inicial precisa ser refletida.
A SAF é a profissionalização do prejuízo?
Não por natureza. Mas, inserida em um ambiente estruturalmente desequilibrado, ela não resolve o problema, apenas o expõe.
A SAF não cria o desequilíbrio econômico do futebol. Ela apenas o transforma em números auditáveis, recorrentes e impossíveis de ocultar. O que antes era dívida difusa, atraso e passivo invisível passa a ser prejuízo contábil, necessidade de aporte e dependência de capital.
A SAF não resolve o problema. Ela apenas elimina a possibilidade de fingir que ele não existe mesmo em cenários de sucesso esportivo.
O ponto final
E, a partir daí, a discussão deixa de ser se há prejuízo e passa a ser por que ele existe, quem o financia e, principalmente, qual é o objetivo por trás dele.
Na parte 2 do artigo abordaremos o porquê se pode perder mesmo ganhando.


