Há um papel particularmente ingrato na história da humanidade: o daquele que chega trazendo uma notícia que ninguém deseja ouvir. Desde a Antiguidade, mensageiros foram desprezados, perseguidos e, em alguns casos, mortos não por terem provocado a tragédia, mas simplesmente por terem sido os primeiros a anunciá-la. A reação é compreensível. É mais confortável eliminar quem comunica a realidade do que enfrentar a própria realidade.
Escrever este artigo me coloca exatamente nessa posição.
Depois da eliminação traumática do Brasil na Copa do Mundo, uma velha discussão voltou a ocupar programas esportivos, redes sociais e conversas entre torcedores: por que o Brasil não produz mais jogadores com as características que fizeram do futebol brasileiro uma referência mundial? As respostas apresentadas são quase sempre as mesmas. Falta um treinador melhor. A CBF precisa mudar. É necessário reformular as categorias de base. Em poucos dias surgem dezenas de culpados e centenas de soluções aparentemente simples.
Gostaria muito de acreditar que o problema fosse esse.
Seria reconfortante imaginar que bastaria substituir algumas pessoas, alterar alguns métodos ou reorganizar uma instituição para que voltássemos a produzir, com a mesma frequência de antes, gerações inteiras de jogadores extraordinários. Infelizmente, suspeito que a realidade seja bem menos otimista.
Não acredito que o Brasil deixará de revelar grandes jogadores. Continuaremos formando excelentes atletas, exportando talentos para os principais centros do futebol mundial e, muito provavelmente, ainda veremos surgir, de tempos em tempos, algum jogador capaz de figurar entre os melhores do planeta. O Brasil permanece sendo o maior exportador de jogadores do mundo. Levantamento do CIES Football Observatory publicado em 2026 mostra que o país possui 1.455 jogadores atuando no exterior, número superior ao de qualquer outra nação. Isso demonstra que nossa capacidade de formar atletas continua extremamente elevada.
A questão, portanto, não é essa.
O que acredito que esteja desaparecendo não é a capacidade de revelar jogadores profissionais. É a capacidade de produzir, de maneira recorrente, uma quantidade extraordinária de jogadores extraordinários.
Durante décadas, parecia quase natural que o Brasil tivesse simultaneamente um dos melhores goleiros do mundo, vários zagueiros de elite, laterais revolucionários, meio-campistas criativos e atacantes capazes de decidir qualquer partida. Não era um fenômeno isolado. Era uma sequência histórica que atravessava gerações quase sem interrupção. Hoje, esperamos ansiosamente pelo aparecimento de um único craque que carregue a responsabilidade de representar sozinho toda uma tradição construída ao longo de quase um século.
Essa diferença é fundamental.
Não estamos discutindo a existência de talento. Estamos discutindo a abundância dele. E abundância não costuma ser fruto do acaso. Ela normalmente é consequência de um ambiente extremamente específico.
É justamente aqui que talvez esteja a notícia que ninguém deseja ouvir.
Talvez o ambiente que produziu aquela abundância simplesmente não exista mais.
A fábrica mudou
O grande problema dos debates sobre futebol é que eles costumam tratar fenômenos estruturais como se fossem consequência de decisões individuais. Sempre que a Seleção Brasileira fracassa, inicia-se uma busca quase compulsiva por responsáveis. Passado algum tempo, uma nova decepção reinicia exatamente o mesmo ciclo.
Existe, porém, uma hipótese muito mais desconfortável: e se estivermos tentando trazer de volta uma flecha que já foi lançada?
Os grandes jogadores brasileiros não surgiram apenas porque o país possuía talento natural. Essa explicação, além de simplista, ignora praticamente tudo o que as ciências sociais e a própria história do esporte nos ensinam sobre formação de excelência. Talento importa, evidentemente, mas talento sem ambiente dificilmente floresce. Nenhuma sociedade produz sistematicamente artistas, cientistas, empreendedores ou atletas extraordinários apenas por alguma característica genética coletiva. O que produz abundância é um conjunto de condições culturais, econômicas e sociais que, durante determinado período histórico, favorece o desenvolvimento daquele tipo específico de habilidade.
Foi exatamente isso que aconteceu com o futebol brasileiro.
Durante boa parte do século XX, milhões de crianças cresceram em um ambiente no qual a bola ocupava um espaço central na vida cotidiana. Não se tratava apenas da popularidade do esporte. O futebol era, para uma parcela enorme da população, uma das principais formas de lazer, convivência e afirmação social. As crianças jogavam na rua, em terrenos baldios, nas praias, nos campos de várzea e em qualquer espaço disponível. Jogavam sem treinador, sem pais organizando as equipes, sem árbitro, sem uniforme e, muitas vezes, sem sequer possuir uma bola apropriada. Aprendiam resolvendo problemas por conta própria, improvisando regras, negociando conflitos e adaptando constantemente seus movimentos às imperfeições do terreno, ao número variável de participantes e às diferenças de idade entre os jogadores.
Esse ambiente produzia algo difícil de reproduzir artificialmente: milhares de horas de prática espontânea.
A literatura científica sobre desenvolvimento de expertise mostra, há décadas, que a quantidade e a qualidade da prática desempenham papel decisivo na formação de desempenhos excepcionais. Mais recentemente, pesquisadores passaram a diferenciar a prática deliberada, estruturada e orientada por treinadores, da chamada prática não estruturada, caracterizada pelo jogo espontâneo, pela experimentação e pela autonomia do praticante. Diversos estudos sobre desenvolvimento de atletas apontam que essa combinação entre treinamento formal e jogo livre parece especialmente relevante nos esportes coletivos, justamente porque amplia a criatividade, a capacidade de adaptação e a tomada de decisão sob condições imprevisíveis.
Não por acaso, diversos dos maiores jogadores brasileiros descrevem infâncias marcadas muito mais por peladas intermináveis do que por sessões organizadas de treinamento.
O ponto central, entretanto, é que esse ambiente não desapareceu porque alguém decidiu acabar com ele. Ele foi sendo lentamente transformado pelas próprias mudanças da sociedade brasileira.
O país tornou-se majoritariamente urbano. A violência alterou profundamente a relação das famílias com os espaços públicos. O trânsito ocupou ruas que antes serviam como extensão natural das brincadeiras infantis. Condomínios substituíram bairros abertos. O tempo das crianças passou a ser distribuído entre escola, cursos, atividades supervisionadas e, mais recentemente, dispositivos digitais capazes de disputar sua atenção durante horas.
Os números ajudam a compreender a dimensão dessa transformação. Segundo o IBGE, quase 90% dos brasileiros com dez anos ou mais possuem telefone celular para uso pessoal, enquanto mais de 93% dos domicílios têm acesso à internet. Entre crianças e adolescentes de nove a dezessete anos, a pesquisa TIC Kids Online mostra que praticamente a totalidade já utiliza a internet regularmente, e uma parcela crescente inicia esse contato ainda na primeira infância. Esses dados não demonstram que a tecnologia seja inimiga do futebol. Demonstram apenas que a infância brasileira de 2026 é profundamente diferente daquela vivida pelas gerações que formaram jogadores como Zico, Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho ou Rivaldo.
E não existe qualquer sociedade que permaneça produzindo exatamente os mesmos resultados depois que suas condições de origem são profundamente modificadas.
O erro talvez esteja justamente na expectativa. Continuamos esperando que o Brasil do século XXI produza jogadores como se ainda fosse o Brasil das décadas de 1970, 1980 ou 1990. Esperamos o mesmo produto, embora a matéria-prima social tenha mudado quase por completo. A história, porém, raramente faz esse tipo de concessão.
Os incentivos também mudaram
Se as transformações culturais ajudam a explicar por que o ambiente de formação deixou de ser o mesmo, elas não são suficientes para compreender toda a mudança. O futebol brasileiro também passou por uma profunda alteração em sua lógica econômica. E, como quase sempre acontece, quando os incentivos mudam, o comportamento das pessoas muda junto.
Um dos equívocos mais comuns após cada fracasso da Seleção é atribuir à CBF a responsabilidade pela formação de jogadores. Essa ideia é intuitiva, mas institucionalmente incorreta. A Confederação organiza competições, administra a seleção nacional e exerce funções regulatórias sobre o futebol brasileiro. Quem forma atletas são os clubes. São eles que investem em centros de treinamento, categorias de base, captação, alojamentos, profissionais especializados e desenvolvimento esportivo. São eles que assumem o risco financeiro de acompanhar milhares de jovens sabendo que apenas uma pequena parcela chegará ao futebol profissional.
Naturalmente, esses clubes tomam decisões de acordo com seus próprios objetivos.
E o principal objetivo de um clube de futebol não é formar jogadores para a Seleção Brasileira. Seu compromisso é consigo mesmo: vencer competições, fortalecer seu patrimônio esportivo e gerar receitas que garantam sua sustentabilidade. Em um mercado globalizado, revelar um atleta capaz de ser negociado com um grande clube europeu pode representar dezenas ou até centenas de milhões de reais. Sob essa perspectiva, a convocação para a seleção é muito mais uma consequência do sucesso esportivo do que a finalidade do processo de formação.
Essa mudança de incentivos não ocorreu apenas do lado dos clubes. Ela também alcançou os próprios jogadores.
Durante boa parte do século XX, vestir a camisa da Seleção Brasileira representava o ponto mais alto da carreira. A Copa do Mundo era o maior palco do futebol e, para muitos atletas, a realização máxima de uma trajetória iniciada ainda na infância. Hoje, embora representar o Brasil continue sendo motivo de orgulho, a estrutura econômica do futebol deslocou o centro de gravidade da carreira para os grandes clubes europeus.
Não se trata de uma questão de patriotismo. Trata-se de uma consequência natural da organização contemporânea da indústria do futebol.
É nos grandes clubes europeus que estão concentradas as maiores receitas, os melhores elencos, a maior exposição internacional, os contratos de patrocínio mais valiosos, as principais competições interclubes e, naturalmente, as maiores remunerações. Para um jovem atleta, consolidar-se em clubes como Real Madrid, Manchester City ou Liverpool representa não apenas prestígio esportivo, mas estabilidade financeira, reconhecimento global e acesso ao mais alto nível competitivo durante toda a temporada.
Seria estranho imaginar que essa realidade não influenciasse os sonhos das novas gerações.
Os incentivos moldam comportamentos em qualquer atividade humana. Um pesquisador adapta suas linhas de investigação aos critérios de financiamento. Empresas respondem às preferências dos consumidores. Universidades reorganizam seus cursos conforme as demandas do mercado. Não existe razão para acreditar que o futebol funcionaria de maneira diferente.
Por isso, esperar que clubes organizem suas categorias de base pensando prioritariamente nas necessidades futuras da Seleção Brasileira talvez seja exigir de uma instituição um objetivo que nunca foi verdadeiramente seu. A seleção nacional depende dos clubes muito mais do que os clubes dependem da seleção. Eles continuarão formando atletas porque isso faz sentido para seus próprios modelos de negócio, independentemente de quantos deles disputarão uma Copa do Mundo.
Talvez essa seja uma das mudanças mais difíceis de aceitar para quem cresceu em um período em que seleção e futebol brasileiro pareciam quase sinônimos. Hoje, eles continuam profundamente conectados, mas já não compartilham exatamente os mesmos interesses. A internacionalização do mercado fez com que o sucesso individual dos jogadores e o sucesso coletivo da seleção passassem a seguir lógicas que nem sempre convergem.
E isso não é fruto de incompetência, má vontade ou falta de compromisso. É apenas o funcionamento normal de um sistema cujos incentivos deixaram de ser aqueles que conhecíamos.
Nossa interpretação sobre Maquiavel explica nossa realidade
Existe uma razão pela qual notícias como essa costumam provocar tanta resistência. Elas nos obrigam a admitir que nem toda perda pode ser revertida por esforço, vontade política ou competência administrativa. Algumas transformações não decorrem de erros. Decorrem da própria passagem da história.
Ao longo dos séculos, diversas sociedades experimentaram esse mesmo sentimento. Veneza deixou de ser o grande centro do comércio mediterrâneo. Portugal perdeu a liderança das grandes navegações. O Reino Unido deixou de ser a oficina industrial do mundo. Nenhum desses processos pode ser explicado por uma única decisão equivocada, por um governante incompetente ou por uma instituição específica. As circunstâncias mudaram, novos centros de poder surgiram, os incentivos econômicos foram reorganizados e aquilo que durante muito tempo pareceu permanente revelou-se apenas uma característica de uma determinada época.
Talvez estejamos diante de um fenômeno semelhante no futebol brasileiro.
Isso não significa que o Brasil deixará de ser relevante. Muito menos que esteja condenado à irrelevância esportiva. A história do futebol dificilmente permitirá que um país com a tradição e cultura futebolística brasileira desapareça do cenário internacional.
O que talvez precise desaparecer é outra coisa: a expectativa de que o futuro reproduza, quase mecanicamente, o passado.
Existe uma tendência muito humana de interpretar a história como uma sequência de ciclos inevitáveis. Quando atravessamos um período ruim, repetimos que “uma hora voltaremos”. Mas a história não conhece esse compromisso. Ela não devolve ambientes sociais apenas porque sentimos saudade deles. Ela não recria contextos culturais porque gostaríamos de reviver uma determinada época.
É justamente por isso que sempre me chamou atenção a maneira como tratamos Nicolau Maquiavel. Poucos autores tiveram seu nome tão distorcido pela linguagem cotidiana. “Maquiavélico” tornou-se sinônimo de perversidade, manipulação ou ausência de princípios. No entanto, quem lê sua obra encontra algo bastante diferente. Mais do que ensinar como os homens deveriam agir, Maquiavel procurava compreender como eles realmente agiam. Sua preocupação central não era construir um mundo ideal, mas descrever, com a maior honestidade possível, o funcionamento do mundo real.
Talvez seja justamente essa honestidade que torne suas ideias tão desconfortáveis ainda hoje.
Aceitar a realidade nunca significou desistir de transformá-la. Significa apenas começar a transformação a partir de um diagnóstico verdadeiro, e não de uma fantasia confortável. Se o ambiente que produziu sucessivas gerações de jogadores extraordinários mudou profundamente, insistir que basta trocar dirigentes, copiar metodologias estrangeiras ou reformar a CBF dificilmente reconstruirá aquilo que deixou de existir.
Toda estratégia eficiente começa reconhecendo corretamente o problema.
Se quisermos voltar a ser protagonistas do futebol mundial, talvez a primeira atitude não seja procurar culpados nem alimentar nostalgias. Talvez seja compreender que o Brasil de hoje é diferente daquele que encantou o mundo durante tantas décadas e que, justamente por isso, precisará encontrar um caminho próprio para produzir excelência dentro das condições do século XXI.
O portador da má notícia nunca anuncia o fim de um povo, de uma cultura ou de um esporte. Ele apenas comunica o encerramento de uma época. E talvez o maior erro seja continuar tentando ressuscitá-la quando toda a energia deveria estar sendo empregada na construção da próxima.
Enquanto insistimos em procurar os próximos Zicos, Romários, Ronaldos ou Ronaldinhos, deixamos de fazer a única pergunta capaz de mudar alguma coisa: quais condições precisamos criar para que o Brasil produza os grandes jogadores de uma nova era?
Nenhuma sociedade construiu o futuro tentando reconstruir o passado. E o futebol, como a própria história, jamais voltou a ser exatamente o que um dia foi.

