O futebol nunca teve tantos instrumentos para identificar quem compra um ingresso e quem efetivamente entra no estádio. Reconhecimento facial, ingresso digital, CPF, sistemas antifraude, monitoramento de contas e ferramentas de bloqueio de bots passaram a fazer parte da operação de clubes no Brasil e no exterior.
Essas barreiras conseguem fechar determinadas brechas e identificar comportamentos que antes eram mais difíceis de rastrear. O que ainda não está claro é o efeito real sobre o cambismo: quanto realmente desaparece, quanto se desloca para outros canais e quanto passa a exigir estruturas mais organizadas para continuar funcionando.
O Corinthians oferece um caso especialmente útil para entender essa dificuldade porque diferentes etapas do problema foram documentadas antes e depois da adoção da biometria facial.
Em março de 2025, às vésperas da final do Campeonato Paulista contra o Palmeiras, ingressos apareciam em grupos de WhatsApp e perfis do Instagram antes mesmo da abertura oficial da venda para os sócios-torcedores. Um bilhete do setor Sul, vendido oficialmente por R$ 80, era oferecido por R$ 1.000. Outros anúncios chegavam a R$ 1.300. A reportagem do GE também encontrou ofertas de entradas destinadas a pessoas com deficiência. Eram preços anunciados, não necessariamente valores de transações efetivamente concluídas, mas a diferença mostra o incentivo financeiro disponível para quem conseguisse obter um ingresso disputado e encontrar alguém disposto a pagar muito mais por ele.
Naquela partida, havia ainda uma característica importante na distribuição. Segundo informações fornecidas pelo Corinthians ao GE, aproximadamente 23% da carga estava fora do fluxo convencional do Fiel Torcedor por envolver Minha Cadeira, concessionários, parceiros, patrocinadores, regulamentos e camarotes. O percentual não incluía determinadas cortesias para autoridades, conselheiros e assessores. Isso não significa que esses canais alimentassem o cambismo, mas demonstra que controlar a venda oficial ao torcedor não equivale a controlar todas as rotas pelas quais um ingresso pode ser distribuído.
Meses depois, o cenário mudou. A biometria facial passou a ser utilizada na Neo Química Arena e fechou algumas possibilidades de simples transferência informal do ingresso. O problema, porém, ganhou outras formas.
Em agosto de 2025, o diretor de tecnologia do Corinthians explicou ao GE uma das fraudes encontradas pelo clube: cambistas utilizavam CPFs sem cadastro no Fiel Torcedor e orientavam os compradores a registrar a própria face associada àqueles dados. A catraca podia reconhecer corretamente o rosto cadastrado e, ainda assim, a operação anterior que havia levado aquele ingresso até o portador ser irregular.
Em dezembro, uma investigação interna produziu outra descoberta. O Corinthians demitiu três funcionários por justa causa depois de identificar apoio a cambistas, venda de ingressos acima dos valores definidos pelo clube e outras fraudes dentro do sistema do Fiel Torcedor. Outros dois casos ainda eram analisados pelo departamento de recursos humanos naquele momento.
Em agosto de 2026, já com um sistema antifraude mais estruturado, o clube voltou a detectar o problema. No clássico contra o Santos, o Corinthians identificou cerca de 2.200 “cadastros e ingressos” com indícios de utilização por cambistas e bloqueou aproximadamente 300 entradas. Segundo o próprio clube, bloquear todos os casos suspeitos poderia gerar tumulto nos portões e prejudicar a operação de acesso. A formulação utilizada pela fonte precisa ser preservada: eram indícios, não 2.200 casos individualmente comprovados de cambismo.
A sequência mostra por que biometria, sozinha, não encerra a discussão.
O que a biometria consegue controlar
O reconhecimento facial responde muito bem a uma pergunta específica: a pessoa que está diante da catraca corresponde à identidade biométrica cadastrada para aquele acesso?
Essa informação é valiosa para reduzir o uso direto de ingressos associados a outra pessoa, dificultar falsificações e aumentar a rastreabilidade. Não responde necessariamente como o ingresso foi adquirido, quanto alguém pagou por ele fora do sistema oficial ou se houve fraude em alguma etapa anterior do cadastro.
