O debate sobre SAFs no futebol brasileiro parte, com frequência, de uma premissa aparentemente lógica: mais investimento esportivo geraria crescimento sustentável de receita e, no médio prazo, fortalecimento financeiro da operação. Os números contam uma história diferente.
A escalada das receitas também começa a revelar outro fenômeno relevante do futebol brasileiro recente: a aproximação da chamada “barreira do bilhão”. Estudos da Sports Value e projeções divulgadas por veículos especializados em finanças esportivas indicam que Flamengo, Palmeiras, Corinthians e outros clubes passaram a operar em patamares de receita próximos ou potencialmente superiores a R$ 1 bilhão anuais em 2025, considerando receitas recorrentes, premiações e venda de atletas. O crescimento do faturamento, porém, continuou acompanhado por expansão relevante dos custos operacionais, especialmente folha salarial, amortização de atletas e despesas financeiras.
Segundo relatório da Sports Value, os 20 maiores clubes do país atingiram receita recorde de R$ 10,9 bilhões em 2024, crescimento de 22% sobre o ano anterior. No mesmo período, os custos com futebol subiram 26%, alcançando R$ 8,7 bilhões. O resultado foi um déficit agregado superior a R$ 1,3 bilhão, com o endividamento total dos TOP 20 chegando a R$ 12,2 bilhões, alta de 17% em relação a 2023. Em resumo: os clubes nunca faturaram tanto. E nunca tiveram tanta dívida.
O caso mais emblemático dessa contradição é o Botafogo. Em 2024, o clube foi campeão brasileiro e da Libertadores. Registrou receita de R$ 703,7 milhões, crescimento de 81% sobre 2023. E apresentou o maior prejuízo líquido entre os clubes brasileiros no período, R$ 300 milhões, com custos de futebol somando R$ 608,6 milhões, dos quais R$ 372,4 milhões destinados apenas a salários, imagem e gratificações. Ganhou tudo dentro de campo. Perdeu R$ 300 milhões fora dele.
Esse não é um paradoxo acidental. É uma característica estrutural do modelo.
O problema não é o prejuízo. É o que o financia.
O futebol possui uma característica incomum quando comparado a outros setores econômicos: parte relevante da geração de receita depende diretamente de eventos competitivos de baixa previsibilidade. Premiações variam. Classificações variam. Receitas de transferência variam. A estrutura de despesa, porém, não acompanha essa variabilidade.
Folha salarial, contratos de atletas, direitos de imagem, luvas e comissão técnica continuam existindo independentemente do resultado esportivo da temporada. Segundo o Relatório Convocados, realizado em parceria com a Galapagos Capital e a Outfield, a soma das folhas salariais dos 20 clubes da Série A atingiu R$ 4,5 bilhões em 2023, representando 51% das receitas totais do período. Análise publicada pela The Football (2025), com base nos balanços dos clubes, indica que a folha consome entre 60% e 80% da receita total dependendo do clube, percentual consideravelmente superior à média dos mercados europeus de referência, onde essa faixa fica entre 50% e 60%.
Esse descasamento entre volatilidade de receita e rigidez de custo é o centro do problema financeiro do futebol moderno. E o sucesso esportivo tende a agravá-lo, não a resolvê-lo.
Esse desequilíbrio se torna ainda mais sensível em um ambiente macroeconômico de juros elevados. Em 2024 e 2025, a manutenção da taxa SELIC em patamares elevados aumentou o custo de carregamento de estruturas mais alavancadas, ampliando o peso das despesas financeiras sobre operações dependentes de capital externo recorrente. Em SAFs com maior nível de endividamento ou necessidade frequente de financiamento operacional, parte crescente da geração de caixa passou a ser consumida pelo serviço da dívida.
Quando um clube avança à Libertadores ou vence o Brasileirão, o efeito imediato de aumento de receita é real: mais premiações, mais transmissões, mais patrocinadores. O que frequentemente passa despercebido é o efeito de segunda ordem, a inflação interna de custo que acompanha cada degrau de competitividade também cresce.
Uma classificação para a Libertadores deixa de ser tratada como evento extraordinário e passa a integrar projeções futuras. Premiações tornam-se premissa orçamentária. Salários sobem para reter atletas valorizados. O custo de reposição aumenta porque a régua do elenco foi elevada. Em caso de eliminação precoce ou não participação em competições continentais, a folha não desce porque o clube voltou a disputar apenas o Brasileirão, ela permanece, porque contratos têm prazo e agentes capturam parte da valorização.
Em outras palavras: o sucesso esportivo frequentemente produz uma inflação interna de custo que persiste mesmo quando a performance retorna à média.
