Um jogador de futebol profissional passa anos submetido a treinamentos, avaliações, cobranças e processos competitivos para construir sua carreira. A preparação é considerada indispensável, o desempenho precisa ser demonstrado e o reconhecimento depende, ao menos em princípio, do cumprimento de determinadas exigências. Entretanto, uma investigação jornalística revelou que alguns nomes consagrados do futebol aceitaram propostas para obter licenças de treinador por procedimentos extraordinariamente simplificados, sem percorrer integralmente o processo regular de formação.
Publicada em 7 de outubro de 2026, a investigação conduzida pela jornalista Joanna de Assis, do UOL, revelou a atuação atribuída ao ex-jogador argentino Alejandro Mancuso na comercialização de certificados falsos de treinador. Entre os nomes mencionados estão Thiago Silva, Felipe Melo, Roberto Carlos, Alex de Souza, Diego Lugano, Petkovic, Paolo Guerrero, Luiz Gustavo e Paulinho, além de outros profissionais ligados ao futebol internacional.
Segundo a reportagem, Mancuso oferecia quatro licenças da Associação de Técnicos do Futebol Argentino (ATFA), incluindo a categoria PRO, mediante pagamento de aproximadamente US$ 20 mil, valor apresentado na investigação como equivalente a cerca de R$ 100 mil. Os documentos seriam enviados pelo correio em até dez dias, sem a necessidade de cumprir o percurso educacional normalmente exigido.
A ATFA declarou que os certificados não eram legítimos e negou que Mancuso tivesse autorização para representá-la. O argentino, por sua vez, negou ter comercializado licenças ou recebido pagamentos, sustentando que apenas orientava interessados a procurar a instituição.
A denúncia envolve duas questões diferentes, embora relacionadas. A primeira diz respeito à falsificação dos documentos e às eventuais responsabilidades por sua produção e comercialização. A segunda envolve a conduta de profissionais que aceitaram a possibilidade de receber certificações sem realizar integralmente as atividades que deveriam fundamentar sua qualificação.
Não é possível atribuir a todos os compradores conhecimento prévio da falsificação, mas as declarações de alguns envolvidos permitem discutir algo que independe de uma condenação criminal: a disposição de procurar facilidades para obter o reconhecimento formal de uma formação profissional.
Uma licença PRO pelo correio
Alejandro Mancuso construiu sua carreira como jogador de clubes como Flamengo e Palmeiras e integrou a comissão técnica da seleção argentina comandada por Diego Maradona na Copa do Mundo de 2010. Sua trajetória e seus relacionamentos no futebol ajudavam a conferir credibilidade às propostas apresentadas a atletas interessados em iniciar uma carreira como treinadores.
De acordo com a investigação do UOL, Mancuso se apresentava como diretor internacional da ATFA e afirmava ter acesso a um procedimento especial de certificação destinado a jogadores de grande experiência. A proposta era descrita como um trâmite urgente, capaz de reconhecer os conhecimentos adquiridos durante a carreira esportiva e dispensar boa parte das etapas normalmente exigidas.
Mediante pagamento, os interessados receberiam as licenças C, B, A e PRO, acompanhadas de documentos acadêmicos que supostamente comprovariam a conclusão dos cursos. A promessa de entrega em aproximadamente dez dias contrastava com o processo regular de formação, que envolve diferentes níveis de certificação e pode exigir anos até a obtenção da licença mais elevada.
A reportagem reuniu mensagens, áudios, fotografias e documentos relacionados às negociações. Entre as irregularidades identificadas estavam históricos acadêmicos com registros de avaliações não realizadas, inconsistências nos certificados e problemas na identificação de seus responsáveis.
Um dos indícios apontados pela investigação envolve documentos datados de 2023 que continham a assinatura de Victorio Cocco, ex-dirigente que já havia deixado a entidade argentina. A presença de assinaturas incompatíveis com a situação institucional da ATFA constitui mais um elemento de suspeita sobre a origem dos certificados, embora a determinação de responsabilidades individuais dependa de apuração específica.
Mancuso também utilizava referências a dirigentes da associação para reforçar a aparência de legitimidade da operação. A ATFA afirmou que ele não estava autorizado a agir em seu nome e que os documentos fornecidos não correspondiam a certificações reconhecidas pela instituição.
