Durante muitos anos, falar sobre administração eficiente no futebol brasileiro quase inevitavelmente levava ao São Paulo.
O clube que acumulava títulos, revelava jogadores, explorava o Morumbi como poucos concorrentes conseguiam explorar seus estádios e mantinha uma estrutura profissional considerada avançada para os padrões nacionais tornou-se uma referência que ultrapassava as quatro linhas.
Em julho de 2008, o então GloboEsporte.com chegou a apresentar o São Paulo como “modelo de gestão financeira no Brasil”, depois de o clube registrar superávits consecutivos em 2006 e 2007.
Dezoito anos depois, a fotografia é radicalmente diferente. Em setembro de 2026, o São Paulo chegou a quatro meses de direitos de imagem atrasados com a maior parte do elenco, referentes a junho, julho, agosto e setembro. Em alguns casos específicos, a pendência alcançava seis meses. Também não havia sido paga a parcela de setembro de um acordo realizado no início do ano para quitar direitos de imagem que já haviam ficado pendentes em 2025. No mesmo mês, o clube atrasou até o salário registrado em carteira, situação posteriormente regularizada.
A comparação entre essas duas épocas produz uma pergunta muito maior do que a discussão sobre uma parcela atrasada: como um clube que foi referência administrativa na América do Sul chegou a uma situação em que não consegue honrar regularmente compromissos com seus próprios jogadores?
A resposta não cabe em uma administração, em uma contratação ou em um único balanço.
Os números mostram uma deterioração construída durante anos, atravessando diferentes presidentes e combinando crescimento das despesas, déficits recorrentes, dependência da venda de jogadores, aumento do endividamento, juros elevados, antecipação de receitas e uma progressiva perda de flexibilidade financeira.
O paradoxo é que o São Paulo não perdeu sua capacidade de produzir dinheiro. Em 2025, pela primeira vez, o clube ultrapassou a marca de R$ 1 bilhão em receitas. O problema está em outra parte da equação: transformar essa enorme capacidade de faturamento em geração sustentável de caixa suficiente para financiar a operação, investir no futebol, pagar dívidas antigas e cumprir compromissos correntes sem recorrer continuamente ao futuro.
Quando o São Paulo era o exemplo
A imagem de eficiência construída pelo São Paulo não surgiu apenas dos títulos. Em 2006, o clube registrou superávit de aproximadamente R$ 3,2 milhões. Em 2007, o resultado positivo passou de R$ 5,1 milhões. Naquele momento, enquanto diversos clubes brasileiros conviviam com desequilíbrios financeiros crônicos, o São Paulo era apresentado publicamente como exemplo de planejamento e controle.
Havia uma característica importante naquele modelo que ajuda a compreender o que aconteceria posteriormente. A negociação de jogadores já tinha peso relevante na geração de receitas. Essa não era necessariamente uma deficiência: formar atletas, valorizá-los e negociá-los faz parte da economia do futebol. O risco surge quando a estrutura de despesas passa a exigir que essas receitas, por natureza voláteis, ocorram todos os anos e em valores elevados.
O balanço de 2013 oferece um exemplo perfeito. O São Paulo registrou R$ 362,8 milhões em receitas e terminou o exercício com superávit de R$ 23,5 milhões. Somente as negociações de atletas renderam R$ 147,95 milhões, e a transferência de Lucas para o Paris Saint-Germain representou mais de R$ 86 milhões líquidos para o clube. A operação ajudou decisivamente a produzir uma fotografia financeira favorável.
Um ano depois, a vulnerabilidade desse modelo ficaria muito mais evidente.
O primeiro grande rombo
Em 2014, as receitas do São Paulo caíram para R$ 253,3 milhões e o exercício terminou com déficit de R$ 100,1 milhões. As receitas provenientes de negociações de atletas, que haviam alcançado R$ 147,9 milhões em 2013, despencaram para R$ 40,9 milhões. O próprio relatório administrativo citava a redução das vendas de jogadores, o custo da dívida bancária e obrigações assumidas anteriormente entre os fatores que pressionaram as contas.