O caso do CPF identificado pelo Corinthians ilustra essa diferença. O rosto utilizado na entrada podia ser o rosto verdadeiro do comprador final. O problema estava na cadeia que permitiu vincular aquele rosto aos dados usados para obter o ingresso.
Por isso, também é necessário cuidado ao tratar transferência de ingresso como sinônimo de combate ao cambismo. Atlético-MG e Palmeiras, por exemplo, possuem mecanismos pelos quais determinados ingressos podem ser atribuídos a outro usuário cadastrado e identificado biometricamente. Isso permite ao clube saber quem utilizará a entrada, mas não demonstra, por si só, que nenhuma negociação financeira tenha ocorrido entre as duas pessoas fora do sistema oficial.
Uma transferência tecnicamente autorizada pode identificar corretamente o portador e ainda assim ter sido precedida por uma venda irregular.
Essa distinção é particularmente importante no Brasil porque a Lei Geral do Esporte adota um critério objetivo para o crime de cambismo. O artigo 166 pune com reclusão de um a dois anos, além de multa, quem vende ou porta para venda ingresso esportivo por preço superior ao estampado. O artigo 167 trata de quem fornece, desvia ou facilita a distribuição de ingressos destinados à venda acima do preço oficial e estabelece pena de dois a quatro anos, além de multa, com agravamento em determinadas circunstâncias.
Isso significa que, para o artigo 166, a distinção jurídica não depende necessariamente de saber se alguém é um cambista profissional. Um torcedor que comprou legitimamente seu ingresso, desistiu de comparecer e o revende acima do preço estampado pode, em tese, enquadrar-se na conduta descrita pela lei.
Fraude de identidade, invasão de sistemas, falsificação documental ou obtenção indevida de benefícios são problemas diferentes e podem envolver outros enquadramentos jurídicos. Misturar todas essas condutas sob uma única definição dificulta entender o problema que cada tecnologia ou norma tenta resolver.
Há três planos distintos. A legislação define quais condutas são proibidas. A tecnologia tenta controlar aquisição, identidade e acesso. A economia ajuda a explicar por que alguém aceita correr o risco de contornar essas barreiras.
O mercado pode mudar de canal
Um dos maiores problemas para medir o cambismo está no fato de que o mercado secundário não funciona em um único ambiente.
A Competition and Markets Authority britânica estimou que aproximadamente 1,9 milhão de ingressos foram comercializados por plataformas secundárias online no Reino Unido em 2019, movimentando cerca de £350 milhões. O volume correspondia a aproximadamente 5% a 6% da quantidade de ingressos vendidos no mercado primário. Os números abrangem eventos ao vivo em geral e não podem ser tratados como estatística específica do futebol.
A própria análise britânica reconhece diferentes canais de revenda, incluindo plataformas especializadas, marketplaces generalistas, redes sociais e operações fora da internet. O dado ajuda a explicar uma dificuldade metodológica importante: reduzir uma modalidade observável não significa necessariamente eliminar a demanda ou a oferta que a sustentavam.
Se uma plataforma fecha contas suspeitas, parte dos vendedores pode abandonar a atividade. Outra parte pode procurar redes sociais, aplicativos de mensagens ou negociações presenciais. Também é possível que barreiras tecnológicas aumentem o custo de operação e reduzam o número de vendedores ocasionais, enquanto estruturas profissionalizadas tenham mais recursos para procurar novas brechas.
Essas são hipóteses diferentes e os dados disponíveis não permitem medir quanto cada uma explica a persistência do mercado irregular.
O próprio Corinthians oferece uma sequência sugestiva, mas insuficiente para provar deslocamento. Na estreia da biometria facial na Neo Química Arena, em julho de 2025, o GE registrou a ausência dos cambistas que habitualmente eram observados nas proximidades do estádio. Depois disso, o clube documentou fraudes cadastrais e irregularidades internas.
Seria incorreto concluir que os cambistas simplesmente “saíram da porta e foram para a internet”. Não existe medição que demonstre essa migração. O que os episódios permitem afirmar é que reduzir uma manifestação visível do problema não garante que todos os demais canais tenham desaparecido.
Por que existe dinheiro suficiente para correr esse risco?
O anúncio de R$ 1.000 por um ingresso que custava oficialmente R$ 80 no Corinthians fornece um exemplo concreto do diferencial que pode existir entre o mercado primário e a revenda irregular. Não sabemos se aquele bilhete foi efetivamente vendido pelo valor anunciado, mas a existência da oferta mostra a expectativa de que algum comprador pudesse aceitar pagar muito mais do que o preço oficial.
É nesse ponto que a literatura econômica sobre ingressos ajuda, desde que seus limites sejam respeitados.
Phillip Leslie e Alan Sorensen analisaram os mercados primário e secundário de ingressos de grandes shows de rock em estudo publicado na Review of Economic Studies. Os autores estimaram que os níveis observados de revenda aumentavam a eficiência alocativa em cerca de 5% em média, porque ingressos podiam passar de consumidores que os valorizavam menos para consumidores que os valorizavam mais. Um terço desse ganho estimado era compensado pelo esforço para capturar ingressos subprecificados no mercado primário e, pelos custos de transação do mercado secundário.
O estudo não é sobre futebol e seus percentuais não devem ser transportados para os estádios. Mas o mecanismo econômico é pertinente: quando existe um diferencial relevante entre o preço inicial de um ingresso escasso e aquilo que parte dos consumidores aceita pagar posteriormente, surge uma oportunidade potencial de lucro para quem conseguir obter esse ingresso primeiro.
Isso não quer dizer que os clubes deveriam simplesmente aumentar os preços até eliminar qualquer diferença. Futebol não é um mercado no qual o organizador necessariamente busca cobrar de cada consumidor o máximo que ele aceitaria pagar. Políticas de sócios, descontos, fidelização e formação de público podem justificar preços inferiores ao máximo suportado pela demanda.
O conflito está exatamente nessa escolha. Um preço deliberadamente acessível pode cumprir objetivos do clube e, em partidas de demanda elevada, também criar uma margem que terceiros tentam capturar.
O mercado secundário não precisa ser proibido por inteiro
O problema muda quando se separa a revenda acima do preço original da necessidade legítima de um torcedor transferir um ingresso que não poderá utilizar.
A Irlanda formalizou essa diferença em sua legislação. O Sale of Tickets Act 2021 entrou em vigor em 31 de julho daquele ano e proíbe, para os eventos e locais abrangidos, a venda ou o anúncio de ingresso por preço superior ao original. Ao mesmo tempo, o artigo 19 estabelece, salvo exceções relacionadas a segurança, saúde pública ou ordem pública, a invalidade de cláusulas contratuais que pretendam impedir a transferência sem pagamento ou a revenda por valor que não ultrapasse o preço original.
É um desenho diferente da simples intransferibilidade. A pessoa continua podendo devolver valor ao ingresso que não utilizará, mas a legislação tenta retirar o lucro da operação.
Não podemos afirmar que a Irlanda resolveu o cambismo. O governo publicou em 2022 um relatório posterior à entrada em vigor da lei, mas a documentação localizada nesta pesquisa não fornece uma avaliação causal robusta capaz de demonstrar quanto a revenda irregular diminuiu depois da mudança.
A ausência desse resultado é importante porque revela uma dificuldade que se repete em diferentes países: desenhar uma regra é relativamente simples, medir o que os vendedores fazem depois dela é muito mais complicado.
O Reino Unido enfrenta atualmente a mesma questão. O governo utiliza estimativas do mercado secundário e trabalha com modelos que precisam assumir como as vendas se distribuem entre plataformas com e sem limites de preço e outros canais. Na nota analítica mais recente, por exemplo, parte relevante da distribuição entre canais é explicitamente tratada como hipótese de modelagem, e não como observação direta de todas as transações.
Os clubes sabem encontrar mais irregularidades. Isso não mede o tamanho do mercado
Os números divulgados pelos grandes clubes mostram como a fiscalização ganhou escala. O Chelsea afirma ter bloqueado dezenas de milhares de bots em determinadas operações de venda e suspendido milhares de memberships. O Manchester United investigou mais de 1.600 contas em uma operação recente e aplicou diferentes níveis de sanção. O Corinthians identificou milhares de cadastros e ingressos suspeitos em um único clássico.
Esses dados têm valor, mas precisam ser interpretados pelo que efetivamente medem.
