RB Leipzig ultrapassa €1 bilhão em vendas: como funciona a máquina de valorização de jogadores

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O RB Leipzig transformou a negociação de jogadores em uma das principais engrenagens de seu modelo esportivo. Desde que chegou à Bundesliga, em 2016, o clube alemão passou a contratar atletas jovens, desenvolvê-los em um ambiente competitivo, aumentar sua exposição e, em muitos casos, negociá-los posteriormente por valores muito superiores.

O resultado aparece nas cifras acumuladas do mercado de transferências. Levantamentos que somam os valores atribuídos às negociações colocam o Leipzig acima da marca de €1 bilhão em vendas de jogadores.

A cifra impressiona, mas também pode induzir a uma interpretação equivocada. €1 bilhão em vendas não significa €1 bilhão de lucro. Tampouco significa que todo esse dinheiro entrou imediatamente no caixa do clube.

Para entender o que realmente existe por trás dessa marca, é necessário olhar não apenas para os jogadores vendidos, mas para os balanços do Leipzig, seus custos, reinvestimentos, obrigações financeiras e a participação da Red Bull na construção dessa estrutura.

Os números mostram um modelo mais complexo do que simplesmente comprar barato e vender caro.

Comprar antes do auge para vender depois da valorização

O princípio que orienta boa parte da estratégia do Leipzig pode ser observado desde sua chegada à elite alemã.

Na temporada 2016/17, sua primeira na Bundesliga, os jogadores contratados tinham idade média de apenas 21,6 anos, segundo o Transfermarkt. Naquele mercado chegaram, entre outros, Naby Keïta, então com 21 anos, e Timo Werner, com 20. O padrão permaneceu ao longo dos anos.

Em vez de concentrar seus investimentos em jogadores já estabelecidos no auge de suas carreiras, o Leipzig passou a buscar atletas que ainda possuíam espaço para desenvolvimento esportivo e valorização financeira.

Isso não significa necessariamente comprar barato. Alguns desses jogadores já exigiram investimentos relevantes. A lógica está menos no preço absoluto da contratação e mais no momento da curva de desenvolvimento em que ela acontece.

O Leipzig oferece Bundesliga, competições europeias, estrutura de alto nível e minutos em um ambiente competitivo. Quando o desenvolvimento funciona, o jogador passa a ocupar outra faixa de mercado.

Foi assim que nomes como Naby Keïta, Timo Werner, Dayot Upamecano, Ibrahima Konaté, Christopher Nkunku, Dominik Szoboszlai, Josko Gvardiol e Dani Olmo passaram pelo clube antes de serem negociados.

Diante desses dados, é mais preciso definir o Leipzig não simplesmente como um clube formador, mas como um clube de desenvolvimento e valorização. Muitos desses atletas não foram produzidos desde as categorias iniciais pelo clube alemão. O diferencial está em identificá-los antes do auge, desenvolvê-los e capturar parte da valorização posteriormente.

€1 bilhão em vendas não significa €1 bilhão de lucro

Essa diferença é fundamental para compreender o modelo. Os valores normalmente divulgados no mercado representam as cifras atribuídas às transferências. A contabilidade de um clube funciona de maneira diferente.

O exercício de 2023/24 oferece um bom exemplo.

Naquela temporada, o Transfermarkt atribuiu aproximadamente €243,7 milhões às saídas de jogadores do Leipzig. Nas demonstrações financeiras, entretanto, foram reconhecidos cerca de €193 milhões em receitas relacionadas a transferências, empréstimos e cessões de atletas. Não existe contradição entre os números, eles simplesmente medem coisas diferentes.

Além disso, o valor de uma venda não corresponde ao lucro produzido pela operação.

Quando um jogador é adquirido, seu direito é registrado como ativo e seu custo passa a ser amortizado ao longo do contrato. Quando ele é vendido, ainda podem existir valor contábil residual, comissões, participações de clubes anteriores e outros custos associados à negociação.

Novamente, a temporada 2023/24 ajuda a dimensionar essa diferença. Enquanto o Leipzig contabilizou aproximadamente €193 milhões em receitas relacionadas às transferências e operações semelhantes, cerca de €50 milhões foram registrados em despesas relacionadas à intermediação das saídas e participações de terceiros.

Portanto, olhar apenas para o valor anunciado de uma transferência pode produzir uma percepção muito diferente de seu efeito econômico real.

O Leipzig realmente dá lucro?

Os balanços mostram que sim. Mas essa resposta precisa ser acompanhada de uma ressalva importante.

O Leipzig apresentou resultados líquidos positivos em sucessivos exercícios. O que chama atenção, entretanto, é o tamanho desses lucros quando comparados ao volume financeiro movimentado pelo clube.

Em 2018/19, por exemplo, o Leipzig registrou aproximadamente €268 milhões em receitas e lucro líquido de cerca de €1,6 milhão. Em 2019/20, a receita subiu para aproximadamente €322 milhões e o lucro ficou próximo de €3,4 milhões.

Em 2021/22, foram aproximadamente €346,5 milhões em receitas e €4,7 milhões de lucro líquido.

O mesmo padrão continuou nos exercícios seguintes.

Os dados mais recentes publicados pela DFL mostram uma operação que já supera €460 milhões em resultado bruto anual, mas continua produzindo resultado líquido de poucos milhões de euros.

