Parte 1 – Por que o país mais rico do mundo ainda não consegue formar grandes jogadores de futebol?

chatgpt image 22 de jul. de 2026, 16 07 04

Poucos países despertam tanto fascínio quando o assunto é esporte quanto os Estados Unidos. Ao longo do último século, a maior economia do planeta construiu um dos sistemas de desenvolvimento esportivo mais eficientes já vistos. Suas universidades se transformaram em verdadeiras fábricas de atletas, as ligas profissionais passaram a movimentar bilhões de dólares por temporada e modalidades como basquete, futebol americano, beisebol e atletismo tornaram-se referências mundiais tanto em desempenho quanto em organização. Diante desse histórico, seria natural imaginar que o futebol seguisse exatamente o mesmo caminho.

Mas não foi isso que aconteceu.

Embora a popularidade da modalidade tenha crescido de forma consistente nas últimas décadas, especialmente entre crianças e adolescentes, a seleção masculina americana continua distante do grupo de países que regularmente disputam o posto de melhor futebol do mundo. Eventualmente revela bons jogadores, exporta atletas para clubes europeus e participa das principais competições internacionais, mas permanece sem conseguir transformar seu enorme potencial econômico, demográfico e estrutural em uma produção contínua de talentos de elite. Em outras palavras, ainda está bem longe da primeira prateleira do futebol.

A eliminação precoce dos Estados Unidos na Copa do Mundo de 2026 recolocou esse debate no centro das discussões esportivas do país. Nos dias que se seguiram ao torneio, veículos como Reuters, ESPN, Yahoo Sports, NBC News, Forbes e Newsweek voltaram a publicar análises tentando responder à mesma pergunta: por que o futebol nos Estados Unidos continua produzindo menos jogadores de nível mundial do que seria razoável esperar de um país com tantos recursos disponíveis?

Entre todas as explicações apresentadas, uma apareceu de forma recorrente. O modelo conhecido como pay-to-play, no qual famílias precisam arcar com mensalidades, viagens, competições e diversos outros custos para que seus filhos participem de programas de formação, voltou a ser apontado como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento do futebol no país.

A crítica não é nova, mas ganhou força justamente porque surgiu em um momento de enorme exposição internacional, quando o fracasso esportivo tornou impossível ignorar novamente uma discussão que já se arrasta há anos.

À primeira vista, a conclusão parece bastante convincente. Se milhares de crianças deixam de jogar porque suas famílias não conseguem pagar, então o país naturalmente desperdiça uma enorme quantidade de talento potencial. Quanto menor o número de jovens que conseguem permanecer no sistema, menor também será a probabilidade de encontrar futuros jogadores extraordinários. A lógica parece tão evidente que muitos passaram a tratar o pay-to-play como a própria explicação para o problema.

No entanto, justamente por parecer tão intuitiva, essa resposta corre o risco de simplificar excessivamente uma realidade muito mais complexa. Basta observar outros países para perceber que o debate não pode ser reduzido apenas ao custo de acesso.

Alemanha e Itália, por exemplo, possuem estruturas de formação amplamente subsidiadas por clubes profissionais, contam com tradição centenária no futebol e oferecem caminhos muito mais acessíveis para jovens atletas do que o modelo historicamente adotado pelos Estados Unidos. Ainda assim, ambas atravessaram períodos recentes de resultados decepcionantes em Copas do Mundo. Da mesma forma, diversos países com enorme paixão pelo futebol e custos relativamente baixos de participação jamais conseguiram se transformar em grandes exportadores de jogadores.

Isso significa que tornar o futebol gratuito resolveria automaticamente o problema americano?

Muito provavelmente, não.

O pay-to-play é uma parte importante da explicação, mas dificilmente é toda a explicação. Concentrar o debate apenas no preço da mensalidade equivale a observar apenas a superfície de um mecanismo muito maior. O verdadeiro problema talvez não esteja simplesmente no fato de algumas crianças precisarem pagar para jogar, mas na forma como todo o sistema foi organizado para descobrir, selecionar e desenvolver talentos.

Em outras palavras, talvez a pergunta mais importante nunca tenha sido quanto custa jogar futebol nos Estados Unidos.

Talvez a pergunta correta seja outra: o que acontece quando um sistema cobra para procurar seus próprios talentos?

Antes de formar, é preciso descobrir

Quando se discute formação de atletas, é comum imaginar imediatamente centros de treinamento modernos, treinadores qualificados, metodologias de ensino e programas de desenvolvimento físico e técnico. Tudo isso, naturalmente, exerce enorme influência sobre a qualidade do jogador que chegará ao futebol profissional. Entretanto, existe uma etapa anterior que costuma receber muito menos atenção, embora seja igualmente decisiva: antes de formar um talento, é preciso encontrá-lo.

