Clubes e franquias esportivas estão se tornando uma nova classe de ativos financeiros?

chatgpt image 8 09 2026, 09 25 00

Durante décadas, ser dono de uma grande equipe esportiva significava pertencer a um grupo extremamente restrito. Era necessário ter patrimônio suficiente para adquirir uma franquia milionária ou bilionária, encontrar alguém disposto a vender e, principalmente, receber a aprovação da própria liga.

Esse modelo não desapareceu. O controle das grandes franquias americanas continua altamente restrito e submetido às regras específicas de cada competição. O que mudou foi a possibilidade de investidores institucionais adquirirem participações minoritárias nesses negócios.

MLB, NBA, NHL e NFL estabeleceram, em momentos e condições diferentes, mecanismos que permitem a participação de determinados fundos de investimento no capital de suas franquias. A NFL, historicamente mais restritiva nesse aspecto, foi a última das quatro a abrir essa possibilidade, em agosto de 2024.

Agora, uma operação anunciada nos Estados Unidos pretende acrescentar outra camada a essa transformação.

Em 31 de agosto de 2026, a Sono Group N.V., companhia negociada na Nasdaq sob o código SSM, anunciou a assinatura de uma carta de intenções não vinculante para uma combinação de negócios com a Sports One. Se a operação for concluída, a companhia resultante pretende adquirir e manter participações minoritárias em franquias da NFL, NBA, MLB e NHL.

A proposta introduz uma questão que ultrapassa as duas empresas envolvidas.

Depois de décadas de valorização das franquias e da entrada dos grandes fundos nesse mercado, o esporte profissional estaria caminhando para se consolidar também como uma classe de ativos financeiros?

De US$ 30 bilhões para mais de US$ 500 bilhões

É difícil compreender o interesse crescente do mercado financeiro pelo esporte sem observar o que aconteceu com o valor das grandes equipes americanas.

Levantamento publicado pela Forbes sobre a evolução das franquias esportivas desde 2000 mostra que, naquele ano, as equipes das quatro principais ligas profissionais da América do Norte tinham uma avaliação agregada de aproximadamente US$ 30 bilhões. Vinte e cinco anos depois, as 124 franquias que compõem NFL, NBA, MLB e NHL ultrapassavam, em conjunto, US$ 500 bilhões em avaliações estimadas.

Alguns casos ajudam a dimensionar essa transformação. Em 2025, o Dallas Cowboys alcançou uma avaliação estimada de US$ 13 bilhões, enquanto o Golden State Warriors chegou a US$ 11 bilhões.

Esses números são estimativas de valuation, e não preços de mercado continuamente observáveis como ocorre com ações negociadas em bolsa. Ainda assim, a mudança de escala ajuda a explicar por que investidores institucionais passaram a enxergar as franquias esportivas de maneira diferente.

Por que essas equipes ficaram tão valiosas?

Uma franquia esportiva possui uma característica incomum em relação à maioria dos negócios tradicionais: sua oferta é deliberadamente limitada.

Não é possível simplesmente criar um concorrente do Dallas Cowboys e colocá-lo na NFL ou abrir uma nova franquia da NBA em qualquer cidade. A entrada depende das próprias ligas, que controlam o número de participantes e estabelecem as condições para eventuais processos de expansão.

Ao mesmo tempo, algumas das principais fontes de receita cresceram significativamente.

Os direitos de mídia são parte fundamental dessa transformação. A NFL mantém contratos de distribuição de longo prazo com Amazon, CBS, ESPN/ABC, Fox e NBC que começaram na temporada de 2023 e se estendem até 2033.

A NBA iniciou na temporada 2025/26 um novo ciclo de contratos nacionais de mídia com Disney, NBCUniversal e Amazon, válido até 2035/36. O acordo de 11 anos foi avaliado em aproximadamente US$ 76 bilhões.

A duração desses contratos oferece às ligas e, consequentemente, às franquias, uma previsibilidade relevante sobre uma das principais fontes de receita do esporte profissional americano.

A isso se somam patrocínios, venda de ingressos, hospitalidade, merchandising, receitas digitais e, em determinados casos, ativos imobiliários associados às arenas, estádios e seus entornos.

O esporte profissional passou, portanto, a reunir características particularmente atraentes para investidores: marcas difíceis de reproduzir, oferta limitada de ativos e contratos comerciais de longo prazo.

Mas o próprio sucesso desse modelo criou um problema.

Quando bilhões de dólares também se tornam um problema

A valorização é positiva para quem possui um ativo, mas pode dificultar a formação de um mercado para sua venda.

Uma participação de 10% em uma franquia avaliada em US$ 8 bilhões corresponde, antes de qualquer desconto eventualmente aplicado a uma participação minoritária, a US$ 800 milhões. Quanto maior o valor das equipes, menor tende a ser o universo de indivíduos capazes e dispostos a comprometer centenas de milhões de dólares em um ativo no qual não terão controle.

