A liga que gasta 96% de tudo o que arrecada apenas com salários

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A segunda divisão inglesa, conhecida como Championship, arrecadou £942 milhões na temporada 2024/25. No mesmo período, seus clubes gastaram £903 milhões apenas com salários.

A relação entre os dois números chegou a 96%, isso significa que, para cada £100 de receita registrada pelos clubes da Championship, aproximadamente £96 correspondiam à folha salarial.

O dado impressiona por si só, mas se torna ainda mais relevante quando observado ao lado de outro resultado: os clubes da competição acumularam £436 milhões em prejuízos operacionais durante a mesma temporada.

Os números fazem parte da edição de 2026 do Annual Review of Football Finance, produzido pela Deloitte, e ajudam a revelar uma realidade que parece contraditória. A Championship está inserida no sistema de futebol mais rico do planeta e imediatamente abaixo da Premier League, mas opera com uma pressão financeira extraordinária.

O problema, porém, é mais complexo do que simplesmente concluir que seus clubes gastam demais.

Para compreender por que uma competição chegou ao ponto de comprometer com salários um valor equivalente a praticamente toda a sua receita, é necessário olhar para aquilo que existe acima dela.

O prêmio que ajuda a explicar a corrida do ouro

A Premier League gerou £6,8 bilhões em receitas na temporada 2024/25, enquanto a Championship ficou em £942 milhões. A distância entre as duas divisões não representa apenas uma diferença de tamanho. Para um clube da segunda divisão, conseguir o acesso significa entrar em uma realidade econômica completamente diferente.

Em maio de 2026, a Deloitte calculou que o clube vencedor da final dos playoffs da Championship poderia obter um aumento de receita de pelo menos £205 milhões ao longo das três temporadas seguintes. Caso permanecesse na Premier League depois de sua primeira temporada, esse impacto poderia chegar a aproximadamente £365 milhões.

É aqui que começa um dos principais paradoxos econômicos da Championship.

Investir mais na montagem de um elenco pode ser uma decisão racional para um clube que tenta aumentar suas possibilidades de promoção. Se o acesso pode acrescentar centenas de milhões de libras às receitas futuras, aceitar prejuízos no presente pode parecer justificável diante do tamanho da recompensa potencial.

O problema surge quando vários clubes chegam à mesma conclusão.

Cada investimento realizado por um concorrente aumenta a pressão para que os demais também fortaleçam seus elencos. Salários crescem, novos jogadores são contratados e proprietários precisam colocar mais recursos em suas equipes para preservar a competitividade, mas o número de clubes que efetivamente alcançará a Premier League continua limitado.

Forma-se, assim, uma corrida maluca em que muitos assumem os custos, enquanto poucos recebem o prêmio.

A própria Deloitte identifica a dimensão financeira da promoção à Premier League entre os fatores que incentivam comportamentos voltados para objetivos de curto prazo dentro da Championship. Isso ajuda a explicar por que o problema não pode ser reduzido simplesmente à irresponsabilidade de alguns dirigentes. Existe uma estrutura econômica que recompensa de maneira extraordinária quem consegue chegar ao nível seguinte.

Quando gastar mais pode fazer sentido

Os 96% registrados em 2024/25 também não representam um fenômeno isolado. Na temporada anterior, a relação entre salários e receitas da Championship já estava em 93%. Em 2022/23, havia alcançado 94%. O comportamento não se apresentou em uma única temporada.

Quando um proprietário acredita que determinado investimento pode aumentar as possibilidades de acesso, aceitar uma operação deficitária pode fazer sentido dentro de sua estratégia. Isso não significa que todos os investimentos sejam eficientes ou que toda dívida seja justificável, mas mostra por que analisar a Championship apenas pelos seus prejuízos oferece uma visão incompleta do problema.

A questão mais interessante aparece quando a lógica individual é observada coletivamente.

Aquilo que pode ser racional para um clube pode ser insustentável quando repetido por grande parte da competição. Se vários proprietários aceitam perder dinheiro para tentar chegar à Premier League, o nível necessário de investimento para permanecer competitivo tende a aumentar. O clube que decide preservar suas contas pode, ao mesmo tempo, sentir que está reduzindo suas próprias possibilidades esportivas.

O futebol cria, dessa forma, um incentivo peculiar: controlar gastos pode ser financeiramente prudente e esportivamente arriscado ao mesmo tempo.

Quem paga a diferença?

Se os salários correspondem a 96% das receitas, surge uma pergunta inevitável: como os clubes financiam todas as outras despesas necessárias para continuar funcionando?

A resposta exige um cuidado importante. Não seria correto afirmar simplesmente que “sobram apenas £4 de cada £100 para pagar todo o restante”, porque receita e financiamento são conceitos diferentes. Os clubes podem recorrer a capital colocado pelos proprietários, empréstimos, financiamento externo e negociação de jogadores para sustentar suas operações.

A dimensão desse apoio é significativa. Segundo análise da Deloitte, os clubes da Championship receberam aproximadamente £900 milhões em aportes de capital dos proprietários ao longo de cinco temporadas. A competição também apresentava aproximadamente £1,4 bilhão em dívida líquida.

Isso não significa que £1,4 bilhão represente um “rombo” ou que todos os clubes estejam próximos da insolvência. Parte importante do financiamento do futebol inglês envolve recursos dos próprios proprietários, inclusive por meio de empréstimos, cujas características podem ser diferentes das de uma dívida bancária convencional.

Ainda assim, os números mostram que a capacidade de competir não depende exclusivamente da receita que os clubes conseguem produzir.

A venda de jogadores também exerce papel relevante. Em 2024/25, os clubes da Championship registraram £366 milhões em lucros com negociação de atletas, um resultado que ajudou a reduzir a diferença entre o prejuízo operacional de £436 milhões e o prejuízo antes dos impostos, que terminou em £355 milhões.

O modelo, portanto, funciona por uma combinação de receitas recorrentes, negociação de jogadores, financiamento e disposição dos proprietários em sustentar operações que frequentemente não se equilibram apenas com aquilo que os clubes arrecadam.

O paradoxo dos parachute payments

Existe ainda outro elemento que torna a economia da Championship particularmente complexa.

Quando um clube é rebaixado da Premier League, sua receita pode cair de maneira abrupta, mas muitos dos contratos assumidos na primeira divisão continuam existindo. Para reduzir o impacto dessa queda, a Premier League realiza os chamados parachute payments, pagamentos destinados aos clubes rebaixados para ajudá-los a adaptar sua estrutura financeira à nova realidade.

A justificativa é compreensível. Obrigar um clube a absorver imediatamente toda a perda de receita causada pelo rebaixamento poderia produzir um choque financeiro severo.

Mas a proteção cria outro problema.

Na temporada 2024/25, os parachute payments destinados aos clubes da Championship somaram aproximadamente £185 milhões. Como esses recursos são recebidos apenas por determinadas equipes, os clubes recém-rebaixados podem começar a disputa da segunda divisão com uma capacidade financeira muito diferente da encontrada por concorrentes que não recebem o benefício.

A discussão chegou ao próprio processo de revisão da governança do futebol inglês. A Fan-Led Review of Football Governance, encomendada pelo governo britânico, registrou preocupações de dirigentes sobre o impacto dos parachute payments na inflação salarial e na sustentabilidade da Championship, além da possibilidade de produzirem vantagem competitiva para os clubes beneficiados.

O dilema é real porque simplesmente eliminar os pagamentos também criaria riscos.

A questão não é decidir se os parachute payments são bons ou ruins, mas encontrar uma forma de proteger um clube do choque econômico provocado pelo rebaixamento sem produzir uma diferença excessiva de capacidade financeira dentro da competição que ele passa a disputar.

A Inglaterra decidiu mudar as regras

A pressão financeira levou a Championship a alterar seu modelo de controle.

A partir da temporada 2026/27, as antigas Profitability and Sustainability Rules serão substituídas pelo sistema de Squad Cost Rules, aproximando o controle financeiro da relação entre aquilo que os clubes conseguem gerar e aquilo que destinam à construção de seus elencos.

O novo modelo estabelece uma referência de 85% da renda considerada pelas regras para determinados custos relacionados a jogadores e treinadores, incluindo despesas associadas a transferências. Também haverá possibilidade limitada de complementação por meio de capital dos proprietários, com uma permissão de até £33 milhões ao longo de três temporadas, respeitado o máximo de £15 milhões em uma única temporada.

Aqui existe uma distinção fundamental.

Os 96% registrados pela Deloitte e os 85% estabelecidos pela nova regra não podem ser comparados diretamente. O primeiro número representa a relação agregada entre salários e receitas da Championship em 2024/25. O segundo faz parte de uma fórmula regulatória própria, que considera diferentes componentes de custos esportivos e de renda elegível.

A importância da mudança está menos na comparação entre os percentuais e mais na filosofia do novo sistema.

A EFL passa a relacionar de maneira mais direta os custos esportivos à capacidade econômica dos clubes e prevê acompanhamento durante a temporada, permitindo que sua unidade de controle financeiro tenha acesso mais cedo à situação das equipes. A intenção é reduzir a dependência de um sistema que identifica determinados problemas apenas depois de eles já terem produzido efeitos financeiros e esportivos.

Não existe garantia de que a nova regra resolverá o problema. A própria estrutura de incentivos que pressiona os clubes continuará existindo enquanto houver uma diferença econômica tão grande entre permanecer na Championship e alcançar a Premier League.

O problema são os clubes ou o sistema?

Os £903 milhões gastos com salários são o número que chama atenção, mas talvez não sejam o dado mais importante para compreender a Championship.

A competição está situada imediatamente abaixo de uma liga que arrecadou £6,8 bilhões em uma única temporada. A promoção pode acrescentar pelo menos £205 milhões às receitas de um clube ao longo de três anos. Os rebaixados chegam protegidos por mecanismos criados para amortecer a perda das receitas da Premier League, enquanto proprietários continuam colocando capital em equipes que precisam decidir até onde podem gastar sem perder competitividade.

Nesse ambiente, simplesmente pedir que todos sejam mais prudentes não elimina o incentivo que existe para correr riscos.

Isso também não significa retirar dos dirigentes e proprietários a responsabilidade pelas decisões que tomam. Um incentivo econômico ajuda a explicar determinado comportamento, mas não transforma toda decisão de investimento em uma escolha correta.

A Championship é interessante justamente porque expõe as duas dimensões do problema ao mesmo tempo.

Seus clubes precisam administrar suas próprias contas, mas fazem isso dentro de uma estrutura que oferece uma recompensa extraordinária para quem consegue superar os concorrentes e alcançar a Premier League. Quanto maior o prêmio, maior pode ser a disposição para antecipar gastos, assumir prejuízos e buscar financiamento na tentativa de conquistá-lo.

Por isso, os 96% são mais do que um indicador financeiro.

São o retrato de uma competição em que a busca pelo próximo nível econômico pode pressionar os clubes a gastar cada vez mais para continuar acreditando que conseguirão alcançá-lo.

E deixam uma pergunta que vai muito além da segunda divisão inglesa:

Se gastar acima da própria capacidade aumenta a possibilidade de alcançar uma competição capaz de transformar completamente as receitas de um clube, até onde o problema está em quem assume o risco e até onde está no sistema que oferece uma recompensa tão grande para quem consegue vencê-lo?

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