Uma reportagem publicada pelo GE em 1º de outubro de 2026 ajuda a dimensionar um fenômeno que está modificando o futebol de base.
Kauan Basile, jogador de 14 anos das categorias de formação do Santos, já reúne 1,8 milhão de seguidores apenas no Instagram. Outros talentos mirins também construíram audiências que seriam relevantes até para atletas profissionais: Marcelinho Assumpção, de 7 anos, aproxima-se de 1 milhão de seguidores; Enrico Moreira, de 8, ultrapassa 530 mil; Lucas Flora, de 12, supera 420 mil.
A audiência já vem acompanhada, em alguns casos, de patrocinadores, contratos e exploração comercial da imagem.
Estamos diante de atletas que começam a construir valor econômico e midiático muito antes de sabermos qual será seu valor esportivo no futebol adulto. Essa diferença é fundamental e merece atenção.
Durante décadas, a sequência predominante no esporte profissional foi relativamente clara: o jogador desenvolvia-se, chegava ao alto nível, conquistava desempenho e, como consequência, adquiria notoriedade e valor comercial.
As redes sociais permitiram inverter parcialmente essa ordem. Agora é possível construir audiência, reconhecimento, patrocínios e uma marca pessoal antes da existência de uma carreira profissional.
A celebridade esportiva infantil é anterior ao Instagram e ao TikTok. As plataformas reduziram a dependência dos intermediários da mídia, tornaram a audiência permanentemente mensurável e ampliaram as possibilidades de converter exposição em valor comercial ainda durante a formação.
O resultado é uma pergunta que o futebol ainda parece longe de responder: o que acontece quando transformamos uma promessa em celebridade antes mesmo de sabermos se ela realmente se transformará em jogador?
Ser extraordinário aos 10 anos está muito longe de ser extraordinário aos 20
O primeiro problema dessa nova indústria está na própria dificuldade científica de prever talento esportivo.
Um estudo longitudinal de James H. Dugdale e colaboradores, publicado em 2021 no Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, analisou 537 jogadores de categorias de base de clubes profissional de futebol ao longo de um período de 12 anos. Todos eles já haviam passado por um processo de seleção e estavam inseridos em uma estrutura profissional de formação. Ao final do período, somente 53 conseguiram um contrato profissional no clube: 10% da amostra.
Os resultados se tornam particularmente relevantes quando se analisa a idade de recrutamento e a evolução dos jogadores. Os pesquisadores não encontraram evidência de que entrar mais cedo na categoria de base aumentasse a probabilidade de conseguir um contrato profissional. Além disso, aqueles que posteriormente chegaram ao profissional só passaram a apresentar desempenho físico superior aos demais aproximadamente a partir dos 13 ou 14 anos. Antes disso, os testes físicos não mostravam vantagem consistente dos futuros profissionais e, em alguns casos, favoreciam jogadores que posteriormente não conseguiram contrato.
O desempenho apresentado por uma criança ou pré-adolescente, portanto, não permite projetar com segurança quem conseguirá chegar ao futebol profissional.
Crescimento físico, maturação biológica, capacidade técnica, ambiente familiar, treinamento, lesões, motivação, oportunidades e desenvolvimento psicológico interferem durante anos na transformação de uma criança talentosa em atleta profissional.
Quando a pergunta deixa de ser simplesmente quem chegará ao profissional e passa a ser quem se tornará um jogador de elite, o funil naturalmente se torna ainda mais estreito.
Isso produz uma contradição. O mercado digital consegue atribuir status de estrela a uma criança em uma fase na qual a ciência ainda possui enorme dificuldade para determinar se aquela promessa sequer conseguirá completar a trajetória esportiva.
Quando a promessa vira produto antes de virar jogador
Seguidores representam mais do que popularidade. Em uma economia baseada em atenção, audiência possui valor comercial.
Uma criança com centenas de milhares de seguidores pode atrair patrocinadores, publicidade, licenciamento, permutas e contratos independentemente de já existir qualquer resultado no futebol profissional. A marca que se aproxima de um talento aos 10 ou 12 anos não está necessariamente comprando apenas o alcance atual daquele garoto. Também está adquirindo antecipadamente uma associação com aquilo que ele poderá representar no futuro.
Do ponto de vista econômico, a estratégia é compreensível. Em vez de pagar valores extraordinários para associar uma marca a um atleta depois de sua consolidação, empresas podem distribuir investimentos entre diferentes jovens promissores. Se um deles chegar à elite, a relação comercial começou quando seu custo e sua audiência ainda eram menores.