Foi nesse contexto que as grandes ligas começaram a modificar suas regras.

A MLB alterou suas normas de propriedade em 2019 para permitir que fundos de investimento adquirissem participações limitadas em múltiplas franquias. Posteriormente, NBA e NHL também estabeleceram estruturas para a entrada de investidores institucionais minoritários.

A NFL resistiu por mais tempo.

Em agosto de 2024, os proprietários das franquias aprovaram, por 31 votos a 1, uma mudança nas regras permitindo investimentos de private equity. A resolução autorizou determinados fundos previamente aprovados pela liga a adquirir participações passivas de até 10% das equipes.

Entre os gestores inicialmente autorizados estavam Arctos Partners, Sixth Street e Ares Management, além de um consórcio formado por investidores que incluía Blackstone, Carlyle, CVC e Dynasty Equity.

O princípio fundamental permaneceu preservado: esses investidores entram como participantes financeiros minoritários, não como controladores da operação esportiva.

A abertura criou uma nova fonte potencial de capital e liquidez para os proprietários das equipes e, simultaneamente, colocou à disposição de investidores institucionais um conjunto de ativos que durante décadas permaneceu praticamente inacessível a esse tipo de capital.

O private equity entrou no mercado das franquias

A mudança rapidamente deixou de ser apenas regulatória.

Fundos especializados passaram a construir portfólios com participações em organizações esportivas. A Arctos Partners, por exemplo, realizou investimentos em diferentes propriedades esportivas profissionais e se tornou um dos agentes mais ativos desse novo mercado.

As regras, entretanto, variam entre as competições.

NBA e NHL permitem que um fundo detenha até 20% de uma equipe. Na MLB, o limite individual é de 15%. A NFL iniciou sua abertura adotando uma estrutura mais conservadora, limitando inicialmente a participação institucional a 10% e exigindo aprovação prévia dos investidores.

Há uma razão para essa cautela.

Uma equipe esportiva não funciona exatamente como uma empresa convencional. Seu valor depende da competição coletiva. Um clube precisa dos adversários para produzir o próprio produto, e determinadas decisões tomadas por um proprietário podem afetar economicamente os demais participantes da liga.

Por isso, as competições preservam mecanismos rígidos de governança e mantêm limitações sobre a influência dos investidores institucionais.

O capital financeiro entrou no esporte, mas isso não significou entregar a ele o controle das franquias.

A Sports One quer acrescentar uma nova camada

É nesse ambiente que aparece a operação anunciada entre Sono Group e Sports One.

A Sports One declara ter como estratégia adquirir participações minoritárias em equipes profissionais, com foco principal nas quatro grandes ligas americanas. Paralelamente, pretende desenvolver um negócio de inteligência esportiva baseado em dados de atletas, exposição em redes sociais e mensuração de valor comercial associado a jogadores e direitos de nome, imagem e semelhança, conhecidos nos Estados Unidos pela sigla NIL.

É importante separar intenção de realidade operacional. Essas atividades fazem parte da estratégia apresentada pela Sports One nos documentos da transação, mas isso não significa que sua capacidade tecnológica ou seus resultados econômicos estejam comprovados.

O aspecto mais interessante da proposta está em outra parte da estrutura.

A combinação com a Sono Group pretende criar, segundo as empresas, uma companhia de capital permanente negociada em bolsa.

Esse conceito pode alterar a maneira como participações esportivas são mantidas dentro de um veículo de investimento.

O que significa capital permanente

Um fundo tradicional de private equity normalmente possui um ciclo de vida definido. O gestor capta recursos, realiza investimentos e, depois de determinado período, procura vender esses ativos para devolver capital e eventuais ganhos aos investidores.

Uma estrutura de capital permanente não carrega necessariamente essa mesma obrigação temporal.

No modelo proposto pela Sports One, participações adquiridas em franquias poderiam, em tese, permanecer por períodos muito longos dentro da companhia, sem uma data predeterminada para sua venda.

Ao mesmo tempo, as ações da própria companhia continuariam sendo negociadas publicamente. É essa combinação que torna a proposta particularmente interessante.

A franquia continua ilíquida. A ação não

Uma participação minoritária em uma equipe da NFL ou da NBA não pode ser comprada e vendida livremente todos os dias. Existem regras de propriedade, processos de aprovação e um número limitado de potenciais compradores.

Uma ação negociada em bolsa funciona de maneira diferente.

Se a estrutura proposta for efetivamente implementada, um investidor poderia comprar ou vender ações da companhia que possui participações esportivas sem que a Sports One precisasse vender sua parcela em uma franquia sempre que um acionista desejasse sair do investimento. A liquidez estaria no veículo financeiro, não necessariamente nos ativos esportivos mantidos por ele.

Isso não significa que a presença de equipes esportivas no mercado acionário seja inédita.

