Durante anos, Marcelo Paz foi apresentado como uma das principais referências de gestão esportiva do futebol brasileiro. Sob sua liderança, o Fortaleza deixou a Série C, consolidou-se na elite nacional, disputou competições internacionais e chegou à final da Copa Sul-Americana. O dirigente recebeu premiações, participou da transformação administrativa do clube e tornou-se um exemplo frequentemente associado à profissionalização do futebol.
Em dezembro de 2025, quando anunciou sua saída, o próprio Fortaleza o classificou como o maior dirigente de sua história centenária. A nota oficial destacava 12 títulos, três participações na Libertadores, duas campanhas entre os quatro primeiros colocados do Campeonato Brasileiro e uma final continental.
Pouco tempo depois, o cenário era outro. O Fortaleza havia sido rebaixado para a Série B, apesar de ter contado com o maior orçamento de sua história, e Marcelo Paz assumia o departamento de futebol de um Corinthians mergulhado em dificuldades financeiras e institucionais. Em outubro de 2026, com o time paulista acumulando derrotas consecutivas e ameaçado pelo rebaixamento, suas decisões passaram a enfrentar questionamentos cada vez mais intensos.
A mudança de reputação suscita uma questão que ultrapassa a trajetória de um único dirigente. Se Marcelo Paz demonstrou competência durante tantos anos, os resultados negativos posteriores significam que essa capacidade desapareceu? Ou o reconhecimento anterior era excessivamente dependente das vitórias?
Existe ainda uma terceira possibilidade, menos confortável: a de que o sucesso tenha ocultado problemas administrativos que somente se tornaram evidentes quando os resultados esportivos começaram a deteriorar.
Responder exige distinguir três conceitos frequentemente tratados como equivalentes no futebol: a qualidade de uma decisão, a competência de quem a toma e o resultado efetivamente alcançado.
O sucesso do Fortaleza foi real, mas isso não significa que todas as decisões foram corretas
A transformação do Fortaleza durante a passagem de Marcelo Paz pela administração do clube não pode ser reduzida a uma sequência favorável de resultados. O dirigente iniciou sua trajetória como diretor de futebol em 2015, tornou-se vice-presidente em 2016, assumiu a presidência em 2017 e permaneceu no cargo até o final de 2023, passando posteriormente a exercer a função de CEO da SAF.
Nesse período, o clube conquistou o acesso à Série B em 2017, venceu a segunda divisão nacional em 2018 e construiu uma trajetória de consolidação na Série A. A evolução culminou em campanhas expressivas, incluindo o quarto lugar no Campeonato Brasileiro de 2021, a final da Copa Sul-Americana de 2023 e outro quarto lugar no Brasileirão de 2024. A estrutura administrativa também se desenvolveu, com investimentos em instalações e processos de trabalho.
Esses resultados constituem evidências relevantes de capacidade organizacional. Um projeto que apresenta evolução durante várias temporadas oferece uma base de avaliação mais consistente do que uma campanha isolada. Entretanto, mesmo nesse caso, é necessário evitar uma conclusão simplificadora: a de que os resultados comprovam automaticamente a excelência de todas as decisões tomadas.
O desempenho de um clube depende de múltiplas variáveis, incluindo orçamento, qualidade das contratações, trabalho da comissão técnica, desenvolvimento de atletas, concorrência, disponibilidade de jogadores e circunstâncias específicas das competições. O dirigente influencia parte importante dessas variáveis, mas não controla integralmente nenhuma delas.
Por isso, atribuir exclusivamente a Marcelo Paz os resultados positivos do Fortaleza seria tão inadequado quanto responsabilizá-lo individualmente por todos os fracassos posteriores.
O reconhecimento de sua contribuição não exige transformar sua trajetória em uma sucessão de decisões infalíveis. Ao contrário, uma avaliação tecnicamente consistente deve identificar quais processos administrativos contribuíram para o crescimento do clube, quais resultados foram sustentáveis e quais riscos começaram a se acumular durante o período de expansão.
A questão é particularmente importante porque uma gestão pode alcançar resultados esportivos excelentes e, simultaneamente, desenvolver vulnerabilidades que comprometerão seu desempenho futuro.
Quando a continuidade deixa de ser planejamento e passa a ser resistência à mudança?
Um dos episódios mais conhecidos da gestão de Marcelo Paz no Fortaleza ocorreu em 2022, quando o clube atravessou uma crise esportiva profunda. Mesmo depois de passar 14 rodadas na última colocação e 20 rodadas na zona de rebaixamento, a administração manteve Juan Pablo Vojvoda no comando técnico.
O Fortaleza reagiu, terminou o campeonato em oitavo lugar e conquistou classificação para a fase preliminar da Libertadores. A manutenção do treinador tornou-se um exemplo de estabilidade administrativa e resistência à pressão por decisões imediatistas.
A interpretação parecia evidente: enquanto outros clubes substituíam treinadores diante de sequências negativas, o Fortaleza demonstrava capacidade de sustentar um projeto.
Entretanto, a crise de 2025 revelou os limites dessa leitura.
Em entrevista concedida ao jornal O Povo, em julho daquele ano, Marcelo Paz explicou que a diretoria havia preservado o treinador, mantido parte importante do elenco, realizado contratações e melhorado condições de trabalho porque acreditava que essas medidas produziriam uma recuperação. A reação esperada não ocorreu. Na ocasião, o dirigente negou que a administração tivesse demorado a agir e afirmou que a continuidade das medidas refletia a convicção de que o planejamento adotado produziria resultados.
Em janeiro de 2026, já apresentado ao Corinthians, foi ainda mais específico ao analisar o rebaixamento do Fortaleza. Reconheceu que o clube deveria ter alterado anteriormente o perfil dos jogadores, admitiu que as contratações da primeira janela não produziram o encaixe esperado e mencionou dificuldades políticas e influências externas.
A comparação entre os dois momentos é reveladora, embora envolva decisões diferentes. Em 2022, a continuidade do treinador foi seguida por uma recuperação expressiva. Em 2025, a preservação de um modelo esportivo que havia produzido resultados importantes contribuiu, segundo a avaliação posterior do próprio dirigente, para retardar uma renovação necessária.
Isso não demonstra que manter Vojvoda em 2022 foi correto apenas porque o Fortaleza reagiu, nem que preservar a estrutura esportiva em 2025 foi errado exclusivamente porque o clube caiu.
A avaliação exige investigar quais informações estavam disponíveis em cada momento, quais indicadores justificavam as escolhas e quais alternativas poderiam ter sido adotadas.
Na administração, a consistência não consiste em repetir decisões semelhantes independentemente das circunstâncias. Consiste em aplicar critérios coerentes a problemas que podem exigir soluções diferentes.
A estabilidade institucional é uma virtude quando protege decisões fundamentadas contra pressões circunstanciais. Torna-se uma deficiência quando impede a organização de reconhecer mudanças no ambiente competitivo.
A competência não está em manter ou demitir um treinador, preservar ou reformular um elenco. Está na capacidade de identificar quando cada alternativa é necessária.
Os números financeiros também precisam entrar na avaliação
A deterioração esportiva do Fortaleza foi acompanhada por resultados contábeis que merecem atenção.
Segundo levantamento publicado pelo GE em abril de 2026, o Fortaleza registrou superávit aproximado de R$ 108 milhões em 2023 e déficit de R$ 17,9 milhões em 2024. Em 2025, o resultado combinado divulgado da SAF e da associação foi negativo em aproximadamente R$ 74,8 milhões. Separadamente, a SAF apresentou déficit de R$ 120,1 milhões, enquanto a associação registrou superávit de R$ 45,3 milhões, conforme reportagem do jornal O Povo.
A comparação revela uma mudança expressiva na situação econômico-financeira, embora não permita concluir, isoladamente, que o clube tenha enfrentado deterioração equivalente em seu fluxo de caixa. Resultados contábeis incorporam receitas e despesas reconhecidas por competência, operações não recorrentes e outros efeitos que precisam ser examinados separadamente.
Também seria incorreto atribuir toda a variação a Marcelo Paz. A gestão financeira envolve diferentes órgãos de administração, e as demonstrações contábeis exigem análise de receitas, despesas, ativos, passivos e compromissos assumidos.
Ainda assim, existe uma questão incontornável: se o desempenho esportivo era utilizado como evidência da qualidade da administração, por que os indicadores financeiros não deveriam receber atenção equivalente?
