A história dos laterais – O eterno conflito entre criatividade e controle

chatgpt image 4 de jun. de 2026, 12 23 00

A história do futebol também pode ser lida pelas margens do campo. Durante muito tempo, enquanto o meio-campo concentrava o choque físico, a vigilância dos zagueiros e a presença dos volantes, os lados ofereciam outra lógica. Havia ali mais espaço, mais tempo e mais liberdade para que o talento respirasse. Foi nesse território, entre a linha lateral e a necessidade de atacar, que o futebol brasileiro construiu uma de suas assinaturas mais reconhecíveis: transformou defensores em jogadores de criação, laterais em armas ofensivas, marcadores em quase pontas.

Essa interpretação não surgiu por acaso. Ela combinava com um futebol formado em ambientes menos rígidos, mais abertos à improvisação e menos preso à obediência formal das funções. O lateral brasileiro clássico não era admirado apenas por cumprir sua posição. Era admirado justamente quando a ultrapassava. Atacava o espaço, entrava por dentro, chegava à linha de fundo, cruzava, finalizava e, muitas vezes, oferecia ao jogo aquilo que o sistema ainda não havia previsto.

O futebol contemporâneo, porém, passou a exigir outra coisa. Durante grande parte de sua história, o lateral europeu clássico era valorizado principalmente pela solidez defensiva e pela capacidade de cumprir sua função sem comprometer o equilíbrio coletivo da equipe. O jogo moderno não eliminou essas exigências. Pelo contrário. Manteve-as e adicionou novas responsabilidades.

Hoje, os laterais precisam defender como sempre defenderam, mas também participar da construção, oferecer amplitude, pressionar alto, acelerar transições e contribuir para a criação ofensiva. Em muitos sistemas, são responsáveis por tarefas que antes estavam distribuídas entre zagueiros, meio-campistas e pontas.

O resultado é uma posição que se tornou muito mais complexa do que era no passado. O lateral contemporâneo continua sendo cobrado por sua capacidade de defender. A diferença é que agora também precisa criar.

Diante dessa transformação, a pergunta central não é apenas como os laterais mudaram. A questão mais importante é outra: como uma posição que se tornou símbolo da criatividade e da espontaneidade do futebol brasileiro passou a ser cada vez mais moldada, no próprio Brasil, pela lógica do controle, da previsibilidade e da organização coletiva?

Esse paradoxo revela algo que vai além da tática. Mostra como o futebol moderno passou a conviver com uma tensão permanente: precisa da criatividade para desequilibrar jogos, mas tenta submetê-la a modelos cada vez mais controlados. A trajetória dos laterais talvez seja uma das formas mais claras de observar essa disputa entre liberdade e ordem, improvisação e sistema, talento e controle.

A posição que nasceu para defender

Durante grande parte da história do futebol, a função do lateral era muito mais simples do que hoje. Nos primeiros sistemas táticos, sua responsabilidade principal não era criar, construir ou acelerar ataques. Era impedir que o adversário avançasse.

No tradicional 2-3-5 que dominou as primeiras décadas do esporte, os chamados full-backs formavam a última linha de jogadores à frente do goleiro. Atuavam como defensores puros. Seu trabalho consistia em marcar, desarmar e afastar o perigo. O futebol da época ainda não exigia que um defensor participasse da construção ofensiva ou contribuísse para a circulação da posse de bola. As funções eram claramente separadas: alguns jogadores protegiam o próprio gol, outros tinham a responsabilidade de atacar.

Essa lógica se fortaleceu após a mudança da regra do impedimento em 1925. A alteração obrigou as equipes a reorganizarem suas estruturas defensivas e abriu caminho para a popularização do sistema WM, associado ao trabalho de Herbert Chapman no Arsenal. Nesse novo desenho, o antigo meio-campista central recuava para reforçar a defesa, enquanto os defensores passaram a ocupar zonas mais definidas pelos lados do campo.

Apesar das mudanças estruturais, a interpretação da função permanecia essencialmente a mesma. O lateral continuava sendo visto como um jogador de contenção. Sua missão era fechar espaços, controlar os extremos do ataque adversário e oferecer segurança à equipe. Avançar excessivamente pelo campo não era considerado uma virtude. Em muitos contextos, era visto como um risco desnecessário.