O problema aparece quando essa racionalidade econômica encontra uma criança.
O guia “Crianças, adolescentes e telas: guia sobre usos de dispositivos digitais”, publicado pelo Governo Federal em 2025, reconhece que uma grande rede de seguidores pode produzir simultaneamente reconhecimento social e econômico. O documento também aponta que a oferta de patrocínios, brindes, contratos e convites para campanhas publicitárias pode modificar não apenas o conteúdo produzido, mas sua própria natureza, transformando uma produção cultural em produção comercial.
No futebol, essa transformação é particularmente delicada porque o produto comercializado não está separado do desenvolvimento da criança. Sua habilidade, rotina, treinos, gols, personalidade, imagem e expectativa de futuro passam a alimentar a mesma construção de marca.
Os pais também entram nessa nova equação econômica
A participação dos pais na carreira esportiva de uma criança não é, por definição, problemática. Pelo contrário: suporte familiar adequado é parte importante do desenvolvimento de jovens atletas. A questão muda quando o talento do filho também passa a produzir audiência, contratos e dinheiro.
Nesse momento surge um potencial conflito de interesses que precisa ser discutido sem transformar famílias específicas em culpadas sem evidência. Os mesmos adultos responsáveis por decidir quanto uma criança deve ser exposta podem administrar as oportunidades econômicas produzidas por essa exposição.
A pergunta deixa de ser apenas quanto treinamento é adequado, qual clube oferece melhor formação ou qual competição deve ser disputada. Passa a envolver frequência de publicações, campanhas, patrocinadores, contratos, crescimento de audiência e monetização.
Há um limite conceitualmente importante entre administrar uma oportunidade econômica pertencente ao filho e transformar o próprio filho em oportunidade econômica para a família.
Essa distinção se torna ainda mais relevante quando o desempenho esportivo da criança começa a possuir consequências financeiras para os adultos ao redor dela. Um gol deixa de representar somente uma conquista esportiva. Pode gerar visualizações, seguidores, engajamento e valorização comercial.
Isso não significa que toda família de influenciador mirim esteja explorando o filho. Mas existe um conflito potencial de interesses que exige mecanismos de proteção, porque a criança não possui a mesma capacidade jurídica, econômica e psicológica dos adultos para avaliar as consequências de sua exposição.
O treinador trabalha com uma criança diferente daquela que o algoritmo enxerga
Existe ainda uma incompatibilidade estrutural entre formação esportiva e economia da atenção.
Formar um jogador exige trabalhar erro, disciplina, repetição, limitações técnicas, desenvolvimento físico, derrotas e períodos de queda de rendimento. Uma criança pode precisar ser reserva. Pode mudar de posição. Pode atravessar meses sem apresentar evolução evidente. Pode ser superada temporariamente por colegas que amadureceram fisicamente mais cedo.
O algoritmo trabalha com outra lógica.
Gol, drible, assistência e jogada excepcional possuem capacidade de circulação. Erros de posicionamento, dificuldades defensivas e decisões equivocadas raramente fazem parte da construção pública de uma promessa.
Cria-se, assim, uma espécie de currículo esportivo composto exclusivamente por melhores momentos.
O treinador precisa avaliar centenas de minutos. A internet pode construir uma reputação a partir de dez segundos.
Esse descompasso explica parte da preocupação dos clubes com o fenômeno. Uma criança pode possuir 500 mil seguidores e continuar sendo reserva. Pode ter patrocinador e posteriormente ser dispensada. Pode dominar sua categoria aos 11 anos e ser ultrapassada esportivamente aos 15.
Audiência digital e potencial esportivo são variáveis diferentes, ainda que o mercado frequentemente tenha interesse em apresentá-las como se fossem a mesma coisa.
O custo psicológico da fama precoce
Não existe evidência científica para afirmar que uma criança com muitos seguidores necessariamente desenvolverá ansiedade, depressão ou burnout. Existem, porém, fatores de risco conhecidos que tornam a combinação entre esporte competitivo, exposição pública e pressão externa digna de atenção.
Um estudo de Fiedler e colaboradores, publicado em 2024 na Scientific Reports, acompanhou objetivamente o uso de redes sociais de 53 atletas competitivos entre 12 e 27 anos. No acompanhamento individual, maior utilização do TikTok esteve associada a pior qualidade de sono, menor recuperação e maior estresse. Os próprios autores destacam que os efeitos variaram conforme plataforma e nível competitivo. O estudo não investigou fama digital, número de seguidores ou monetização, mas oferece evidência sobre outra dimensão da relação entre atletas competitivos e plataformas digitais.
