Cristiano Ronaldo passou os 90 minutos no banco na vitória de Portugal por 2 a 1 sobre a Noruega, em Oslo, e o que poderia ter sido apenas uma decisão de gestão física e técnica terminou, três dias depois, com o maior jogador da história do país deixando a concentração da seleção.
Entre uma coisa e outra houve insatisfação, conversas privadas, uma entrevista coletiva de Jorge Jesus e uma discussão que rapidamente deixou de ser apenas sobre futebol.
Há uma correção importante para compreender o episódio. Cristiano não havia simplesmente perdido a posição. Jorge Jesus explicou que havia estabelecido previamente com ele um plano para preservá-lo depois de ter sido titular contra o País de Gales. A ideia inicial era que não atuasse contra Noruega e Dinamarca, embora pudesse ser utilizado caso o treinador entendesse que o jogo exigia sua presença. “Se precisar dele, ele entra. Se não precisar dele, não entra. Vai depender do jogo”, explicou Jesus em entrevista reproduzida pelo GE em 30 de setembro.
Contra a Noruega, Cristiano chegou a aquecer por cerca de 30 minutos, mas não entrou. O treinador decidiu manter Gonçalo Ramos, autor do gol da vitória, e posteriormente admitiu que o capitão português não recebeu bem a decisão. Jesus também reconheceu que havia cometido um erro ao mandar o atacante aquecer cedo demais. Horas depois das declarações públicas do treinador, Cristiano deixou a concentração e anunciou que, “a seu tempo”, apresentaria sua versão sobre os acontecimentos.
Até 2 de outubro de 2026, essa explicação ainda não havia sido apresentada. Portanto, qualquer tentativa de afirmar exatamente por que Cristiano saiu da seleção seria precipitada.
O episódio, entretanto, já permite discutir algo maior. O caso Cristiano Ronaldo coloca diante do esporte uma questão que aparece também em empresas, instituições e diferentes estruturas de poder: o que uma carreira extraordinária dá ao indivíduo o direito de exigir quando sua posição funcional começa a poder ser questionada?
Talvez uma lenda tenha conquistado o direito de ser administrada de maneira diferente. Isso não significa necessariamente ter conquistado o direito de jogar.
Quando o desempenho muda mais rápido do que o reconhecimento
Poucos atletas acumularam uma posição simbólica comparável à de Cristiano Ronaldo em Portugal. Aos 41 anos, ele chegou a esta temporada com 234 partidas e 146 gols pela seleção, além de uma trajetória internacional iniciada em 2003. Independentemente da discussão sobre seu desempenho atual, sua posição histórica já está consolidada e não depende mais do próximo jogo.
É isso que torna o problema tão complexo.
Na sociologia de Pierre Bourdieu, o conceito de capital simbólico ajuda a compreender como prestígio, reconhecimento e legitimidade podem ser acumulados socialmente. Aplicado ao esporte, o conceito permite observar que títulos, recordes, protagonismo e reconhecimento coletivo construídos durante uma carreira não desaparecem quando a capacidade esportiva começa naturalmente a mudar.
O corpo e o status não envelhecem na mesma velocidade.
Cristiano pode já não oferecer aos 41 anos exatamente as mesmas características que oferecia aos 28 ou aos 32 sem que isso retire dele um único gol de sua história. Também não é necessário concluir que tenha deixado de ser competitivo ou útil à seleção. A questão é mais específica: aquilo que um jogador produziu durante duas décadas não responde automaticamente à pergunta sobre quem deve jogar a próxima partida.
A literatura de gestão oferece uma distinção útil para compreender essa separação. Rebecca Kehoe, David Lepak e F. Scott Bentley, em artigo publicado no Journal of Management, propõem uma tipologia de profissionais considerados “estrelas” baseada em duas dimensões diferentes: task performance, o desempenho produzido na atividade, e external status, o status adquirido pelo indivíduo. Os autores mostram que essas dimensões podem coexistir em graus diferentes e distinguem, entre outros perfis, estrelas de desempenho, estrelas de status e estrelas que combinam ambas as características.
O estudo evidentemente não analisou Cristiano Ronaldo, mas oferece uma estrutura conceitual interessante para compreender o problema. Durante grande parte de sua carreira, desempenho extraordinário e status extraordinário caminharam juntos. Quando o desempenho passa a precisar ser avaliado jogo a jogo, porém, o status não desaparece na mesma velocidade.
Surge então uma situação particularmente delicada: alguém pode continuar ocupando o topo da hierarquia simbólica de uma instituição sem necessariamente ocupar, em todas as circunstâncias, o topo de sua hierarquia esportiva.
E essa mudança não afeta apenas quem está perdendo protagonismo.
Corinne Bendersky e Nicholas Hays demonstraram, em estudo publicado em 2012 na Organization Science, que disputas sobre as posições relativas de respeito e influência dentro dos grupos, fenômeno definido pelos autores como status conflict, podem afetar seu funcionamento, inclusive o desempenho coletivo e o compartilhamento de informações. Obviamente não significa que a pesquisa explique o que aconteceu na seleção portuguesa, nem seria correto diagnosticar aquele grupo a partir de estudos realizados em outros contextos. Sua contribuição aqui é outra: mostrar que mudanças de status dentro de uma hierarquia não são socialmente neutras.
Quando a posição de uma figura central começa a mudar, o restante do grupo também precisa compreender como passa a funcionar aquela estrutura.
É nesse ponto que o caso Cristiano deixa de ser apenas sobre como o jogador reage ao banco e passa a envolver Jorge Jesus, Gonçalo Ramos e todos os demais. Se o treinador considerar outro atacante a melhor opção para determinada partida, mas o peso histórico de Cristiano tornar essa escolha difícil de sustentar, os outros jogadores também recebem uma mensagem sobre aquilo que realmente determina a hierarquia da seleção. O desempenho presente continua sendo a principal medida ou existe um patamar de reconhecimento acumulado capaz de relativizá-lo?
O problema inverso também existe. Se Jorge Jesus ignorar completamente o estatuto de Cristiano e administrar sua perda de espaço exatamente como faria com qualquer outro jogador, poderá criar um conflito desnecessário com alguém cuja influência foi construída durante mais de duas décadas e cuja importância para a história recente da seleção dificilmente encontra paralelo.
É por isso que administrar uma superestrela quando desempenho e status começam a deixar de caminhar juntos não é apenas uma questão de sensibilidade com quem perde espaço. É também uma questão de liderança e governança. O treinador precisa preservar o reconhecimento de quem construiu uma posição excepcional sem permitir que esse reconhecimento torne ambígua sua autoridade para decidir quem joga.
Durante muitos anos, Cristiano ocupou simultaneamente o topo das duas hierarquias: era a maior figura simbólica e uma referência esportiva praticamente incontestável. Aos 41 anos, essas posições se separaram. Ele pode continuar sendo o maior jogador da história portuguesa e, ao mesmo tempo, ter sua utilização determinada pelo adversário, pela condição física, pelo sistema de jogo e pelas alternativas disponíveis.
Seu lugar na história é inevitavelmente permanente. Seu lugar na próxima escalação, por definição, não pode ser.
A dificuldade está em administrar essa separação sem transformar uma decisão esportiva em apagamento histórico e sem transformar reconhecimento histórico em direito esportivo.
O estatuto existe, mesmo quando as regras são iguais
Jorge Jesus talvez tenha formulado melhor do que qualquer observador externo a contradição que precisava administrar.
Na entrevista coletiva de 30 de setembro, afirmou: “O estatuto é uma coisa, as regras são iguais para todos”. Ao explicar o planejamento realizado com Cristiano, também deixou claro que conhecia suas necessidades físicas pelo período em que os dois haviam trabalhado juntos no Al-Nassr. Segundo Jesus, em sequências de partidas próximas, Cristiano recebia uma administração específica de carga e normalmente não treinava nos dois primeiros dias depois dos jogos.
Portanto, dizer que as regras são iguais não significa dizer que todos precisam ser administrados exatamente da mesma maneira. Essa diferença é essencial.
Um jogador de 41 anos com mais de duas décadas de seleção pode exigir um planejamento físico diferente. Uma figura que representa tanto para a instituição pode justificar conversas prévias que talvez não aconteçam da mesma forma com o último jogador convocado. Seu peso dentro do grupo pode exigir maior cuidado na comunicação de uma decisão e maior atenção às consequências de determinadas escolhas.
O próprio Jesus reconheceu isso ao explicar o aquecimento contra a Noruega. Segundo o treinador, manteve Cristiano aquecendo por mais tempo justamente por causa de seu estatuto, tentando evitar a impressão normalmente produzida quando um grande jogador aquece e não entra. O efeito foi o contrário. Cristiano ficou irritado e Jesus posteriormente reconheceu que deveria tê-lo mandado aquecer mais tarde.
Esse detalhe aparentemente pequeno contém uma parte importante do problema.