Uma gestão esportiva precisa equilibrar competitividade presente e sustentabilidade futura. Contratar jogadores, elevar a folha salarial ou antecipar receitas pode contribuir para melhorar o desempenho imediato, mas também comprometer a capacidade de investimento das temporadas seguintes.
Isso não significa que todo déficit represente má administração. Investimentos planejados podem produzir resultados contábeis negativos temporários, desde que existam capacidade de financiamento, perspectivas razoáveis de retorno e controle dos riscos assumidos.
O problema surge quando a avaliação pública se limita à classificação do campeonato e ignora o custo necessário para alcançá-la.
Um clube que termina entre os primeiros colocados pode estar administrativamente mais vulnerável do que aparenta. Da mesma forma, uma equipe que apresenta desempenho esportivo inferior pode estar atravessando uma reorganização financeira necessária.
Nenhuma dessas situações pode ser diagnosticada apenas pela posição na tabela.
No Corinthians, o contexto mudou. A responsabilidade administrativa continua existindo
A chegada de Marcelo Paz ao Corinthians, em janeiro de 2026, representou uma mudança substancial nas condições de trabalho.
No Fortaleza, ele havia participado da construção de um projeto durante mais de uma década, exercendo diferentes funções de liderança. No Corinthians, assumiu o departamento de futebol de uma instituição com outra estrutura de governança, maior exposição pública, limitações financeiras e conflitos administrativos preexistentes.
Em setembro de 2026, o Corinthians enfrentava três proibições de registrar novos jogadores, conhecidas como transfer bans, relacionadas a pendências que somavam aproximadamente R$ 21,5 milhões, valor sujeito a correções. O clube também convivia com dificuldades de caixa e obrigações em atraso.
Na primeira janela da temporada, o Corinthians contratou sete jogadores sem pagamento de taxas de aquisição de direitos econômicos. Na janela seguinte, as restrições impediram o registro de novos reforços. Marcelo Paz reconheceu publicamente as limitações financeiras e as dificuldades para fortalecer o elenco.
Esses elementos são indispensáveis para uma avaliação justa.
Um executivo que administra um departamento de futebol sem liberdade para contratar, com restrições orçamentárias e dificuldades para cumprir obrigações financeiras não dispõe das mesmas alternativas que um dirigente responsável por um clube financeiramente equilibrado.
Isso não elimina sua responsabilidade. Apenas modifica os critérios pelos quais ela deve ser examinada.
É possível avaliar a qualidade das contratações realizadas, o planejamento do elenco, a relação com a comissão técnica, a comunicação institucional e a capacidade de estabelecer prioridades mesmo diante de recursos limitados.
O próprio Corinthians apresentou situações que expuseram tensões entre necessidades esportivas e financeiras. Em fevereiro, por exemplo, a possibilidade de negociar o volante André com o Milan provocou divergências públicas entre Dorival Júnior e a administração. O treinador manifestou preocupação com a perda esportiva, enquanto Marcelo Paz explicou os valores envolvidos e a necessidade de considerar a situação econômica do clube.
Esse tipo de conflito demonstra por que a avaliação de um executivo não pode se limitar à contratação de bons jogadores ou à manutenção de atletas importantes. A decisão precisa considerar o valor econômico do ativo, a necessidade de liquidez, as alternativas de reposição e os efeitos competitivos da negociação.
Uma venda pode ser financeiramente necessária e esportivamente prejudicial. A decisão adequada depende do equilíbrio entre essas dimensões, e não de uma classificação automática como acerto ou erro.
O caso Seedorf e o risco de avaliar decisões apenas pelo desfecho
A crise do Corinthians ganhou outro capítulo em outubro, quando Fernando Diniz foi demitido após uma sequência de resultados negativos. Em 7 de outubro, Marcelo Paz justificou a decisão pela necessidade de provocar uma reação imediata da equipe e reconheceu a responsabilidade compartilhada entre dirigentes, jogadores e comissão técnica.
Em 11 de outubro de 2026, o Corinthians anunciou Clarence Seedorf como treinador, com contrato até dezembro de 2027. Segundo apuração do GE, a escolha foi conduzida por Marcelo Paz, com aprovação do presidente Osmar Stabile, após tentativas frustradas de negociação com outros profissionais. A decisão também provocou divergências internas.
Ao explicar a contratação, Paz destacou a liderança e a trajetória vencedora do ex-jogador holandês. Porém, Seedorf estava afastado da função de treinador havia aproximadamente sete anos. Sua experiência anterior incluía passagens por Milan, Shenzhen, Deportivo La Coruña e seleção de Camarões.
A decisão oferece um exemplo concreto de como uma avaliação administrativa pode ser conduzida independentemente dos resultados futuros.
A experiência de Seedorf como jogador é um fato relevante de sua trajetória profissional, mas não comprova, por si só, sua capacidade de organizar uma equipe, desenvolver um modelo de jogo, administrar um elenco ou produzir resultados como treinador.
Essas competências exigem conhecimentos e habilidades específicos. E seu histórico como treinador, até aqui, está longe de ser considerado vitorioso.
Portanto, a contratação deve ser examinada a partir de perguntas objetivas: quais critérios técnicos orientaram a escolha? Qual era o diagnóstico das deficiências do Corinthians? Como o perfil do treinador se relacionava com as características do elenco? Quais alternativas estavam disponíveis? Que evidências sustentavam a expectativa de recuperação?
A resposta não pode depender exclusivamente dos próximos resultados.
Se o Corinthians reagir, isso não demonstrará automaticamente que o processo de contratação foi adequado. Se a equipe continuar perdendo, tampouco será suficiente para concluir que a escolha foi tecnicamente indefensável.
Os resultados fornecem informações importantes sobre a eficácia de uma decisão, mas não substituem a análise das condições em que ela foi tomada.
A ciência explica por que o resultado distorce o julgamento
Na psicologia da decisão, existe um fenômeno conhecido como outcome bias, ou viés de resultado.
O conceito descreve a tendência de avaliar a qualidade de uma decisão a partir de seu desfecho, em vez de considerar principalmente as informações disponíveis, as alternativas existentes e o processo de escolha.
O fenômeno foi demonstrado experimentalmente pelos pesquisadores Jonathan Baron e John C. Hershey, no estudo Outcome Bias in Decision Evaluation, publicado em 1988 no Journal of Personality and Social Psychology. Em cinco experimentos, os autores identificaram que o conhecimento dos resultados influenciava a avaliação da qualidade de decisões tomadas sob incerteza, mesmo quando os participantes recebiam informações relevantes sobre as condições em que essas decisões haviam sido tomadas.
Imagine dois dirigentes que precisam decidir se mantêm seus treinadores após uma sequência de derrotas. Ambos analisam indicadores de desempenho, condições físicas dos atletas, qualidade das oportunidades criadas e evolução tática. Chegam à conclusão de que a continuidade é a alternativa mais fundamentada.
Nas partidas seguintes, uma equipe vence e a outra perde.
O primeiro dirigente provavelmente receberá elogios pela convicção e pela capacidade de resistir à pressão. O segundo poderá ser acusado de omissão e incapacidade de reconhecer o problema.
Entretanto, se as informações e os processos decisórios eram igualmente consistentes, o resultado posterior não demonstra necessariamente que um deles decidiu melhor.
A diferença pode decorrer de fatores que escapam ao controle administrativo, incluindo erros individuais, lesões, decisões de arbitragem, variações de desempenho e aleatoriedade inerente às competições esportivas.
Isso não significa que os resultados sejam irrelevantes. Ao contrário, são fundamentais para verificar se as estratégias adotadas estão produzindo os efeitos esperados. Afinal, o futebol vive de resultados, e nenhuma gestão pode ser considerada bem-sucedida se não consegue transformar suas decisões em desempenho esportivo.
A diferença está em reconhecer que o resultado é uma evidência de desempenho, não uma explicação completa de suas causas.
Outro mecanismo importante é o viés retrospectivo, conhecido como hindsight bias. Depois de conhecer o desfecho de um acontecimento, as pessoas tendem a superestimar o quanto ele era previsível anteriormente.
Uma contratação que fracassa passa a ser descrita como um erro evidente. Um treinador que obtém sucesso transforma-se em escolha óbvia. Uma equipe que é rebaixada provoca a impressão de que todos os sinais de deterioração estavam claros desde o início.
Mas a previsibilidade real precisa ser demonstrada com informações disponíveis antes do acontecimento.
No caso do Fortaleza, por exemplo, a análise mais relevante não consiste em afirmar, depois do rebaixamento, que o elenco deveria ter sido reformulado. O próprio Marcelo Paz reconheceu essa necessidade posteriormente.
A investigação tecnicamente mais importante seria identificar quando surgiram evidências suficientes de que o modelo esportivo estava perdendo eficácia e quais decisões foram tomadas a partir desses sinais.
É essa diferença que separa uma crítica administrativa fundamentada de uma interpretação construída apenas depois que o resultado se tornou conhecido.
O problema da reputação: o sucesso também pode dificultar a identificação dos erros
Existe uma consequência adicional da consagração de dirigentes que merece atenção.
Quando um executivo acumula resultados positivos, sua reputação passa a influenciar a maneira como suas decisões são interpretadas. Escolhas arriscadas podem ser consideradas demonstrações de ousadia. A manutenção de profissionais questionados pode ser apresentada como convicção. Contratações caras podem ser justificadas pela confiança no histórico de quem as realizou.
A reputação funciona, nesse contexto, como um elemento de credibilidade.
Isso é compreensível. O histórico profissional constitui uma informação relevante para avaliar a capacidade de alguém. O problema surge quando os resultados anteriores passam a substituir o exame crítico das decisões presentes.
Um dirigente competente também pode cometer erros de diagnóstico, selecionar profissionais inadequados, subestimar mudanças no ambiente competitivo ou manter estratégias que deixaram de funcionar.
A experiência acumulada não elimina essas possibilidades.
O caso de Marcelo Paz oferece uma demonstração particularmente interessante. No Fortaleza, a continuidade de um projeto esteve associada a alguns dos melhores resultados da história do clube. Posteriormente, o próprio dirigente identificou a demora na renovação do elenco como um dos erros da campanha que terminou em rebaixamento.
Isso não permite afirmar que o sucesso tenha causado o fracasso. Mas mostra como uma organização pode enfrentar dificuldades para modificar práticas anteriormente bem-sucedidas.
Na administração, esse fenômeno está relacionado ao risco de persistência estratégica: a tendência de manter escolhas que produziram bons resultados no passado, mesmo quando as condições que justificavam essas escolhas começaram a mudar.
A competência não pode ser entendida como uma característica permanente e imutável. Ela precisa ser demonstrada continuamente por meio da capacidade de interpretar informações, revisar hipóteses, reconhecer erros e adaptar decisões.
O histórico de Marcelo Paz permanece relevante. Mas não pode funcionar como garantia antecipada da qualidade de suas próximas escolhas.
A responsabilidade precisa acompanhar o poder de decisão
Outra dificuldade recorrente na avaliação de dirigentes é a atribuição de responsabilidades sem considerar a estrutura de governança dos clubes.
Em uma organização profissional, diferentes decisões podem envolver presidente, conselho de administração, executivo de futebol, diretor financeiro, departamento de análise de mercado, comissão técnica e outros profissionais.
A existência de múltiplos participantes não elimina a responsabilidade individual. Porém, exige identificar quem possuía autoridade para decidir, quem apresentou recomendações, quem aprovou os investimentos e quem tinha condições de impedir ou corrigir os problemas.
No Fortaleza, Marcelo Paz ocupou posições de liderança institucional durante muitos anos. No Corinthians, sua função é distinta e está inserida em uma estrutura administrativa que inclui a presidência e outros órgãos de decisão.
Essa diferença importa, e muito.
Não seria rigoroso atribuir a um executivo a responsabilidade integral por restrições financeiras anteriores à sua contratação. Da mesma forma, seria inadequado utilizar essas restrições para justificar automaticamente escolhas equivocadas realizadas durante sua gestão.
A análise precisa separar problemas herdados, decisões compartilhadas e atos diretamente atribuíveis ao profissional.
O princípio é simples: a responsabilidade deve ser proporcional à autoridade exercida, às informações disponíveis e às alternativas efetivamente existentes.
Sem essa distinção, a avaliação deixa de examinar a administração e passa a procurar um personagem que possa representar, sozinho, o sucesso ou o fracasso de toda a instituição.
Afinal, como se mede a competência de um gestor de futebol?
Uma avaliação tecnicamente consistente precisa combinar indicadores esportivos, financeiros e organizacionais.
No desempenho esportivo, não basta observar títulos ou posição na tabela. É necessário considerar o orçamento disponível, a qualidade do elenco, o nível dos adversários, a evolução das equipes e a regularidade dos resultados ao longo de diferentes temporadas.
Na dimensão financeira, devem ser examinados custos recorrentes, geração de receitas, endividamento, liquidez, compromissos futuros e eficiência na utilização dos recursos. Um clube pode vencer muito e comprometer sua sustentabilidade. Também pode atravessar um período de menor competitividade enquanto reorganiza suas finanças.
Na gestão de pessoas, os critérios incluem desenvolvimento de profissionais, qualidade das contratações, integração entre departamentos e capacidade de substituir integrantes do projeto quando necessário.
Na governança, é fundamental verificar a existência de processos claros, definição de responsabilidades, mecanismos de controle, planejamento e prestação de contas.
Finalmente, existe a dimensão temporal. Uma boa decisão não deve ser avaliada apenas pelo resultado imediatamente posterior, mas por sua contribuição para os objetivos institucionais ao longo do período relevante.
Esses indicadores não produzem uma fórmula infalível. O futebol continuará apresentando incerteza, competição e acontecimentos imprevisíveis. Entretanto, oferecem critérios mais consistentes do que a alternância entre elogios absolutos durante as vitórias e condenações igualmente absolutas durante as derrotas.
É perfeitamente possível concluir que um dirigente realizou uma gestão excelente em determinado período e apresentou desempenho insatisfatório em outro. Também é possível reconhecer que decisões administrativamente fundamentadas não produziram os resultados esperados.
Não existe contradição nessas avaliações, desde que sejam sustentadas por evidências e critérios coerentes.
A contradição aparece quando a mesma decisão é considerada inteligente depois de uma vitória e incompetente depois de uma derrota, sem que qualquer informação adicional sobre sua qualidade tenha sido examinada.
Marcelo Paz não precisa ser um gênio nem um incompetente
A trajetória de Marcelo Paz reúne elementos suficientes para uma avaliação muito mais complexa do que os dois rótulos.
Sua participação na transformação do Fortaleza é documentada e relevante. O clube alcançou resultados que modificaram sua posição no futebol brasileiro e ampliaram sua presença em competições nacionais e internacionais.
Também existem erros reconhecidos pelo próprio dirigente, especialmente relacionados à renovação do elenco que terminou rebaixado em 2025.
No Corinthians, Marcelo Paz enfrenta dificuldades estruturais que restringem sua atuação, mas continua responsável pelas decisões que lhe cabem, incluindo planejamento esportivo, escolhas de profissionais e participação na definição dos rumos do departamento de futebol.
Nada disso exige ignorar seus méritos anteriores ou minimizar os problemas atuais.
O equívoco está em tratar competência como uma condição que aparece e desaparece automaticamente conforme a sequência de resultados.
A vitória não transforma uma decisão mal fundamentada em boa administração. A derrota não converte necessariamente uma escolha racional em incompetência.
Isso não significa proteger dirigentes das consequências de seus atos. Significa exatamente o contrário: estabelecer critérios que permitam responsabilizá-los por decisões inadequadas mesmo quando o time está vencendo, e reconhecer escolhas tecnicamente consistentes mesmo quando os resultados são desfavoráveis.
Talvez esse seja um dos maiores problemas da avaliação de gestores no futebol brasileiro. Enquanto a bola entra, muitas perguntas deixam de ser feitas. Quando ela para de entrar, surgem respostas definitivas para questões que nunca foram devidamente investigadas.
Marcelo Paz não se tornou automaticamente incompetente porque o Fortaleza foi rebaixado ou porque o Corinthians atravessa uma crise. Mas seus sucessos anteriores também não comprovam que suas decisões recentes sejam corretas.
O que mudou de maneira incontestável foram os resultados e as circunstâncias em que seu trabalho passou a ser avaliado. Determinar quanto mudou sua qualidade como gestor exige uma investigação que vá além deles.
No futebol, a bola decide o placar. Mas não deveria decidir, sozinha, quem é competente.