O problema não está na possibilidade de criar programas diferenciados para ex-atletas. A experiência adquirida no futebol profissional pode justificar critérios específicos de ingresso e aproveitamento de conhecimentos, desde que previstos em regulamentos legítimos. A irregularidade surge quando esse reconhecimento deixa de depender de critérios verificáveis e passa a ser tratado como um produto que pode ser adquirido mediante pagamento.
O que os próprios jogadores disseram
A investigação revelou situações diferentes entre os profissionais mencionados, e essa distinção é fundamental para compreender o episódio sem transformar suspeitas em conclusões antecipadas.
O caso de Alex de Souza é especialmente relevante porque o ex-meia reconheceu ter procurado uma facilidade para obter a certificação. Ídolo de Palmeiras, Cruzeiro e Fenerbahçe, Alex já havia concluído cursos da CBF Academy e buscava uma licença argentina que, segundo acreditava, poderia ampliar suas possibilidades de atuação internacional.
Mancuso teria apresentado um procedimento online que permitiria receber os documentos posteriormente, sem a necessidade de cumprir integralmente o percurso convencional. Ao comentar a decisão, Alex reconheceu o erro e afirmou: “Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei.”
O ex-jogador também declarou que não tentou homologar a licença na Conmebol. Segundo a investigação, um dos documentos recebidos apresentava a palavra futsal no lugar de fútbol, inconsistência que Alex afirmou ter percebido apenas depois da divulgação do caso.
Sua manifestação é importante porque permite separar duas questões. Alex sustentou que acreditava na validade da documentação e que não a utilizou, mas reconheceu expressamente que procurava uma facilidade. A crítica à sua escolha, portanto, não depende de presumir que ele sabia estar adquirindo um certificado falsificado.
Outro episódio revelador envolve Felipe Melo, que negociou com Mancuso quando ainda atuava profissionalmente. Conforme reportagem publicada pelo UOL em 8 de outubro, o ex-volante conseguiu reduzir pela metade o preço inicialmente solicitado, pagando US$ 10 mil pelo conjunto de quatro licenças.
Felipe recebeu os certificados e históricos acadêmicos com notas de avaliações que não havia realizado. Segundo seu relato, Mancuso havia explicado que sua experiência como jogador permitiria dispensar as aulas online, restando apenas uma atividade presencial em Buenos Aires.
A desconfiança surgiu quando o jogador passou a cobrar a realização desse encontro e não recebeu uma definição. Posteriormente, retirou das redes sociais as referências à certificação, pediu a devolução do dinheiro e obteve o reembolso em 22 de setembro de 2025, por meio de uma conta internacional.
O comportamento posterior de Felipe Melo precisa ser considerado, pois demonstra que ele contestou a operação quando passou a desconfiar de sua legitimidade. Entretanto, o recebimento de documentos que registravam avaliações não realizadas também permite questionar a aceitação inicial de um procedimento que dispensava praticamente toda a formação.
Thiago Silva, outro nome de grande projeção mencionado na investigação, também apresentou sua versão por meio da assessoria. Segundo a manifestação divulgada na imprensa, o jogador realizou pagamento acreditando participar de um processo legítimo, mas as aulas previstas não foram oferecidas conforme o combinado. A informação impede equiparar automaticamente sua situação à de profissionais que reconheceram ter procurado uma certificação facilitada.
As declarações dos demais envolvidos também apresentam diferenças. Diego Lugano afirmou ter participado de atividades teóricas online, mas não concluiu a etapa presencial. Petkovic declarou que sua licença ficou suspensa porque não realizou essa parte do curso. A assessoria de Roberto Carlos confirmou o recebimento de licenças e de uma carteira profissional pelo correio, mas sustentou que os documentos não foram utilizados porque a formação não havia sido concluída.
Roberto Assis, irmão e empresário de Ronaldinho Gaúcho, também apareceu entre os nomes relacionados à investigação argentina. Segundo a apuração, afirmou ter sido procurado por Mancuso, mas não soube precisar se chegou a efetuar pagamento.
Esses relatos demonstram por que seria incorreto afirmar que todos os jogadores conheciam a falsificação ou procuraram conscientemente documentos ilegais. Porém, também mostram que a discussão não pode se limitar à alegação de desconhecimento da fraude. Nos casos em que houve aceitação de certificações sem a realização das atividades correspondentes, existe uma questão de responsabilidade profissional que merece ser examinada independentemente das consequências criminais.