Essa distinção muda completamente a maneira como enxergamos o problema.

Nenhuma metodologia, por melhor que seja, consegue desenvolver uma criança que jamais entrou no sistema. Nenhum treinador descobrirá um talento que nunca teve oportunidade de ser observado. Antes de existir formação, existe descoberta. Antes de existir desenvolvimento, existe acesso. E, antes mesmo de alguém decidir quanto investir em determinado atleta, alguém precisa decidir quem terá a oportunidade de demonstrar que merece esse investimento.

Essa é uma característica peculiar do futebol. Diferentemente de um produto industrial, um recurso mineral ou uma tecnologia já conhecida, o talento esportivo não nasce identificado. Uma criança de doze anos não carrega uma etiqueta informando que, dali a uma década, valerá cinquenta milhões de euros. Seu potencial é, por definição, desconhecido. Ele precisa ser revelado.

É justamente aí que surge um problema econômico pouco intuitivo.

Em um artigo publicado na Review of Economic Studies, um dos periódicos mais respeitados da Economia, o pesquisador Marko Terviö desenvolveu um modelo para explicar como mercados frequentemente fracassam na descoberta de indivíduos excepcionalmente talentosos. Seu argumento não foi construído pensando no futebol, mas no funcionamento dos mercados de trabalho em geral. Ainda assim, sua lógica se encaixa quase perfeitamente na formação esportiva.

O ponto central é simples. Descobrir talento custa dinheiro. Avaliar pessoas exige tempo, estrutura, observação e recursos. Como ninguém conhece previamente o verdadeiro potencial de cada indivíduo, qualquer processo de seleção envolve risco. Quanto maior o universo de candidatos, maior também será o custo necessário para observá-los.

Por essa razão, mercados tendem a trabalhar com amostras reduzidas. Em vez de observar toda a população, observam apenas uma parcela dela. Em muitos casos isso é suficiente. Em outros, produz uma consequência importante: indivíduos medianos, mas já conhecidos, continuam ocupando espaço, enquanto pessoas potencialmente extraordinárias jamais recebem a oportunidade de demonstrar seu valor.

Transportar essa lógica para o futebol talvez seja mais fácil do que parece.

Imagine duas crianças de doze anos com exatamente o mesmo potencial esportivo. Ambas possuem coordenação motora semelhante, inteligência de jogo parecida, velocidade equivalente e enorme capacidade de aprendizado. A única diferença entre elas está fora do campo.

A primeira vive próxima de um grande centro urbano, possui transporte disponível, conta com pais capazes de acompanhar treinos e competições, consegue arcar com mensalidades, viagens, uniformes e torneios. A segunda mora em uma região distante, depende do transporte público, tem pais que trabalham durante todo o dia e encontra dificuldades para custear as despesas necessárias para permanecer em uma equipe competitiva.

Qual das duas será observada por olheiros, treinadores e clubes?

Não estamos perguntando qual delas joga melhor. Estamos perguntando qual delas conseguirá simplesmente permanecer visível. É nesse ponto que a discussão deixa de ser apenas esportiva e passa a ser também econômica.

Sempre que um sistema exige recursos financeiros significativos para que uma criança permaneça inserida em seu processo de formação, ele cria filtros que antecedem qualquer avaliação técnica. Esses filtros não escolhem quem joga melhor. Escolhem quem terá oportunidade de mostrar quanto joga.

Em consequência, o universo de atletas observados já não representa toda a população disponível. Representa apenas aqueles que conseguiram atravessar sucessivas barreiras de acesso: renda familiar, localização geográfica, disponibilidade de transporte, tempo dos responsáveis, capacidade de viajar, conhecimento das rotas competitivas e permanência em ambientes reconhecidos pelo mercado.

Nenhum desses fatores mede talento. Ainda assim, todos eles influenciam profundamente quem será visto.

É justamente por isso que reduzir a discussão ao valor da mensalidade é insuficiente. O custo financeiro é apenas uma das portas de entrada para um fenômeno muito mais amplo: a diminuição do universo de observação.

Quanto menor for a parcela da população efetivamente examinada, menor será também a probabilidade de encontrar aquilo que todo clube procura desesperadamente: as exceções.

Não por acaso, os maiores clubes do futebol mundial destinam recursos significativos justamente à etapa da descoberta. Equipes como Real Madrid, Barcelona, Manchester City, Bayern de Munique, Benfica, Ajax, Flamengo, Palmeiras, Bahia e tantas outras mantêm extensas redes de observadores e departamentos de scouting distribuídos por diferentes regiões e países. Em vez de esperar que o talento chegue espontaneamente aos seus centros de treinamento, procuram ampliar continuamente o universo de jogadores observados. A lógica é simples: quanto maior o número de crianças avaliadas, maior também a probabilidade de encontrar aquelas raras exceções capazes de justificar todo o investimento realizado.

