Ryan Reynolds é conhecido mundialmente como o ator que interpreta Deadpool. Rob McElhenney construiu sua carreira como ator, roteirista e produtor. Em 2020, os dois decidiram entrar em um ambiente bastante distante de Hollywood: o futebol das divisões inferiores da Inglaterra.
O clube escolhido foi o Wrexham, do País de Gales.
A decisão parecia improvável, mas não foi aleatória. Fundado em 1864, o Wrexham é o clube profissional mais antigo do País de Gales e um dos mais antigos do mundo. Naquele momento estava distante do glamour da elite inglesa, disputava a National League, quinta divisão, e estava fora da Football League desde 2008.
Cinco anos depois, aquela aquisição se transformou em um dos casos mais interessantes da indústria esportiva recente. O Wrexham conquistou três acessos consecutivos, chegou à Championship, multiplicou suas receitas, expandiu sua presença internacional e atraiu capital institucional. Ao mesmo tempo, acumulou prejuízos e passou a investir valores que seus antigos concorrentes dificilmente poderiam acompanhar.
A história, portanto, é mais complexa do que a imagem de dois astros de Hollywood comprando um pequeno clube e conduzindo-o ao sucesso.
Um clube que pertencia aos torcedores
Antes de Reynolds e McElhenney chegarem, o Wrexham era controlado pelo Wrexham Supporters Trust. Por isso, a mudança de propriedade dependia da aprovação dos próprios torcedores.
Em novembro de 2020, os associados votaram sobre a proposta. Foram 1.809 votos favoráveis, 26 contrários e nove abstenções, o equivalente a 98,6% de aprovação entre os que participaram da votação. Os novos proprietários haviam apresentado aos torcedores a intenção de investir pelo menos £2 milhões e transformar o clube em uma organização de alcance global.
A aquisição foi concluída em 9 de fevereiro de 2021.
Aquela promessa de construir uma marca global parecia especialmente ambiciosa porque o Wrexham não estava sequer nas quatro principais divisões do futebol inglês. Depois do rebaixamento de 2008, o clube havia permanecido durante anos no chamado non-league.
Mas havia algo que Reynolds e Mac não precisariam fabricar: história.
Muito antes de Hollywood
O Wrexham foi fundado em 1864, por membros do Wrexham Cricket Club que buscavam uma atividade esportiva para o inverno. É reconhecido pelo próprio clube como o clube profissional mais antigo do País de Gales e o terceiro mais antigo do mundo.
Seu estádio acrescenta outro elemento particular à história.
O Racecourse Ground, atualmente chamado comercialmente de STōK Cae Ras, é reconhecido pelo Guinness World Records como o estádio internacional de futebol mais antigo do mundo ainda em uso.
A primeira partida internacional realizada ali aconteceu em 5 de março de 1877, quando o País de Gales recebeu a Escócia. Mais de 147 anos depois, o local continua recebendo partidas internacionais.
Isso ajuda a entender por que a história do Wrexham se tornou tão adequada ao universo do entretenimento. Não era necessário criar artificialmente uma tradição ou inventar uma narrativa. O clube já carregava mais de um século e meio de história, uma comunidade fortemente conectada à instituição e um período prolongado de dificuldades esportivas.
Hollywood precisava apenas transformar tudo isso em uma história compreensível para quem nunca havia ouvido falar de Wrexham.
Quando o clube também virou conteúdo
A grande diferença entre o Wrexham e muitos outros projetos financiados por proprietários ricos talvez esteja aqui. A trajetória do clube tornou-se um produto de entretenimento.
A série Welcome to Wrexham passou a acompanhar não apenas partidas e jogadores, mas a cidade, os torcedores, funcionários e os próprios proprietários. O processo de tentar reconstruir o clube deixou de ser acompanhado apenas por quem já torcia pelo Wrexham e passou a ser distribuído globalmente.
O sucesso da produção é mensurável. A Television Academy registra atualmente 19 indicações e 10 vitórias no Emmy para Welcome to Wrexham. Ryan Reynolds, como produtor executivo, conquistou duas dessas premiações na categoria Outstanding Unstructured Reality Program.
Mas existe uma ponderação importante: a série não deve ser tratada simplesmente como uma fonte direta de dinheiro para o clube.
A importância econômica está principalmente na exposição que ela produz.
O Wrexham passou a alcançar consumidores, patrocinadores e torcedores que provavelmente nunca teriam contato com um clube galês que disputava a quinta divisão inglesa.
A atenção tornou-se um ativo.
Quando atenção vira receita
As demonstrações financeiras do Wrexham mostram até onde essa transformação chegou. No exercício encerrado em 30 de junho de 2025, quando o clube ainda disputava a League One, o faturamento alcançou £33,34 milhões.
No exercício anterior haviam sido £26,73 milhões. O crescimento foi de aproximadamente 24,7% em apenas um ano.