O espiral de competitividade e a armadilha do crescimento
Ao contrário de setores tradicionais, vantagem competitiva no futebol tem estabilidade limitada. Mesmo clubes organizados continuam sujeitos a lesões, oscilações de performance, arbitragem, ciclos técnicos e perda de ativos esportivos. O investimento reduz parte do risco esportivo, mas não elimina a aleatoriedade estrutural do ambiente.
Isso produz um efeito de catraca, um ratchet de competitividade. Em mercados tradicionais, vencer tende a consolidar eficiência operacional e ampliar vantagem competitiva. No futebol, o vencedor frequentemente passa a operar sob estrutura mais cara, pressão institucional maior e menor tolerância a ajuste de custo. O custo marginal para permanecer competitivo cresce mais rapidamente do que a previsibilidade da receita futura.
A literatura de economia do esporte identifica fenômeno semelhante na atração de talentos: quando múltiplos clubes concorrem pelos mesmos jogadores em ambiente de leilão, o vencedor tende a pagar acima do valor real do ativo, gerando perdas financeiras após transações que pareciam vitórias esportivas. O processo de atração de atletas em mercado aberto, com promoção e rebaixamento, a pressão exercida pela torcida sempre voraz por vitórias e, em muitos casos, a “necessidade” de reconhecimento pessoal do gestor pelo grande público, funciona como acelerador de win-maximizing, e é estruturalmente contrário à disciplina financeira.
O problema do player trading como fonte de caixa
Em 2024, as transferências de atletas responderam por 26% da receita total dos TOP 20 clubes brasileiros, segundo a Sports Value, acima dos 22% de 2023. Em casos individuais, essa dependência é ainda mais pronunciada: no Palmeiras, as vendas de Endrick e Luís Guilherme representaram 34,5% do faturamento total do ano. No Fluminense, as transferências chegaram a 39,2% da receita.
Há uma distinção fundamental que o debate em torno desses números frequentemente negligencia: transferência de atletas como mecanismo estrutural de valorização de ativos é saudável, mas seu uso como fonte recorrente de equilíbrio operacional é um sintoma de fragilidade de liquidez.
Quando a venda de atletas passa a ser necessária para que o caixa feche no fim do mês, o clube perde poder de negociação. O mercado percebe fragilidade. O momento da venda deixa de ser determinado pelo melhor valor patrimonial ou esportivo e passa a ser determinado pela pressão do caixa. O ativo é vendido quando precisa ser vendido, não quando deveria ser. Isso é muito fácil de perceber, basta compararmos os valores que clubes mais estruturados financeiramente vendem seus atletas revelados nas categorias de base, com os valores de vendas dos clubes mais expostos financeiramente.
No futebol, parte relevante do investimento em atletas possui deterioração econômica acelerada. Direitos federativos são registrados contabilmente como ativos intangíveis e amortizados ao longo do prazo contratual. Quando o desempenho esportivo cai ou o valor recuperável do atleta se torna inferior ao valor contábil residual registrado no balanço, a operação pode ser obrigada a reconhecer impairment sobre o ativo, reduzindo patrimônio líquido mesmo após ciclos elevados de investimento esportivo.
A concentração crescente das receitas em transferências também aumenta a volatilidade do resultado operacional. Uma janela de transferências fraca, combinada com eliminações precoces em competições, pode transformar um orçamento projetado para superávit em déficit significativo, sem que nenhuma decisão de gestão tenha mudado.
Diferentes modelos, diferentes riscos
Nem toda SAF opera sob a mesma lógica, e isso importa.
Uma SAF estruturada dentro de ecossistema multiclube (MCO), como parte de um portfólio global, possui maior capacidade de absorver volatilidade esportiva ao diluir risco entre diferentes ativos e mercados. Já uma SAF orientada por reestruturação patrimonial, como o Cruzeiro nos anos iniciais após a conversão sob a gestão de Ronaldo, operava sob lógica completamente distinta, priorizando redução de passivos, estabilização financeira e reorganização operacional antes de acelerar investimento esportivo.
Existem também modelos sustentados por controladores de altíssima capacidade financeira, nos quais o retorno esportivo, institucional ou reputacional pode prevalecer sobre a lógica tradicional de rentabilidade operacional no curto e médio prazo. O Cruzeiro sob a gestão de Pedro Lourenço ajuda a ilustrar esse perfil de estrutura de capital, no qual a tolerância a déficits recorrentes tende a ser significativamente maior, desde que exista capacidade contínua de financiamento da operação.
Já SAFs com tese de crescimento acelerado, como o Botafogo, assumem intencionalmente déficits de curto prazo em troca de valorização futura do ativo esportivo. Esse modelo pode ser racional do ponto de vista econômico se houver capital suficiente para sustentar o ciclo de investimento e mercado capaz de monetizar o crescimento gerado pelo aumento de competitividade.
Como em qualquer setor econômico, diferentes estruturas de capital produzem diferentes modelos de negócio e diferentes níveis de tolerância ao risco.
O problema não é o modelo. É quando o modelo adotado não corresponde ao capital disponível, ao horizonte de retorno esperado e à capacidade de geração recorrente de caixa da operação.
Por isso, a pergunta correta sobre qualquer SAF não é se ela possui prejuízo, mas sim: o prejuízo está financiando o quê? Expansão patrimonial? Desenvolvimento de ativos vendáveis? Crescimento de receitas recorrentes? Ou apenas custo operacional sem contrapartida futura?
Um déficit controlado dentro de uma lógica racional de valorização futura pode ser financeiramente defensável. Um déficit que cresce porque a estrutura de custo se tornou incompatível com qualquer cenário esportivo minimamente realista é outra coisa.
A armadilha da expectativa institucional
Existe ainda um fator que agrava o ciclo e é frequentemente subestimado: a assimetria de incentivos dentro da operação.
O departamento financeiro busca previsibilidade. O departamento esportivo opera sob pressão competitiva permanente e lógica de curto prazo. Treinadores são avaliados por resultado imediato. Executivos de futebol sofrem pressão institucional contínua. Empresários capturam parte relevante da valorização dos ativos. Atletas renegociam contratos após ciclos positivos de performance.
Enquanto isso, o controlador permanece com o risco residual da operação.
Parte importante da geração de valor criada pelo ciclo esportivo é capturada pelos agentes do ecossistema antes de chegar ao acionista. E quando o ciclo vira, os custos que ficam são os contratos assinados, não as comissões já pagas.
Esse problema se intensifica quando o sucesso esportivo eleva expectativa institucional. O torcedor, a mídia e os próprios gestores passam a tratar o novo patamar competitivo como piso, não como conquista. Qualquer recuo na ambição esportiva é lido como fracasso. O ajuste de custo que seria necessário para estabilizar a operação torna-se politicamente inviável.
A expansão esportiva aumenta expectativa. A expectativa pressiona investimento. O investimento amplia custo fixo. O custo eleva dependência de receitas extraordinárias. A dependência amplia a exposição a cenários adversos. E quando o cenário adverso chega, e eventualmente sempre chega, a estrutura não tem capacidade de absorção porque foi construída para repetir o sucesso, não para sobreviver ao seu reverso.
A SAF sustentável não é a que mais investe
A dimensão financeira mais importante de uma SAF não é sua receita. É sua resiliência.
Uma operação que funciona bem quando tudo corre bem, Libertadores garantida, janelas de transferência produtivas, patrocinadores renovando, mas que entra em colapso na primeira temporada adversa não representa governança, representa otimismo com capital alheio.
A SAF sustentável é aquela que consegue manter estabilidade operacional mesmo em cenários esportivos adversos. Isso exige proteger geração recorrente de caixa, controlar expansão estrutural de custos, reduzir dependência de receitas cujo valor é determinado por resultados imprevisíveis e manter disciplina de capital mesmo sob pressão competitiva intensa.
Flamengo e Palmeiras oferecem um contraponto parcial: os dois clubes também cresceram em custos em 2024, mas construíram bases de receita recorrente, patrocínios, sócios-torcedores, bilheteria, licenciamento, que reduzem a dependência de eventos extraordinários. Mesmo assim, as dívidas do Palmeiras saltaram de R$ 571 milhões para R$ 852 milhões em 2024, mesmo com superávit impulsionado pela venda de Endrick e Luís Guilherme, indicando que a tensão entre crescimento e sustentabilidade não desaparece nem nos modelos mais organizados.
O futebol brasileiro nunca movimentou tanto dinheiro. Também nunca esteve tão endividado. A relação entre essas duas realidades não é uma coincidência, é o ponto de partida para qualquer análise séria sobre o futuro das SAFs.
Dados e referências de mercado: Sports Value – Finanças dos Clubes Brasileiros 2024 (2025); Sports Value – Valuation TOP 30 Clubes do Brasil 2025; Relatório Convocados – 15ª edição (Convocados / Galapagos Capital / Outfield); Deloitte Football Money League; UEFA Club Licensing Benchmarking Report; Banco Central do Brasil – Taxa SELIC (2024–2025); FIFA Global Transfer Report; FIFA TMS; CIES Football Observatory; reportagens e análises financeiras publicadas por Exame, InfoMoney e Poder360 entre 2024 e 2025; balanços auditados de clubes e SAFs brasileiros.
Referências conceituais, contábeis e acadêmicas: Andreff, W. “The Winner’s Curse in Sports Economics”, in Budzinski & Feddersen (eds.), Contemporary Research in Sports Economics, Peter Lang Academic Research, 2014; IAS 36 – Impairment of Assets; CPC 01 – Redução ao Valor Recuperável de Ativos.


