Sabia que você pode ser dono de um grande clube de futebol?

finanças e clubes de futebol

Quando pensamos no proprietário de um grande clube de futebol, a imagem mais comum é a de um bilionário, fundo de investimento ou grupo empresarial capaz de movimentar centenas de milhões de euros.

Mas existem outras estruturas de propriedade. Em alguns clubes conhecidos mundialmente, investidores comuns podem adquirir uma pequena participação societária por meio do mercado de capitais.

Manchester United, Juventus, Borussia Dortmund, Ajax, Lazio e Celtic possuem sociedades com ações negociadas publicamente. Em Portugal, as sociedades anônimas desportivas ligadas a Benfica, Porto e Sporting também possuem ações admitidas à negociação.

A palavra “dono” precisa ser entendida dentro dessa estrutura. Uma ação representa uma fração do capital de uma companhia. O poder decorrente dessa participação depende da quantidade adquirida, dos direitos atribuídos àquela classe de ações e das regras de governança da sociedade.

No futebol, propriedade econômica, direito de voto, controle societário e administração podem estar distribuídos entre agentes diferentes.

Uma ação do Manchester United transforma você em acionista

As ações Classe A da Manchester United plc são negociadas na New York Stock Exchange sob o ticker MANU. Quem adquire uma delas passa a possuir uma pequena participação no capital da companhia.

O Form 20-F referente ao exercício encerrado em 30 de junho de 2026 mostra como os direitos políticos estão distribuídos. Cada ação Classe A concede um voto, enquanto cada ação Classe B concede dez votos. Em 30 de junho de 2026, o capital emitido compreendia 57.826.116 ações Classe A e 116.348.173 Classe B. Parte das ações Classe A estava em tesouraria; em 1º de setembro de 2026, havia 56.143.220 ações Classe A em circulação.

Em 15 de agosto de 2026, o próprio 20-F atribuía às entidades controladas pelos seis descendentes diretos de Malcolm Glazer 67,91% do poder de voto das ações em circulação. A INEOS Services Limited possuía 28,95%. O documento registra ainda que a INEOS Limited passou a se chamar INEOS Services Limited em 23 de junho de 2026.

O pequeno investidor pode possuir ações da mesma companhia, porém uma ação Classe A concede apenas um décimo dos votos de uma Classe B. A estrutura permite que a propriedade econômica seja distribuída entre investidores enquanto o poder de voto permanece fortemente concentrado.

No Borussia Dortmund, 60,97% das ações estavam em free float

Em 30 de junho de 2026, o capital da Borussia Dortmund GmbH & Co. KGaA era de €110.396.220, dividido em 110.396.220 ações. O relatório anual 2025/26 registrava 60,97% em free float, enquanto a associação Ballspielverein Borussia 09 e.V. Dortmund possuía 5,90%.

A companhia negociada utiliza a forma jurídica alemã de uma Kommanditgesellschaft auf Aktien, uma sociedade em comandita por ações. Sua administração cabe à Borussia Dortmund Geschäftsführungs-GmbH, sociedade cuja única acionista é a própria associação Ballspielverein Borussia 09 e.V. Dortmund.

O Conselho de Supervisão da companhia listada não possui competência para nomear ou destituir os administradores da sociedade responsável pela gestão. A administração cabe à Borussia Dortmund Geschäftsführungs-GmbH, cuja única acionista é a associação Ballspielverein Borussia 09 e.V. Dortmund.

Na Juventus, a mesma quantidade de ações pode representar quantidades diferentes de votos

A Juventus Football Club S.p.A. possui 417.033.996 ações ordinárias, negociadas na Euronext Milan.

Seu estatuto estabelece um voto por ação como regra geral e prevê um mecanismo de voto majorado. Cumpridas as condições estatutárias, incluindo a manutenção da titularidade pelo mesmo acionista durante pelo menos 24 meses e o registro correspondente na lista especial da companhia, uma ação pode conferir dois votos.

Dois investidores com a mesma quantidade de ações podem exercer quantidades diferentes de votos. O número de ações mede a participação econômica, enquanto determinadas regras societárias podem alterar o peso político atribuído a essa participação.

No Ajax, a associação possui 73% das ações

As ações da AFC Ajax N.V. são negociadas na Euronext Amsterdam, enquanto a associação AFC Ajax informa possuir 73% das ações da companhia.

Os resultados de 2025/26 ajudam a mostrar como o negócio de um clube listado combina receitas esportivas, operação corrente e mercado de jogadores. O Ajax registrou €188,3 milhões de receita líquida, crescimento de 6% em relação ao exercício anterior. Segundo o clube, a alta ocorreu principalmente pelas maiores receitas europeias decorrentes da participação na Champions League, em comparação com a Europa League na temporada anterior.

O Ajax define seu resultado operacional como o resultado antes das amortizações relacionadas a direitos de jogadores e do resultado de transferências. Nessa métrica, o exercício terminou €18,2 milhões negativo, frente a €19,4 milhões negativos no período anterior.

Separadamente, o clube registrou €65,5 milhões em receitas de transferências de jogadores. Depois das amortizações relacionadas aos valores pagos por direitos de atletas, o resultado das transferências ficou positivo em €26,7 milhões. O lucro líquido final foi de €2 milhões, e o patrimônio líquido após esse resultado alcançou €191 milhões.

As três medidas representam etapas diferentes da demonstração financeira e não devem ser simplesmente somadas para reproduzir o lucro líquido. Entre elas existem outras despesas, receitas e efeitos contábeis.

O caso mostra como a análise financeira de um clube exige acompanhar tanto a operação recorrente quanto competições disputadas e negociações de jogadores.

Lazio, Celtic e as SADs portuguesas também possuem ações negociadas

A S.S. Lazio S.p.A. consta no listino oficial da Borsa Italiana sob o código SSL e o ISIN IT0003621783.

No Reino Unido, o Celtic plc informa possuir três classes de ações listadas no AIM, mercado da London Stock Exchange. Em 28 de agosto de 2026, a companhia registrava 95.139.731 ações ordinárias, além das duas classes de ações preferenciais conversíveis listadas. As ações diferidas existentes na estrutura de capital não são listadas, não são transferíveis e não possuem direito de voto ou direitos econômicos substantivos.

Em Portugal, a estrutura exige distinguir o clube associativo da sociedade empresarial ligada ao futebol. Sport Lisboa e Benfica (Futebol, SAD), Futebol Clube do Porto (Futebol, SAD) e Sporting Clube de Portugal (Futebol, SAD) possuem ações admitidas à negociação.

A Euronext identifica a Benfica SAD como ação negociada na Euronext Lisbon, sob o ISIN PTSLB0AM0010. A própria Benfica SAD informa atualmente capital social de €115 milhões.

No Porto, a documentação financeira referente ao semestre encerrado em 31 de dezembro de 2025 registrava capital dividido em 22,5 milhões de ações, com valor nominal de €5 cada, e participação do Futebol Clube do Porto equivalente a 74,59% do capital naquela data.

O Sporting identifica oficialmente a Sporting Clube de Portugal (Futebol, SAD) como uma sociedade emitente de ações admitidas à negociação em mercado regulamentado e informa capital social de €201.990.453.

Quem compra ações dessas sociedades adquire participação na respectiva SAD. O clube associativo e a sociedade empresarial possuem personalidades jurídicas distintas.

O que os estudos encontraram sobre resultados esportivos e ações

A reação do mercado financeiro aos resultados de partidas foi analisada em dezenas de trabalhos acadêmicos.

Jerome Geyer-Klingeberg, Markus Hang, Matthias Walter e Andreas Rathgeber reuniram 1.126 estimativas de 37 estudos em uma meta-análise publicada na revista Applied Economics em 2018.

Os autores não encontraram efeito estatisticamente significativo das vitórias sobre os retornos, tanto para seleções quanto para clubes individuais. Nas derrotas, identificaram forte evidência de viés de publicação: retornos negativos estavam sistematicamente sobre-representados na literatura, produzindo uma imagem distorcida da dimensão real do efeito.

Depois das correções realizadas pelos pesquisadores, o efeito médio das derrotas de seleções deixou de ser estatisticamente significativo. Entre clubes individuais, permaneceu um efeito negativo estatisticamente significativo de aproximadamente 39 pontos-base.

A evidência disponível, portanto, não sustenta uma regra segundo a qual uma vitória valoriza a ação e uma derrota produz movimento equivalente na direção contrária. O preço incorpora também situação financeira, endividamento, contratos comerciais, direitos de transmissão, transferências, expectativas esportivas, governança e condições gerais do mercado.

O vínculo emocional também influencia a decisão de investir

Christopher Huth analisou 760 respondentes em pesquisa publicada no European Sport Management Quarterly em 2020. O estudo utilizou um questionário on-line padronizado para investigar investidores atuais e potenciais em instrumentos financeiros relacionados a clubes europeus. O universo pesquisado incluía diferentes instrumentos e era mais amplo do que apenas ações.

Os resultados indicaram que a ligação com o clube desempenhava papel central na decisão de investir, enquanto objetivos tradicionais de investimento tinham importância reduzida naquele contexto. O autor utiliza o conceito de “retorno emocional” para descrever o benefício esperado pelos participantes em compensação pelo esforço financeiro. Na amostra pesquisada, os investidores em instrumentos relacionados aos clubes também não esperavam ou exigiam retorno financeiro da entidade emissora.

Esses resultados precisam permanecer dentro dos limites da amostra estudada. Eles não demonstram que todo torcedor ou acionista aceita investimentos sem retorno financeiro.

A pesquisa identifica uma variável específica do esporte: parte do valor percebido pelo investidor pode decorrer do vínculo com o clube.

A Comissão de Valores Mobiliários brasileira tratou desse componente comportamental no Parecer de Orientação nº 41, de 21 de agosto de 2023, ao abordar o risco de a paixão pelo time interferir na racionalidade necessária às decisões de investimento relacionadas às Sociedades Anônimas do Futebol.

Real Madrid e Barcelona seguem outra estrutura

A presença de clubes no mercado acionário não representa um modelo universal no futebol europeu.

Real Madrid e Barcelona preservam estruturas associativas baseadas em seus sócios. Um investidor comum não encontra ações desses clubes disponíveis em Bolsa da mesma forma que encontra ações da Manchester United plc, Juventus Football Club S.p.A. ou AFC Ajax N.V.

O futebol europeu reúne associações, companhias controladas por investidores privados, sociedades listadas e modelos híbridos. A expressão “dono do clube” pode, por isso, representar relações jurídicas e econômicas muito diferentes.

Uma SAF pode existir sem ações negociadas

A Sociedade Anônima do Futebol criou no Brasil uma estrutura empresarial específica para a atividade do futebol profissional. A constituição de uma SAF não torna automaticamente suas ações disponíveis para negociação pública.

O Parecer de Orientação nº 41 da CVM trata das formas pelas quais uma SAF pode acessar o mercado de capitais e aborda instrumentos como oferta pública inicial de ações, Debêntures-Fut, crowdfunding de investimento, fundos de investimento e securitização.

Uma SAF pode permanecer fechada e possuir acionistas privados. Também pode acessar determinadas modalidades de financiamento no mercado de capitais. A negociação pública de suas ações depende do cumprimento das regras aplicáveis a essa modalidade de oferta e à condição de companhia aberta.

SAF e companhia com ações negociadas publicamente são, portanto, categorias distintas.

A lei brasileira separa investimento e determinados poderes institucionais

A Lei nº 14.193/2021 criou mecanismos específicos para preservar poderes do clube ou da pessoa jurídica original na SAF. Parte desse regime foi alterada pela Lei nº 15.427, de 3 de junho de 2026.

Nas hipóteses previstas no art. 2º da Lei da SAF, a companhia deve emitir ações ordinárias Classe A, destinadas exclusivamente à subscrição pelo clube ou pela pessoa jurídica original que a constituiu.

Enquanto essas ações corresponderem a pelo menos 10% do capital social votante ou do capital social total, o voto afirmativo de seu titular na assembleia geral é condição necessária para deliberações sobre quatro grupos de matérias previstos no §3º:

I. alienação, oneração, cessão, conferência, doação ou outra forma de disposição de bem imóvel ou direito de propriedade intelectual conferido pelo clube ou pessoa jurídica original para formar o capital da SAF;

II. qualquer ato de reorganização societária ou empresarial, como fusão, cisão, incorporação de ações, incorporação de outra sociedade ou trespasse;

III. dissolução, liquidação e extinção;

IV. participação em competição desportiva abrangida pelo art. 20 da Lei nº 9.615/1998.

Outro conjunto de poderes independe do percentual representado pela Classe A. O §4º exige a concordância de seu titular para deliberações sobre alteração da denominação; modificação de símbolo, brasão, marca, alcunha, hino ou cores da equipe profissional; e mudança da sede para outro município.

Desde a alteração legislativa de 2026, o §3º-A também impede o clube ou pessoa jurídica original de doar, ceder, trocar, transferir, vender ou alienar as ações Classe A. A lei permite sua conversão em ações ordinárias comuns, hipótese em que essas restrições deixam de ser aplicáveis.

O §6º protege os próprios direitos associados à Classe A: qualquer alteração estatutária destinada a modificá-los, restringi-los ou suprimi-los, assim como a extinção dessa classe, depende de aprovação prévia do clube ou pessoa jurídica original.

O modelo cria dois níveis de proteção. Determinados poderes societários dependem da manutenção de pelo menos 10% do capital nas condições estabelecidas pelo §3º. Os poderes ligados à identidade institucional previstos no §4º permanecem enquanto existirem ações Classe A, independentemente do percentual que representem.

O que significa ser “dono” de um clube?

Quem compra uma ação passa a possuir uma fração real do capital da companhia emissora. Os direitos associados a essa propriedade dependem da estrutura societária de cada empresa.

No Manchester United, classes diferentes de ações distribuem o poder de voto de maneira desigual. No Borussia Dortmund, a administração cabe a uma sociedade integralmente controlada pela associação. Na Juventus, determinadas ações podem adquirir voto majorado. No Ajax, a associação mantém 73% das ações.

Ser acionista, controlar a companhia e administrar o futebol são posições distintas. Uma pessoa comum pode ser proprietária de uma pequena parcela de uma sociedade ligada a um grande clube, mas, muito provavelmente, vai continuar apenas aplaudindo na arquibancada.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *