Durante os últimos anos, as empresas de apostas se transformaram em uma das principais fontes de receita comercial do futebol. No Brasil, ocuparam o espaço mais valioso das camisas de alguns dos maiores clubes do país. Na Europa, entretanto, diferentes mercados começaram a estabelecer limites para essa relação.
A temporada 2026/27 da Premier League marca um dos exemplos mais relevantes dessa mudança. As empresas de apostas deixaram de ocupar a parte frontal das camisas de jogo dos clubes da principal divisão inglesa.
A decisão não representa uma proibição geral dos patrocínios de apostas. Outros espaços comerciais continuam disponíveis dentro das regras aplicáveis. Mesmo assim, retirar essas empresas da principal propriedade das camisas já foi suficiente para criar uma questão que vai muito além da regulação.
Se as bets estavam dispostas a pagar alguns dos maiores valores por esse espaço, quanto ele vale sem elas?
A resposta interessa diretamente ao futebol brasileiro.
A Europa começa a limitar o espaço das bets
A decisão da Premier League não surgiu de uma proibição imposta pelo governo britânico.
Em abril de 2023, os próprios clubes concordaram coletivamente em retirar os patrocínios de empresas de apostas da frente das camisas de jogo a partir do encerramento da temporada 2025/26. A Premier se tornou a primeira liga esportiva do Reino Unido a adotar voluntariamente uma medida desse tipo.
A restrição é específica. Empresas de apostas ainda podem ocupar outras propriedades comerciais permitidas, como mangas e uniformes de treinamento.
Mas limitar o espaço mais valioso da camisa produz uma consequência econômica.
Em abril de 2026, o Guardian informou que a perda coletiva de receitas com os contratos de camisa poderia chegar a aproximadamente £80 milhões na temporada 2026/27. O número é uma estimativa de mercado, não uma perda já registrada contabilmente pelos clubes.
Clubes que precisavam substituir patrocinadores ligados às apostas encontravam dificuldades para reproduzir os mesmos valores com empresas de outros setores. Em alguns casos, patrocinadores que já ocupavam propriedades secundárias foram deslocados para a frente da camisa por valores inferiores aos contratos anteriores.
A transição também está trazendo novos segmentos para a Premier League. Levantamento da Nielsen Sports, divulgado pela Reuters em agosto, identificou maior presença de empresas de tecnologia, fintechs e outros setores no mercado de patrocínios da competição. Isso mostra que existe demanda comercial pela camisa.
Mas existe uma diferença importante entre encontrar um novo comprador e encontrar um comprador disposto a pagar o mesmo preço.
Quanto vale uma camisa sem uma bet?
Essa talvez seja a principal questão econômica criada pelas restrições.
Uma camisa não perde necessariamente seu valor comercial porque uma categoria de patrocinador deixou de disputar determinado espaço. O clube pode substituir a empresa de apostas por um banco, uma companhia aérea, uma empresa de tecnologia ou qualquer outro segmento interessado naquela propriedade.
O problema está no preço.
Se uma empresa de apostas estava disposta a pagar mais que os demais setores, sua saída não produz apenas uma troca de logotipo. Ela pode provocar uma reprecificação da propriedade comercial.
Há evidências desse comportamento no mercado inglês. Fontes de clubes ouvidas pelo Times no final de 2025 relataram que empresas de apostas chegavam a oferecer aproximadamente o dobro do que patrocinadores de outros setores estavam dispostos a pagar por determinadas propriedades.
Isso não significa que exista uma regra segundo a qual toda bet paga o dobro de qualquer outro patrocinador. Também não permite transportar essa proporção automaticamente para o Brasil, mas ajuda a explicar por que a substituição pode ser difícil.
O futebol passou anos negociando com um segmento que tinha razões econômicas específicas para investir pesadamente em aquisição de clientes, reconhecimento de marca e exposição esportiva. Quando esse comprador deixa de disputar determinada propriedade, o preço pode mudar.