A diferença entre ser jogador e estar preparado para ser treinador
Para compreender a dimensão do problema, é necessário observar o que representa uma formação legítima de treinador.
A Licença PRO oferecida pela CBF Academy, instituição responsável pela formação de treinadores no Brasil, possui carga horária total de 450 horas e duração aproximada de 12 meses. O programa compreende 150 horas de atividades online, 140 horas presenciais, 80 horas destinadas ao trabalho de conclusão e outras 80 horas de estudos especiais e trabalhos.
A certificação exige presença em 100% das atividades previstas e média mínima de 70% nas avaliações. Além disso, o candidato precisa ter concluído previamente a Licença A, respeitando a estrutura progressiva estabelecida pela instituição.
Na consulta realizada em outubro de 2026, o investimento anunciado para a Licença PRO era de R$ 26.499, sem considerar os custos das etapas anteriores.
Esses números correspondem à formação brasileira e não devem ser confundidos com as exigências específicas da ATFA. Mas permitem dimensionar a diferença entre um processo educacional estruturado e a promessa de receber quatro níveis de certificação em aproximadamente dez dias.
A formação regular argentina também segue uma estrutura progressiva, com cursos que podem durar de seis a treze meses por nível. Reportagens sobre o caso descrevem o percurso completo entre as licenças C e PRO como um processo de aproximadamente três anos, embora a duração dependa da organização curricular e das regras aplicáveis.
A comparação demonstra que a oferta atribuída a Mancuso não representava simplesmente uma versão mais rápida de um procedimento convencional. Tratava-se de uma promessa de certificação que dispensava etapas essenciais da formação.
A experiência de um jogador profissional pode contribuir significativamente para sua preparação como treinador, especialmente pelo conhecimento do ambiente competitivo, das relações de vestiário e das exigências do alto rendimento. Entretanto, exercer as duas funções envolve responsabilidades e competências distintas.
Um treinador precisa planejar processos de treinamento, organizar equipes, coordenar profissionais, desenvolver metodologias, avaliar desempenho e tomar decisões que não se confundem integralmente com as atribuições de um atleta.
A formação profissional existe para desenvolver e verificar essas capacidades. Reconhecer a experiência anterior pode ser legítimo, mas transformá-la em dispensa indiscriminada de requisitos significa esvaziar o próprio sentido da certificação.
O verdadeiro suco de Brasil: a moralidade que encontra um atalho
O episódio também expõe uma contradição que ultrapassa a falsificação de documentos e alcança uma característica recorrente da cultura brasileira: a facilidade com que princípios defendidos publicamente podem ser relativizados quando sua aplicação exige algum sacrifício pessoal.
No futebol, essa contradição ganha contornos particularmente interessantes porque alguns dos envolvidos construíram uma imagem pública associada à defesa da profissionalização, da transparência e de mudanças nas estruturas da modalidade.
O caso de Alex de Souza é especialmente emblemático. Em 2013, o ex-jogador esteve entre os principais articuladores do Bom Senso F.C., movimento que tinha Paulo André como uma de suas principais lideranças e reivindicava mudanças profundas no futebol brasileiro. Entre suas bandeiras estavam a reorganização do calendário, melhores condições de trabalho, responsabilidade financeira dos clubes e maior participação dos atletas nas decisões das entidades esportivas.
Alex não foi apenas um apoiador distante. Participou da construção das propostas, ajudou a mobilizar jogadores e tornou-se um dos porta-vozes de um movimento que questionava práticas consolidadas e cobrava maior responsabilidade das instituições responsáveis pela administração do futebol.
É esse histórico que torna sua participação no episódio das licenças falsas particularmente contraditória. Anos depois de defender publicamente um futebol mais profissional e comprometido com regras institucionais, Alex reconheceu ter procurado uma facilidade para obter uma certificação de treinador. Ao afirmar “Era para comprar facilidade, mas eu nunca usei”, admitiu uma escolha que contrasta com o rigor e a profissionalização defendidos pelo movimento do qual participou.
Isso não significa que Alex soubesse da falsificação, tampouco desconsidera seu reconhecimento do erro e sua afirmação de que não utilizou o documento. A contradição está em outro ponto: um profissional que participou de um movimento dedicado a combater distorções estruturais do futebol aceitou, em benefício próprio, a possibilidade de abreviar exigências estabelecidas para uma qualificação profissional.