O futebol daquela época estabelecia uma fronteira relativamente clara entre quem defendia e quem criava. Os defensores protegiam. Os atacantes atacavam. Os meio-campistas conectavam os dois mundos. Poucos imaginavam que uma das posições mais associadas à disciplina defensiva acabaria se transformando, décadas depois, em uma das funções mais criativas e influentes do jogo.

Mas foi exatamente isso que aconteceu.

Quando os defensores brasileiros começaram a atacar

Em algum momento da história do futebol, os laterais deixaram de apenas impedir jogadas e passaram a criá-las. Essa transformação não ocorreu de uma vez nem nasceu de uma teoria revolucionária. Ela surgiu gradualmente, à medida que alguns jogadores começaram a interpretar a posição de forma diferente daquela prevista pelos manuais da época.

Nenhum deles simboliza melhor essa mudança do que Nílton Santos.

Na Copa do Mundo de 1958, durante a vitória brasileira sobre a Áustria, o lateral-esquerdo saiu desde o campo de defesa, avançou pelo lado do campo e marcou um dos gols da partida. O lance se tornou célebre não apenas pela execução técnica, mas pelo que representava. A versão mais conhecida da história conta que, enquanto avançava, Vicente Feola gritava do banco: “Volta, Nilton! Volta!”. Não sabemos se essas foram exatamente as palavras ditas naquele momento ou se parte da cena foi lapidada pelo folclore do futebol ao longo das décadas. Mas a força da narrativa está menos na precisão literal da frase do que no que ela simboliza. Verdadeira ou não nos detalhes, ela representa perfeitamente a atitude de Nílton Santos: um defensor aparecendo em uma região do campo onde, para os padrões da época, simplesmente não deveria estar.

O episódio costuma ser lembrado como uma demonstração de talento individual. Mas talvez seja mais interessante observá-lo como um sinal de uma mudança mais profunda. Nílton Santos ajudava a mostrar que o lateral podia ser mais do que um marcador posicionado próximo à própria área. Podia participar da construção, criar superioridade numérica e transformar uma posição defensiva em uma fonte adicional de ataque.

A partir dali, uma interpretação diferente da função começou a ganhar força no futebol brasileiro. O corredor lateral deixou de ser apenas uma região de contenção e passou a ser visto como um espaço de criação. O lateral não precisava esperar que o jogo chegasse até ele. Podia interferir diretamente no desenvolvimento da jogada.

Essa transformação encontrou terreno fértil em uma cultura futebolística que historicamente valorizava iniciativa, improvisação e liberdade de movimento. Enquanto grande parte do futebol europeu ainda enxergava o lateral principalmente como um defensor que ocasionalmente apoiava o ataque, o Brasil passou a produzir jogadores que utilizavam a posição para gerar desequilíbrios ofensivos.

Mais do que revelar um novo tipo de jogador, essa mudança ampliou as possibilidades da própria função. O lateral deixava de ser apenas um executor de tarefas defensivas. Começava a se tornar uma peça capaz de alterar a dinâmica do jogo.

A criatividade nasce onde existe espaço para improvisar

A transformação do lateral no futebol brasileiro não pode ser explicada apenas pela tática. Ela também ajuda a revelar algo sobre os ambientes em que diferentes culturas aprendem a jogar futebol.

Durante grande parte do século XX, a formação de jogadores no Brasil aconteceu longe dos centros de treinamento modernos. O aprendizado ocorria em campos de várzea, ruas, terrenos improvisados e espaços onde quase nada era padronizado. As dimensões mudavam, os times mudavam, o piso mudava e, muitas vezes, as próprias regras eram adaptadas às circunstâncias do momento.

Nesses ambientes, a principal habilidade não era reproduzir movimentos previamente treinados, era resolver problemas. O jogador precisava interpretar situações novas o tempo inteiro, improvisar soluções e adaptar seu comportamento às condições que encontrava. A criatividade não aparecia como um complemento do jogo, era uma necessidade prática de sobrevivência.

Alguns intérpretes da sociedade brasileira ajudam a observar esse fenômeno por outro ângulo. Em Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda identificou a força histórica das relações pessoais e dos vínculos concretos na formação social brasileira, frequentemente em tensão com estruturas impessoais e modelos formais de organização. Roberto DaMatta, por sua vez, explorou como a sociedade brasileira desenvolve mecanismos de negociação, adaptação e flexibilidade diante das limitações impostas pelas regras abstratas e pelas instituições formais.

Nenhum desses autores estava explicando futebol. Ainda assim, suas reflexões oferecem uma lente interessante para observar a forma como o jogo foi historicamente praticado no país. Afinal, o futebol não existe isolado da sociedade que o produz. Ele absorve valores, comportamentos, formas de organização e maneiras de resolver problemas que também se manifestam fora das quatro linhas.

O futebol brasileiro sempre pareceu relativamente confortável com a improvisação. Durante décadas, muitos de seus jogadores mais admirados foram justamente aqueles capazes de encontrar soluções que o desenho original da jogada não previa. Não por desrespeitarem o sistema, mas por conseguirem enxergar possibilidades que o sistema ainda não havia identificado.

Nesse contexto, não é difícil entender por que a posição de lateral encontrou no Brasil uma interpretação tão particular. Enquanto em muitos lugares a função permanecia associada à disciplina defensiva, o futebol brasileiro passou a enxergá-la como uma oportunidade adicional de criação. O lateral deixava de ser apenas um guardião do corredor e passava a ser mais um agente de desequilíbrio.

Talvez por isso os grandes laterais brasileiros raramente tenham sido lembrados apenas por sua capacidade de marcar. Eles ficaram na memória pela habilidade de expandir os limites da própria posição, transformando uma função originalmente defensiva em uma função de desequilíbrio.

O país que transformou defensores em atacantes

A mudança iniciada por Nílton Santos não ficou restrita a um jogador ou a uma geração. Com o passar das décadas, ela se transformou em uma verdadeira escola de interpretação da posição.

Enquanto grande parte da Europa continuava formando laterais cuja principal responsabilidade era defender, o Brasil passou a produzir jogadores que utilizavam o corredor lateral do campo como plataforma ofensiva. A posição deixou de ser definida apenas pela função defensiva e passou a atrair atletas com qualidades técnicas cada vez mais sofisticadas.

A consolidação dessa transformação ficou evidente na Seleção Brasileira campeã do mundo em 1970. Capitão daquela equipe, Carlos Alberto Torres talvez tenha sido o exemplo mais visível de uma nova forma de enxergar a função. Seu famoso gol na final contra a Itália não foi apenas uma bela conclusão coletiva. Foi também a imagem de um lateral aparecendo como elemento decisivo na construção ofensiva de uma das maiores equipes da história do futebol. Na mesma geração, Marinho Chagas ajudaria a ampliar ainda mais os limites da posição, tornando-se referência pela capacidade de atacar, conduzir e participar ativamente do jogo ofensivo.

Nos anos 1980, Júnior e Leandro representaram o amadurecimento definitivo dessa escola. Ambos possuíam qualidade de passe, leitura de jogo e capacidade de construção normalmente associadas aos meio-campistas mais criativos da época. Não eram apenas jogadores que apoiavam o ataque. Participavam diretamente da organização ofensiva de suas equipes.

Nas décadas seguintes, essa escola continuou produzindo jogadores de altíssimo nível. Jorginho e Branco foram campeões do mundo em 1994. Leonardo combinava refinamento técnico e versatilidade raramente vistos na posição. Serginho destacou-se no Milan pela capacidade de percorrer todo o corredor esquerdo e participar ativamente do jogo ofensivo. Maicon levou potência física, velocidade e condução de bola a um novo patamar, tornando-se uma das principais armas da Inter de Milão de José Mourinho. A lista é extensa e atravessa diferentes gerações, estilos e contextos. Em comum, todos ajudaram a reforçar uma característica recorrente do futebol brasileiro: a expectativa de que o lateral fosse muito mais do que um simples defensor.

Mas foram Cafu e Roberto Carlos que transformaram essa tradição em um padrão global. Cafu levou a ideia do lateral de alta intensidade ao limite, combinando resistência física, profundidade ofensiva e presença constante defensiva e ofensiva. Roberto Carlos, por sua vez, redefiniu o potencial ofensivo da posição. Sua velocidade, potência de finalização e capacidade de desequilibrar partidas fizeram com que um lateral passasse a ser visto como uma das principais armas de ataque de uma equipe.

