Quando joguei no Ipatinga, durante o período mais vitorioso da história do clube, ouvi uma frase que, naquele momento, me pareceu completamente incompatível com a lógica do futebol. Em uma conversa sobre montagem de elenco, o diretor de futebol, um profissional que eu sempre considerei excelente, já que o clube montava equipes competitivas ano após ano, comentou que se acertasse metade das contratações realizadas para a temporada consideraria o trabalho um sucesso.
Minha reação foi imediata. Como alguém poderia considerar satisfatório um aproveitamento tão baixo em uma atividade tão importante para o desempenho esportivo? Se metade das contratações não funcionasse, não significaria que o planejamento havia falhado?
Na época, cheguei a pensar que a conta simplesmente não fechava. Se acertar metade das contratações já era considerado um bom resultado, então um clube precisaria contratar muito mais jogadores do que realmente utilizaria para formar um elenco competitivo. Para uma equipe pequena, com recursos limitados, aquilo me parecia uma lógica difícil de sustentar.
Afinal, o senso comum nos ensina que um bom profissional é aquele que toma decisões corretas na maior parte do tempo. Sob essa perspectiva, um departamento de futebol deveria ser capaz de identificar os melhores jogadores disponíveis, contratá-los e vê-los reproduzir em campo exatamente o desempenho que motivou o investimento. Era evidente para mim que nem todas as contratações funcionariam, mas considerar um aproveitamento de apenas 50% como sinal de excelência parecia um exagero.
Com o passar dos anos, porém, a experiência mostrou que o problema não estava na resposta. Estava na pergunta. A verdadeira questão nunca foi entender por que tantas contratações dão errado. A questão é compreender por que imaginamos que elas deveriam dar certo com tanta frequência.
Poucas atividades econômicas exigem previsões tão complexas quanto a montagem de um elenco. Quando um clube contrata um jogador, ele não está comprando garantia de gols futuros, assistências futuras ou boas atuações futuras. Está comprando a expectativa de que tudo isso aconteça. A decisão é tomada com base no passado do atleta, mas o retorno do investimento depende inteiramente de algo que ainda não aconteceu.
E é justamente nesse ponto que reside a principal dificuldade. O dirigente não contrata o jogador que atuou pelo clube anterior. Contrata o jogador que acredita que atuará da mesma forma em um ambiente completamente diferente. Entre uma coisa e outra existe uma quantidade enorme de fatores que ninguém consegue controlar plenamente.
Talvez por isso a frase daquele diretor tenha envelhecido tão bem na minha memória. O que parecia uma demonstração de pessimismo era, na verdade, uma demonstração de realismo. Antes mesmo de os dados confirmarem essa percepção, ele já compreendia algo que muitos torcedores, jornalistas e até dirigentes ainda resistem a aceitar: no futebol, contratar bem não significa acertar tudo. Significa acertar o suficiente para que os acertos sejam maiores do que os erros.
O clube compra passado tentando prever futuro
Quando um clube contrata um jogador, ele não está comprando aquilo que o atleta fez. Está comprando aquilo que acredita que ele será capaz de fazer. Parece uma diferença pequena, mas ela muda completamente a forma de enxergar o mercado.
Toda contratação é, essencialmente, uma previsão sobre o futuro. O clube observa partidas, analisa números, consulta relatórios, conversa com treinadores, avalia características físicas e técnicas e tenta transformar todas essas informações em uma estimativa sobre o desempenho que aquele atleta poderá entregar nos próximos meses ou anos. O problema é que nenhuma dessas informações descreve o futuro. Todas descrevem o passado.
O jogador que está sendo contratado é o mesmo indivíduo, mas o ambiente que produziu aquele desempenho deixa de existir no momento em que a transferência acontece. Mudam os companheiros de equipe, mudam os adversários, muda o treinador, muda o sistema de jogo, muda a cidade, muda a torcida, muda o nível de pressão e, muitas vezes, mudam até mesmo as prioridades profissionais e pessoais do atleta, que passa a viver uma etapa diferente da carreira daquela que viveu quando construiu o desempenho que motivou sua contratação.
Na prática, o clube tenta responder uma pergunta extremamente complexa: aquilo que fez esse atleta render em um determinado contexto continuará existindo quando ele for inserido em um contexto completamente diferente?
Nem sempre a resposta é positiva. Existem jogadores que parecem perfeitamente adaptados a um modelo de jogo específico, mas encontram dificuldades quando precisam executar funções diferentes. Outros prosperam em ambientes de menor pressão e enfrentam problemas quando passam a atuar em clubes onde cada partida é tratada como uma decisão. Há também casos em que o desempenho anterior dependia de características dos companheiros de equipe que simplesmente não estarão presentes no novo elenco.
O desafio é que nenhuma dessas variáveis pode ser observada com absoluta precisão antes da contratação. O dirigente toma a decisão sem conhecer o resultado, exatamente como acontece em qualquer atividade que depende de previsões sobre o comportamento humano.
Por isso, contratar jogadores está muito mais próximo de um exercício de probabilidade do que de uma ciência exata. O departamento de futebol não escolhe entre atletas que darão certo e atletas que darão errado. Ele escolhe entre diferentes hipóteses sobre o futuro, sabendo que algumas delas inevitavelmente não se confirmarão.
É justamente essa incerteza que transforma o mercado de transferências em uma atividade tão fascinante quanto imprevisível. E também ajuda a explicar por que profissionais experientes costumam considerar excelentes resultados que, para quem observa apenas de fora, parecem surpreendentemente modestos.
O desempenho não viaja sozinho
Existe uma tendência natural de atribuir o sucesso ou o fracasso de um jogador exclusivamente às suas qualidades individuais. Quando um atleta rende bem, costumamos concluir que ele é bom. Quando rende mal, assumimos que não era tão bom quanto parecia. O problema é que essa explicação ignora um dos fatores mais importantes do desempenho esportivo: o contexto.
No futebol, jogadores não atuam isoladamente. Seu desempenho depende das características dos companheiros de equipe, das funções atribuídas pelo treinador, da forma como o time ocupa os espaços em campo, da qualidade dos adversários enfrentados e até mesmo do ambiente institucional em que estão inseridos. Em muitos casos, aquilo que parece ser uma característica individual é, na verdade, o resultado de uma combinação específica de circunstâncias que favorecem determinado atleta.
Isso ajuda a explicar por que jogadores que pareciam indispensáveis em um clube encontram dificuldades em outro. O atleta não necessariamente desaprendeu a jogar futebol. Muitas vezes, o contexto que potencializava suas virtudes simplesmente deixou de existir.
Um atacante que recebia bolas em condições ideais pode passar a atuar em uma equipe que cria menos oportunidades. Um zagueiro protegido por uma estrutura defensiva sólida pode passar a ser exposto constantemente a situações que antes não enfrentava. Um meia criativo cercado por jogadores inteligentes pode encontrar muito mais dificuldades quando passa a atuar em um time que oferece menos opções de passe e movimentação.
O mesmo acontece no sentido contrário. Não são raros os casos de atletas que tiveram passagens discretas por determinados clubes e, ao encontrarem um ambiente mais adequado às suas características, passaram a apresentar desempenhos muito superiores. O talento individual continua sendo importante, mas a forma como esse talento interage com o ambiente costuma ser igualmente decisiva.
Talvez seja justamente por isso que o mercado de transferências produza tantos erros de avaliação. Os clubes observam o desempenho final e tentam identificar as qualidades responsáveis por aquele resultado. O que nem sempre conseguem medir com a mesma precisão é o peso que o contexto exerceu sobre essa performance.
Em última análise, uma transferência não envolve apenas a mudança de um jogador. Ela envolve a separação entre o atleta e o ambiente que ajudou a produzir o desempenho que chamou a atenção do mercado. E essa é uma variável que nenhum relatório de scout consegue observar completamente antes que a contratação aconteça.
O mercado mais caro do futebol continua errando
Se contratar jogadores fosse uma atividade previsível, os clubes mais ricos do mundo já teriam resolvido esse problema há muito tempo. Afinal, eles possuem departamentos de scout espalhados por diversos países, analistas de desempenho, cientistas de dados, psicólogos, softwares especializados e acesso a uma quantidade de informações que seria inimaginável há algumas décadas.
Ainda assim, os resultados continuam surpreendentemente modestos.
Ian Graham, diretor de pesquisa do Liverpool entre 2012 e 2023 e um dos principais responsáveis pela construção do elenco que conquistou a Premier League e a Liga dos Campeões sob o comando de Jürgen Klopp, analisou milhares de transferências realizadas ao longo da história recente da Premier League. Utilizando um critério relativamente simples, considerar bem-sucedido o jogador que inicia pelo menos metade das partidas de sua equipe nos dois primeiros anos após a contratação, Graham encontrou uma taxa de sucesso de apenas 54% nas transferências superiores a 10 milhões de libras. Em outras palavras, aproximadamente 46% das contratações relevantes não conseguiram sequer se consolidar como titulares regulares de suas equipes.