A recuperação não veio no exercício seguinte. Em 2015, o clube aumentou suas receitas para R$ 330,8 milhões e arrecadou R$ 108,8 milhões com transferências de atletas, mas ainda assim registrou déficit de R$ 72,5 milhões. Em apenas dois anos, portanto, os resultados negativos somaram aproximadamente R$ 172,6 milhões.
Os exercícios seguintes produziram algum alívio. O São Paulo registrou pequenos superávits em 2016, 2017 e 2018, mas a dependência das transferências continuou aparecendo. Em 2017, por exemplo, o clube obteve R$ 188,6 milhões com negociações de jogadores e terminou o ano com superávit de R$ 15,1 milhões. Em 2018, as negociações voltaram a ser a maior fonte de receita operacional do clube, com R$ 154,7 milhões brutos, enquanto o superávit final ficou em R$ 7,2 milhões.
Não significa que seria correto simplesmente subtrair as vendas de jogadores do resultado e afirmar que o clube teria registrado determinado prejuízo sem elas. Transferências também produzem custos contábeis e fazem parte da atividade econômica de um clube de futebol.
O que a série histórica permite afirmar é algo diferente: as negociações de atletas se tornaram repetidamente relevantes para que a equação financeira fechasse.
2019: o desequilíbrio muda de escala
O exercício de 2019 representa um dos pontos mais importantes dessa trajetória. O São Paulo investiu R$ 149 milhões em contratações e viu suas despesas operacionais saltarem de R$ 397,5 milhões em 2018 para R$ 554 milhões. O resultado foi um déficit de R$ 156,1 milhões.
Naquele ano, o clube montou um elenco que incluía nomes como Daniel Alves, Pablo, Tchê Tchê, Hernanes e Tiago Volpi, mas os investimentos não foram acompanhados pelos resultados esportivos e financeiros esperados. O balanço também incorporou R$ 81 milhões relacionados a antigas dívidas trabalhistas com jogadores e empresas, agravando o resultado.
Em 2020, a pandemia atingiu em cheio as receitas do futebol, mas seria incorreto tratá-la como origem da crise são-paulina, porque os problemas já estavam claramente estabelecidos antes dela. O clube encerrou aquele exercício com R$ 358,4 milhões em receitas, R$ 488 milhões em despesas e déficit de R$ 129,6 milhões. A dívida total informada naquele momento alcançava aproximadamente R$ 606 milhões, dos quais R$ 153,6 milhões correspondiam a empréstimos bancários.
Em dois exercícios consecutivos, 2019 e 2020, o São Paulo acumulou aproximadamente R$ 285,7 milhões em déficits.
A mudança de gestão não interrompeu a dinâmica
Julio Casares assumiu a presidência em janeiro de 2021 com um cenário financeiro já deteriorado, mas o primeiro exercício da nova administração também terminou no vermelho. O déficit de 2021 foi de aproximadamente R$ 106 milhões. As receitas aumentaram, mas as despesas também: o clube registrou cerca de R$ 465 milhões em receitas e R$ 560 milhões em despesas. O próprio Conselho Fiscal chamou atenção para o crescimento das despesas relacionadas principalmente ao futebol profissional.
Esse período ajuda a demonstrar por que reduzir a história do São Paulo a um único dirigente seria insuficiente. A deterioração financeira atravessou administrações diferentes, embora as decisões tomadas em cada período tenham contribuído de maneiras distintas para sua evolução.
Em 2022, houve uma melhora importante. O clube alcançou receita recorde de R$ 660,5 milhões e voltou ao azul com superávit de R$ 37,4 milhões. Mais uma vez, as negociações de atletas tiveram papel decisivo: aproximadamente R$ 228,6 milhões vieram dessa fonte, incluindo valores extraordinários relacionados à transferência de Antony do Ajax para o Manchester United.
O mais revelador aconteceria poucos meses depois.
Superávit no balanço, atraso no vestiário
Em março de 2023, pouco depois de encerrar um exercício com superávit, o São Paulo acumulava dois meses de direitos de imagem atrasados. O clube quitou uma parcela, mas, em junho, voltou a atingir três meses de pendência com parte do elenco. A diretoria chegou a acertar que receitas de partidas no Morumbi seriam usadas para reduzir os atrasos.