Anos depois, Daniel Alves e Marcelo ampliariam novamente as fronteiras da função. Daniel Alves aproximou o lateral do organizador de jogo. Em muitos momentos, atuava quase como um meio-campista adicional, participando da circulação da bola, da construção ofensiva e da criação. Marcelo seguiu um caminho diferente. Sua capacidade técnica, criatividade e liberdade de movimentação fizeram dele uma espécie de armador partindo da lateral esquerda. Em diversas partidas, parecia mais próximo de um camisa 10 do que da imagem tradicional de um defensor.

Se Cafu e Roberto Carlos haviam levado a posição para mais perto do ataque, Daniel Alves e Marcelo ajudaram a levá-la para mais perto do centro intelectual do jogo. O lateral deixava de ser apenas uma opção de profundidade pelos corredores. Passava a participar diretamente da organização, da criação e das decisões que determinavam para onde o jogo iria se desenvolver.

Em poucas posições do futebol existe uma linha evolutiva tão clara. O lateral brasileiro deixou de ser apenas um defensor que apoiava o ataque. Tornou-se, em diferentes momentos, corredor, atacante, construtor e organizador.

Ao longo de mais de meio século, o futebol brasileiro produziu uma sequência impressionante de laterais que combinavam atributos tradicionalmente distribuídos entre diferentes posições. Defendiam quando necessário, mas eram lembrados principalmente por aquilo que criavam. O lateral brasileiro tornou-se uma das expressões mais visíveis da ideia de que um defensor também podia ser protagonista.

O momento em que o futebol ficou pequeno

Enquanto o futebol brasileiro expandia as possibilidades da posição, o próprio jogo passava por uma transformação silenciosa.

Ao longo das últimas décadas, as equipes tornaram-se mais compactas, mais coordenadas e mais eficientes na ocupação dos espaços. Influenciados por treinadores como Arrigo Sacchi e posteriormente desenvolvidos por técnicos como Pep Guardiola e Jürgen Klopp, conceitos como pressão alta, compactação e pressão pós-perda alteraram profundamente a geografia do campo.

O futebol não encolheu fisicamente. Mas os espaços disponíveis para jogar diminuíram.

As distâncias entre setores foram reduzidas. As linhas passaram a se mover de forma mais sincronizada. O tempo disponível para decidir caiu drasticamente. Em muitos contextos, o meio-campo transformou-se em uma região congestionada, onde cada metro passou a ser disputado por vários jogadores ao mesmo tempo.

Essa mudança produziu uma consequência importante para a evolução dos laterais.

À medida que os espaços centrais se tornavam mais difíceis de explorar, os corredores laterais ganharam valor estratégico. Os lados do campo deixaram de ser apenas áreas de apoio para se tornarem ferramentas fundamentais na criação de espaço e na desorganização das defesas adversárias.

O lateral passou a exercer uma função cada vez mais relevante nesse processo. Já não era apenas o jogador que acompanhava a jogada pelo corredor. Tornava-se uma peça essencial para ampliar o campo, oferecer linhas de passe, criar superioridade numérica e ajudar a abrir espaços onde antes não existiam.

Paradoxalmente, quanto mais organizado o futebol se tornou, mais importante se tornou a posição que durante décadas havia sido associada à liberdade de movimento.

Quando a Europa absorveu algumas ideias brasileiras

A história da evolução dos laterais costuma ser contada como mais um capítulo da influência europeia sobre o futebol mundial. Mas, nesse caso, a direção do fluxo foi mais complexa.

Durante décadas, o futebol brasileiro ajudou a demonstrar que os laterais podiam exercer funções muito mais amplas do que simplesmente defender. A utilização ofensiva dos corredores, a participação constante na construção e a liberdade para influenciar o ataque deixaram de ser características exóticas para se tornarem componentes cada vez mais valorizados do jogo moderno.

Naturalmente, essas ideias passaram a ser incorporadas, refinadas e adaptadas por diferentes escolas europeias.

Jogadores como Philipp Lahm, Joshua Kimmich, Trent Alexander-Arnold e Andrew Robertson passaram a ocupar posições centrais nos mecanismos ofensivos de suas equipes. Em muitos casos, os laterais deixaram de ser participantes periféricos da construção para se tornarem alguns dos principais organizadores do jogo.