A pressão familiar também possui evidências relevantes. Um estudo de Virginie Nicaise e Noémie Lienhart, publicado em 2025 no European Journal of Sport Science, analisou 219 atletas franceses de elite e semielite, entre 13 e 19 anos, e encontrou associações entre maior percepção de comportamentos parentais de pressão e direção e indicadores de ansiedade, desmotivação e burnout, além de menor motivação autônoma. Trata-se de associação, não de demonstração de causalidade, mas é um dado relevante quando o desempenho esportivo também começa a possuir valor econômico.
Há ainda o problema da especialização. Uma revisão sistemática e meta-análise de Nicolas E. Giusti e colaboradores, publicada em 2020 no Orthopaedic Journal of Sports Medicine, reuniu oito estudos e 1.429 atletas adolescentes. Os jovens classificados como especializados em apenas um esporte apresentaram níveis significativamente maiores nas três dimensões avaliadas de burnout: sensação reduzida de realização, exaustão e desvalorização do esporte. A especialização esportiva é uma variável diferente da exposição digital, mas mostra que pressões importantes já podem estar presentes no próprio ambiente de formação esportiva.
Nada disso permite afirmar que uma conta no Instagram produzirá burnout. Permite afirmar algo mais rigoroso: atletas jovens já estão submetidos a pressões próprias do esporte competitivo, e adicionar audiência, publicidade, expectativa pública e valor econômico significa introduzir novas variáveis em um processo de desenvolvimento que já é complexo.
Quando a criança deixa de ser apenas uma criança que joga futebol
Talvez um dos maiores riscos esteja na construção da identidade.
A literatura científica utiliza o conceito de “identidade atlética” para medir quanto a percepção que uma pessoa possui de si mesma está vinculada ao papel de atleta. Uma revisão sistemática de Bianca R. Edison, Melissa A. Christino e Katherine H. Rizzone, publicada em 2021 no International Journal of Environmental Research and Public Health, mostra que a adolescência é um período importante dessa construção e destaca a necessidade de compreender melhor como expectativa de sucesso, recrutamento, progressão profissional e lesões afetam essa identidade.
Uma identidade esportiva forte não é necessariamente negativa. Pode gerar comprometimento, pertencimento e dedicação. O problema aparece quando ela se torna excessivamente exclusiva.
Uma criança deixa progressivamente de ser apenas uma criança. Publicamente, passa a ser “a joia”, “o fenômeno”, “o próximo craque”. Centenas de milhares de pessoas acompanham seus gols. Vídeos registram sua evolução. Comentários projetam aquilo que ela será aos 18 ou 20 anos.
Muitas dessas promessas, porém, não cumprirão as projeções construídas ao seu redor.
Nesse cenário, uma eventual dispensa aos 16 ou 17 anos pode representar mais do que a perda de uma oportunidade esportiva. Existe o risco de ruptura entre a identidade construída durante a infância e aquilo que a realidade passou a oferecer.
A criança comum que abandona o futebol pode simplesmente seguir sua vida. A criança transformada em fenômeno digital poderá carregar uma espécie de arquivo público permanente da carreira que todos esperavam que ela tivesse.
Jean Chera: quando a fama infantil ainda não dependia de seguidores
O fenômeno é anterior ao Instagram ou ao TikTok. As redes sociais aumentaram sua escala e reduziram a dependência dos tradicionais intermediários da mídia.
Jean Chera é um dos melhores exemplos brasileiros.
Em 2007, quando tinha apenas 12 anos, uma reportagem do então GloboEsporte.com já o apresentava como uma estrela precoce do Santos. Jean possuía contrato de formação, ajuda financeira, estudos pagos pelo clube, patrocinador de material esportivo e agenda publicitária. Quase todos os sábados viajava para São Paulo para participar de ações comerciais e era utilizado como garoto-propaganda das escolinhas do Santos.
A expectativa esportiva era enorme. Anos depois, sua trajetória ficou muito distante daquela projetada na infância. Ele passou por diferentes clubes e chegou ao futebol profissional, mas nunca se consolidou no nível imaginado quando era tratado como uma das grandes joias do país. Anos depois, o próprio GE voltou à trajetória de Jean e registrou que ele havia sido apontado como possível sucessor de Neymar, mas que a expectativa de deslanchar no futebol profissional nunca se concretizou.
