Barcelona adota uma velha prática brasileira: vender a janta para comprar o almoço

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Existe uma expressão bastante conhecida no Brasil para definir quem precisa comprometer recursos do futuro para resolver os problemas do presente: vender a janta para comprar o almoço.

Evidentemente, ela nasceu muito longe das finanças de um dos maiores clubes de futebol do mundo, mas explica de forma bem didática e popular a nova operação financeira aprovada pelo Barcelona.

Na Assembleia Geral realizada em 19 de setembro, os sócios representantes autorizaram duas novas operações que, somadas, chegam a € 510 milhões. O número impressiona e pode produzir uma interpretação simples: um clube já bastante endividado acaba de assumir mais meio bilhão de euros em compromissos. O problema é que colocar todo esse dinheiro na mesma conta esconderia a parte mais interessante da história.

Dos € 510 milhões, € 300 milhões serão destinados à conclusão do Spotify Camp Nou. O projeto ficou mais caro, sofreu atrasos e incorporou intervenções que não estavam previstas inicialmente, incluindo reforços estruturais, ampliação das áreas VIP e de hospitalidade, aumento do espaço destinado ao museu e novas soluções tecnológicas. Segundo o próprio Barcelona, somente na segunda arquibancada foram necessárias mais de 3 mil intervenções estruturais, quando aproximadamente 800 haviam sido inicialmente previstas.

Esses € 300 milhões aumentam o endividamento e naturalmente precisam ser pagos, mas possuem uma característica em sua natureza: estão sendo empregados na conclusão de um ativo que deverá aumentar a capacidade de geração de receitas do clube durante décadas.

O Barcelona toma dinheiro agora para terminar um estádio que espera transformar em uma de suas principais fontes de faturamento no futuro.

Não é aqui, portanto, que aparece a velha prática brasileira.

Ela começa nos outros € 210 milhões.

Dinheiro de amanhã para pagar as contas de hoje

O Barcelona também recebeu autorização para captar 210 milhões de euros por meio de duas emissões de títulos, chamadas de Media Notes, no valor de € 105 milhões cada. A primeira foi realizada em julho de 2026 e a segunda está prevista para outubro ou novembro. Os títulos podem ter prazo de até dez anos, possuem juros fixos e são garantidos pelas receitas audiovisuais futuras que o clube receberá de LaLiga e das competições organizadas pela UEFA.

A diferença em relação aos € 300 milhões destinados ao estádio é importante. Nesse caso, o Barcelona não está tomando dinheiro especificamente para construir um ativo novo. Está utilizando receitas que receberá no futuro como suporte para obter liquidez no presente.

E nem é necessário especular sobre a finalidade desse dinheiro.

Ao apresentar a operação aos sócios, o vice-presidente econômico Ferran Olivé explicou que os recursos servirão basicamente para aliviar a tesouraria durante o período em que o Barcelona ainda não recebe integralmente as receitas esperadas do novo Camp Nou. O atraso nas obras criou aquilo que o dirigente definiu como um descasamento de aproximadamente dois anos entre o momento em que o clube precisa gastar e aquele em que espera começar a receber todo o dinheiro projetado para o estádio.

Olivé foi ainda mais específico ao explicar que o clube precisa de caixa para sua operação diária, para realizar contratações e para manter uma equipe competitiva enquanto atravessa esse período de transição. Joan Laporta apresentou justificativa semelhante, afirmando que os € 210 milhões darão margem financeira para preservar e reforçar o elenco.

É exatamente nesse ponto que a expressão brasileira deixa de ser apenas uma provocação.

O Barcelona está utilizando parte da sua capacidade futura de geração de receitas para conseguir dinheiro agora e financiar necessidades presentes. Não está literalmente vendendo os direitos de televisão envolvidos nessa operação, como ocorreu em outras transações do passado, mas está emitindo dívida garantida por receitas audiovisuais que ainda serão recebidas. Em outras palavras, uma parcela do dinheiro de amanhã ajuda a sustentar o caixa de hoje.

É uma espécie de “vender a janta para comprar o almoço” em versão catalã.

O problema começou quando o futuro demorou para chegar

A estratégia financeira do Barcelona dos últimos anos depende cada vez mais de uma ideia central: o clube do futuro será capaz de gerar muito mais dinheiro do que o clube do presente.

O Camp Nou ocupa o centro dessa equação.

Quando o financiamento do Espai Barça foi apresentado aos sócios, a premissa era que o projeto fosse capaz de se pagar com as receitas adicionais produzidas pelo próprio complexo. Em 2021, quando o clube pediu autorização para levantar até € 1,5 bilhão, estimava aproximadamente € 200 milhões de euros anuais em novas receitas quando o projeto estivesse concluído.

O raciocínio financeiro fazia sentido. O Barcelona se endividaria para modernizar sua principal infraestrutura e utilizaria o aumento de faturamento proporcionado pelo novo estádio para pagar esse investimento ao longo dos anos.

O problema é que o futuro previsto nas planilhas demorou mais para chegar.

O cronograma das obras foi ampliado, a utilização plena do estádio foi adiada e, enquanto as novas receitas não apareciam na dimensão esperada, as despesas continuaram chegando normalmente. Durante as duas temporadas disputadas no Estadi Olímpic Lluís Companys, o Barcelona calcula ter desembolsado aproximadamente € 17 milhões em despesas operacionais e outros € 24 milhões em investimentos relacionados à permanência temporária em Montjuïc. Ao mesmo tempo, o atraso postergou as receitas adicionais que deveriam começar a alimentar a nova estrutura financeira.

O resultado é uma situação peculiar: o Barcelona precisa de dinheiro para chegar ao momento em que acredita que voltará a ter muito dinheiro.

Os € 210 milhões de euros aparecem para construir essa ponte.

O Barcelona já conhece esse caminho

Recorrer ao futuro para resolver necessidades do presente não é exatamente uma novidade no Barcelona.

Em 2022, durante uma das fases mais delicadas da recuperação financeira do clube, a direção comandada por Joan Laporta ficou conhecida pelas chamadas “alavancas econômicas”. A mais emblemática delas envolveu os direitos de televisão de LaLiga.

Naquele momento, o mecanismo foi ainda mais direto do que o utilizado agora. O Barcelona negociou com a Sixth Street uma participação correspondente a 25% das receitas provenientes dos direitos televisivos de LaLiga por um período de 25 anos, dividida em duas operações.

O clube recebeu dinheiro imediatamente, ganhou capacidade para reorganizar suas finanças e reforçar o elenco, mas aceitou como contrapartida dividir durante décadas uma receita que anteriormente lhe pertenceria integralmente.

Também foram realizadas operações envolvendo participações no Barça Studios, embora elas possuíssem natureza diferente e não devam ser confundidas com a cessão das receitas televisivas.

O princípio econômico por trás de parte daquela estratégia reaparece agora sob outra estrutura. Em 2022, o Barcelona monetizou diretamente uma parcela de receitas futuras. Em 2026, utiliza receitas audiovisuais futuras como garantia para levantar mais € 210 milhões de euros de dívida.

O instrumento mudou, mas a dependência do amanhã continua fortemente presente.

Uma dívida de € 2,68 bilhões precisa de contexto

A dimensão alcançada pela estrutura financeira do Barcelona também apareceu na própria Assembleia. Ferran Olivé informou que a dívida financeira agregada do clube chegou a € 2,68 bilhões, considerando o financiamento do Espai Barça, os títulos relacionados às receitas audiovisuais e os empréstimos operacionais.

É um número enorme, mas apresentá-lo isoladamente seria tão enganoso quanto tratar os € 510 milhões recém-aprovados como uma única operação.

Uma parcela relevante dessa dívida está associada à construção do Espai Barça e, portanto, financia um ativo destinado a produzir receitas adicionais durante muitos anos. O próprio modelo do projeto foi concebido para que sua dívida fosse paga com os recursos incrementais gerados pelo novo complexo, e não simplesmente retirada da operação ordinária do clube.

Também não existem elementos para tratar o Barcelona como uma instituição sem acesso ao crédito. Em julho de 2026, a Morningstar DBRS confirmou a classificação BBB do clube, embora tenha alterado sua perspectiva de positiva para estável em razão do cronograma das obras e das necessidades adicionais de financiamento. A agência apontou a força da marca, a capacidade de geração de receitas e a posição comercial do Barcelona entre os fatores que sustentam sua avaliação.

A discussão não é se o Barcelona conseguirá dinheiro emprestado. Ele consegue.

A questão é quanto do dinheiro que produzirá no futuro já estará comprometido quando finalmente chegar lá.

O Camp Nou precisa entregar o futuro prometido

Toda essa engenharia financeira repousa sobre uma expectativa ambiciosa de crescimento.

O Barcelona projeta ultrapassar € 1,45 bilhão em receitas e € 370 milhões de EBITDA na temporada 2030/31. Para efeito de comparação, a projeção apresentada para 2025/26 era de € 1,06 bilhão em receitas e € 184 milhões de EBITDA. A diferença deverá vir, em grande medida, da exploração plena do novo Camp Nou e de tudo aquilo que passa a existir ao redor dele: hospitalidade, áreas VIP, bilheteria, museu, patrocínios, lojas e novas oportunidades comerciais.

Se essas projeções se confirmarem, a estratégia atual poderá ser compreendida como uma longa travessia financeira até a entrada em operação de um ativo muito mais rentável. O clube suporta uma estrutura pesada de financiamento no presente porque acredita que sua capacidade de gerar caixa será substancialmente maior no futuro.

Mas existe uma consequência inevitável: esse futuro não chegará completamente livre.

Parte das receitas de televisão de LaLiga já foi negociada em operações anteriores. Novas receitas audiovisuais agora servem de garantia para os € 210 milhões em títulos. O Espai Barça possui sua própria estrutura de financiamento e, com a ampliação aprovada em setembro, o clube admitiu inclusive que haverá uma alteração temporária na chamada cascata de pagamentos.

Durante dois exercícios, os primeiros € 100 milhões gerados pelo estádio terão prioridade para o pagamento de juros e principal aos investidores antes de chegar ao caixa normal do Barcelona.

Talvez nenhum número explique melhor a situação atual.

O estádio que deveria ampliar a liberdade financeira do Barcelona começará sua fase mais importante tendo parte de suas primeiras receitas direcionada para pagar a estrutura que permitiu construí-lo.

Isso não significa que o projeto esteja condenado, nem que tomar dívida seja necessariamente um problema. Empresas e clubes frequentemente utilizam financiamento para antecipar investimentos e atravessar períodos de menor liquidez. A discussão começa quando a necessidade de antecipar o futuro deixa de ser uma exceção e passa a aparecer repetidamente na estratégia financeira de uma instituição.

O Barcelona acredita que o novo Camp Nou mudará essa equação.

Laporta o considera a peça central de uma nova etapa de crescimento econômico, e as projeções apresentadas pelo clube apontam nessa direção.

Pode acontecer.

Mas, até que esse futuro chegue, o Barcelona continua encontrando maneiras de transformar uma parte dele em dinheiro no presente.

Durante muito tempo, nos acostumamos a observar clubes brasileiros tentando importar práticas de gestão dos grandes clubes europeus, tratados como referências de organização, planejamento e responsabilidade financeira. Nos últimos anos, curiosamente, alguns movimentos começaram a percorrer o caminho inverso.

Antecipar receitas, alongar dívidas e recorrer ao dinheiro de amanhã para resolver necessidades de caixa de hoje são práticas bastante conhecidas por quem acompanha a história financeira do futebol brasileiro.

O Barcelona acredita que o novo Camp Nou permitirá que essa conta feche.

O tempo dirá se a estratégia funcionará.

A experiência brasileira, pelo menos, já oferece algumas pistas sobre os riscos de vender a janta para comprar o almoço.

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