Se um clube passa de dez mil para cinquenta mil bots bloqueados, isso pode significar que o sistema ficou melhor em detectá-los. Pode significar que houve mais tentativas automatizadas. Pode significar as duas coisas ao mesmo tempo. O número de bloqueios, isoladamente, não informa quanto do mercado irregular deixou de existir.
A mesma dificuldade aparece quando a barreira altera o comportamento dos vendedores. Uma política pode efetivamente reduzir o cambismo presencial e, simultaneamente, deslocar uma parcela para canais digitais menos visíveis. Pode aumentar tanto o custo da operação que vendedores ocasionais desistam, mas deixar espaço para grupos mais estruturados. Também pode reduzir o mercado como um todo.
Sem acompanhar os diferentes canais antes e depois da intervenção, essas hipóteses não podem ser distinguidas.
Na pesquisa utilizada para este artigo, foram localizados dados de fiscalização dos clubes, processos criminais, estatísticas sobre plataformas secundárias, legislação e avaliações institucionais. Não foi encontrada uma série pública, independente e comparável que permita medir, no futebol, a evolução conjunta da parcela de ingressos revendidos irregularmente em todos esses canais antes e depois da adoção de biometria facial, sistemas antibot ou políticas equivalentes.
Por isso, também não há base para afirmar que essas ferramentas fracassaram.
O que pode ser demonstrado é mais específico. A biometria dificulta determinadas formas de transferência e amplia a identificação no acesso. Sistemas antifraude detectam padrões suspeitos. Ferramentas antibot impedem determinadas compras automatizadas. Investigações internas conseguem encontrar desvios e participação de funcionários. A legislação aumenta o risco jurídico da revenda acima do preço oficial.
Cada barreira atua sobre uma parte do problema. O resultado agregado continua muito mais difícil de medir.
O cambismo continua, mas não necessariamente da mesma forma
A experiência recente do Corinthians resume bem essa complexidade. Em poucos meses apareceram ofertas de ingressos em WhatsApp e Instagram por mais de dez vezes o preço oficial, adoção de biometria facial, uma fraude que explorava o próprio processo de cadastramento, irregularidades com participação de funcionários e, posteriormente, milhares de cadastros e ingressos classificados como suspeitos pelo sistema antifraude.
Não é possível transformar essa sequência em uma estatística de aumento ou redução do cambismo. Ela mostra que o problema possui múltiplas portas de entrada e que fechar uma delas não equivale automaticamente a fechar as demais.
Essa característica também explica por que soluções aparentemente definitivas raramente são suficientes. Reconhecimento facial controla quem se apresenta na catraca, mas não necessariamente toda a cadeia anterior da compra. Bloquear bots dificulta aquisição automatizada, mas não impede acesso privilegiado obtido por outros meios. Tornar o ingresso nominal aumenta rastreabilidade, mas não revela automaticamente se houve pagamento paralelo. Permitir transferência oficial resolve o problema do torcedor que não poderá comparecer, mas exige outros mecanismos para impedir que essa transferência seja monetizada clandestinamente.
Existe ainda um incentivo econômico que não desaparece com a tecnologia. Em partidas nas quais a procura é muito superior à oferta e alguns torcedores aceitam pagar acima do preço oficial, existe valor potencial a ser capturado por intermediários. Quanto mais eficazes forem as barreiras, maior pode ser o custo necessário para tentar capturar essa diferença, o que pode alterar quem participa desse mercado.
O efeito final pode ser redução, deslocamento ou mudança de composição. Hoje, os dados públicos disponíveis são muito melhores para mostrar a intensidade da fiscalização do que para distinguir entre esses três resultados.
Esse é o limite mais importante de qualquer afirmação sobre o sucesso ou fracasso do combate ao cambismo. Clubes já conseguem saber muito mais sobre quem compra, quem entra, quais contas apresentam padrões incomuns e quantas tentativas automatizadas atingem seus sistemas. Ainda sabemos pouco, de maneira comparável e independente, sobre quantos ingressos continuam chegando ao mercado irregular depois que todas essas barreiras são aplicadas.
O cambismo pode estar menor, pode estar migrando ou pode estar se tornando mais profissionalizado. Os casos documentados mostram que ele continua encontrando canais para operar. O que falta é uma métrica capaz de dizer qual dessas transformações está prevalecendo.

