Durante praticamente toda a carreira de Kylian Mbappé, uma imagem parecia fazer parte do jogador: as chuteiras da Nike.
A relação começou em 2006, quando ele tinha apenas nove anos, continuou durante sua formação e acompanhou sua chegada ao futebol profissional, o título mundial com a França, a transformação em uma das principais estrelas do esporte e sua transferência para o Real Madrid.
Vinte anos depois, essa relação chegou ao fim. Em 18 de setembro de 2026, a suíça On anunciou Mbappé como principal nome de sua entrada no futebol.
À primeira vista, poderia parecer apenas mais uma transferência milionária de patrocínio entre um atleta e duas empresas de material esportivo, mas o acordo revela algo maior. Mbappé não está simplesmente trocando uma marca de chuteiras por outra. Ele passa a integrar um projeto no qual receberá também participação acionária, trabalhará no desenvolvimento de produtos e será uma das peças centrais da tentativa de uma empresa que cresceu no mercado de corrida de entrar em um dos segmentos mais disputados da indústria esportiva mundial.
Para entender a dimensão dessa mudança é preciso olhar para os dois lados do negócio.
Uma relação que começou quando Mbappé tinha nove anos
A ligação entre Mbappé e a Nike começou muito antes de Monaco, Paris Saint-Germain ou Real Madrid.
Segundo a Reuters, a parceria remonta a 2006, quando o francês tinha nove anos, e, ao longo das duas décadas seguintes, sua importância dentro da estratégia de futebol da empresa cresceu na mesma proporção de sua carreira. Mbappé tornou-se um dos principais embaixadores globais da Nike Football e um dos rostos mais importantes da linha Mercurial, recebendo inclusive edições próprias das chuteiras.
A própria Nike, ao comentar o encerramento da parceria, destacou os quase vinte anos de trabalho conjunto e afirmou estar orgulhosa do que as duas partes construíram dentro e fora de campo. O rompimento, porém, não aconteceu no meio de um contrato. O vínculo de Mbappé com a Nike terminou em 31 de julho de 2026 e, tecnicamente, não se tratou de uma rescisão unilateral para assinar imediatamente com outra empresa. O contrato chegou ao fim e as partes não acertaram uma renovação.
Segundo o L’Équipe, a Nike discutiu uma proposta de aproximadamente dez anos que poderia ultrapassar €20 milhões por temporada. Os valores não foram confirmados oficialmente pela empresa e, por isso, devem ser tratados como informação atribuída ao jornal francês.
Mbappé, mesmo diante da possibilidade de prolongar uma relação construída desde a infância, escolheu outro caminho.
O que é a On?
Para quem acompanha principalmente futebol, o nome ainda pode parecer pequeno diante de Nike, Adidas e Puma. No mercado esportivo, entretanto, a On já deixou há algum tempo de ser apenas uma empresa emergente.
Fundada na Suíça em 2010, a companhia construiu sua expansão inicialmente no segmento de corrida e posteriormente avançou para outras categorias, como tênis, treinamento, roupas e produtos de uso cotidiano.
Os números ajudam a dimensionar esse crescimento. Em 2025, a On ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 3,6 bilhões em vendas líquidas (CHF 3,014 bilhões), crescimento de 30% sobre o ano anterior. A empresa encerrou aquele exercício com margem bruta de 62,8% e mais de US$ 1,2 bilhão em caixa (mais de CHF 1 bilhão).
O crescimento continuou em 2026. Somente no segundo trimestre, a companhia registrou aproximadamente US$ 1,08 bilhão em vendas líquidas (CHF 850,3 milhões) e, em moeda constante, o avanço foi de 21,6% sobre o mesmo período do ano anterior. Para o exercício completo, a própria empresa projetava vendas entre CHF 3,47 bilhões e CHF 3,56 bilhões, algo na faixa de US$ 4,4 bilhões a US$ 4,5 bilhões, considerando a cotação média do dólar no segundo trimestre.
É uma escala ainda distante das maiores empresas globais do setor, mas suficiente para mostrar que a entrada no futebol não parte de uma startup tentando produzir repercussão através de uma contratação extravagante. Existe capacidade financeira por trás da operação e, principalmente, existe uma estratégia de expansão.
A On não contratou Mbappé depois de entrar no futebol
Talvez esse seja o ponto mais importante para compreender o negócio. A On não desenvolveu primeiro uma grande operação no futebol para depois contratar Mbappé como garoto-propaganda. Ela está fazendo praticamente o caminho inverso: em seu anúncio oficial de 18 de setembro, a empresa apresentou simultaneamente sua entrada no futebol e Mbappé como figura central dessa expansão.
O francês será embaixador global, mas sua participação vai além da publicidade. Segundo a On, ele trabalhará diretamente com as equipes responsáveis pelo desenvolvimento e pelos testes dos futuros calçados e roupas de futebol da companhia. A Reuters acrescentou outro elemento relevante ao informar que a estrutura de remuneração do acordo inclui dinheiro e participação acionária, embora a On não tenha divulgado os valores nem o tamanho dessa participação. O L’Équipe, por sua vez, informou que o contrato terá duração de dez anos.
Isso coloca Mbappé em uma posição diferente daquela ocupada tradicionalmente por um atleta contratado apenas para utilizar determinado produto e associar sua imagem à marca.
Além de representar a On, ele passa a ter interesse econômico no crescimento da própria empresa.
Thierry Henry também faz parte do projeto
Mbappé não será o único grande nome do futebol envolvido nessa construção. A On anunciou Thierry Henry como seu diretor de futebol, depois de o ex-jogador francês já trabalhar nos bastidores com a companhia desde o final de 2025, participando da estratégia de entrada na modalidade e da abordagem relacionada aos produtos.
Sua função será mais ampla do que a de um embaixador. Segundo a própria On, Henry participará do desenvolvimento estratégico da divisão de futebol, incluindo produtos, relacionamento com atletas e posicionamento da empresa dentro da cultura do esporte. A suíça Sydney Schertenleib, jogadora do Barcelona e da seleção de seu país, completa o núcleo inicial divulgado pela companhia e também trabalhará diretamente no desenvolvimento e nos testes, especialmente dos produtos destinados ao futebol feminino.
A estrutura ajuda a entender que a entrada da On não está organizada somente em torno de uma campanha publicitária com Mbappé. A empresa está montando uma divisão de futebol e utilizando atletas e ex-atletas como parte do processo de construção dessa operação.
A primeira chuteira ainda nem chegou ao mercado
Existe outra particularidade importante nessa estratégia: quando Mbappé foi anunciado, a On ainda não possuía sua primeira chuteira comercial de futebol disponível ao público. O lançamento está previsto para 2027, e Mbappé, Henry e Schertenleib participam do processo de desenvolvimento e testes desses produtos.
A empresa pretende adaptar ao futebol algumas das tecnologias utilizadas em outras modalidades. Entre elas está a LightSpray, tecnologia proprietária apresentada em 2024 que utiliza um processo robotizado para formar a parte superior do calçado por meio da aplicação contínua de filamento. A tecnologia já vinha sendo utilizada no desenvolvimento de calçados de corrida e agora está sendo adaptada às necessidades específicas do futebol. A On afirma estar testando inclusive versões com e sem cadarços e pretende desenvolver produtos masculinos e femininos.
Portanto, quando Mbappé entrar em campo utilizando uma chuteira comercial da marca, ele não estará apenas apresentando um produto pronto. Terá participado de seu processo de desenvolvimento, justamente em uma categoria que a empresa ainda está construindo.
O precedente de Roger Federer
A estratégia possui um precedente importante dentro da própria On. Roger Federer tornou-se investidor da empresa em 2019 e posteriormente participou do desenvolvimento de produtos e da expansão da companhia para o tênis. O modelo ajudou a criar uma associação diferente daquela existente em contratos tradicionais de patrocínio esportivo: o atleta não aparece somente como usuário ou rosto da campanha, mas também como participante do negócio e do desenvolvimento dos produtos.
O Financial Times informou que a On pretende construir com Mbappé uma parceria de longo prazo parcialmente inspirada nessa relação com Federer.
Isso não significa que os dois contratos sejam iguais, já que as condições financeiras e societárias completas não são públicas, mas a lógica estratégica apresenta semelhanças claras. Nos dois casos, a empresa associa uma grande referência esportiva à entrada ou consolidação em determinada modalidade e procura incorporar a experiência do atleta ao desenvolvimento de produtos.
No futebol, entretanto, o desafio é consideravelmente maior.
Entrar no futebol custa caro
Nike, Adidas e Puma construíram durante décadas redes de atletas, clubes, seleções, distribuição e relacionamento com consumidores, e contratar Mbappé não elimina essa vantagem. O Financial Times destacou esse risco ao abordar a entrada da On no setor. Analistas da Jefferies observaram que o futebol está entre as categorias mais caras para uma empresa de material esportivo entrar e que credibilidade de performance não pode simplesmente ser comprada.
A Reuters também apontou que o negócio amplia imediatamente a visibilidade da On, mas não garante que a companhia consiga transformar essa atenção em participação relevante no mercado. Existe uma diferença enorme entre convencer um dos melhores jogadores do mundo a utilizar seu produto e convencer milhões de jogadores e consumidores a fazerem o mesmo.
Será necessário desenvolver chuteiras competitivas, criar distribuição global, contratar outros atletas, construir presença cultural e disputar espaço em um mercado no qual seus concorrentes possuem décadas de vantagem.
É aí que Mbappé ganha valor estratégico: ele reduz uma das maiores barreiras de entrada, que é a necessidade de construir reconhecimento dentro do futebol. A On pode ainda não ter vendido uma chuteira da modalidade, mas sua chegada já está associada a um dos jogadores mais reconhecidos do planeta.
A perda acontece em um momento delicado para a Nike
Do outro lado do negócio existe uma Nike muito diferente daquela que dominou boa parte da expansão global do mercado esportivo nas últimas décadas. A empresa atravessa um processo de recuperação conduzido pelo CEO Elliott Hill, que retornou à companhia em 2024 e passou a reposicionar a estratégia novamente em torno de modalidades consideradas fundamentais, entre elas corrida e futebol.
Os problemas são anteriores à saída de Mbappé. Em 17 de setembro, um dia antes do anúncio da On, a Reuters informou que as ações da Nike acumulavam queda superior a 43% em 2026 e haviam atingido níveis próximos das mínimas de 12 anos. A empresa também seria retirada do S&P 100 antes da abertura do mercado em 21 de setembro, encerrando uma permanência de 18 anos no índice. Segundo a Reuters, analistas relacionavam a deterioração do valor de mercado da companhia nos últimos anos à desaceleração das vendas, problemas de inovação e crescimento da concorrência.
É dentro desse cenário que a Nike perde Mbappé, e não se trata do único movimento recente no futebol. A companhia também perdeu Lamine Yamal para a Adidas e, em 2025, deixou de fornecer a bola oficial da Premier League depois de mais de duas décadas, posição assumida pela Puma. Em sentido contrário, a Nike conquistou o contrato para fornecer os uniformes da seleção alemã a partir de 2027.
O cenário não é simplesmente de retirada da Nike do futebol, mas de uma disputa cada vez mais agressiva por ativos esportivos relevantes enquanto a companhia tenta reconstruir seu crescimento.
E as ações da Nike?
A reação da bolsa ao anúncio de Mbappé merece atenção, mas também exige cuidado. No dia 18 de setembro, as ações da Nike terminaram o pregão em queda. O Barron’s registrou durante a sessão recuo de aproximadamente 2,1%, enquanto os papéis da On avançavam cerca de 1% naquele momento.
Isso, por si só, não permite afirmar que Mbappé provocou a queda das ações da Nike. A própria Reuters observou, nas primeiras horas após o anúncio, que a reação dos investidores havia sido limitada. A publicação ouviu Mari Shor, analista sênior da Columbia Threadneedle, que afirmou que os acionistas estavam mais concentrados na capacidade da Nike de recuperar crescimento através da inovação de produtos.
Essa distinção é importante porque o mercado financeiro precifica simultaneamente resultados, projeções, condições macroeconômicas, concorrência, estratégia e inúmeras outras informações. Isolar a saída de um atleta como responsável por determinada variação diária seria estabelecer uma relação de causalidade que os dados disponíveis não comprovam.
Ainda assim, o movimento possui peso simbólico. Uma companhia que já havia perdido mais de 40% de seu valor em bolsa naquele ano viu um de seus principais embaixadores globais do futebol escolher uma concorrente justamente durante seu processo de recuperação.
Mbappé ainda vestirá Nike pela França
Existe ainda uma situação curiosa criada pela mudança. Mbappé deixou de ter contrato individual com a Nike, mas continuará aparecendo com uniformes produzidos pela empresa quando defender a seleção francesa, porque os contratos são diferentes.
A Federação Francesa de Futebol possui acordo próprio com a Nike, recentemente renovado para o ciclo que vai até 2034, e a mudança do patrocinador individual de Mbappé não altera o fornecedor oficial da seleção. Assim, o principal nome utilizado pela On para construir sua entrada no futebol continuará sendo visto, em determinados momentos, vestindo uma camisa Nike.
É uma demonstração de como os direitos comerciais do esporte moderno se sobrepõem: atleta, clube e seleção podem possuir contratos independentes com empresas concorrentes.
Mais do que trocar uma chuteira
Durante quase vinte anos, Mbappé cresceu dentro do ecossistema da Nike ao mesmo tempo em que sua própria dimensão esportiva aumentava. Quando chegou o momento de decidir o próximo contrato, ele poderia simplesmente renovar uma relação consolidada ou trocar uma grande fornecedora por outra, mas escolheu algo diferente.
Na On, entra em uma empresa que ainda está construindo sua presença no futebol, receberá parte de sua remuneração através de participação acionária e terá envolvimento direto no desenvolvimento dos produtos que pretende utilizar.
Para a On, a operação também representa muito mais do que contratar um jogador: a empresa está tentando utilizar Mbappé como uma ponte entre uma posição já consolidada em segmentos como corrida e uma modalidade na qual praticamente começa do zero.
O risco existe dos dois lados. A On precisa demonstrar que consegue transformar atenção em produto, distribuição e mercado, enquanto Mbappé associa parte de sua imagem a uma divisão de futebol que ainda precisa provar sua capacidade comercial e técnica.
É exatamente por isso que a mudança é relevante.
Depois de quase vinte anos, Mbappé não trocou apenas a Nike pela On. Trocou a posição relativamente convencional de grande embaixador de uma potência estabelecida pela possibilidade de participar da construção de um novo concorrente dentro do futebol.