É o verdadeiro “suco de Brasil”: o discurso de respeito às regras e de profissionalização parece inegociável quando dirigido às instituições e aos outros profissionais, mas pode se tornar surpreendentemente flexível quando surge a oportunidade de obter uma vantagem pessoal.
Existe ainda uma dimensão de desigualdade nesse comportamento. Enquanto treinadores em início de carreira precisam investir recursos, frequentar cursos, cumprir cargas horárias e demonstrar conhecimentos, jogadores de grande projeção receberam ofertas que prometiam transformar sua experiência esportiva em credenciais profissionais por procedimentos excepcionalmente simplificados.
O prestígio construído dentro de campo pode abrir portas legítimas, mas não deveria substituir os requisitos estabelecidos para o exercício de outra atividade. A experiência merece reconhecimento quando existe um procedimento institucional que a avalie, e não quando alguém promete transformar notoriedade em certificação mediante pagamento.
A questão, portanto, não é negar a importância da trajetória dos ex-jogadores ou desconsiderar as contribuições do Bom Senso F.C. para o debate sobre o futebol brasileiro. É reconhecer que a defesa pública de instituições mais profissionais também exige coerência nas escolhas individuais, especialmente quando o cumprimento das regras deixa de ser uma cobrança dirigida aos outros e passa a representar uma obrigação pessoal.
Diego Souza e a consequência concreta da irregularidade
O caso de Diego Souza demonstra que as consequências da documentação questionada não ficaram necessariamente restritas às negociações privadas.
O ex-jogador recebeu uma licença atribuída à ATFA em 2023, quando ainda atuava pelo Grêmio. Segundo seu relato, Mancuso apresentou a possibilidade de obter uma certificação especial destinada a atletas renomados, que poderia ser utilizada quando ele decidisse iniciar a carreira como treinador.
Diego Souza afirmou que acreditava na legitimidade do procedimento, especialmente pela trajetória de Mancuso e pelas referências de outros profissionais do futebol.
Em agosto de 2026, ao assumir o comando técnico do Joinville, foi registrado no Boletim Informativo Diário da CBF (BID) com uma licença PRO atribuída à entidade argentina. O registro passou a constar no sistema a partir de 27 de agosto.
Após a divulgação da investigação, a ATFA informou que Diego Souza não possuía licença homologada na Conmebol. Em 8 de outubro, a CBF cancelou seu registro profissional e encaminhou o caso à Comissão de Ética e à Câmara Nacional de Resolução de Disputas para apuração de eventuais responsabilidades.
Diego Souza declarou ter sido enganado, afirmou que comunicou a situação à CBF e solicitou a retirada da licença de seu registro. Também manifestou intenção de buscar responsabilização judicial de Mancuso.
O cancelamento administrativo não significa que o ex-jogador tivesse conhecimento da falsificação quando recebeu os documentos. Mas não tira a responsabilidade de que essa certificação posteriormente considerada inválida foi utilizada em um procedimento oficial de habilitação profissional.
Enquanto sua situação não for regularizada, Diego Souza pode continuar participando das atividades do Joinville, mas não está habilitado a assinar a súmula das partidas como treinador. O auxiliar Rafael Bahia passou a responder oficialmente pela função nos jogos.
A CBF também realizou um levantamento dos profissionais registrados no Brasil exclusivamente com licenças argentinas e identificou dois casos nessa condição. A entidade solicitou à Conmebol a verificação da legitimidade dos documentos apresentados.
Segundo a interpretação divulgada pela CBF, os clubes possuem responsabilidade pela autenticidade da documentação utilizada nos processos de registro, obrigação que a entidade relacionou ao artigo 13 de seu Regulamento Geral de Registros.
O episódio evidencia a necessidade de procedimentos confiáveis de validação internacional. Quando uma licença estrangeira é utilizada para habilitar um profissional, sua autenticidade precisa ser confirmada junto à instituição emissora e aos organismos responsáveis pelo reconhecimento da certificação.
A existência de um documento com aparência oficial não deveria ser suficiente para comprovar uma qualificação que depende de formação, avaliação e homologação.
A investigação argentina e o que ainda precisa ser esclarecido
As suspeitas sobre licenças atribuídas à ATFA já haviam provocado uma investigação na Argentina antes da publicação das reportagens de outubro de 2026.