O conflito não nasceu simplesmente porque um treinador decidiu que Cristiano Ronaldo não deveria começar uma partida. Havia um planejamento prévio para preservá-lo. O atrito apareceu também na maneira como uma decisão esportiva foi executada e percebida.
É nesse ponto que a reverência talvez encontre sua função legítima.
O estatuto pode justificar exceções de procedimento sem necessariamente justificar exceções de mérito.
Uma carreira extraordinária pode dar ao jogador o direito de receber explicações, planejamento e tratamento compatíveis com aquilo que representa. É muito mais difícil sustentar que a mesma carreira lhe conceda poder sobre a decisão final de quem deve estar em campo.
Tratamento especial não é necessariamente privilégio esportivo
Definir essa distinção nos permite escapar de dois extremos.
O primeiro seria defender que Cristiano deve ser tratado exatamente como qualquer outro jogador porque “ninguém é maior do que a seleção”. A frase pode funcionar como slogan, mas descreve mal como organizações realmente administram indivíduos excepcionais. Pessoas com histórias, responsabilidades e posições diferentes frequentemente recebem tratamentos diferentes sem que isso necessariamente destrua a igualdade das regras fundamentais.
O outro extremo seria entender que o reconhecimento pela carreira precisa se converter em minutos, titularidade ou poder de veto sobre decisões técnicas. Nesse caso, o estatuto deixaria de influenciar a forma como uma decisão é administrada e passaria a determinar a própria decisão.
É aí que surge a fronteira realmente difícil.
Se Jorge Jesus entende que Cristiano precisa de uma recuperação física específica, tratá-lo de maneira diferente pode ser simplesmente boa gestão. Se entende que precisa conversar previamente com seu capitão sobre um planejamento de utilização, isso também pode fazer parte da liderança de um grupo de elite. Se toma cuidados especiais na comunicação porque sabe que está lidando com a maior figura da história da seleção, não há necessariamente qualquer contradição com a ideia de regras comuns.
Mas se o treinador concluir que outro atacante oferece melhores condições para determinada partida e ainda assim se sentir obrigado a escalar Cristiano por causa de seu passado, o tratamento especial terá atravessado outra fronteira.
Terá se transformado em privilégio esportivo.
Essa distinção parece simples quando formulada teoricamente. Na prática, quase nunca existe uma linha perfeitamente visível separando uma coisa da outra.
Romário e Felipão: outra forma de administrar uma superestrela
O futebol brasileiro viveu em 2002 um caso diferente, mas útil para compreender o mesmo tipo de tensão.
Luiz Felipe Scolari decidiu disputar a Copa do Mundo sem Romário. Aos 36 anos, o atacante não era apenas uma estrela sustentada pela memória do tetracampeonato de 1994. Continuava fazendo gols, havia sido artilheiro do Campeonato Brasileiro de 2001 e possuía enorme apoio popular para ser convocado. A pressão chegou ao Palácio do Planalto: em fevereiro de 2002, o então presidente Fernando Henrique Cardoso declarou publicamente ser favorável à presença do atacante.
Felipão não cedeu.
As razões apresentadas pelo treinador envolveram suas convicções esportivas e questões relacionadas à construção do grupo. O ponto relevante para a discussão atual, está também em uma interpretação que não deve ser confundida com uma declaração documental de Scolari.
Se Felipão não enxergava Romário como titular da equipe que pretendia construir, convocá-lo significaria levar para dentro de uma Copa do Mundo uma das maiores personalidades da história do futebol brasileiro sem garantir a ela a posição que provavelmente esperava ocupar.
Na minha interpretação, ao deixá-lo fora, Felipão também eliminou antecipadamente um potencial conflito de hierarquia. Isso não significa afirmar que tenha sido essa a razão declarada pelo treinador. Significa observar uma consequência institucional de sua escolha.
Ele não precisou administrar Romário no banco.
Considerando a personalidade pública de Romário, sua enorme autoconfiança, o peso que possuía na opinião popular naquele momento, e a convicção que demonstrava sobre ainda merecer espaço na seleção, não é difícil imaginar que transformá-lo em reserva durante uma Copa do Mundo poderia criar uma situação delicada para o treinador.
O paralelo com Portugal é interessante porque as soluções foram diferentes. Felipão resolveu a tensão antes da competição ao assumir o risco e não levar a estrela. Jorge Jesus manteve Cristiano dentro da estrutura, planejou sua utilização e tentou administrar sua mudança de protagonismo dentro do próprio grupo.
Em Portugal, foi o jogador que posteriormente decidiu sair.
Não sabemos ainda se essa saída será definitiva nem quais razões Cristiano apresentará quando decidir falar. Mas os dois episódios mostram como o problema da superestrela não começa necessariamente quando ela deixa de ser capaz de contribuir. Muitas vezes começa antes, quando sua posição dentro do grupo deixa de ser automática.
Quem responde pelo resultado precisa preservar o direito de decidir
Há ainda uma assimetria que não pode ser eliminada pela reverência.
Jorge Jesus será cobrado pelos resultados de Portugal.
Se escalar Cristiano e a seleção perder, não poderá justificar a escolha dizendo que precisava respeitar tudo aquilo que o jogador construiu. Se deixá-lo no banco e Portugal perder, poderá ser acusado de prescindir de sua maior estrela. Essa é uma parte inevitável do cargo.
Por isso, responsabilidade e autoridade precisam permanecer no mesmo lugar.
Reconhecer a história de Cristiano pode exigir do treinador mais cuidado. Não pode necessariamente exigir dele uma decisão esportiva na qual não acredita.
Portugal venceu a Dinamarca por 4 a 2 em 1º de outubro, no primeiro jogo após a saída de Cristiano da concentração, e Gonçalo Ramos voltou a marcar. O resultado não demonstra que Portugal seja melhor sem Cristiano. Um jogo não possui força estatística para sustentar essa conclusão. Como uma eventual derrota também não provaria que Jesus estivesse errado por não utilizá-lo.
O que o resultado demonstra é apenas que a seleção precisa ser institucionalmente capaz de funcionar sem depender da presença de qualquer indivíduo, inclusive daquele que mais contribuiu para sua história recente.
Isso também faz parte da responsabilidade de um treinador.
O caso Cristiano Ronaldo é maior do que o futebol
O mesmo conflito aparece quando o fundador de uma empresa deixa o comando, mas continua possuindo mais prestígio do que seu sucessor; quando um executivo histórico permanece dentro de uma organização depois que sua função começa a mudar; quando um artista não atinge mais o grande público de antes; ou quando qualquer profissional que construiu parte de sua identidade em torno de determinada posição precisa aceitar que reconhecimento e autoridade já não são exatamente a mesma coisa.
A posição formal pode mudar rapidamente. O capital simbólico não.
É possível alterar um cargo em uma reunião. Não é possível retirar duas décadas de reconhecimento com a mesma facilidade.
Também existe uma questão de justiça. Tratar Cristiano exatamente como qualquer outro jogador pode ignorar legitimamente tudo aquilo que ele representa. Garantir-lhe uma posição esportiva por causa dessa história, porém, pode ser injusto com jogadores que naquele momento oferecem ao treinador melhores condições para determinada função.
A tensão não está entre respeito e desrespeito. Está entre duas formas diferentes de reconhecimento.
Uma olha para aquilo que alguém construiu. A outra precisa avaliar aquilo que alguém pode entregar agora.
Organizações orientadas por desempenho precisam conviver com as duas.
O direito de uma lenda talvez esteja na forma, não necessariamente na decisão
É relativamente fácil dizer que nenhum jogador pode possuir titularidade vitalícia. Essa conclusão quase não exige discussão.
A pergunta mais difícil é outra: o que uma trajetória excepcional legitimamente modifica na maneira como esse jogador deve ser administrado?
O caso Cristiano Ronaldo sugere uma resposta menos confortável do que simplesmente dizer que todos são iguais. Talvez todos não devam ser tratados exatamente da mesma maneira.
Cristiano acumulou história suficiente para justificar deferência, comunicação especial, planejamento individual e reconhecimento institucional. Fingir que seu lugar é idêntico ao de qualquer outro jogador seria ignorar como grupos humanos realmente funcionam e como o próprio prestígio é construído.
Mas há uma diferença decisiva entre ser tratado de maneira especial e possuir direitos esportivos especiais.
O estatuto pode mudar a conversa antes do jogo. Pode mudar a maneira de comunicar o banco. Pode mudar a administração física e até exigir maior cuidado na condução pública de uma divergência.
Ele não precisa mudar a escalação.
Talvez essa seja a fronteira que o futebol português está tentando descobrir agora.
Cristiano Ronaldo já não precisa de uma partida para provar o tamanho de sua história. O treinador, por outro lado, ainda precisa de cada partida para provar que suas decisões funcionam.
A reverência pertence ao passado acumulado. A responsabilidade pelo resultado pertence ao presente.
O desafio está em permitir que as duas coisas coexistam sem transformar reconhecimento em poder de veto e sem transformar autoridade em falta de respeito.