A camisa continua comercialmente valiosa. O mercado apenas precisa descobrir quanto outro setor está disposto a pagar por ela. E nem todo dinheiro necessariamente desaparece.
O Manchester United, por exemplo, fechou um acordo com a Betway para os uniformes de treinamento a partir da temporada 2026/27, com valor reportado de aproximadamente £20 milhões por temporada. A operação é possível porque a restrição da Premier League alcança a frente das camisas de jogo, não todas as propriedades comerciais relacionadas aos clubes.
Esse caso mostra uma consequência importante das regulações parciais: parte do investimento pode simplesmente migrar. O dinheiro que sai da frente da camisa pode procurar a manga, o treinamento ou outras propriedades permitidas.
A Europa não adotou um único modelo
A Inglaterra não foi o primeiro mercado europeu a limitar a presença comercial das empresas de apostas no futebol. E também não existe um modelo único sendo seguido pelo continente.
A Espanha adotou uma abordagem mais ampla. O Real Decreto 958/2020 estabeleceu restrições à publicidade de jogos e proibiu patrocínios em camisas e equipamentos esportivos. Na época da implementação, o presidente da LaLiga, Javier Tebas, estimou à Reuters que as novas regras representariam aproximadamente €90 milhões em impacto para o futebol espanhol.
A Itália também adotou uma proibição ampla de publicidade e patrocínio relacionados a jogos e apostas. Anos depois, a discussão econômica permanece aberta. Em abril de 2026, a Reuters informou que Gabriele Gravina, que havia deixado a presidência da Federação Italiana de Futebol dias antes, propôs a revisão da proibição dos patrocínios de apostas como parte de um plano para enfrentar os problemas estruturais e financeiros do futebol italiano.
A Bélgica, por sua vez, implementou restrições progressivas sobre a publicidade e o patrocínio esportivo.
As experiências são diferentes porque as regras também são diferentes.
Uma legislação pode proibir apenas determinado espaço da camisa. Outra pode atingir praticamente toda forma de exposição comercial. Uma terceira pode estabelecer períodos de transição ou permitir determinadas propriedades.
Por isso, falar simplesmente em “proibição de bets no futebol europeu” seria impreciso. O que existe é um movimento de maior restrição à exposição comercial das apostas, aplicado de maneiras diferentes em cada mercado e, cada modelo produz consequências econômicas diferentes.
O Brasil construiu uma forte relação comercial com as bets
Enquanto alguns mercados europeus começaram a limitar essa presença, o futebol brasileiro percorreu uma trajetória de expansão.
As empresas de apostas passaram a ocupar algumas das propriedades comerciais mais valiosas do país e ajudaram a elevar os valores dos contratos de patrocínio de diversos clubes.
No início do Campeonato Brasileiro de 2026, levantamento do Poder360 apontava 12 dos 20 clubes da Série A com empresas de apostas como patrocinadoras máster. O número representava uma redução em relação a 2025, quando 18 equipes mantinham esse tipo de acordo, mas ainda demonstrava a dimensão alcançada pelo setor.
E o mercado continuou se movimentando durante a temporada. Em julho, após o Vasco anunciar a Sportingbet como patrocinadora máster, levantamento do Meio & Mensagem apontou 13 clubes da Série A com marcas de apostas ocupando a cota principal da camisa.
O Flamengo oferece o exemplo de maior valor entre os contratos publicamente reportados. O acordo com a Betano foi divulgado em aproximadamente R$ 268 milhões por temporada.
Não significa que todos os clubes estejam expostos da mesma maneira. Valores, duração, propriedades incluídas, bônus e condições contratuais variam significativamente. Por isso, somar indiscriminadamente todos os contratos divulgados e apresentar o resultado como “quanto o futebol brasileiro perderia” produziria uma conclusão metodologicamente frágil. Mas os números mostram algo que não exige estimativa. As bets se tornaram uma categoria central no mercado brasileiro de patrocínio esportivo.