O dado chama atenção não apenas pelo percentual, mas porque estamos falando da elite do mercado. São atletas que passaram por processos de observação, monitoramento, análise e validação muito mais sofisticados do que aqueles disponíveis para a maioria dos clubes do mundo. Ainda assim, praticamente uma em cada duas apostas não produz o resultado esperado. Mais impressionante: ao ampliar a análise para as principais ligas europeias, Graham encontrou resultados semelhantes, sugerindo que a taxa de fracasso permanece elevada mesmo com o avanço das ferramentas de análise de dados e recrutamento.
O tamanho da indústria ajuda a colocar esse desafio em perspectiva. Segundo a FIFA, os clubes do mundo movimentaram US$ 13,08 bilhões em transferências internacionais em 2025, o maior valor já registrado na história do futebol. No mesmo ano, foram realizadas mais de 86 mil transferências internacionais envolvendo futebol profissional e amador, também um recorde histórico.
Evidentemente, não sabemos quantas dessas contratações atingiram exatamente as expectativas de quem investiu. Mas, se utilizássemos apenas como exercício ilustrativo a taxa de sucesso de 54% encontrada por Ian Graham nas grandes transferências da Premier League, estaríamos falando de algo próximo a US$ 7 bilhões investidos em jogadores que não entregaram o retorno esperado. Convertido para a moeda brasileira, isso representa aproximadamente R$ 35 bilhões atualmente. Para efeito de comparação, segundo levantamento da consultoria EY publicado pela revista Forbes, a receita total dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro foi de R$ 14,9 bilhões em 2025. Em outras palavras, o volume potencial de recursos associado a contratações malsucedidas no mercado mundial equivale a quase duas temporadas e meia de faturamento de toda a elite do futebol brasileiro.
Esses números revelam algo importante. O futebol nunca investiu tanto dinheiro, nunca produziu tantos dados e nunca teve tantos profissionais especializados trabalhando em análise de jogadores. Ainda assim, continua distante de transformar contratações em uma atividade previsível.
Por isso, quando um diretor de futebol afirma que acertar metade das contratações já representa um excelente trabalho, ele não está necessariamente sendo pessimista. Está apenas reconhecendo uma realidade que os números mostram de forma bastante clara: mesmo os clubes mais sofisticados do planeta continuam errando muito mais do que a maioria dos torcedores imagina.
O objetivo nunca foi acertar tudo
Talvez a principal lição seja que os melhores departamentos de futebol do mundo não trabalham para eliminar os erros. Trabalham para conviver com eles.
A frase que citei no início deste artigo foi dita em 2007. Desde então, o futebol passou por uma transformação profunda. Ainda assim, os números sugerem que a capacidade de prever o sucesso de uma contratação melhorou muito menos do que se imaginava.
Essa pode parecer uma conclusão estranha em um ambiente onde cada contratação é analisada publicamente e onde o fracasso de um jogador costuma ser tratado como prova de incompetência de quem aprovou sua chegada. No entanto, a realidade é que nenhuma estrutura de contratação consegue transformar o mercado de transferências em uma ciência exata.
O motivo é simples. Se o desempenho futuro de um atleta pudesse ser previsto com precisão, os clubes mais ricos contratariam apenas jogadores que dariam certo. As oportunidades desapareceriam rapidamente e o mercado se tornaria muito mais eficiente do que realmente é. O fato de atletas continuarem surpreendendo positiva e negativamente demonstra que a incerteza permanece presente, independentemente da quantidade de informações disponíveis.
Por isso, os melhores clubes costumam ser avaliados não pela ausência de erros, mas pela capacidade de fazer com que seus acertos superem suas falhas. Uma contratação que se transforma em protagonista pode compensar diversas apostas que produziram resultados apenas medianos. Da mesma forma, evitar grandes fracassos financeiros costuma ser tão importante quanto encontrar grandes sucessos esportivos.
Essa lógica ajuda a explicar por que algumas equipes conseguem permanecer competitivas durante muitos anos enquanto outras alternam períodos de euforia e frustração. O diferencial raramente está em acertar todas as decisões. O diferencial está em construir processos capazes de gerar mais acertos do que erros ao longo do tempo.
Foi justamente isso que só consegui compreender anos depois daquela conversa no Ipatinga. O diretor de futebol não estava estabelecendo uma meta baixa. Estava reconhecendo a natureza da atividade. Em um mercado que exige previsões sobre seres humanos, adaptação a novos ambientes e desempenho sob condições impossíveis de controlar completamente, acertar metade das contratações não era sinal de mediocridade. Era sinal de excelência.
Talvez a pergunta correta nunca tenha sido por que tantas contratações fracassam. Talvez a pergunta correta seja por que ainda nos surpreendemos quando elas fracassam.