Isso revela uma característica importante. O Leipzig não parece funcionar como uma estrutura criada para transformar suas grandes vendas em enormes lucros líquidos no fim de cada exercício. Uma parcela relevante dos recursos volta para a própria operação.

E é aqui que o modelo começa a fazer mais sentido.

Para onde vai o dinheiro das vendas?

O Leipzig precisa substituir os jogadores que vende.

Quando um ativo valorizado deixa o clube, parte dos recursos obtidos é utilizada para iniciar outro ciclo de desenvolvimento. Novos jogadores são contratados, salários são pagos, direitos são amortizados e a estrutura esportiva continua sendo financiada.

O próprio balanço ajuda a enxergar esse processo.

Mesmo depois de anos realizando vendas de grande valor, o Leipzig continua carregando centenas de milhões de euros em direitos sobre jogadores. Isso significa que parte relevante dos recursos obtidos com gerações anteriores foi novamente colocada no elenco.

Há também outro aspecto pouco visível quando uma transferência é anunciada. Em junho de 2024, o Leipzig possuía aproximadamente €197 milhões em obrigações relacionadas a transferências e, ao mesmo tempo, cerca de €153 milhões a receber pelo mesmo motivo. Esses números ajudam a desmontar outra simplificação frequente do mercado.

Quando um clube vende um jogador por €80 milhões, isso não significa necessariamente que €80 milhões entram imediatamente em seu caixa. Da mesma forma, contratar um atleta por €40 milhões não significa necessariamente desembolsar todo esse valor naquele momento. Parcelamentos, bônus e pagamentos futuros transformam os clubes em credores e devedores simultaneamente.

O Leipzig não apenas compra e vende jogadores. Ele administra permanentemente uma grande carteira de ativos, recebíveis e obrigações ligados ao mercado de transferências.

E onde entra a Red Bull?

Existe ainda uma variável que impede analisar o sucesso financeiro do Leipzig isoladamente: a estrutura de capital proporcionada pela Red Bull.

Em 2019, €100 milhões em créditos da Red Bull contra o Leipzig foram convertidos em reserva de capital. Em vez de o clube simplesmente quitar aquela obrigação utilizando recursos gerados pela própria atividade, a dívida foi transformada em patrimônio. Mesmo depois da operação, permaneceram obrigações relevantes com a empresa.

Nos anos seguintes, os balanços continuaram registrando valores significativos relacionados a empresas vinculadas à estrutura societária. Em 2024, essa rubrica estava próxima de €159 milhões.

Isso não quer dizer que as grandes vendas do Leipzig sejam artificiais ou que a valorização de seus jogadores não exista. Os negócios estão registrados e a capacidade de desenvolver atletas é observável. Mas significa que a história financeira do clube não pode ser explicada apenas pelas transferências.

A capacidade de acessar capital, suportar investimentos, financiar contratações e esperar pela valorização dos jogadores também faz parte do ambiente no qual o modelo foi construído.

A pergunta, portanto, não é simplesmente se a Red Bull financia o Leipzig, mas quanto essa estrutura financeira ajudou o clube a criar as condições necessárias para que sua estratégia de valorização pudesse funcionar.

Afinal, o modelo funciona?

Dentro de campo, há evidências importantes a favor do Leipzig.

Desde que chegou à Bundesliga, o clube se estabeleceu rapidamente entre as principais forças do futebol alemão. Foi vice-campeão nacional, conquistou duas vezes a Copa da Alemanha, classificou-se repetidamente para competições europeias e chegou à semifinal da Champions League em 2019/20. Não estamos diante de um clube que simplesmente compra jogadores para revendê-los.

Durante boa parte desse processo, o Leipzig conseguiu combinar valorização financeira com competitividade esportiva. Mas existe uma tensão inevitável dentro do próprio modelo.

Quanto melhor um jogador se desenvolve, maior tende a ser seu valor. E quanto maior seu valor e desempenho, maior também é o interesse dos clubes que estão acima do Leipzig na hierarquia econômica do futebol europeu.

O sucesso na valorização cria, portanto, a necessidade permanente de reconstrução. O clube desenvolve o jogador, torna-se mais competitivo com ele e, justamente quando o ativo alcança outro patamar esportivo e financeiro, surge a oportunidade de realizar seu valor. Depois, o processo recomeça.

É difícil olhar para mais de €1 bilhão em vendas e negar que o RB Leipzig construiu uma das estruturas mais eficientes do futebol europeu para identificar, desenvolver e valorizar jogadores.

Os balanços, entretanto, mostram que essa história é mais complexa do que a cifra sugere.

O clube vende muito, mas também reinveste muito. Apresenta lucros recorrentes, mas relativamente pequenos diante do tamanho de sua operação. Possui centenas de milhões de euros em ativos relacionados a jogadores, mas também acumula valores expressivos a pagar. E toda essa estrutura foi desenvolvida com acesso ao capital e ao ecossistema econômico da Red Bull.

Talvez, por isso, a maior realização do modelo Leipzig não seja simplesmente comprar por menos e vender por mais.

Pode ser utilizar continuamente a valorização de jogadores para financiar a próxima geração de talentos e manter o clube competitivo dentro de uma elite europeia na qual existem adversários com capacidade financeira ainda maior. A marca de €1 bilhão mostra o tamanho alcançado por essa engrenagem.

A questão que permanece é até onde um clube consegue continuar vendendo seus melhores ativos justamente quando eles atingem o auge da valorização sem limitar, ao mesmo tempo, o tamanho de sua própria ambição esportiva.

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