No futebol, os jogadores realmente extraordinários são raros. Eles ocupam a extremidade de uma distribuição estatística. Encontrá-los nunca foi uma questão de apenas treinar melhor. Sempre foi, antes de tudo, uma questão de procurá-los onde eles realmente estão. E é exatamente aqui que a crítica ao modelo americano ganha um significado diferente daquele normalmente apresentado.

Talvez o sistema dos Estados Unidos não esteja deixando de produzir grandes jogadores porque seus treinadores sejam inferiores, suas metodologias sejam ultrapassadas ou seus investimentos sejam insuficientes. Talvez ele esteja simplesmente realizando uma excelente seleção… dentro de um universo que já chegou previamente reduzido. Ou seja, o futebol nos Estados Unidos pode estar identificando corretamente os melhores jogadores que consegue enxergar.

O problema é que enxergar apenas parte da população nunca foi a mesma coisa que descobrir todos os seus talentos.

Quem financia a formação define os incentivos do sistema

Se a etapa mais importante da formação é descobrir quem possui potencial, surge imediatamente uma nova pergunta: quem deve assumir o custo dessa descoberta?

A resposta parece apenas financeira, mas, na prática, determina toda a lógica de funcionamento de um sistema de formação.

Imagine duas organizações diferentes, ambas dedicadas ao desenvolvimento de jovens jogadores. Na primeira, praticamente toda a receita vem das mensalidades pagas pelas famílias. Quanto mais crianças matriculadas, maior o faturamento. A sustentabilidade da instituição depende da capacidade de manter um número elevado de participantes ao longo dos anos. Uniformes, viagens, competições, clínicas esportivas e outros serviços complementam essa receita, mas o fluxo financeiro nasce, essencialmente, da permanência do aluno.

Na segunda organização, a lógica é diferente. Os custos iniciais também existem, mas a expectativa de retorno está no futuro. O clube investe porque acredita que parte daqueles jovens se transformará em atletas profissionais e que, quando isso acontecer, a valorização desses jogadores compensará o investimento realizado durante a formação.

À primeira vista, ambos os modelos podem produzir bons jogadores. Bons treinadores podem existir em qualquer um deles. Metodologias eficientes também. Entretanto, os incentivos econômicos que orientam suas decisões são profundamente distintos. No primeiro modelo, o principal ativo é o aluno matriculado. No segundo, o principal ativo é o talento que ainda precisa ser descoberto. Essa diferença altera completamente a forma como a organização enxerga o próprio mercado.

Essa diferença também altera profundamente a forma como ocorre o desenvolvimento dos atletas. Nos principais centros formadores da Europa e da América do Sul, o custo da formação costuma ser assumido integralmente pelos próprios clubes. Depois de identificar um jovem promissor, essas instituições passam a financiar treinamentos, estrutura médica, competições, alojamento, alimentação, educação e acompanhamento multidisciplinar. Em outras palavras, o clube assume o risco econômico da formação porque espera ser remunerado no futuro pela valorização daquele atleta.

Durante muitos anos, o modelo predominante nos Estados Unidos caminhou em direção bastante diferente dessa observada nos principais países formadores europeus e sul-americanos. O futebol nos Estados Unidos deixou parcela significativa da descoberta e do desenvolvimento inicial dos atletas sob responsabilidade de clubes juvenis independentes, academias privadas e equipes competitivas conhecidas como travel teams.

Em termos brasileiros, essas organizações se aproximam mais das escolinhas e clubes de formação desvinculados das equipes profissionais do que das categorias de base tradicionais mantidas por grandes clubes. Como sua sustentabilidade dependia frequentemente das mensalidades, viagens e demais despesas pagas pelas famílias, o próprio jogador precisava financiar boa parte de sua permanência no sistema antes de ser observado por uma academia profissional.

As franquias da MLS passaram gradualmente a construir departamentos de base mais robustos e algumas hoje oferecem formação integralmente gratuita, mas essa estrutura surgiu tardiamente, não possui alcance territorial suficiente para absorver a dimensão do país e continua convivendo com uma extensa rede de organizações independentes financiadas total ou parcialmente pelas famílias.

A diferença de incentivos, portanto, permanece relevante: nos principais centros formadores do mundo, o clube procura o talento, assume o custo de desenvolvê-lo e espera recuperar o investimento no futuro, no modelo americano tradicional, muitas vezes o talento precisava primeiro pagar para permanecer visível e somente depois tentar convencer o futebol profissional a investir nele.