A diferença estava menos na intenção e mais no método. O que durante muito tempo havia surgido no Brasil através da interpretação individual dos jogadores passou a ser integrado a estruturas coletivas cuidadosamente planejadas. Movimentos antes associados à liberdade criativa começaram a ser incorporados aos modelos táticos de forma sistemática.

Não se tratava de copiar jogadores brasileiros. Tratava-se de absorver uma ideia que o futebol brasileiro havia ajudado a popularizar: a de que um lateral podia ser muito mais do que um defensor.

Quando o Brasil começou a copiar a Europa

É justamente nesse ponto que surge o principal paradoxo desta história.

Enquanto o restante do mundo passava a valorizar características que haviam ajudado a tornar os laterais brasileiros tão influentes, o próprio futebol brasileiro começava a mudar seus critérios de formação.

A crescente globalização do futebol aproximou metodologias, acelerou a circulação de informações e aumentou a influência dos modelos europeus sobre as categorias de base. Ao mesmo tempo, o jogo tornou-se mais intenso, mais veloz e mais dependente de coordenação coletiva. Nesse ambiente, o custo do erro aumentou.

Uma perda de bola em uma zona perigosa, um avanço sem cobertura adequada ou uma decisão equivocada na saída de jogo passaram a gerar consequências cada vez mais severas. Quanto mais integrado se torna um sistema, mais sensível ele se torna a falhas individuais.

Não surpreende, portanto, que muitos processos de formação tenham começado a valorizar atributos diferentes daqueles que haviam marcado gerações anteriores. Disciplina posicional, capacidade defensiva, comportamento sem bola e execução tática passaram a receber atenção crescente.

A mudança não aconteceu porque o futebol brasileiro deixou de valorizar a criatividade. Ela aconteceu porque o jogo passou a punir o risco com muito mais intensidade. Mas toda escolha produz consequências.

Ao tentar reduzir a exposição ao erro, grande parte da formação passou a privilegiar a segurança. E, em alguns contextos, isso significou reduzir justamente a liberdade que ajudou a tornar o lateral brasileiro uma referência mundial.

A posição mais contraditória do futebol moderno

Talvez nenhuma posição revele melhor as contradições do futebol contemporâneo do que a lateral.

O jogo moderno exige que esses jogadores acumulem responsabilidades que, em outras épocas, estavam distribuídas entre diferentes funções. O lateral precisa defender em campo aberto contra extremos velozes, proteger a própria área, participar da construção sob pressão, oferecer amplitude, atacar espaços, acelerar transições e sustentar fisicamente um volume de deslocamentos que poucos jogadores enfrentam. Em muitos momentos, ele é solicitado a atuar como defensor, meio-campista e atacante dentro da mesma partida.

Essa transformação ajuda a explicar uma reclamação recorrente entre os torcedores e imprensa esportiva: a aparente escassez de grandes laterais.

O problema não parece ser uma falta repentina de talento. A questão é que a própria função se tornou extraordinariamente difícil.

Nas categorias de base, jogadores com grande qualidade técnica frequentemente são deslocados para posições mais centrais ou mais avançadas, onde seu talento pode gerar impacto ofensivo direto. Atletas com características mais defensivas muitas vezes acabam direcionados para a zaga ou para volantes. A lateral passou a exigir uma combinação rara de atributos físicos, técnicos, cognitivos e táticos. Poucas posições demandam tantas competências simultaneamente.

Talvez por isso os grandes laterais continuem sendo tão valorizados no mercado internacional. Não porque sejam escassos por acaso, mas porque representam um dos perfis mais difíceis de formar no futebol moderno.

A posição que nasceu para defender tornou-se uma das mais complexas do esporte.

Talvez seja por isso que a história dos laterais vá muito além da evolução de uma posição. Ela revela uma tensão permanente que atravessa todo o futebol moderno: a necessidade de equilibrar criatividade e controle, liberdade e coordenação, improvisação e estrutura.

A pergunta não é qual dessas forças vencerá.

A pergunta é quanto de criatividade um sistema consegue absorver antes de deixar de produzir justamente aquilo que o tornou especial.

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