Essa sequência é fundamental para compreender a crise atual porque demonstra que resultado contábil e disponibilidade financeira são coisas diferentes. Um clube pode apresentar superávit em determinado exercício e, simultaneamente, enfrentar dificuldades de liquidez, especialmente quando possui dívidas elevadas, recebimentos parcelados, despesas concentradas no curto prazo e receitas futuras já comprometidas.
O próprio presidente Julio Casares reconheceu publicamente naquele período uma prática de administrar atrasos de direitos de imagem como uma espécie de fluxo entre parcelas. Independentemente da avaliação sobre essa estratégia, o episódio demonstra que a insuficiência de caixa para honrar pontualmente determinados compromissos já não era uma exceção em 2023.
E 2023 seria um ano esportivamente histórico. O São Paulo conquistou pela primeira vez a Copa do Brasil, recebeu mais de R$ 70 milhões em premiação e estabeleceu outro recorde de receitas, chegando a R$ 680,7 milhões. Mesmo assim, encerrou o exercício com déficit de R$ 62,2 milhões e dívida próxima de R$ 666 milhões.
A geração operacional de caixa também não resolvia toda a equação. Análise baseada nas demonstrações financeiras apontou EBITDA positivo de R$ 93 milhões naquele exercício, mas os juros consumiram aproximadamente R$ 77,5 milhões. Depois de investimentos em jogadores, categorias de base, infraestrutura e pagamento de dívidas, a capacidade de geração de caixa mostrava-se insuficiente para atender a todas as necessidades financeiras do clube.
É nesse ponto que o passado começa efetivamente a cobrar o presente.
2024: receita recorde e déficit recorde
Se existisse um único exercício capaz de resumir a contradição financeira do São Paulo, provavelmente seria 2024. O clube alcançou R$ 731,898 milhões em receitas, novo recorde histórico, mas terminou o ano com déficit de R$ 287,640 milhões. O endividamento calculado pelo clube chegou a R$ 968,255 milhões.
A diferença entre planejamento e execução também foi expressiva. O orçamento previa um déficit muito inferior ao efetivamente registrado, enquanto as receitas com venda de jogadores ficaram em aproximadamente R$ 93,3 milhões, muito abaixo dos valores obtidos em exercícios nos quais Cotia e o elenco profissional produziram grandes negociações.
O problema não era simplesmente faturar pouco. O São Paulo estava aumentando receitas e, ainda assim, produzindo déficits porque sua estrutura de despesas, investimentos, obrigações e custos financeiros consumia mais recursos do que a operação conseguia sustentar.
Foi nesse ambiente que surgiu o FIDC São Paulo Futebol Clube.
Quando o credor começa a impor as travas
Em outubro de 2024, o Conselho Deliberativo aprovou a estruturação de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios com capacidade de captar R$ 240 milhões. A intenção era substituir boa parte das dívidas bancárias por uma operação de prazo mais longo e tentar reduzir o custo financeiro.
O contrato, porém, veio acompanhado de limites que ajudam a compreender o grau de preocupação com a trajetória das contas. O São Paulo ficou sujeito a um teto de investimento no futebol equivalente ao menor valor entre 50% da receita bruta anual e R$ 350 milhões; novas obrigações financeiras superiores a R$ 10 milhões por trimestre passaram a depender de autorização; a cessão ou antecipação de recebíveis também ficou sujeita a aprovação; e o clube assumiu a obrigação de apresentar superávit a partir de 2025.
A operação não significava que o São Paulo havia recebido R$ 240 milhões gratuitamente. Tratava-se de uma reestruturação de dívida, acompanhada de mecanismos de governança destinados a impedir que o clube voltasse a acelerar seu endividamento sem controle.
O bilhão de reais que não resolveu o problema
Então veio 2025, e os números pareciam finalmente indicar uma mudança de direção.
As demonstrações financeiras registram R$ 1,073 bilhão em receitas operacionais. Em uma apresentação orçamentária mais ampla utilizada pelo clube, as receitas chegaram a aproximadamente R$ 1,085 bilhão. É importante distinguir os dois números, porque correspondem a conceitos de apresentação diferentes e não devem ser usados como se fossem exatamente a mesma rubrica.
O resultado do exercício foi um superávit de aproximadamente R$ 56,8 milhões e o endividamento calculado pelo clube caiu de R$ 968,255 milhões para R$ 858,205 milhões. Pela primeira vez em anos, havia simultaneamente crescimento expressivo de receitas, resultado positivo e redução do endividamento.
Mas a composição desses números exige atenção.
As negociações de atletas produziram R$ 283,7 milhões, contra R$ 93,3 milhões no ano anterior. Segundo as próprias demonstrações financeiras, 84,15% desse valor veio de atletas formados nas categorias de base. Cotia, mais uma vez, não era apenas uma fábrica esportiva, mas um dos principais pilares econômicos do clube.
O orçamento previa R$ 154,8 milhões em negociações de atletas. O realizado superou essa estimativa em R$ 128,9 milhões. Ao mesmo tempo, as despesas também ultrapassaram significativamente o planejado: a execução orçamentária utilizada pelo clube registrou aproximadamente R$ 902 milhões, contra R$ 729 milhões previstos, além de cerca de R$ 125 milhões entre resultado financeiro tradicional e custo do FIDC.
Portanto, o superávit de 2025 não elimina a fragilidade estrutural. Ele mostra que, quando o São Paulo consegue produzir receitas extraordinariamente elevadas, sobretudo com jogadores, a equação pode melhorar. A questão é saber se esse nível de venda de ativos é repetível todos os anos.
R$ 69 milhões em direitos de imagem já estavam no balanço
As demonstrações financeiras oficiais de 2025 oferecem uma fotografia ainda mais importante.
Em 31 de dezembro daquele ano, o São Paulo registrava R$ 69,112 milhões em direitos de imagem a pagar. Somadas às demais obrigações trabalhistas, a rubrica alcançava R$ 118,295 milhões, contra R$ 93,985 milhões no exercício anterior.
Esse valor não deve ser confundido com os quatro meses atualmente atrasados. O balanço retrata a posição existente em 31 de dezembro de 2025, enquanto a inadimplência de setembro de 2026 corresponde a outro período e a outra composição contratual. A comparação serve para demonstrar o peso da obrigação, não para calcular artificialmente o valor atual da dívida com o elenco.
Há outro dado ainda mais relevante. O balanço apresentava R$ 1,067 bilhão em obrigações consolidadas, parcialmente compensadas por direitos líquidos para chegar ao endividamento de R$ 858,205 milhões. Do total de obrigações apresentado no cronograma financeiro, aproximadamente R$ 637 milhões estavam alocados para 2026.
Ou seja, a redução do endividamento ao final de 2025 não significava ausência de pressão sobre o caixa do exercício seguinte. Quase metade da distribuição do endividamento líquido calculado pelo clube também estava concentrada em 2026.
O preço de financiar o presente
O balanço oficial permite ir ainda mais fundo. Em 31 de dezembro de 2025, o São Paulo registrava R$ 277,671 milhões em empréstimos e financiamentos com instituições financeiras, dos quais R$ 195,932 milhões estavam classificados no circulante.
As notas explicativas informam que esses empréstimos eram destinados substancialmente a capital de giro e tinham como garantias contratos de direitos de transmissão, licenciamento de marca, recebíveis provenientes de atletas, cessão de espaços e contribuições associativas. A taxa média informada era de 1,67% ao mês, equivalente a 22,11% ao ano.
Esse talvez seja um dos números que melhor traduzem o problema.
Quando um clube precisa recorrer sistematicamente a capital de giro para financiar sua operação, o dinheiro do futuro passa a chegar ao presente com desconto. Juros tornam-se uma despesa adicional, receitas futuras são oferecidas como garantia e uma parcela crescente da capacidade financeira deixa de financiar futebol, infraestrutura ou formação de atletas para remunerar capital utilizado anteriormente.
Não significa que tomar empréstimos seja, por definição, sinal de má administração. Empresas saudáveis utilizam crédito continuamente. O problema surge quando crédito, antecipações e vendas extraordinárias deixam de ser instrumentos de gestão e passam a ser necessários para que compromissos ordinários sejam cumpridos.
Quatro meses sem pagar
É nesse contexto que setembro de 2026 precisa ser analisado.