Em 4 de julho de 2025, uma operação policial realizou busca e apreensão na sede da associação, em Buenos Aires, por determinação do Juizado Criminal e Correcional Federal nº 7. A ação contou com a participação do Departamento Antifraude da Polícia Federal Argentina e tinha como objetivo reunir documentos relacionados a possíveis irregularidades na emissão de títulos de treinador.
A investigação examinou seis licenças associadas a Felipe Melo, Roberto Carlos, Roberto Assis, Diego Lugano, Paolo Guerrero e Petkovic, além de documentos relacionados à atuação de dirigentes e ex-dirigentes da entidade.
Segundo informações obtidas posteriormente pelo UOL junto à secretaria responsável pelo caso, o procedimento foi encerrado em dezembro de 2025 por ausência de comprovação de crime.
Alejandro Mancuso não foi investigado nem citado formalmente naquele procedimento, conforme a reportagem publicada em 9 de outubro de 2026. O encerramento da investigação não pode ser apresentado como absolvição do ex-jogador argentino, cuja atuação não integrou o objeto daquela apuração.
A investigação jornalística divulgada posteriormente apresentou novos elementos, incluindo mensagens, áudios e documentos relacionados às ofertas atribuídas a Mancuso.
A ATFA reiterou que não reconhece qualquer atuação dele em nome da entidade e declarou que os documentos fornecidos eram falsos. Mancuso negou ter comercializado as licenças e afirmou que apenas orientava os interessados a procurar a associação.
As responsabilidades pela produção, comercialização e eventual utilização consciente de documentos falsificados ainda dependem de apuração individual, respeitando as provas disponíveis e as manifestações dos envolvidos.
A existência de uma investigação policial anterior de documentos sem reconhecimento oficial e de um registro profissional cancelado pela CBF, demonstra que o episódio ultrapassou a esfera de uma simples controvérsia comercial entre jogadores e um intermediário.
O que uma licença deveria comprovar
Uma licença de treinador não deveria funcionar como homenagem à carreira de um ex-jogador nem como benefício concedido em razão de sua fama. Sua finalidade é demonstrar que o profissional cumpriu determinadas exigências e passou por um processo de preparação reconhecido.
A investigação de Joanna de Assis revelou como o prestígio de jogadores conhecidos pode ser utilizado para conferir credibilidade a ofertas de certificação irregular. Também mostrou que alguns profissionais aceitaram propostas de formação abreviada, enquanto outros afirmaram acreditar que participavam de procedimentos legítimos e posteriormente contestaram os documentos recebidos.
As diferenças entre essas situações precisam ser preservadas. Não é possível atribuir a todos o mesmo grau de conhecimento, intenção ou responsabilidade, especialmente quando existem relatos de atividades prometidas e não realizadas, pedidos de reembolso e declarações de desconhecimento da falsificação.
De qualquer forma, a admissão de que determinadas licenças foram procuradas pela facilidade oferecida permite discutir uma questão que vai além da autenticidade dos documentos.
A formação profissional não pode ser reduzida à obtenção de um certificado. Quando a comprovação de conhecimentos é substituída pela promessa de reconhecimento imediato, o documento perde sua finalidade e passa a representar apenas uma aparência de qualificação.
O futebol exige preparação, disciplina e respeito às regras para reconhecer seus atletas. Não existe justificativa para considerar esses princípios menos importantes quando os mesmos profissionais decidem ocupar outra função dentro da modalidade.
O prestígio adquirido durante uma carreira pode justificar oportunidades e critérios diferenciados de formação, desde que previstos em procedimentos legítimos. O que ele não deveria fazer é substituir a necessidade de demonstrar conhecimentos e cumprir exigências profissionais.
O escândalo envolvendo Mancuso não se resume à descoberta de certificados falsificados. Ele também expõe uma cultura na qual a experiência e a notoriedade podem ser utilizadas como argumentos para justificar a busca por caminhos mais fáceis, mesmo quando esses caminhos esvaziam o significado da qualificação que se pretende obter.
A questão que permanece não é apenas quem produziu os documentos falsos, mas por que a possibilidade de receber uma licença sem cumprir integralmente a formação correspondente pareceu aceitável a determinados profissionais que construíram suas carreiras em um ambiente no qual preparação e mérito são constantemente apresentados como valores fundamentais.