O número se torna ainda mais significativo quando comparado à escala que o Wrexham possuía antes da chegada dos novos proprietários. O clube que operava com receitas anuais próximas de £1 milhão passou, em poucos anos, a movimentar mais de £33 milhões.
Mas o dado mais revelador não seja o tamanho da receita. É sua origem.
Em 2024/25, 57,7% do faturamento do Wrexham veio de fora do Reino Unido, principalmente da América do Norte. O mercado britânico respondeu por 40,5%, enquanto o restante veio da Europa.
É uma configuração incomum para uma instituição que, poucos anos antes, disputava a quinta divisão inglesa. O clube continuava localizado em uma cidade do norte do País de Gales, mas sua economia havia deixado de ser predominantemente local.
O verdadeiro motor comercial
A composição das receitas deixa esse processo ainda mais evidente.
Segundo as contas de 2024/25, aproximadamente £17,34 milhões vieram de patrocínio e publicidade. Isso significa que mais da metade de todo o faturamento anual do Wrexham já estava relacionada diretamente à exploração comercial da marca.
As receitas de varejo ficaram próximas de £5,1 milhões, enquanto ingressos produziram aproximadamente £4,6 milhões. O futebol continuava sendo o produto central, mas o modelo econômico já não dependia apenas de vender entradas para quem vivia perto do estádio.
A lógica passou a funcionar em outra escala: a história alimentava o conteúdo, o conteúdo ampliava a audiência, a audiência aumentava a exposição comercial, essa exposição atraía patrocinadores e consumidores, e as novas receitas ajudavam a financiar um projeto esportivo mais ambicioso.
Quando os resultados começaram a aparecer em campo, o próprio sucesso produziu novos capítulos para a série e novas razões para acompanhar o clube. É um ciclo no qual futebol e entretenimento passaram a se retroalimentar.
O dinheiro também chegou ao campo
Seria um erro explicar os acessos apenas pelo sucesso de marketing. O Wrexham aumentou significativamente seus custos esportivos.
Na temporada 2024/25, os gastos com pessoal chegaram a aproximadamente £19,95 milhões, aumento de 73,6% em relação ao exercício anterior. Ou seja, transformar atenção em receita teve uma consequência direta: o clube passou a possuir maior capacidade para contratar jogadores, pagar salários, expandir sua estrutura e competir em um nível financeiro muito superior ao que possuía antes.
Os resultados foram extraordinários. Em 2022/23, o Wrexham conquistou a National League e voltou à Football League. Na temporada seguinte, terminou a League Two em segundo lugar e subiu novamente. Em 2024/25, ficou em segundo na League One e garantiu acesso à Championship depois de vencer o Charlton por 3 a 0 em 26 de abril de 2025.
Foram três acessos consecutivos, levando o clube da quinta para a segunda divisão inglesa.
E a ascensão não parou imediatamente
Chegar à Championship já seria suficiente para transformar a trajetória em algo excepcional. O primeiro ano na segunda divisão, porém, mostrou que o Wrexham conseguiu continuar competitivo.
Na temporada 2025/26, o clube terminou em 7º lugar, com 71 pontos. Foram 19 vitórias, 14 empates e 13 derrotas, com 69 gols marcados e 65 sofridos.
O Hull City, sexto colocado e último classificado para os playoffs de acesso à Premier League, terminou com 73 pontos. O Wrexham ficou, portanto, apenas dois pontos distante da disputa por uma vaga na primeira divisão inglesa.
A sequência ajuda a dimensionar a transformação. Em 2021, o clube estava na quinta divisão. Cinco anos depois, terminou uma temporada a dois pontos dos playoffs que poderiam levá-lo à Premier League.
Mas a história do azarão começa a ficar mais complicada
Nesse ponto que a narrativa mais romantizada sobre o Wrexham precisa ser relativizada.
O clube começou como um projeto improvável. Com o crescimento das receitas e sucessivos aportes, porém, deixou gradualmente de competir nas mesmas condições econômicas de muitos adversários.
Não existe contradição nisso. Criar receitas maiores faz parte da competição empresarial no futebol. Se o Wrexham conseguiu transformar sua exposição internacional em dinheiro, existe mérito no processo.
Mas essa capacidade financeira também produz vantagem esportiva. Quanto mais o clube cresce, menos adequada se torna a imagem de um pequeno azarão vencendo adversários maiores apenas com criatividade, paixão e boa gestão.
Há dinheiro envolvido. Muito dinheiro.
Receita recorde não significa lucro
Outro número impede que a história seja reduzida a uma máquina comercial perfeita.
Apesar dos £33,34 milhões de faturamento em 2024/25, o Wrexham registrou prejuízo operacional de £14,85 milhões e prejuízo líquido de £15,24 milhões. No exercício anterior, a perda líquida havia sido de £2,73 milhões.
