Imagem – Foto: Danilo Fernandes / Meu Timão
Poucas ideias parecem tão óbvias no futebol quanto a importância da torcida. Basta assistir a uma decisão em estádio lotado para encontrar exemplos que reforçam essa percepção. O time da casa pressiona mais, corre mais, parece ganhar confiança após cada lance disputado. Quando o jogo termina, não é raro ouvir jogadores, treinadores e comentaristas atribuindo parte do resultado ao apoio vindo das arquibancadas.
A própria história do futebol foi construída em torno dessa crença. Alguns estádios ficaram mundialmente conhecidos justamente pela atmosfera criada por seus torcedores. A expressão “caldeirão” tornou-se parte do vocabulário esportivo. Em muitos lugares, jogar fora de casa é tratado quase como uma desvantagem estrutural antes mesmo de a bola rolar.
Os números parecem dar razão a essa percepção. Há décadas pesquisadores observam um fenômeno conhecido como home advantage ou vantagem de jogar em casa. Um estudo clássico de Pollard e Gómez analisou 157 ligas nacionais ao redor do mundo e encontrou vantagem consistente para equipes mandantes em praticamente todos os continentes. Em média, os clubes da casa conquistavam cerca de 61% dos pontos disputados, um valor muito superior aos 50% que seriam esperados em um cenário de completo equilíbrio entre mandantes e visitantes. Embora a intensidade varie entre países e competições, com algumas ligas ultrapassando a marca de 65%, o padrão é suficientemente robusto para ser considerado um dos fenômenos mais estáveis da literatura esportiva.
O curioso é que, apesar de sua fama, a existência da vantagem de jogar em casa nunca respondeu completamente à pergunta mais importante: por quê? A explicação intuitiva sempre apontou para a torcida. Afinal, parece razoável imaginar que milhares de pessoas apoiando uma equipe durante noventa minutos possam influenciar o comportamento dos atletas. O problema é que o futebol nunca permitiu testar essa hipótese de forma adequada.
Quando um time joga em casa, a torcida está presente, mas também estão presentes diversas outras vantagens: familiaridade com o estádio, menor desgaste com viagens, conhecimento do gramado, rotina preservada e até diferenças climáticas em determinados locais. Durante décadas, cientistas conseguiram medir a existência da vantagem de jogar em casa, mas tiveram dificuldade para separar qual parcela desse efeito realmente era produzida pelas arquibancadas.
Foi então que um evento completamente inesperado ofereceu ao futebol o maior experimento científico de sua história. A pandemia de Covid-19 obrigou ligas do mundo inteiro a realizar milhares de partidas com portões fechados. Pela primeira vez, pesquisadores puderam observar os mesmos clubes, nos mesmos estádios e nas mesmas competições, mas sem a presença de torcedores. O que surgiu a partir dessa situação gerou uma das mais interessantes linhas de pesquisa da ciência do esporte nos últimos anos. E os resultados encontrados foram muito mais complexos do que simplesmente concluir que a torcida “empurra o time”.
O experimento que o futebol jamais planejou realizar
O problema para uma análise mais robusta era metodológico. Em termos científicos, era difícil isolar a variável que realmente interessava sem levar em conta outras “vantagens” de jogar em casa.
A pandemia de Covid-19 mudou isso de forma inesperada. Entre 2020 e 2021, ligas de todo o mundo passaram a realizar partidas com portões fechados. Pela primeira vez na história moderna do futebol profissional, pesquisadores tiveram acesso a um experimento natural em escala global. Os mesmos clubes continuaram disputando os mesmos campeonatos, nos mesmos estádios e sob regras praticamente idênticas. A grande diferença era que as arquibancadas estavam vazias.
Situações como essa são extremamente raras na ciência. Normalmente, pesquisadores precisam trabalhar com amostras limitadas ou experimentos controlados em ambientes artificiais. A pandemia produziu algo muito mais valioso: milhares de partidas reais disputadas nas condições mais próximas possíveis das habituais, mas sem a presença do elemento que tradicionalmente era apontado como um dos principais responsáveis pela vantagem de jogar em casa.
Naturalmente, o interesse acadêmico explodiu.
Uma revisão sistemática publicada em 2022 reuniu 26 estudos primários realizados em diferentes países e competições para analisar os efeitos da ausência de público sobre o futebol profissional. A conclusão geral foi clara: nenhum dos estudos encontrou aumento da vantagem de jogar em casa durante o período de estádios vazios. Cerca de um quarto deles não identificou mudanças estatisticamente significativas, mas a maioria encontrou reduções que variavam de moderadas a fortes.
Outra revisão, publicada na PLOS ONE em 2023, analisou 28 artigos sobre o tema e chegou a uma conclusão semelhante: a ausência de torcida reduziu a vantagem dos mandantes, afetou indicadores técnicos, táticos e físicos das equipes da casa e tornou a arbitragem mais equilibrada em parte das competições analisadas.
Esses resultados exigem um cuidado importante. A torcida importa, mas ela não explica tudo. O mando de campo é um fenômeno multifatorial. Parte dele vem do apoio das arquibancadas. Parte vem da familiaridade com o ambiente. Parte está relacionada ao desgaste das viagens. Parte decorre da própria dinâmica psicológica de atuar em um local conhecido.
Essa cautela não é nova. Já em 1999, uma revisão influente de Nevill e Holder havia mapeado os principais fatores associados à vantagem de jogar em casa e concluído que nenhum deles, isoladamente, era capaz de explicar completamente o fenômeno.
Ainda assim, quando os pesquisadores removeram a torcida da equação, algo mudou.
Um dos estudos mais influentes do período analisou 4.844 partidas disputadas em 15 ligas de 11 países antes e durante a pandemia. Os autores encontraram uma redução estatisticamente significativa na vantagem dos mandantes, identificando mudanças tanto no desempenho das equipes quanto nas decisões de arbitragem. Outro trabalho amplamente citado, conduzido por McCarrick, Bilalić, Neave e Wolfson, chegou a conclusões semelhantes, observando piora no desempenho das equipes da casa e redução do viés favorável aos mandantes nas decisões dos árbitros.
Em algumas ligas, as equipes da casa venceram menos. Em outras, marcaram menos gols, conquistaram menos pontos ou exerceram menor domínio territorial. A queda não foi suficiente para eliminar completamente a vantagem de jogar em casa, mas foi consistente o bastante para demonstrar que a arquibancada não é apenas parte do cenário.
Ela altera o jogo.
O ponto mais interessante, porém, é que essa influência parece ir além da motivação dos atletas. Se a torcida atuasse apenas estimulando os jogadores, esperaríamos observar principalmente mudanças físicas ou ofensivas. Os estudos encontraram algo mais amplo. A ausência de público também modificou a distribuição de faltas, cartões e decisões disciplinares.
Esse detalhe muda a interpretação do fenômeno.
A principal conclusão não é que a torcida transforma jogadores comuns em atletas melhores. Ela pode influenciar confiança, intensidade e agressividade competitiva. Mas as evidências sugerem que uma parte importante de seu efeito ocorre sobre o ambiente em que o jogo é interpretado e decidido.
Em outras palavras, a torcida não influencia apenas quem corre, passa e finaliza.
Ela também influencia quem apita.
Talvez o maior impacto não esteja nos jogadores
Quando torcedores afirmam que a arquibancada venceu o jogo, normalmente imaginam um efeito direto sobre os atletas. A imagem é familiar: o estádio lotado empurra o time para frente, aumenta a intensidade da equipe e cria um ambiente emocional capaz de alterar o desempenho dentro de campo.
Essa influência provavelmente existe. O problema é que os estudos realizados durante a pandemia sugerem que ela talvez não seja a principal explicação para a vantagem de jogar em casa. A descoberta mais interessante da literatura recente é que a torcida parece exercer parte significativa de sua influência sobre as pessoas responsáveis por interpretar o jogo, e não apenas sobre aqueles que o disputam. Essa hipótese não surgiu durante a pandemia. Ela já vinha sendo estudada há décadas. Um dos trabalhos clássicos sobre o tema foi publicado em 2005 por Luis Garicano, Ignacio Palacios-Huerta e Canice Prendergast, na Review of Economics and Statistics. O estudo analisou árbitros da primeira divisão espanhola e encontrou evidências de que os juízes concediam mais tempo de acréscimo quando a equipe mandante estava perdendo por um gol do que quando estava vencendo por um gol. O efeito era significativamente maior em estádios com maior presença de público, sugerindo que a pressão das arquibancadas poderia influenciar decisões tomadas nos minutos finais das partidas.
Nos anos seguintes, diversos estudos encontraram padrões semelhantes em diferentes campeonatos. Em média, equipes visitantes tendiam a receber mais cartões, sofrer mais marcações de faltas e enfrentar decisões disciplinares ligeiramente mais severas do que os mandantes. Nenhuma dessas diferenças, isoladamente, era suficiente para decidir um campeonato. Mas o futebol é um esporte de placares apertados. Pequenas vantagens acumuladas ao longo de centenas de partidas podem produzir efeitos relevantes nos resultados finais.
O aspecto mais interessante dessas pesquisas é que elas não apontam para corrupção ou favorecimento deliberado. A explicação mais aceita é psicológica. Em ambientes com quarenta, cinquenta ou sessenta mil pessoas reagindo simultaneamente a cada lance, os árbitros são submetidos a uma pressão social extraordinária. Como qualquer ser humano, eles precisam interpretar eventos ambíguos em tempo real. Muitas faltas, cartões e acréscimos não são decisões objetivas como medir a distância de uma corrida. São julgamentos realizados em frações de segundo. E julgamentos humanos são influenciados pelo ambiente.
Foi justamente esse mecanismo que a pandemia permitiu observar de forma mais clara.
Quando os torcedores desapareceram dos estádios, vários estudos identificaram redução significativa de decisões favoráveis aos mandantes.
A revisão sistemática publicada em 2022 encontrou evidências consistentes de que a ausência de público diminuiu parte do viés pró-casa observado historicamente nas competições profissionais.
Em outras palavras, a arbitragem tornou-se mais neutra quando deixou de atuar sob a pressão de milhares de pessoas presentes no estádio. Talvez o exemplo mais interessante seja que, em algumas ligas, a redução do viés da arbitragem foi maior do que a redução observada em indicadores puramente técnicos das equipes. Isso sugere que parte da vantagem de jogar em casa não vinha apenas de jogadores mais motivados ou mais confiantes. Vinha também do ambiente psicológico criado ao redor da tomada de decisões.
Essa conclusão ajuda a explicar por que a vantagem de jogar em casa sobreviveu durante décadas em países com culturas, estilos de jogo e níveis técnicos completamente diferentes. A torcida não altera apenas a performance dos atletas. Ela altera o contexto em que o jogo é interpretado. E se essa interpretação estiver correta, surge uma pergunta inevitável. Se uma parcela da influência das arquibancadas passa pela arbitragem, o que acontece quando a tecnologia começa a substituir parte dessas decisões humanas? É exatamente aí que entra o VAR.
O VAR mudou o poder das arquibancadas?
Se uma parte da vantagem de jogar em casa está relacionada à influência da torcida sobre decisões humanas, a evolução tecnológica do futebol deveria produzir um efeito previsível: reduzir essa vantagem.
Foi exatamente essa hipótese que diversos pesquisadores passaram a investigar após a introdução do árbitro de vídeo. Durante boa parte da história do futebol, decisões cruciais dependiam exclusivamente da percepção do árbitro em campo. Faltas, cartões, impedimentos, pênaltis e acréscimos eram julgados em tempo real sob a pressão de dezenas de milhares de pessoas. Em um ambiente tão intenso, era natural que fatores psicológicos influenciassem, ainda que de forma inconsciente, algumas decisões. O VAR não elimina completamente o fator humano. Mas ele cria um mecanismo de revisão que reduz a influência do ambiente sobre determinadas decisões.
Quando um lance pode ser revisto por diferentes profissionais, utilizando múltiplos ângulos e imagens em câmera lenta, a pressão imediata das arquibancadas tende a perder parte da sua força.
Os primeiros estudos sobre o tema, no entanto, ainda não permitem uma conclusão definitiva. Uma pesquisa publicada em 2025, analisando 41 ligas de 26 países entre 2013 e 2024, encontrou evidências de que a adoção do VAR reduziu a vantagem de jogar em casa, principalmente por aumentar o número de gols marcados pelas equipes visitantes, e não por reduzir os gols dos mandantes.
Curiosamente, o número de pênaltis não se alterou de forma significativa após a introdução da tecnologia, o que sugere que o efeito do VAR pode estar mais ligado ao comportamento dos jogadores em campo do que estritamente às decisões dos árbitros.
A literatura, porém, não é unânime. Alguns estudos encontraram evidências de que o VAR reduziu parte da vantagem de jogar em casa, enquanto outros identificaram efeitos pequenos ou estatisticamente pouco relevantes. Isso sugere que o impacto da tecnologia pode variar conforme a liga analisada, o período estudado e a metodologia empregada pelos pesquisadores.
O resultado não significa que a torcida deixou de influenciar os jogos. Muito longe disso. Os estádios continuam afetando a confiança dos atletas, a comunicação dentro de campo, a percepção de pressão, a intensidade emocional da partida e até mesmo o comportamento tático das equipes.
O que os dados sugerem é algo mais específico: uma parcela da influência que antes passava pela arbitragem parece estar diminuindo em algumas competições, ainda que de forma desigual entre ligas e períodos. Talvez essa seja a principal lição produzida pelo maior experimento involuntário da história do futebol. A torcida realmente influencia os resultados. Mas provavelmente não da forma que a maioria das pessoas imagina.
Durante décadas, acreditou-se que seu principal efeito era transformar jogadores comuns em atletas capazes de render acima de seus limites. As evidências acumuladas nos últimos anos sugerem uma explicação mais sofisticada. A torcida influencia o ambiente em que o jogo acontece. Influencia a percepção de atletas, treinadores e árbitros. Influencia decisões. Influencia comportamentos. E, em um esporte no qual campeonatos frequentemente são decididos por detalhes, pequenas influências acumuladas ao longo de dezenas de partidas podem produzir consequências enormes.
Talvez o maior poder das arquibancadas nunca tenha sido empurrar jogadores para a vitória. Talvez tenha sido alterar, mesmo que de forma involuntária, o contexto psicológico em que as decisões do jogo são tomadas.



