Antes que você inicie a leitura deste artigo, deixo registrada uma ressalva necessária: este texto não parte da premissa de que Pedrinho age de má-fé.
Pelo contrário.
Até aqui, não encontrei elementos que me façam questionar suas intenções à frente do Vasco, muito menos seu caráter. Também não tenho a intenção de construir uma lista de contradições para desqualificá-lo. Sua trajetória será usada como pano de fundo para uma análise muito mais profunda: a distância que pode existir entre aquilo que defendemos quando observamos uma realidade de fora e aquilo que conseguimos executar quando passamos a responder por ela.
O que torna Pedrinho particularmente interessante para esta análise é justamente sua trajetória. Durante anos, ele esteve do lado de fora, analisando dirigentes, treinadores, contratações, planejamento e decisões dos clubes como comentarista. Desde que assumiu a presidência do Vasco, passou para o outro lado da mesa. As opiniões deram lugar às decisões, e aquilo que antes podia ser analisado de fora passou a envolver orçamento, dívida, pressão, tempo, risco e consequências reais.
É exatamente a esse tipo de discussão que o Jogo Real se propõe: mostrar o futebol como ele é, goste-se ou não do que os fatos revelam. Sem transformar personagens em heróis ou vilões e sem escolher previamente a conclusão. Neste caso, o objetivo não é provar que Pedrinho estava certo como comentarista ou que está errado como presidente. É entender o que acontece quando a teoria encontra as restrições da prática.
Porque talvez a pergunta mais interessante não seja se Pedrinho mudou de opinião, mas quanto das convicções de qualquer um de nós sobreviveria intacto quando passássemos a sentir, na própria pele, o peso das decisões.
Planejamento parece mais simples quando a decisão não é sua
Em fevereiro de 2021, quando ainda era comentarista do SporTV, Pedrinho analisou a montagem do Flamengo que havia reunido jogadores como Gabigol, Bruno Henrique e Arrascaeta. Sua crítica foi direta: na avaliação dele, o sucesso daquele elenco não deveria ser atribuído integralmente ao planejamento da diretoria.
“Não houve o planejamento antes das contratações”, afirmou Pedrinho durante o programa Seleção SporTV, em declaração reproduzida pelo UOL. Para Pedrinho, o clube havia reunido jogadores que inicialmente disputariam posições e Jorge Jesus encontrou posteriormente uma maneira de fazê-los funcionar juntos.
Cinco anos depois, Pedrinho está do outro lado.
Na primeira janela internacional de 2026, o Vasco contratou seis jogadores e, considerando também aquisições definitivas de atletas que já estavam no elenco, comprometeu cerca de R$ 110 milhões em operações. Entre os valores divulgados pelo GE estavam aproximadamente R$ 30,5 milhões por Brenner, cerca de R$ 30 milhões por Marino Hinestroza e R$ 10,5 milhões por Claudio Spinelli. Parte importante dessas operações foi parcelada, inclusive com pagamentos previstos até 2028.
O resultado esportivo inicial trouxe justamente o tipo de questionamento que acompanha quem monta um elenco. Em junho, o GE avaliou que o desempenho geral dos reforços estava abaixo do esperado. Hinestroza, adquirido por cerca de R$ 30 milhões, havia disputado 18 partidas, apenas cinco como titular, e seu rendimento já era objeto de questionamentos diante do investimento realizado em sua contratação. Brenner, também comprado por cerca de R$ 30 milhões, havia perdido espaço depois de começar a temporada com status de titular.
Isso não significa que as contratações tenham definitivamente fracassado, muito menos que os valores investidos fossem necessariamente incorretos. Jogadores podem se adaptar, recuperar rendimento e alterar completamente a avaliação de uma operação. Mas o caso mostra como a perspectiva muda.
Como comentarista, é possível analisar se uma contratação parece adequada ao modelo de jogo. Como dirigente, é necessário descobrir quem está disponível, quanto custa, como o pagamento pode ser estruturado, quais concorrentes existem, o que o treinador deseja e qual é o risco de terminar uma janela sem resolver determinada deficiência.
O jogador ideal existe na teoria. No mercado, normalmente existe um conjunto limitado de alternativas possíveis.
O defensor da continuidade precisou demitir
Talvez o próprio Pedrinho tenha produzido a melhor síntese deste artigo.
Em novembro de 2024, já como presidente, Pedrinho falou sobre aquilo que havia defendido durante os anos de televisão. A declaração foi dada em entrevista coletiva em São Januário e publicada pelo GE:
“Na televisão, fui um dos caras que modifiquei muitos pensamentos de comentários. Sempre preguei sobre permanência de treinador, tempo de trabalho, encontrar o perfil ideal e, no dia a dia, tenho visto que as coisas são diferentes.”
Na mesma declaração, acrescentou que continuava com suas convicções, mas reconhecia que muitas vezes não conseguiria aplicá-las.
Não é uma interpretação sobre o que aconteceu com Pedrinho. É o próprio Pedrinho reconhecendo a distância entre as duas posições. E os acontecimentos posteriores tornaram essa distância ainda mais visível.
Meses depois, em entrevista coletiva realizada em julho de 2025 e registrada pelo GE, Pedrinho voltou ao assunto de maneira ainda mais direta: “Quando eu faço um comentário da TV e como presidente tenho atitude diferente, porque aqui tenho que ter atitudes diferentes.”
Desde que a gestão assumiu o controle do futebol da SAF, em maio de 2024, cinco treinadores foram demitidos até junho de 2026: Álvaro Pacheco, Rafael Paiva, Fábio Carille, Fernando Diniz e Renato Gaúcho. Segundo levantamento do GE, a média de permanência desses técnicos foi de 142 dias, menos de cinco meses.
O dado ganha ainda mais significado porque Pedrinho não escondia suas convicções. Em 2023, por exemplo, ao elogiar Fernando Diniz como comentarista, defendia que o tempo de trabalho poderia ser aliado do treinador quando existiam conhecimento e capacidade. Dois anos depois, já presidente, contrataria o próprio Diniz.
Nada disso prova que as demissões foram erradas. Essa é justamente a questão.
Defender continuidade é relativamente simples quando a continuidade é um conceito. Muito mais difícil é sustentá-la quando existem derrotas, risco esportivo, pressão da torcida, deterioração do ambiente e a responsabilidade de decidir se esperar mais algumas rodadas aumentará ou reduzirá o problema.
A convicção permanece. O contexto muda.
Um clube endividado pode continuar contratando?
É provavelmente aqui que teoria e prática entram em seu conflito mais duro.
O Vasco teve seu pedido de recuperação judicial deferido pela Justiça em fevereiro de 2025. Naquele momento, a dívida era estimada em aproximadamente R$ 1,4 bilhão.
Mesmo inserido nesse processo, o clube continuou investindo no futebol. E a dimensão desse investimento passou a fazer parte da própria discussão judicial.
Em agosto de 2026, documentos apresentados no processo indicavam previsão de R$ 67,6 milhões em desembolsos relacionados a contratações naquele mês e outros R$ 18,8 milhões em setembro, totalizando R$ 86,4 milhões. Na decisão que analisava um novo financiamento de R$ 150 milhões, a Justiça também questionou o elevado volume de recursos previsto para contratações diante da situação financeira apresentada pelo clube.
Poucos dias antes, Pedrinho havia defendido publicamente a lógica adotada pela administração. Sua argumentação era que estar em recuperação judicial não impediria o Vasco de contratar, desde que cumprisse os compromissos assumidos com os credores.
“Eu não posso fazer a contratação porque eu estou em recuperação judicial? O que eu não poderia era contratar e deixar de pagar”, afirmou Pedrinho, em declaração publicada pelo GE em 19 de agosto de 2026.
A frase coloca o problema em sua forma mais concreta.
Um clube com uma dívida gigantesca deveria reduzir drasticamente seus investimentos no futebol para acelerar sua reorganização financeira? Ou fazer isso poderia enfraquecer o time, aumentar o risco de rebaixamento, reduzir receitas futuras e tornar a própria recuperação ainda mais difícil?
Não existe uma resposta sem custo.
Investir aumenta o risco financeiro. Não investir pode aumentar o risco esportivo. E o risco esportivo também pode produzir consequências financeiras.
Em julho de 2025, o próprio Pedrinho já havia deixado claro qual limite dizia pretender respeitar. Questionado sobre clubes endividados que continuavam realizando grandes contratações, afirmou que não faria investimentos que o Vasco posteriormente não pudesse honrar. Em entrevista coletiva realizada em 24 de julho de 2025, registrada pelo GE, resumiu sua posição: “Eu não consigo contratar e não pagar”. Na mesma entrevista, estimou a dívida do clube em R$ 1,4 bilhão e defendeu que um futuro investidor deveria atacar prioritariamente esse passivo.
A discussão, portanto, não cabe confortavelmente em dois extremos. Nem toda contratação realizada por um clube endividado representa irresponsabilidade. Mas estar em recuperação judicial também não torna irrelevante o volume investido em futebol.
É nesse espaço desconfortável que a gestão acontece.
Os estudos explicam por que isso acontece
Existe um conceito clássico da teoria das organizações que ajuda a compreender esse fenômeno.
Herbert Simon, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 1978 por seus estudos sobre processos decisórios nas organizações, questionou a ideia de que gestores escolhem sempre a alternativa perfeita depois de conhecer todas as informações e consequências possíveis. Seu trabalho mostrou que decisões reais são tomadas sob limitações de conhecimento, capacidade de processamento, tempo e contexto. É o que ficou conhecido como “racionalidade limitada”.
No futebol, isso aparece diariamente.
O comentarista pode dizer que determinado clube precisa de um zagueiro melhor. O dirigente precisa encontrar esse zagueiro, convencer seu clube a vendê-lo, negociar preço, salário e comissão, verificar o impacto no caixa, vencer a concorrência e concluir tudo antes do fechamento da janela.
O comentarista pode defender a manutenção de um treinador. O presidente precisa decidir se a convicção continua válida depois de uma sequência de derrotas.
O comentarista pode cobrar austeridade de um clube endividado. O presidente precisa calcular quanto de austeridade a estrutura esportiva suporta antes de começar a comprometer a capacidade de competir.
Em janeiro de 2026, Pedrinho resumiu essa mudança de perspectiva ao dizer que, para alguns clubes organizados, a análise pode começar pelo campo. No Vasco, segundo ele, antes do campo ainda existiam estrutura, finanças e dívidas a serem resolvidas. Ao mesmo tempo, reconheceu a contradição essencial do futebol: o torcedor não quer acompanhar apenas a reorganização administrativa. Quer vitória e título.
Essa talvez seja a melhor descrição do problema.
Explicar não significa justificar
Existe, porém, um limite importante para todo esse raciocínio.
Reconhecer que administrar é mais difícil do que comentar não pode transformar a complexidade em salvo-conduto para qualquer decisão.
Pedrinho continua responsável pelas escolhas realizadas durante sua administração. Contratações podem ser mal avaliadas, treinadores podem ser demitidos precipitadamente, planejamento pode falhar e recursos podem ser utilizados de maneira ineficiente. As restrições ajudam a compreender uma decisão, mas não determinam que ela tenha sido correta.
O próprio presidente assumiu publicamente essa responsabilidade. Em agosto de 2026, com o Vasco na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro, declarou que o insucesso esportivo era responsabilidade dele.
E talvez seja exatamente aí que esteja o verdadeiro abismo entre teoria e prática.
Não necessariamente na diferença entre aquilo que alguém dizia e aquilo que passou a fazer, mas na quantidade de variáveis que aparecem quando uma opinião precisa se transformar em decisão.
Pedrinho defendia planejamento e hoje precisa planejar. Defendia tempo para treinadores e passou a decidir quando esse tempo terminou. Analisava contratações e agora precisa escolher jogadores dentro de um orçamento. E administra um clube profundamente endividado que, ao mesmo tempo em que precisa reorganizar suas finanças, não pode simplesmente deixar de competir.
Algumas dessas decisões poderão se mostrar corretas. Outras, erradas. Isso faz parte da análise e continuará sendo cobrado.
Mas o caso Pedrinho permite uma pergunta que ultrapassa o Vasco e talvez alcance qualquer pessoa que já tenha observado uma organização de fora e imaginado que a solução era evidente.
O abismo entre teoria e prática existe porque abandonamos nossas convicções quando assumimos o poder ou porque somente quando precisamos executá-las descobrimos quanto elas realmente custam?

