Durante muito tempo, as crises financeiras do futebol foram tratadas quase sempre como consequência direta de má gestão. Clubes quebravam porque gastavam além da capacidade, dirigentes eram irresponsáveis, projetos esportivos fracassavam por ausência de profissionalismo e SAFs estão dando errado porque haviam sido mal estruturadas. Parte dessa explicação continua válida. Mas ela já não parece suficiente para explicar o comportamento econômico do futebol moderno.
Nas últimas décadas, o esporte passou por um processo intenso de profissionalização, transformação que acompanhei de perto desde as categorias de base, iniciadas ainda nos anos 1990, até o encerramento da minha trajetória no futebol profissional em 2014.
As receitas cresceram, as marcas se globalizaram, os departamentos ficaram mais sofisticados e o mercado passou a movimentar cifras que seriam impensáveis algumas décadas atrás. Relatórios recentes da Deloitte Football Money League e da UEFA mostram que o futebol europeu atingiu níveis históricos de faturamento mesmo em um cenário de déficits recorrentes. No Brasil, os maiores clubes passaram a operar próximos da chamada “barreira do bilhão” em receita anual. Ainda assim, o crescimento do dinheiro dentro do sistema não eliminou a fragilidade financeira, como já abordei em outro artigo. Em muitos casos, apenas elevou o custo da própria competição.
Os números do futebol brasileiro ajudam a expor esse paradoxo de forma bastante clara. Segundo levantamento da Sports Value com base nos balanços auditados de 2024, os 20 maiores clubes do país atingiram receita agregada recorde de R$ 10,9 bilhões, crescimento próximo de 22% em relação ao ano anterior. No mesmo período, porém, os custos com futebol cresceram ainda mais, chegando a R$ 8,7 bilhões, enquanto o endividamento total ultrapassou R$ 12,2 bilhões. O resultado foi um déficit agregado superior a R$ 1,3 bilhão. O sistema nunca movimentou tanto dinheiro, mas também nunca precisou absorver custos tão altos para continuar competitivo.
A lógica econômica do futebol ajuda a explicar esse comportamento. Diferentemente de outros setores, crescimento de receita raramente se transforma em estabilidade duradoura porque quase todo ganho financeiro acaba rapidamente reabsorvido pela própria pressão competitiva do mercado. Quando um clube aumenta investimento, seus concorrentes fazem o mesmo. Quando melhora estrutura, os rivais respondem. Quando surge uma vantagem competitiva, ela rapidamente deixa de ser diferencial e passa a ser obrigação.
Stefan Szymanski descreveu esse comportamento dentro da literatura de sports economics como uma espécie de corrida armamentista posicional. O sucesso esportivo funciona como um bem posicional: o valor de estar no topo depende diretamente da existência de outros abaixo. Em um ambiente assim, os clubes reinvestem continuamente não apenas para crescer, mas para evitar perda relativa de competitividade.
O efeito mais visível desse processo foi o aumento estrutural do custo de sobrevivência dentro do futebol profissional.
O custo de competir deixou de ser basicamente o custo do elenco. Hoje, um clube de porte médio sustenta departamentos de análise de desempenho, estruturas de scouting internacional, equipes de compliance, preparação física especializada, logística profissionalizada e infraestrutura tecnológica que seriam irreconhecíveis para dirigentes de uma geração atrás.
Talvez uma das imagens que melhor simbolizem essa transformação apareça justamente nas comemorações de grandes títulos. Em finais de Libertadores ou Copa do Brasil, já não é raro ver mais integrantes de comissão técnica, departamentos de performance, análise e staff operacional dentro do campo do que o próprio elenco de atletas. O futebol moderno deixou de ser apenas um time. Tornou-se uma estrutura operacional complexa, e cada uma dessas camadas adiciona custos fixos que não recuam automaticamente quando a performance esportiva piora.
Essa pressão não atinge todos os clubes da mesma forma.
Os grandes: o problema não é sobreviver. É sustentar o próprio tamanho.
Clubes grandes raramente enfrentam risco imediato de desaparecimento. Possuem torcida massiva, enorme relevância institucional, capacidade comercial elevada, forte influência política e força suficiente para continuar atraindo crédito, investimento e receitas relevantes mesmo em períodos ruins. No futebol brasileiro, essa capacidade de sustentação costuma estar profundamente ligada ao peso político e social dessas instituições. Em mercados mais maduros, como parte do futebol europeu, a lógica tende a ser mais financeira e institucional, embora isso esteja longe de eliminar casos de insolvência, colapso operacional ou rebaixamentos provocados por crises econômicas severas.
O que diferencia os gigantes não é a ausência de crise, mas a capacidade de absorvê-la por mais tempo. A literatura econômica do esporte frequentemente associa esse comportamento à ideia de soft budget constraint, conceito explorado por Wladimir Andreff no futebol europeu para descrever ambientes em que a restrição orçamentária raramente é totalmente rígida. Há quase sempre algum mecanismo externo de sustentação, renegociação de dívida, antecipação de receita, aporte de investidores ou capacidade ampliada de acesso a crédito, que reduz a probabilidade de desaparecimento institucional imediato. O problema dos grandes clubes, portanto, raramente é apenas sobreviver. É sustentar continuamente o tamanho e o custo da própria operação.
No futebol de elite, sucesso rapidamente deixa de ser conquista e vira premissa orçamentária. Classificações para Libertadores ou Champions League passam a ser tratadas como receitas recorrentes. O aumento de faturamento provocado pelo sucesso esportivo normalmente vem acompanhado por inflação salarial, valorização de elenco, crescimento da estrutura operacional e aumento permanente da expectativa institucional.
O sucesso esportivo não apenas gera receita, ele também gera obrigações. Uma campanha continental desencadeia renegociações salariais, eleva bônus contratuais, aumenta o valor de mercado dos próprios atletas e cria uma expectativa institucional que passa a funcionar como piso orçamentário. O problema é que esse piso não recua na mesma velocidade que subiu. É o que a economia do trabalho descreve como ratchet effect: a catraca gira com facilidade em uma direção e trava na outra.
O fenômeno não é exclusivo do futebol brasileiro. Barcelona, Manchester United e Juventus atravessaram crises financeiras relevantes mesmo operando entre as marcas esportivas mais valiosas do planeta.
Quanto maior a estrutura, maior tende a ser a dificuldade política, emocional e econômica de reduzir custo sem impacto esportivo imediato.
Os médios: não são ricos o suficiente para competir… nem pequenos o suficiente para sobreviver barato.
Talvez nenhum grupo viva situação mais delicada do que os clubes médios.
Eles não possuem a capacidade financeira dos gigantes, mas também já não conseguem operar de maneira simples ou barata. Precisam investir para competir, mas normalmente sem margem suficiente para absorver fracassos prolongados.
O clube médio vive permanentemente tentando reduzir distância para os grandes sem possuir os mesmos mecanismos recorrentes de geração de receita. Se investe pouco, perde competitividade. Se acelera demais, aumenta exposição financeira. Se mantém prudência excessiva, corre risco de erosão esportiva gradual. Se assume risco demais, pode comprometer a própria estabilidade institucional.
É justamente nesse ambiente que muitos acabam entrando em ciclos perigosos de alavancagem. Antecipação de direitos de transmissão, dependência de premiações futuras, aumento acelerado de folha salarial e utilização de receitas extraordinárias como base permanente de orçamento passam a fazer parte da operação.
O problema é que o futebol raramente oferece previsibilidade suficiente para suportar esse nível de exposição por muito tempo, ainda mais nos clubes médios.
Lesões, oscilações técnicas, trocas de treinador, eliminações precoces e vendas de atletas abaixo do esperado fazem parte da própria natureza do esporte. Quando a estrutura de custo é construída assumindo sucesso contínuo, qualquer oscilação esportiva começa rapidamente a gerar impacto financeiro.
Talvez seja exatamente por isso que tantos clubes alternem períodos de crescimento com ciclos profundos de instabilidade. Novamente, não é uma exclusividade brasileira, Bordeaux e Lion na França e Schalke 04 na Alemanha ilustram, em contextos distintos, a dificuldade de sustentar crescimento competitivo sem ampliar excessivamente o risco operacional.
Existe quase uma armadilha estrutural nesse nível do mercado: o clube médio precisa correr riscos para tentar alcançar a elite, mas normalmente não possui estrutura financeira suficiente para absorver os efeitos de um fracasso prolongado ou para sustentar um eventual sucesso.
A discussão sobre SAFs se conecta diretamente a esse ponto. A transformação societária pode melhorar governança, transparência, acesso a capital e capacidade de investimento, mas não altera automaticamente a lógica estrutural da atividade. O futebol continua operando em um ambiente de alta pressão competitiva, inflação de custos e enorme dependência de performance esportiva.
Em muitos casos, a SAF não elimina o déficit estrutural da operação. Apenas muda quem financia esse déficit. Passivos antes diluídos em atrasos, dívidas tributárias ou desorganização administrativa passam a depender de aportes recorrentes de investidores para sustentar o mesmo nível competitivo.
Os pequenos: talvez sejam os mais vulneráveis de todos.
Existe uma realidade pouco discutida no futebol brasileiro: muitos clubes pequenos já não sobrevivem apenas através da própria operação.
Em diversos casos, a sustentação depende diretamente de prefeituras, empresários locais, mecenas, investidores pessoais, estruturas públicas ou algum tipo de aporte externo contínuo. E isso nem sempre acontece por incompetência de gestão. O próprio custo mínimo para existir aumentou drasticamente.
Hoje, até clubes pequenos precisam lidar com exigências regulatórias, viagens, logística, preparação física, departamento médico mínimo, alimentação, registro de atletas, alojamento, staff operacional e estrutura administrativa básica, frequentemente operando em ambientes sem calendário competitivo contínuo e com baixíssima previsibilidade de receita.
Décadas atrás, estruturas extremamente simples ainda conseguiam sobreviver em parte do futebol regional. A profissionalização e a regulamentação do setor reduziram bastante essa possibilidade.
O custo mínimo de existência subiu de forma relevante em praticamente todas as áreas da operação. Evidentemente, a análise considera estruturas minimamente profissionalizadas e competitivas dentro do futebol contemporâneo, não modelos extremamente precarizados ou operações semiamadoras que ainda sobrevivem à margem dos padrões mínimos de profissionalização do mercado.
O problema é que os pequenos possuem baixíssima capacidade de absorção de erro. A perda de um patrocinador pode comprometer toda a operação. Uma temporada ruim desmonta completamente o planejamento esportivo. O encerramento de uma parceria altera imediatamente a capacidade competitiva do clube.
Em muitos casos, o clube pequeno deixou de operar como uma atividade economicamente autossuficiente e passou a sobreviver dentro de um ecossistema externo de sustentação financeira ou institucional.
Parte relevante do futebol de menor porte já não funciona apenas pela lógica econômica tradicional do mercado esportivo. Funciona porque ainda existe algum mecanismo externo disposto a sustentar a operação.
O futebol moderno ficou mais profissional. E também mais caro de sustentar.
A profissionalização do futebol não fracassou, pelo contrário. Ela aumentou receitas, atraiu investimento, sofisticou processos e elevou o nível técnico da indústria esportiva como um todo. O problema é que também criou um ambiente mais inflacionado, mais pressionado e menos tolerante ao erro.
O paradoxo central do futebol moderno não está nos números. Está no que os números deixaram de resolver. A indústria cresceu, profissionalizou-se e atraiu capital em escala histórica e, ao fazer isso, elevou o custo da própria participação a um patamar que torna a estabilidade financeira cada vez mais uma exceção, não uma consequência natural do sucesso.
O dinheiro entrou no sistema. A fragilidade também.