E isso torna a experiência europeia relevante para o Brasil.
O Brasil poderia seguir esse caminho?
Hoje, empresas de apostas devidamente autorizadas podem patrocinar clubes brasileiros, respeitadas as normas que regulamentam o setor. Portanto, o Brasil não adotou uma proibição equivalente à aplicada na frente das camisas da Premier League.
Isso não significa, porém, que essa discussão esteja distante. Existem propostas em tramitação no Congresso Nacional que pretendem aumentar significativamente as restrições à publicidade e ao patrocínio das empresas de apostas.
Em fevereiro de 2026, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou um texto que propõe proibir publicidade, promoção e patrocínio de apostas de quota fixa. Entre as restrições previstas está justamente a exposição de marcas de empresas do setor em uniformes de clubes e placas publicitárias em estádios.
Trata-se de uma proposta legislativa em tramitação, não de uma regra atualmente em vigor. Outros projetos também discutem diferentes graus de limitação da publicidade das bets.
Isso significa que uma eventual restrição ao patrocínio esportivo não pode ser tratada como previsão. Não sabemos quais propostas serão aprovadas, quando isso poderia ocorrer ou qual seria o texto final de uma eventual nova legislação.
Mas também não se trata mais de uma hipótese inexistente. A discussão já chegou ao Congresso.
Se o Brasil adotasse no futuro uma restrição semelhante à da Premier League, surgiria imediatamente a mesma pergunta que hoje começa a ser respondida pelos clubes ingleses: quem substituiria as bets e quanto estaria disposto a pagar?
O impacto não poderia ser calculado simplesmente somando os valores atuais dos contratos. Alguns patrocinadores poderiam migrar para propriedades permitidas. Outros poderiam sair. Novas empresas poderiam ocupar os espaços disponíveis. E o valor comercial das camisas poderia aumentar, permanecer estável ou diminuir dependendo da demanda.
O verdadeiro teste seria o preço encontrado pelo mercado depois da mudança.
O maior risco talvez não seja a proibição
Existe ainda uma questão mais importante para os clubes brasileiros. A receita proveniente das bets não precisa desaparecer por determinação do Congresso para produzir um problema financeiro. O próprio mercado pode mudar.
Empresas podem rever estratégias de marketing. O setor pode passar por consolidação. Os custos regulatórios podem aumentar. A disputa por aquisição de novos clientes pode diminuir. Operadores podem concluir que determinados patrocínios não entregam retorno suficiente para justificar os valores atuais.
Nesse cenário, a consequência para o clube pode ser semelhante à provocada por uma restrição regulatória: menos empresas disputando a propriedade e preços menores.
É aqui que a discussão deixa de ser apenas sobre apostas e passa a ser sobre gestão. Receitas comerciais elevadas são positivas para qualquer clube. O risco surge quando uma receita concentrada em determinado setor passa a financiar uma estrutura permanente de custos.
Folha salarial, direitos de imagem, amortização de contratações, departamentos profissionais e contratos de longo prazo não diminuem automaticamente quando um patrocinador reduz seu investimento. Uma receita que parecia recorrente pode mudar rapidamente, mas o custo construído sobre ela permanece.
Por isso, a pergunta relevante não é se os clubes deveriam aceitar ou rejeitar o dinheiro das empresas de apostas. A questão é quanto da estrutura financeira passou a depender dele.
O futebol europeu começa a oferecer exemplos concretos de como o mercado reage quando essa relação é limitada. Há patrocinadores substitutos, novas categorias entrando, investimentos migrando para outras propriedades e, em determinados casos, redução do valor comercial.
O Brasil ainda vive uma realidade diferente.
Mas, diante da dimensão que as bets alcançaram no mercado nacional e das discussões regulatórias já existentes no Congresso, talvez exista uma pergunta que os clubes deveriam conseguir responder antes de qualquer mudança na legislação: Quanto vale a sua camisa sem uma bet?