Jean não prova que exposição precoce destrói carreiras. Seria incorreto estabelecer essa causalidade. Seu caso demonstra algo diferente e muito mais relevante: é possível construir enorme valor simbólico e comercial em torno de uma criança e ainda assim errar completamente a projeção sobre o jogador adulto que ela se tornará.
Sonny Pike e o peso de ser uma celebridade antes de ser adulto
O inglês Sonny Pike oferece um caso ainda mais contundente.
Na década de 1990, antes da atual economia das redes sociais, Pike chamou a atenção de grandes clubes, realizou período de testes no Ajax e tornou-se uma celebridade infantil. Em relato publicado posteriormente pela própria FIFA, ele descreveu a dimensão da exposição que recebeu e como passou a ser tratado publicamente como um “wonderkid”.
A carreira adulta imaginada para ele nunca se concretizou no alto nível.
Mais importante para a discussão atual é que o próprio Pike relatou posteriormente dificuldades psicológicas durante a adolescência. Segundo seu depoimento à FIFA, entre os 14 e os 16 anos viveu seu período mais difícil, tornou-se retraído e desenvolveu uma relação problemática com o esporte que anteriormente adorava.
Novamente, não é possível transformar um caso individual em relação causal universal. Sonny Pike não demonstra que fama infantil necessariamente provoca problemas psicológicos. Sua história demonstra que transformar uma criança em personagem público cria pressões que não podem ser ignoradas simplesmente porque o talento esportivo parece excepcional.
Quando conteúdo vira trabalho
No Brasil, a discussão deixou de ser apenas ética e passou a ter contornos regulatórios mais claros.
A Lei nº 15.211/2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, adota uma definição ampla de monetização, incluindo receitas provenientes de visualizações, assinaturas, doações, patrocínios, publicidade e venda de produtos ou serviços vinculados ao conteúdo.
A regulamentação avançou em 2026. O Decreto nº 12.880 estabelece regras relacionadas à autorização judicial, nos termos do artigo 149 do Estatuto da Criança e do Adolescente, para conteúdo monetizado ou impulsionado que explore habitualmente a imagem ou a rotina de criança ou adolescente.
Em 26 de junho de 2026, por meio da Resolução nº 687, o Conselho Nacional de Justiça regulamentou a concessão de alvarás judiciais nas hipóteses previstas no artigo 34 do Decreto nº 12.880 e instituiu o Banco Nacional de Alvarás para Atividade Artística de Crianças e Adolescentes.
A mudança regulatória revela uma distinção relevante entre uma família ocasionalmente publicar o filho jogando futebol e organizar uma atividade habitual em torno da imagem de uma criança que produz audiência e retorno econômico.
Em algum momento, o vídeo deixa de ser simplesmente lembrança de infância e passa a integrar uma cadeia produtiva.
Quem protege a criança quando todos podem ganhar?
A marca pode ganhar audiência. A plataforma ganha engajamento. Agentes e intermediários podem participar dos negócios. O clube possui um ativo esportivo que também gera visibilidade. A família pode receber oportunidades econômicas. O público acompanha gratuitamente a trajetória do possível futuro craque.
Existem incentivos para que a exposição continue.
A criança, porém, é o participante dessa cadeia com menor capacidade para compreender a dimensão econômica, esportiva e psicológica daquilo que está sendo construído em torno dela.
O problema não é simplesmente uma criança possuir um milhão de seguidores. Tampouco há fundamento para demonizar pais, clubes ou empresas apenas porque perceberam oportunidades criadas por uma transformação real do mercado esportivo.
A questão é a velocidade com que essas oportunidades aparecem.
As plataformas digitais tornaram muito mais fácil transformar uma criança talentosa em celebridade. Ao mesmo tempo, continua sendo extraordinariamente difícil saber se essa criança se transformará em um grande jogador.
Entre essas duas realidades surgiram audiência, dinheiro, patrocinadores, contratos e expectativas que podem acompanhar o jovem durante toda a formação.
Talvez, por isso, a pergunta mais importante não seja quantos seguidores uma promessa de 10 anos consegue conquistar.
É outra: quando todos os adultos ao redor possuem algum incentivo para que aquela criança continue sendo vista, quem possui incentivo suficiente para decidir que, em determinados momentos, talvez seja melhor simplesmente deixá-la ser criança?

