Existe uma maneira bastante intuitiva de avaliar a categoria de base de um clube de futebol. Se muitos jogadores chegam ao time principal, o trabalho parece ter dado certo. Se poucos conseguem ocupar esse espaço, surge a impressão de que existe uma desconexão entre aquilo que o clube forma e aquilo que efetivamente aproveita.
Durante muito tempo, essa foi uma maneira razoável de compreender a função de um centro de formação de atletas. O mercado de transferências de 2026 do Real Madrid, porém, oferece um exemplo interessante de por que essa análise pode ter se tornado incompleta.
Segundo levantamento publicado pelo jornal AS, 11 jogadores formados em La Fábrica e sobre os quais o Real Madrid ainda possuía direitos geraram aproximadamente € 189 milhões ao clube nessa janela de transferência. No mesmo período, a equipe investiu € 225 milhões em seis contratações.
A comparação chama atenção não apenas pelo tamanho dos números, mas pela aparente contradição que existe entre eles: enquanto poucos jogadores formados no clube possuem espaço relevante no time principal, a categoria de base participa de maneira significativa da capacidade econômica utilizada para reforçá-lo.
Talvez esteja aí uma das melhores explicações para uma pergunta que parece contraditória: por que um clube com a capacidade financeira do Real Madrid, acostumado a buscar alguns dos melhores jogadores do mundo, continua investindo tanto na formação de atletas que, em sua maioria, nunca serão titulares no Santiago Bernabéu?
Porque a base não serve apenas para aproveitar jogadores no time principal. Ela também pode ajudar a financiar grandes contratações.
Uma base que já gerou cerca de € 189 milhões
Os números permitem entender a dimensão do fenômeno. Ainda de acordo com o mesmo levantamento do AS, Gonzalo García deixou aproximadamente € 40 milhões pela transferência de 70% de seus direitos ao Fulham, enquanto Nico Paz produziu € 60 milhões em sua permanência no Como. Víctor Muñoz gerou outros € 20,5 milhões ao Real porque o clube conservava 50% de seus direitos quando o Liverpool pagou sua cláusula ao Osasuna. Situações semelhantes ocorreram com Álvaro Rodríguez (€ 12,5 milhões), Mario Gila (€ 15 milhões) e Álex Jiménez (€ 12,5 milhões), cujas transferências entre outros clubes continuaram produzindo receitas para o Madrid graças às participações que haviam sido preservadas anteriormente.
Somadas a outras operações envolvendo jogadores como César Palacios (€ 10 milhões), Víctor Valdepeñas (€ 8 milhões), Fran García (€ 4 milhões), Mario Martín (€ 3,5 milhões) e Fran González (€ 3 milhões), essas movimentações levaram a aproximadamente € 189 milhões a receita associada a jogadores desenvolvidos em La Fábrica sobre os quais o clube ainda possuía direitos.
O dado precisa ser interpretado corretamente, porque nem todo esse dinheiro resulta de uma venda direta realizada agora pelo Real Madrid. Parte dele representa uma segunda monetização de jogadores que já haviam deixado o clube e continuaram se valorizando em outros lugares.
Essa diferença é fundamental para compreender a estratégia. O Real Madrid não está apenas formando jogadores para decidir posteriormente entre mantê-los ou vendê-los. Em várias operações, procura transformar parte do valor em receita sem necessariamente encerrar sua exposição econômica ao desenvolvimento futuro daquele atleta.
O resultado alcançou uma escala particularmente relevante em 2026. Os € 189 milhões equivalem a aproximadamente 84% dos € 225 milhões investidos pelo clube em seis reforços neste mercado. Não significa, evidentemente, que exista uma conta separada na qual o dinheiro recebido por um jogador da base seja destinado diretamente à aquisição de outro. O Real Madrid possui uma estrutura financeira muito maior e as receitas e despesas com transferências fazem parte do conjunto das finanças do clube. A comparação serve para demonstrar a magnitude econômica da formação.
E essa magnitude se torna ainda mais interessante quando observamos que o Real Madrid não depende dessas vendas para sobreviver.
Por que um clube que praticamente só contrata precisa de uma categoria de base?
O Real Madrid encerrou a temporada 2025/26 com € 1,221 bilhão de receitas operacionais antes das transferências de jogadores, superando pela primeira vez a barreira de € 1,2 bilhão. O EBITDA chegou a € 287,4 milhões, também o maior da história do clube, enquanto o lucro líquido alcançou € 26,3 milhões. O próprio Real informou ainda patrimônio líquido de € 624 milhões e dívida financeira líquida de apenas € 9 milhões, excluído o financiamento relacionado à reforma do Santiago Bernabéu.
Portanto, não estamos diante de um clube que precisa negociar jovens para cobrir uma incapacidade estrutural de produzir receitas. Se o Real Madrid já possui enorme capacidade operacional de geração de recursos, as receitas provenientes da formação ampliam ainda mais sua capacidade de investir.
É aqui que a oposição tradicional entre formar ou contratar começa a perder sentido.
O Real Madrid pode fazer as duas coisas porque uma estratégia pode alimentar a outra. Quando a formação produz um jogador capaz de ocupar um lugar no time principal, o clube obtém um retorno esportivo direto e potencialmente evita a necessidade de realizar uma contratação para aquela função. Quando produz um excelente profissional que, ainda assim, não encontra espaço em um elenco com nível de exigência extraordinariamente alto, existe outra possibilidade: transformar aquele valor esportivo em valor econômico.
A diferença é importante porque o Real Madrid não precisa formar apenas jogadores suficientemente bons para atuar profissionalmente. Para que um jovem permaneça no clube, ele precisa competir por espaço em um elenco construído deliberadamente para reunir alguns dos melhores atletas do mundo. Um atacante pode estar preparado para jogar em uma grande liga europeia e ainda assim encontrar Kylian Mbappé à sua frente. Um meio-campista pode possuir mercado internacional sem representar, naquele momento, a melhor opção disponível para o clube.
Isso produz inevitavelmente um excedente de talento. E uma organização eficiente precisa decidir o que fazer com ele.
Em vez de tratar todos os jogadores que não chegam ao time principal como perdas do processo de formação, o Real Madrid consegue converter parte desse excedente em recursos que retornam ao próprio projeto esportivo. Dessa maneira, a base não funciona necessariamente como alternativa ao mercado de transferências. Em determinados casos, funciona como uma das estruturas que aumentam a capacidade do clube de atuar nele.
A lógica deixa de ser formar ou comprar e passa a admitir outro ciclo: formar, desenvolver valor, vender e ampliar a capacidade de contratar.
Nem todo jogador formado precisa jogar no Real Madrid
Essa lógica exige rever o próprio conceito de sucesso de uma categoria de base. Naturalmente, produzir um jogador capaz de se estabelecer no time principal continua sendo um dos melhores resultados possíveis. Quando isso acontece, o clube recebe o benefício esportivo de anos de formação e pode evitar o desembolso necessário para contratar no mercado um atleta equivalente.
O problema está em considerar essa a única maneira de uma categoria de base produzir retorno.
O mercado potencial de La Fábrica é muito maior que o elenco profissional do Real Madrid. A estrutura forma jogadores capazes de atuar na Espanha, Inglaterra, Itália, França e em outras ligas, enquanto o primeiro time possui um número extremamente limitado de vagas. Mesmo uma categoria de base extraordinariamente eficiente produzirá, necessariamente, muito mais jogadores profissionais do que atletas capazes de permanecer no próprio Real.
Isso significa que o jogador pode não possuir valor de uso suficiente para o Real Madrid naquele momento e, simultaneamente, possuir enorme valor de mercado para outro clube.
Gonzalo García oferece um exemplo claro dessa diferença. Sua transferência ao Fulham foi reportada pela EFE como uma operação que poderia chegar a € 40 milhões, com o Real preservando 30% de seus direitos. A RTVE apresentou uma cifra de € 45 milhões pelo mesmo percentual de 70%, além de confirmar uma opção preferencial para o clube espanhol em uma futura operação. As fontes divergem sobre o valor exato, mas convergem sobre a característica economicamente mais interessante do negócio: o Real Madrid monetizou a maior parte do jogador sem necessariamente abandonar toda participação em seu futuro.
Esse modelo permite avaliar a formação por uma métrica muito mais ampla. Um jogador pode chegar ao time principal, gerar uma transferência direta, produzir receitas posteriores por participações preservadas ou eventualmente retornar ao clube. Em todas essas situações, a categoria de base pode ter criado valor, ainda que apenas uma delas apareça quando contamos quantos jogadores formados em casa estão na escalação.
Formar também é criar valor econômico
Existe ainda uma característica contábil que ajuda a explicar por que os jogadores formados internamente são especialmente interessantes para os clubes europeus.
Pelas regras de licenciamento e sustentabilidade financeira da UEFA vigentes em 2026, os custos relacionados à própria estrutura de formação não podem ser incorporados ao balanço como se representassem o valor contábil individual dos jogadores desenvolvidos pelo clube. Para os clubes que utilizam o método de capitalização e amortização dos registros, apenas custos diretamente atribuíveis à aquisição de um registro podem ser capitalizados como ativo intangível.
A diferença em relação a um jogador comprado é significativa. Quando um clube paga € 50 milhões pela aquisição de determinado atleta, esse custo pode ser reconhecido contabilmente como ativo e amortizado ao longo do período aplicável do contrato, observadas as regras da UEFA. Quando vende esse jogador posteriormente, o resultado contábil da operação considera o valor líquido ainda registrado.
No caso de um atleta formado internamente, o valor econômico criado durante anos de desenvolvimento não é simplesmente registrado no balanço como se o clube tivesse adquirido seu registro no mercado. Isso pode fazer com que uma transferência de um jogador da própria formação produza um ganho contábil particularmente relevante.
É preciso fazer uma distinção fundamental. Isso não significa que formar seja gratuito, muito menos que toda receita obtida com um jogador formado no clube represente lucro econômico puro. Manter uma estrutura como La Fábrica exige treinadores, instalações, medicina, preparação física, educação, logística, alojamento e anos de investimento em centenas de atletas que jamais produzirão uma transferência milionária. Existe um custo econômico real de formação, ainda que ele não seja transformado contabilmente no valor individual de cada jogador.
As próprias regras financeiras da UEFA reconhecem a importância estratégica dessa atividade. Determinados gastos diretamente atribuíveis ao desenvolvimento de jovens podem ser tratados como deduções relevantes para o benefício de longo prazo do futebol na avaliação de football earnings. Ao mesmo tempo, resultados líquidos relacionados à alienação de registros de jogadores entram nos mecanismos de controle financeiro da entidade.
Portanto, a categoria de base pode produzir valor para um clube em três dimensões que frequentemente se confundem: esportiva, econômica e contábil. No caso do Real Madrid, existe ainda uma quarta dimensão que torna o modelo particularmente sofisticado.
Vender não significa necessariamente perder o jogador
Talvez a parte mais interessante da estratégia esteja naquilo que acontece depois da primeira venda.
Em uma negociação convencional, o clube recebe determinado valor e transfere integralmente o registro do jogador. A relação econômica termina ali. O Real Madrid tem utilizado, em diversas operações, estruturas que procuram preservar parte da valorização futura dos atletas que deixa sair.
Os mecanismos não são todos iguais e não devem ser tratados como se fossem uma única cláusula. Dependendo da operação, o clube pode preservar percentual de direitos, participação econômica numa futura transferência, opção de recompra ou preferência para uma negociação posterior. Cada contrato possui sua própria estrutura e precisa ser analisado individualmente.
O princípio econômico, entretanto, é claro. O Real Madrid procura evitar que a decisão seja necessariamente binária entre manter integralmente um jogador ou abandonar definitivamente seu valor futuro.
As operações de 2026 mostram o efeito dessa estratégia. O clube recebeu € 20,5 milhões quando Víctor Muñoz foi negociado pelo Osasuna porque ainda possuía metade de seus direitos. Recebeu € 15 milhões na transferência de Mario Gila da Lazio para o Milan, € 12,5 milhões na de Álvaro Rodríguez do Elche para o Bournemouth e € 12,5 milhões na operação envolvendo Álex Jiménez, segundo o levantamento do AS. São receitas produzidas por jogadores que já haviam deixado o Real Madrid, mas cuja valorização posterior continuava parcialmente conectada ao clube.
Isso altera profundamente a economia da formação. Uma venda deixa de representar necessariamente o encerramento do retorno sobre o jogador e pode se tornar apenas a primeira etapa de monetização.
Ao mesmo tempo, preservar mecanismos futuros reduz parte do custo de oportunidade de liberar um jovem antes de saber exatamente onde estará seu teto esportivo. O jogador encontra minutos e espaço para se desenvolver em outro clube, enquanto o Real Madrid transforma parte do valor existente em receita e mantém, quando consegue negociar essa condição, alguma exposição ao que acontecer depois.
O clube não elimina o risco de errar. Um jovem vendido pode se transformar em um jogador extraordinário e tornar inviável economicamente seu retorno. Uma opção pode nunca ser exercida, uma participação futura pode não gerar receita relevante e um atleta pode simplesmente não se valorizar. Mas a estrutura permite distribuir esse risco de maneira diferente.
Em vez de tentar prever perfeitamente hoje quem será um jogador de Real Madrid daqui a três anos, o clube pode deixar que parte desse desenvolvimento aconteça no mercado.
Uma base maior que o próprio Real Madrid
Talvez seja justamente essa a ideia que melhor explique o modelo.
A categoria de base do Real Madrid não precisa formar exclusivamente para o Real Madrid. Seu mercado potencial é o futebol profissional como um todo.
O mercado de 2026 tornou essa função particularmente visível. Enquanto o AS contabiliza aproximadamente € 189 milhões gerados por 11 jogadores formados em La Fábrica sobre os quais o Real Madrid ainda possuía direitos, o próprio jornal observa o contraste com a presença reduzida da formação no elenco principal.
Depois da saída de Dani Carvajal, apenas Álvaro Carreras, Raúl Asencio e Thiago Pitarch haviam passado pelas categorias inferiores, e nenhum deles aparecia naquele momento como titular projetado para a temporada.
Os dois fatos parecem contraditórios: pouca base no time e enorme valor produzido pela base. Na realidade, podem representar duas faces do mesmo modelo.
O nível de exigência do Real Madrid reduz o número de jogadores formados que conseguem permanecer no elenco, enquanto a qualidade e a reputação de sua formação aumentam o mercado para aqueles que saem. O que poderia ser apenas um problema de excesso de talento passa a ser transformado em fonte de recursos.
Agora que a pergunta inicial possui uma resposta aparentemente simples, mas economicamente muito importante. Por que um clube que possui € 1,221 bilhão em receitas operacionais, enorme capacidade de investimento e acesso aos melhores jogadores do mercado continua mantendo uma das estruturas de formação mais conhecidas do futebol?
Porque formar não serve apenas para deixar de comprar. Formar também pode ajudar a comprar.
Os aproximadamente € 189 milhões gerados nessa janela mostram isso com uma dimensão difícil de ignorar.