O São Paulo deixou de pagar os direitos de imagem vencidos em junho, julho, agosto e setembro para a maior parte do elenco. Alguns contratos acumulavam até seis meses de atraso. Também não foi paga a parcela de setembro do acordo realizado no começo do ano para quitar valores pendentes de 2025.
No início do mesmo mês, o clube também atrasou pela primeira vez nesse ciclo recente os salários registrados em carteira, posteriormente regularizados. Até então, a dificuldade vinha se concentrando principalmente nos direitos de imagem.
Não se trata, portanto, de um raio em céu azul. Em 2023, o São Paulo já havia chegado a dois e depois três meses de direitos de imagem atrasados. O que ocorreu em 2026 foi um agravamento de um problema de liquidez que já havia aparecido anteriormente.
E a solução buscada para o problema atual ajuda a compreender toda a história.
Mais uma vez, o futuro é chamado para pagar o presente
O São Paulo negocia com a Ticketmaster uma operação que prevê a antecipação de R$ 110 milhões. A empresa também pagaria R$ 30 milhões relacionados ao camarote corporativo 29A e destinaria outros R$ 6 milhões à reforma do Museu São Paulo. No momento desta publicação, em 30 de setembro de 2026, o contrato ainda estava em processo de votação no Conselho Deliberativo.
Os R$ 110 milhões não são simplesmente uma nova receita comercial disponível sem contrapartida. A operação funciona financeiramente como uma antecipação a ser devolvida ao longo de cinco anos, remunerada pelo CDI acrescido de 1,99%, mediante receitas futuras do Morumbis, com pagamento limitado a R$ 1,8 milhão por mês.
Ao mesmo tempo, parte das receitas futuras do estádio já estava vinculada a outras operações. Em agosto, levantamento publicado pelo GE apontava R$ 64,2 milhões de bilheteria associados a operações financeiras e R$ 70,1 milhões de publicidade, placas e naming rights parcialmente antecipados.
O mecanismo é simples de entender, embora suas consequências sejam complexas. Antecipar uma receita resolve um problema de liquidez hoje, mas significa que parte do dinheiro que seria recebido amanhã já evaporou antes do amanhã chegar.
Se a estrutura de custos não for corrigida, surge novamente a necessidade de encontrar dinheiro novo.
O São Paulo não deixou de gerar dinheiro
Esse é provavelmente o ponto mais importante de toda a análise.
A crise financeira do São Paulo não pode ser explicada pela incapacidade de produzir receitas. O clube passou de R$ 660,5 milhões em 2022 para R$ 680,7 milhões em 2023, R$ 731,9 milhões em 2024 e ultrapassou R$ 1 bilhão em 2025. Possui um estádio capaz de produzir receitas relevantes, uma das maiores torcidas do país, marcas comerciais valiosas e um dos centros de formação de jogadores mais produtivos do futebol brasileiro.
O problema é que receita não é caixa livre.
Uma parte paga salários e direitos de imagem. Outra paga impostos, intermediários, fornecedores, contratações e custos dos jogos. Outra precisa amortizar empréstimos. Outra remunera juros. Há dívidas antigas, acordos trabalhistas, obrigações com outros clubes e compromissos assumidos anteriormente. E, quando uma receita já foi antecipada ou oferecida como garantia, ela pode aparecer economicamente associada ao clube sem representar dinheiro completamente disponível para novas despesas.
É por isso que um clube pode faturar mais de R$ 1 bilhão e, meses depois, atrasar pagamentos.
Não existe contradição contábil nisso. Existe uma crise de liquidez.
O ciclo que aprisionou o clube
O histórico permite identificar uma engrenagem que se repetiu em diferentes momentos.
O São Paulo aumenta suas despesas para manter competitividade esportiva. Quando as receitas recorrentes não são suficientes, vendas de jogadores ajudam a equilibrar a operação. Quando essas vendas ficam abaixo do necessário, surgem déficits. Os déficits pressionam o endividamento e o caixa. O clube então recorre a empréstimos ou antecipa recebíveis. Essas operações carregam juros ou comprometem receitas futuras. Quando o futuro chega, uma parte do dinheiro já está comprometida com decisões tomadas anteriormente, reduzindo a flexibilidade financeira e criando nova pressão por vendas, crédito ou antecipações.
Não é necessário atribuir todo esse processo a um único presidente para reconhecer o problema. Os grandes déficits aparecem em administrações diferentes. Em 2014 e 2015, o clube perdeu R$ 172,6 milhões somados. Em 2019 e 2020, outros R$ 285,7 milhões. Em 2021, o déficit foi de aproximadamente R$ 106 milhões. Em 2023, R$ 62,2 milhões. Em 2024, mais R$ 287,6 milhões.
Também seria incorreto simplesmente somar todos esses déficits e chamar o resultado de “dívida”, porque déficit contábil, fluxo de caixa e endividamento são conceitos diferentes. O que a sequência demonstra é a recorrência de exercícios nos quais a operação não conseguiu produzir resultado econômico suficiente para absorver todos os compromissos assumidos.
Cotia virou parte da equação financeira
Existe ainda uma dependência especialmente delicada.
Cotia continua revelando jogadores em quantidade e qualidade excepcionais, mas essa competência esportiva também passou a funcionar como instrumento de equilíbrio financeiro. Em 2025, 84,15% dos R$ 283,7 milhões obtidos com negociações de atletas tiveram origem em jogadores formados na base.
Isso cria uma tensão permanente entre futebol e finanças. O melhor momento para manter um jovem pode ser justamente aquele em que sua venda é necessária para fechar o orçamento. Um ativo que deveria oferecer vantagem competitiva ao clube passa simultaneamente a funcionar como fonte de liquidez.
Vender jogadores não é o problema. Todos os grandes clubes formadores do mundo fazem isso. A questão é o grau de dependência: quanto maior a necessidade financeira de vender, menor a capacidade de escolher quando vender, quem vender e por quanto vender.
O que aconteceu com a antiga referência?
Talvez seja tentador responder que o São Paulo simplesmente deixou de ser bem administrado. Os números contam uma história mais complexa.
O futebol brasileiro mudou profundamente desde a época em que o São Paulo era apresentado como modelo. As receitas cresceram, os salários aumentaram, o mercado de transferências ganhou outra dimensão, novos concorrentes se fortaleceram, clubes receberam investimentos bilionários e a profissionalização avançou. Ao mesmo tempo, decisões tomadas dentro do próprio São Paulo elevaram custos, produziram déficits, aumentaram o endividamento e comprometeram receitas futuras.
O antigo modelo são-paulino tinha virtudes reais, mas também dependia da capacidade de formar e negociar jogadores. Enquanto a estrutura de custos permanecia compatível com essa capacidade de geração de receitas, o sistema funcionava. À medida que despesas, dívida e custos financeiros cresceram, a margem de segurança desapareceu.
O resultado é um clube que ainda possui quase todos os ativos que fizeram dele uma potência econômica: torcida, estádio, marca, Cotia, capacidade comercial e relevância esportiva. O que diminuiu foi sua liberdade financeira.
Em 2025, o São Paulo produziu mais de R$ 1 bilhão em receitas operacionais e orçamentárias, vendeu R$ 283,7 milhões em jogadores e terminou o ano com superávit. Mesmo assim, entrou em 2026 com R$ 858,2 milhões de endividamento calculado pelo clube, R$ 118,3 milhões em obrigações trabalhistas e de direitos de imagem e R$ 277,7 milhões em compromissos com instituições financeiras.
Nove meses depois, devia quatro meses de direitos de imagem à maior parte do elenco e discutia uma nova antecipação de R$ 110 milhões para aliviar o fluxo de caixa.
Essa sequência talvez explique melhor a transformação do São Paulo do que qualquer acusação isolada.
O gigante não deixou de produzir dinheiro. O problema é que, ao longo dos anos, passou a carregar uma estrutura financeira na qual parte crescente do dinheiro novo precisa resolver compromissos antigos.
E, quando o presente depende continuamente de receitas que ainda pertencem ao futuro, até um clube capaz de faturar mais de R$ 1 bilhão pode chegar ao fim do mês sem dinheiro suficiente para pagar quem está dentro de campo.