Uma parcela relevante desse resultado decorreu de um evento excepcional de aproximadamente £3,76 milhões, relacionado a recursos mantidos em uma instituição financeira que entrou em administração especial. Mesmo descontando esse episódio, o clube continuaria apresentando prejuízo significativo.
Isso revela outra dimensão do projeto.
O Wrexham cresceu rapidamente, mas também aumentou agressivamente seus custos para sustentar a expansão esportiva. A transformação foi muito mais uma história de crescimento e capitalização do que de maximização imediata de lucro.
Os £2 milhões foram apenas o começo
O investimento anunciado no momento da aquisição costuma aparecer como símbolo da história, mas ele representa apenas o ponto inicial. À medida que o projeto avançou, a necessidade de capital aumentou consideravelmente.
Depois do encerramento do exercício de 2024/25, as contas registraram novas operações de financiamento e aportes. Entre elas está uma injeção de capital de aproximadamente £47,8 milhões pela Wrexham Holdings em dezembro de 2025.
Essa escala financeira mostra o quanto o projeto mudou.
O clube que entrou na era Reynolds e McElhenney com uma promessa inicial de investimento de £2 milhões passou a operar poucos anos depois com aportes medidos em dezenas de milhões.
Hollywood já não está sozinha
A própria estrutura acionária também evoluiu. Em outubro de 2024, o Allyn Family Office realizou um investimento minoritário no clube. Em dezembro de 2025, entrou um nome de escala ainda maior: a Apollo Sports Capital, ligada à Apollo Global Management.
A Apollo adquiriu uma participação minoritária, enquanto Ryan Reynolds e Rob McElhenney permaneceram como acionistas controladores. O acordo também incluiu financiamento para a expansão do estádio. Na época do anúncio, a Apollo administrava aproximadamente US$ 908 bilhões em ativos.
O significado da operação vai além do aporte. O Wrexham deixou de ser apenas um projeto associado a duas celebridades e passou a atrair capital institucional especializado em esportes.
Em 2026, a própria Apollo citou o Wrexham como exemplo de uma estrutura de financiamento híbrida, envolvendo diferentes instrumentos de capital.
O estádio histórico também entrou em outra escala
O Racecourse Ground, símbolo de uma história que começou no século XIX, tornou-se parte central dos planos para o futuro. Em dezembro de 2025, o clube firmou contrato de aproximadamente £69,29 milhões com a McLaren Construction para a construção da nova Kop Stand.
A expansão pretende aumentar a capacidade de público e ampliar as possibilidades comerciais do estádio. O contraste é significativo.
O mesmo local reconhecido como o estádio internacional mais antigo do mundo ainda em uso está sendo incorporado a um projeto moderno de expansão de receitas, entretenimento e crescimento esportivo.
Existe também dinheiro público
A transformação da infraestrutura não é financiada exclusivamente pelo clube e pelos investidores privados.
As contas registram um acordo de financiamento de £17,35 milhões com o Wrexham County Borough Council, ligado à transformação do estádio e ao projeto mais amplo de desenvolvimento da região.
A utilização de recursos públicos passou posteriormente a ser objeto de questionamentos jornalísticos sobre os procedimentos envolvidos. Isso não significa que tenha sido estabelecida uma ilegalidade. As autoridades envolvidas defenderam o enquadramento do financiamento dentro dos projetos de regeneração urbana e desenvolvimento do estádio.
É um elemento relevante porque torna a história menos simples do que a narrativa de que todo o crescimento foi produzido exclusivamente pelo dinheiro dos proprietários.
O Wrexham descobriu como transformar atenção em competitividade?
Dinheiro no futebol não é novidade. Proprietários ricos também não. Clubes usando documentários, redes sociais e celebridades para ampliar audiência tampouco são fenômenos completamente novos.
O que torna o Wrexham particularmente interessante é a forma como esses elementos foram integrados.
Ryan Reynolds e Rob McElhenney assumiram uma instituição histórica, transformaram sua trajetória em entretenimento global, utilizaram essa exposição para ampliar receitas comerciais e internacionais e combinaram esse crescimento com aportes progressivamente maiores de capital. O resultado apareceu dentro de campo.
Mas os mesmos números que mostram o sucesso também impedem uma interpretação excessivamente romântica. O faturamento cresceu de maneira extraordinária, enquanto os gastos e os prejuízos também aumentaram. O clube conquistou três acessos consecutivos, mas passou a operar com capacidade financeira muito superior à de muitos dos adversários encontrados durante a ascensão.
Talvez aqui esteja a questão mais interessante deixada pelo Wrexham.
Quanto do que aconteceu pode ser explicado pela qualidade do projeto esportivo e quanto depende de uma máquina financeira e midiática que poucos clubes seriam capazes de reproduzir?