Quando a receita depende predominantemente das mensalidades, o desafio econômico consiste em atrair famílias suficientes para manter a operação sustentável. O talento esportivo continua sendo desejável, mas ele não representa necessariamente a principal fonte de receita. Uma criança extremamente promissora e outra apenas interessada em praticar futebol podem gerar receitas muito semelhantes enquanto permanecem matriculadas.

Já quando a sustentabilidade depende da futura valorização dos atletas, a lógica se inverte. Cada jovem passa a representar uma opção de investimento. Quanto maior a probabilidade de encontrar um jogador excepcional, maior também o incentivo para ampliar a busca, observar novos territórios e reduzir barreiras de entrada que impeçam talentos de chegar ao sistema.

Percebe-se, então, que a discussão deixa de ser moral para se tornar econômica.

Não se trata de afirmar que clubes financiados por mensalidades necessariamente formam mal ou que instituições voltadas ao mercado de transferências sempre trabalham melhor. Existem excelentes projetos em ambos os modelos, assim como há exemplos de má gestão em qualquer estrutura organizacional. O ponto central é outro: sistemas respondem aos incentivos que recebem.

Esse princípio é tão importante para o futebol mundial que a própria FIFA precisou incorporá-lo às suas regras.

No início dos anos 2000, após o chamado Caso Bosman alterar profundamente o mercado internacional de transferências, surgiu uma preocupação legítima. Se jogadores pudessem circular com maior liberdade ao final de seus contratos, o que impediria os clubes de simplesmente esperar que outros arcassem com todos os custos da formação para contratar atletas já prontos?

A resposta veio por meio de mecanismos que hoje fazem parte do Regulamento sobre o Status e a Transferência de Jogadores da FIFA.

Sempre que um atleta assina seu primeiro contrato profissional ou é transferido internacionalmente antes de determinada idade, clubes responsáveis por sua formação podem receber compensações financeiras. O objetivo nunca foi premiar retrospectivamente quem treinou aquele jogador. O objetivo sempre foi criar incentivos para que clubes continuassem investindo na formação de jovens talentos.

A lógica é elegante justamente porque desloca a remuneração para o momento em que o talento efetivamente gera valor econômico. Em vez de depender exclusivamente das famílias, parte do financiamento da formação passa a ser sustentada pelo próprio mercado de jogadores.

Curiosamente, o próprio Estados Unidos começou a reconhecer essa lógica, ainda que de maneira bastante limitada.

Nos últimos anos, a Major League Soccer desenvolveu mecanismos domésticos de recompensa aos clubes formadores, conhecidos como Development Grants. Embora sejam muito mais modestos do que os instrumentos internacionais previstos pela FIFA, eles caminham na mesma direção: criar incentivos para que organizações invistam na identificação e no desenvolvimento de atletas antes que estes alcancem o futebol profissional.

Essa mudança institucional revela algo importante. O debate americano já não gira apenas em torno de reduzir custos para as famílias. Aos poucos, passa também a discutir quem deve financiar o processo de descoberta de talentos. E essa talvez seja a pergunta mais relevante de todas.

Quando uma criança começa a jogar futebol, ninguém sabe se ela se tornará profissional. Muito menos se um dia valerá milhões de dólares no mercado internacional. Descobrir essa resposta exige anos de treinamento, acompanhamento e investimento. Alguém precisa assumir esse risco.

Quanto maior for a disposição das instituições para financiá-lo, maior será também o incentivo para procurar talentos onde eles ainda não foram encontrados. Quanto menor essa disposição, maior será a tendência de concentrar esforços apenas na parcela da população que consegue financiar sua própria permanência no sistema.

No fundo, toda a discussão pode ser resumida em uma única frase. Quem financia a formação acaba determinando aquilo que o sistema tem mais interesse em procurar.

Ao longo desta primeira parte, vimos que reduzir o debate ao pay-to-play significa observar apenas a superfície do problema. A questão central não é apenas quem paga para jogar, mas quem financia a descoberta dos talentos.

Sistemas diferentes criam incentivos diferentes e, consequentemente, observam universos diferentes de atletas. Talvez seja justamente por isso que o futebol nos Estados Unidos não esteja formando menos jogadores por falta de recursos, mas porque procura seus talentos dentro de um conjunto previamente reduzido.

No entanto, essa conclusão parece criar uma contradição difícil de ignorar. Afinal, se esse modelo produz tantos obstáculos, como os Estados Unidos conseguiram construir alguns dos sistemas esportivos mais eficientes do planeta em modalidades como futebol americano, basquete e beisebol? E por que o futebol feminino americano se transformou durante décadas em uma potência mundial?

Essas perguntas nos conduzem à segunda parte desta análise.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *