No futebol, algumas contratações são difíceis de avaliar, não porque existam dúvidas sobre a qualidade do jogador, mas porque o talento é apenas uma das variáveis envolvidas na decisão.
Quando o Palmeiras decidiu contratar Paulinho no fim de 2024, sua capacidade esportiva estava suficientemente demonstrada. O atacante havia marcado 20 gols no Campeonato Brasileiro de 2023, terminou 2024 com 19 gols pelo Atlético-MG e, aos 24 anos, ainda estava em uma idade que permitia projetar várias temporadas de alto rendimento. O Palmeiras, que já havia tentado contratá-lo anteriormente, assinou contrato até o fim de 2029.
Também não havia desconhecimento público sobre sua condição física.
Paulinho convivia desde o início de 2024 com um problema na tíbia direita, surgido após uma pancada na região. Segundo o próprio jogador, o quadro inicialmente foi identificado como um edema ósseo e, posteriormente, evoluiu para uma pequena fissura e uma fratura por estresse. Mesmo com o problema, ele continuou atuando pelo Atlético-MG durante a temporada e, com o aumento das dores, passou a recorrer a analgesia para conseguir jogar. Em dezembro, após a final da Libertadores, foi submetido a uma cirurgia para tratar a fratura por estresse na tíbia direita
Poucas semanas depois da cirurgia, a negociação com o Palmeiras estava encaminhada. O clube paulista aceitou pagar €18 milhões ao Atlético-MG, cerca de R$ 115 milhões à época, além de incluir Gabriel Menino e Patrick na operação. A condição física do atacante era pública e, evidentemente, não impediu o Palmeiras de concluir a contratação.
O que aconteceu posteriormente tornou aquela decisão ainda mais interessante para análise.
Paulinho estreou apenas em abril de 2025. Mesmo limitado fisicamente, conseguiu ser decisivo durante a Copa do Mundo de Clubes, com gols contra Inter Miami e Botafogo, este último garantindo a classificação palmeirense para as quartas de final. Abel Ferreira reconheceu publicamente que sabia que só poderia utilizá-lo por períodos reduzidos e que uma nova intervenção cirúrgica ocorreria depois do torneio.
Mais tarde, Paulinho revelou que havia sofrido uma refratura antes do Mundial e que pediu para disputar a competição mesmo sabendo que seria novamente operado. A segunda cirurgia o afastou pelo restante de 2025. Sua volta aos jogos ocorreu apenas em maio de 2026, acompanhada por um rígido processo de controle de carga e limitação de minutos.
No início de agosto, apareceu um novo problema, desta vez uma lesão no músculo adutor da coxa direita. Segundo levantamento do GE, desde a contratação Paulinho havia perdido 87 partidas do Palmeiras por problemas físicos e disputado apenas 25. O número de ausências nem sequer contabilizava partidas nas quais estava clinicamente disponível, mas foi preservado por controle de carga.
Diante desses números, a conclusão parece quase automática: o Palmeiras conhecia o risco, o risco se materializou, portanto a contratação foi um erro. Mas essa conclusão mistura duas coisas diferentes: o resultado de uma decisão e a qualidade da decisão que o produziu.
Antes de julgar o Palmeiras pelo que aconteceu depois, é necessário voltar ao momento em que a escolha foi feita.
E então a pergunta muda.
Quanto risco um grande talento justifica assumir?
Um grande jogador precisa estar disponível
Existe uma frase recorrente no esporte norte-americano: “The best ability is availability.” A melhor habilidade é estar disponível.
Levada ao extremo, é uma simplificação. Um jogador presente em 60 partidas não é necessariamente mais valioso do que um atleta extraordinário capaz de disputar apenas 40. Mas a frase chama atenção para uma variável que costuma receber menos destaque do que deveria nas discussões sobre contratações.
Um clube não captura valor simplesmente por possuir um grande jogador sob contrato. Captura valor quando consegue colocá-lo em campo.
Talento representa potencial. Disponibilidade é uma das condições necessárias para transformar esse potencial em desempenho.
A medicina esportiva já trabalha há tempo com o conceito de injury burden, ou carga das lesões, que combina frequência e gravidade a partir dos períodos de ausência. A UEFA utiliza essa abordagem porque simplesmente contar lesões diz pouco sobre seu verdadeiro impacto. Um afastamento de poucos dias e outro de seis meses não podem ter o mesmo peso apenas porque ambos aparecem nas estatísticas como uma lesão.
Para um clube, a lógica econômica não deveria ser muito diferente.
Ao contratar um jogador, não se compra o desempenho máximo que ele é capaz de produzir em uma partida. Compra-se uma expectativa de desempenho ao longo de várias temporadas.
É por isso que disponibilidade também precisa entrar na conta.
Todo risco tem um preço
Imagine dois jogadores iguais em idade, posição, capacidade técnica, produtividade e potencial de valorização. A única diferença é que um deles passou as últimas temporadas praticamente sempre disponível, enquanto o outro acumulou lesões graves e recorrentes.
Seria racional pagar exatamente o mesmo pelos dois?
As evidências indicam que não.
Um estudo publicado em 2026 na Humanities and Social Sciences Communications, do grupo Nature, analisou 5.336 jogadores das principais ligas europeias entre 2006 e 2020. Os pesquisadores estimaram a probabilidade de lesões graves e recorrentes e avaliaram sua relação com o valor de mercado dos atletas.
Os resultados encontraram uma associação negativa relevante. Um aumento de 1% na probabilidade estimada de lesão grave estava associado a uma redução de aproximadamente 2,29% no valor de mercado. Para o risco de lesões recorrentes, a associação negativa chegou a cerca de 2,92%. Lesões anteriores mais severas também estavam relacionadas a maior probabilidade de novos afastamentos graves.
Os números precisam ser interpretados com cuidado. O estudo utiliza valores estimados pelo Transfermarkt, e não preços efetivamente negociados entre clubes. Uma transferência incorpora muitas outras variáveis, como duração do contrato, interesse de outros compradores, urgência do vendedor e capacidade de negociação das partes. Portanto, esses percentuais não permitem calcular quanto Paulinho deveria ter custado.
Mas o mecanismo identificado é relevante: o mercado não avalia apenas aquilo que um jogador consegue produzir. Avalia também a probabilidade de que ele esteja disponível para produzir.
O estudo traz ainda uma nuance particularmente interessante para esta discussão. Seus resultados indicam que jogadores de maior valor podem sofrer uma penalização relativa menor diante do aumento marginal do risco de lesão do que atletas situados em faixas intermediárias de mercado.
A interpretação exige cautela, mas ajuda a compreender uma lógica recorrente no futebol: determinados talentos são suficientemente raros para que clubes aceitem conviver com riscos que talvez não aceitassem em jogadores menos diferenciados.
É aqui que o título desta discussão ganha sentido.
Quanto maior o retorno potencial percebido, maior pode ser o risco que alguém estará disposto a assumir para assumi-lo. Isso permite olhar para Paulinho de outra maneira, apergunta economicamente relevante não é apenas quanto vale o jogador.
É quanto ele vale considerando o risco associado à sua disponibilidade.
Existe aqui uma diferença importante entre risco e incerteza. O histórico médico fornece informações que permitem melhorar estimativas: gravidade das lesões anteriores, recorrência, períodos de afastamento, idade e carga de partidas ajudam a identificar padrões. Mas nenhuma dessas informações consegue determinar se, ou quando, uma nova lesão acontecerá.
O risco pode ser estimado. A incerteza permanece. Por isso que o preço importa.
Uma contratação com risco elevado não é necessariamente uma contratação ruim. O problema aparece quando o preço e as condições da operação deixam de compensar adequadamente o risco que está sendo assumido.
O risco do jogador não é o mesmo que o risco para o clube
Existe uma segunda dimensão que costuma receber ainda menos atenção.
Dois clubes podem examinar exatamente o mesmo jogador, chegar à mesma avaliação sobre seu histórico físico e, ainda assim, tomar decisões diferentes sem que necessariamente um deles esteja errado.
Porque uma coisa é o risco existente no atleta, outra é quanto daquele risco o clube está preparado para carregar.
Pense eu uma equipe que utilize parcela relativamente pequena de sua capacidade financeira na contratação e possua duas alternativas competitivas para a mesma posição. Agora, pense outro clube que concentre parte substancial de seus recursos naquele jogador e não tenha um substituto de nível semelhante.
A probabilidade de lesão é a mesma. As consequências não são.
Essa lógica se aproxima da diversificação de portfólio. O problema não está apenas na possibilidade de um determinado ativo apresentar um resultado negativo, mas em quanto esse resultado compromete o conjunto.
No futebol, isso significa que uma contratação não deveria ser analisada isoladamente. Profundidade do elenco, alternativas táticas, salário, duração contratual, orçamento, capacidade de reposição e importância esportiva modificam o impacto potencial de uma eventual indisponibilidade.
Nessa ótica, o mesmo jogador, pelo mesmo preço, pode representar uma decisão aceitável para um clube e uma exposição excessiva para outro.
O risco pertence ao jogador. A exposição ao risco pertence ao clube. E essa exposição não termina no departamento médico.
O índice elaborado pela corretora global de seguros Howden estimou 4.123 lesões nas cinco principais ligas europeias durante a temporada 2023/24. Apenas os salários pagos durante períodos de indisponibilidade representaram um custo estimado de €732 milhões. Em quatro temporadas, o levantamento calculou €2,3 bilhões em salários relacionados a períodos de lesão.
Mesmo esses números capturam apenas parte do problema. Não contabilizam integralmente a necessidade de substituir um titular, possíveis alterações táticas, perda de entrosamento, queda de desempenho coletivo, eventual necessidade de uma nova contratação ou redução futura do valor econômico do próprio jogador.
Uma lesão pode produzir simultaneamente um problema médico, esportivo e financeiro.
Por isso, avaliar risco não significa apenas tentar prever se um jogador voltará a se lesionar. Significa também perguntar o que acontecerá com o clube caso isso ocorra.
Uma decisão certa pode produzir um resultado errado
Clubes nunca tiveram tanta informação disponível para avaliar risco físico. Exames, histórico médico, dados de treinamento, controle de carga e diferentes ferramentas de análise permitem identificar padrões que décadas atrás seriam muito mais difíceis de enxergar.
Ainda assim, previsão não é certeza. Essa distinção é fundamental para analisar o caso Paulinho.
Quando concluiu a operação, em dezembro de 2024, o Palmeiras sabia que estava adquirindo um jogador recém-operado e tinha condições de realizar sua própria avaliação médica antes de decidir prosseguir com o negócio. Também era público que Paulinho havia convivido com dores durante meses e que sua recuperação ainda demandaria tempo. Mesmo assim, o clube decidiu pagar €18 milhões, incluir dois jogadores na negociação e oferecer um contrato de cinco temporadas.
O que não sabemos talvez seja mais importante para julgar a decisão.
Não conhecemos a avaliação interna do departamento médico. Não sabemos qual probabilidade de recuperação integral foi considerada, como o risco de recorrência foi estimado ou quanto desse risco entrou no valuation utilizado pelo Palmeiras. Também não sabemos quais cenários esportivos e financeiros foram projetados caso a recuperação não ocorresse como esperado.
Sem essas informações, afirmar que a contratação foi correta ou incorreta apenas observando aquilo que aconteceu depois é transformar resultado em explicação.
E são coisas diferentes.
Qualidade da decisão não é a mesma coisa que qualidade do resultado.
Uma boa decisão é aquela construída de maneira racional diante das informações disponíveis naquele momento. Isso não significa que produzirá necessariamente um bom resultado.
Um clube pode investigar adequadamente um jogador, identificar os riscos, estimar diferentes cenários, pagar um preço que considere compatível e, ainda assim, terminar diante do pior dos resultados.
Da mesma forma, uma decisão mal fundamentada pode produzir um resultado extraordinário. Um atleta contratado sem análise adequada pode permanecer saudável durante anos, decidir campeonatos e multiplicar seu valor de mercado.
O sucesso posterior não transforma automaticamente um processo ruim em bom. E o fracasso posterior não transforma automaticamente um processo racional em erro.
Esse é um dos problemas do julgamento retrospectivo no futebol. Depois que o resultado é conhecido, aquilo que anteriormente era apenas uma possibilidade começa a parecer evidente, previsível e até inevitável.
Paulinho oferece um exemplo particularmente interessante porque seu período no Palmeiras mostrou os dois lados dessa equação quase ao mesmo tempo.
Mesmo fisicamente limitado durante o Mundial de Clubes de 2025, entrou por períodos curtos e foi decisivo. Marcou contra o Inter Miami e fez o gol que eliminou o Botafogo nas oitavas de final.
Durante aqueles minutos apareceram, simultaneamente, as duas faces da contratação.
O jogador que não conseguia permanecer em campo pelo tempo que o Palmeiras gostaria, e o jogador capaz de decidir um confronto de alto nível quando estava nele.
É esse contraste que torna decisões como essa tão difíceis. O talento aumenta o retorno possível. A indisponibilidade reduz a probabilidade de capturá-lo. Entre os dois está o preço que um clube aceita pagar.
Depois de toda essa análise, a pergunta mais útil não é se clubes devem ou não contratar jogadores com histórico de lesões.
É quanto risco aquele talento justifica assumir. E a que preço.