A Atlanta Braves Holdings é uma companhia negociada na Nasdaq e, por meio de sua subsidiária Braves Holdings, possui indiretamente o Atlanta Braves, da MLB, além de ativos associados ao The Battery Atlanta.

A proposta apresentada pela Sports One, entretanto, possui uma lógica diferente. Em vez de ter como principal ativo uma única organização esportiva, a estratégia declarada é construir um portfólio de participações minoritárias em diferentes franquias e ligas dentro de uma companhia pública.

Se conseguir executar esse modelo, a empresa poderá criar uma nova forma de exposição financeira indireta a ativos que historicamente permaneceram restritos a indivíduos extremamente ricos e investidores institucionais.

Por enquanto, porém, isso continua sendo uma proposta.

O negócio anunciado ainda não está concluído

Esse ponto é essencial.

Sono Group e Sports One não anunciaram uma fusão concluída. O documento assinado em 31 de agosto de 2026 é uma carta de intenções não vinculante.

Os documentos apresentados à Securities and Exchange Commission dos Estados Unidos deixam claro que a conclusão da operação depende de due diligence, negociação e assinatura dos contratos definitivos, além das aprovações necessárias.

Não existe garantia de que as partes chegarão a um acordo definitivo ou de que a transação será concluída.

Caso aconteça, os atuais acionistas da Sports One deverão possuir uma supermaioria do capital da companhia resultante, que deverá adotar o nome Sports One e ser comandada pela atual equipe de gestão da empresa.

Paralelamente ao anúncio, um grupo de investidores, incluindo participantes ligados à Sports One, adquiriu 283.500 novas ações ordinárias da Sono Group. O volume correspondia a 19,9% das ações ordinárias então em circulação.

O preço foi de US$ 2,67 por ação, equivalente ao fechamento da Nasdaq em 28 de agosto de 2026, levando a operação a aproximadamente US$ 757 mil. Os investidores também ficaram sujeitos a uma restrição de venda de 180 dias, conforme as condições previstas nos respectivos acordos.

Esses elementos mostram que existe uma operação financeira concreta acompanhando a proposta, mas não transformam a combinação empresarial em fato consumado.

Democratização financeira não significa propriedade direta

Os executivos envolvidos apresentam a futura companhia como uma maneira de ampliar o acesso econômico à propriedade de equipes esportivas.

A ideia precisa ser colocada em perspectiva.

Comprar uma ação de uma empresa que possui participações minoritárias em franquias não transforma o investidor em proprietário direto dessas equipes. Ele será acionista da companhia que, por sua vez, poderá possuir parcelas de diferentes ativos esportivos.

Entre o investidor e a franquia existirão a estrutura societária da empresa, seus custos administrativos, decisões de alocação de capital, eventuais dívidas e outros riscos operacionais.

Existe ainda uma diferença fundamental entre valorização histórica e retorno futuro.

O fato de as franquias americanas terem apresentado enorme apreciação nas últimas décadas não significa que continuarão avançando no mesmo ritmo. Quanto maior o preço de entrada em um ativo, maior precisa ser a geração futura de valor para sustentar retornos semelhantes aos observados no passado.

Direitos de mídia, capacidade de monetização das audiências, custos operacionais, investimentos em arenas, mudanças tecnológicas no consumo esportivo e condições macroeconômicas continuarão influenciando o valor dessas organizações.

A institucionalização do investimento esportivo não elimina o risco. Apenas muda quem pode assumir esse risco e quais estruturas financeiras podem ser utilizadas para fazê-lo.

De troféu de bilionário a ativo institucional

Durante boa parte da história do esporte profissional, comprar uma equipe significava adquirir algo que misturava negócio, prestígio, influência e paixão pessoal.

Esses elementos continuam presentes. O que mudou foi a dimensão econômica das organizações.

Quando as 124 franquias das quatro grandes ligas americanas passam de aproximadamente US$ 30 bilhões em avaliações agregadas no início do século para mais de meio trilhão de dólares 25 anos depois, esse mercado deixa de ser relevante apenas para bilionários interessados em possuir uma equipe.

A entrada do private equity na MLB, NBA, NHL e, finalmente, na NFL é uma consequência dessa transformação. A tentativa da Sports One de construir uma companhia pública baseada em participações minoritárias representa outro movimento: utilizar o mercado de capitais como ponte entre investidores e ativos esportivos que continuam individualmente privados e altamente restritos.

Ainda não sabemos se a Sports One conseguirá executar esse projeto. A própria combinação com a Sono Group pode não ser concluída.

Mas a transformação que tornou uma proposta como essa possível já ocorreu.

As franquias continuam disputando campeonatos, contratando jogadores e tentando conquistar torcedores. Ao mesmo tempo, tornaram-se ativos bilionários, passaram a receber capital institucional e começaram a ocupar um espaço diferente dentro do mercado financeiro.

A arquibancada continua olhando para o placar.

O mercado financeiro passou a olhar para o patrimônio.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *