O que está acontecendo com o futebol gaúcho?

chatgpt image 25 09 2026, 09 32 13

No dia 20 de setembro de 2026, Grêmio e Internacional terminaram juntos uma rodada do Campeonato Brasileiro na zona de rebaixamento pela primeira vez nesta edição. Depois de 28 partidas, o Grêmio aparecia em 17º lugar, com 29 pontos, enquanto o Internacional ocupava a 18ª posição, com 28.

A fotografia, justamente no Dia do Gaúcho, parecia sintetizar uma temporada particularmente difícil para os dois maiores clubes do Rio Grande do Sul.

Quando a análise se amplia para além da dupla Gre-Nal, a sensação de perda de força encontra outros elementos.

O Juventude disputa a Série B. Caxias e Ypiranga ficaram fora da fase decisiva da Série C. Na Série D estavam São José, São Luiz, Brasil de Pelotas e Guarany de Bagé, clubes que representam diferentes cidades e histórias importantes do futebol do estado. Dos nove representantes gaúchos nas quatro divisões nacionais em 2026, apenas Grêmio e Inter estão na elite.

Mas a fotografia, embora ruim, não necessariamente explica o filme.

Depois de analisar resultados esportivos, balanços financeiros, endividamento, receitas com transferências, categorias de base, consequências das enchentes de 2024 e comparar parte desses indicadores com clubes de outros estados, surge uma dificuldade que precisa ser reconhecida: não aparece, até aqui, uma causa estrutural comum capaz de explicar por que tantos clubes gaúchos atravessam simultaneamente um período de resultados abaixo das expectativas.

Talvez o primeiro problema esteja em pressupor que todos eles precisam ter a mesma explicação.

A fotografia nacional é ruim, mas não é uniforme

Antes de procurar as causas, é preciso dimensionar corretamente o desempenho esportivo.

Na Série A, a situação é indiscutivelmente preocupante. Após a 28ª rodada, o Grêmio tem 29 pontos e ocupa o 17º lugar. O Internacional tem 28 e aparece em 18º. Os dois estão na zona de rebaixamento.

Na Série B ocorre praticamente o contrário. Depois de 29 rodadas, o Juventude é o quarto colocado, com 50 pontos, apenas um atrás de Vila Nova e Fortaleza, ambos com 51. O clube de Caxias do Sul chegou a liderar a competição e permanece diretamente envolvido na disputa pelo acesso.

Na Série C, os dois representantes gaúchos encerraram a primeira fase fora do grupo dos oito classificados. O Ypiranga terminou em 9º lugar, com 29 pontos em 19 partidas, apenas uma posição abaixo da zona de classificação. O Caxias terminou em 14º, com 25 pontos. A diferença entre os dois casos importa: colocar Ypiranga e Caxias simplesmente dentro da mesma ideia de “fracasso do futebol gaúcho” apagaria circunstâncias esportivas bastante diferentes, já que o Ypiranga terminou imediatamente abaixo da linha de corte enquanto o Caxias ficou seis posições atrás.

Na Série D, o Rio Grande do Sul começou com quatro representantes: São José, São Luiz, Brasil de Pelotas e Guarany de Bagé. O Guarany terminou a primeira fase na última posição do Grupo A15, com apenas quatro pontos em dez partidas. O São Luiz, no mesmo grupo, avançou em quarto lugar com 15 pontos, eliminou Blumenau e Velo Clube e chegou às oitavas de final. No Grupo A16, o São José avançou em quarto, com 13 pontos, enquanto o Brasil de Pelotas terminou em quinto, com dez, e foi eliminado. O São José continuou avançando até chegar às quartas de final e, com a ampliação para seis acessos em 2026, ganhou uma segunda oportunidade nos playoffs. Empatou por 0 a 0 com o Goiatuba em Porto Alegre e por 1 a 1 em Goiás. Como o regulamento dava a vantagem do empate no confronto ao clube de melhor campanha, o Goiatuba conquistou a vaga na Série C de 2027.

Portanto, nem mesmo nas divisões inferiores existe uma trajetória única. Há eliminações precoces, campanhas medianas, um clube que ficou imediatamente fora da fase decisiva da Série C e outro que chegou a dois jogos de uma vaga na terceira divisão, o que já começa a tornar a palavra “crise” mais difícil de definir.

As finanças parecem uma explicação óbvia

Se existe um lugar onde a crise é objetiva, ele está nas contas de Grêmio e Internacional. Mas mesmo aqui, os números pedem mais precisão do que costumam receber.

Os dois clubes fecharam 2025 com resultado contábil positivo. O Grêmio registrou superávit de R$ 35 milhões. O Internacional, superávit de aproximadamente R$ 9 milhões. Isoladamente, nenhum desses números permite concluir que os clubes recuperaram sua saúde financeira.

No Grêmio, a auditoria da Baker Tilly Brasil, apresentada ao Conselho Deliberativo, apontou passivo total de R$ 935,6 milhões em 2025, R$ 516,4 milhões em obrigações de curto prazo e R$ 419,1 milhões de longo prazo. Em 2023, o passivo total estava na casa dos R$ 640 milhões, em 2024, havia alcançado R$ 795 milhões. Em dois anos, o aumento foi de aproximadamente R$ 295 milhões, ou 46%. O resultado de 2025 foi fortemente influenciado por um efeito contábil positivo de cerca de R$ 400 milhões relacionado à incorporação da gestão da Arena, doada ao clube por Marcelo Marques, sem entrada correspondente de dinheiro em caixa. O número positivo no papel decorre majoritariamente desse lançamento contábil, não de geração de caixa operacional.

No Internacional, o quadro também é pesado, ainda que precise ser descrito com cuidado para não misturar conceitos diferentes. O clube encerrou 2025 com endividamento nominal de R$ 939 milhões, abaixo dos R$ 978 milhões do ano anterior, enquanto o passivo total permaneceu na casa de R$ 1,2 bilhão. O exercício terminou com receita bruta de R$ 776 milhões e superávit contábil de aproximadamente R$ 9 milhões. O Conselho Fiscal apontou ressalvas relacionadas à forma como foi contabilizada a renegociação com a Futebol Forte União (FFU). Posteriormente, o Conselho Deliberativo aprovou as contas sem ressalvas por maioria dos votos.

No caso colorado, a pressão financeira já produziu consequências diretamente relacionadas à montagem do elenco. Em 25 de agosto, o Internacional sofreu um transfer ban da FIFA por uma dívida relacionada à contratação do zagueiro Juninho junto ao Midtjylland, da Dinamarca. Menos de um mês depois, em 17 de setembro, recebeu uma segunda sanção, desta vez vinculada à compra do lateral Ramon junto ao Olympiacos. O bloqueio impede o registro de novos jogadores enquanto as pendências que originaram as punições não forem solucionadas. E aqui existe uma ligação concreta entre situação financeira e capacidade esportiva, já que um clube impedido de registrar reforços perde liberdade para corrigir deficiências do elenco.

O problema começa quando essa realidade é utilizada para explicar não apenas o Internacional, mas o futebol gaúcho.

O problema financeiro não termina na fronteira do Rio Grande do Sul

Quando clubes de outros estados entram na comparação, aparece um padrão que não pode ser ignorado.

Boa parte das equipes que atravessam situações financeiras mais delicadas também enfrenta dificuldades esportivas. Isso não significa que dívida produza automaticamente derrota, mas torna difícil tratar o endividamento apenas como um problema administrativo sem consequências dentro de campo.

Em julho de 2026, antes mesmo das punições sofridas pelo Internacional, Corinthians, Santos e Botafogo já estavam simultaneamente impedidos pela FIFA de registrar jogadores. Eram três dos 20 participantes da Série A, ou 15% da competição, somando pelo menos cinco bloqueios ativos entre os três. O Corinthians chegou ao fim da janela de setembro com três transfer bans relacionados a obrigações de aproximadamente R$ 21,5 milhões e, além das dificuldades financeiras, passou boa parte do campeonato na metade inferior da classificação.

O Botafogo viveu situação ainda mais grave. A SAF chegou a acumular seis transfer bans simultâneos e, em maio, protocolou pedido de recuperação judicial, cujo processamento foi deferido pela Justiça do Rio de Janeiro no dia seguinte. O próprio clube incluiu os riscos decorrentes das punições da FIFA entre os fatores que pressionavam sua situação financeira. Nesse ponto, a relação entre dinheiro e futebol deixa de ser abstrata: quando uma dívida impede o registro de jogadores, o problema que estava no balanço passa diretamente para a montagem do elenco.

Na Série B, a Ponte Preta oferece um exemplo ainda mais extremo. Auditoria apresentada em 2026 estimou aproximadamente R$ 320 milhões em dívidas, custo operacional próximo de R$ 4 milhões por mês e receita mensal em torno de R$ 1,2 milhão, uma diferença equivalente a aproximadamente R$ 33,6 milhões por ano. O balanço de 2025 já havia terminado cerca de R$ 33 milhões no vermelho, o clube acumulou bloqueios para registrar jogadores e, dentro de campo, chegou à reta final de setembro na última posição da Série B.

O América-MG apresenta outro caso em que os dois problemas aparecem simultaneamente. Depois de registrar déficit superior a R$ 58 milhões em 2024 e sofrer forte redução de receitas após o rebaixamento, o clube chegou a setembro de 2026 com jogadores se recusando a treinar por atrasos de salários e direitos de imagem. Naquele momento, ocupava a penúltima colocação da Série B. O Náutico, por sua vez, havia terminado 2025 com receita operacional líquida de R$ 30,8 milhões, déficit de R$ 18,5 milhões e passivo próximo de R$ 291,9 milhões e, embora tenha conseguido o acesso à Série B na temporada anterior, também não aparece em 2026 entre as equipes que disputam as primeiras posições da competição.

A repetição desses casos torna razoável considerar a situação financeira como uma das variáveis relevantes para entender o baixo rendimento esportivo. Clubes pressionados por dívidas possuem menos margem para absorver contratações equivocadas, substituir jogadores, trocar uma comissão técnica, manter seus principais ativos ou aproveitar uma janela de transferências para corrigir deficiências. Quando aparecem atrasos, necessidade urgente de vender atletas ou transfer bans, essa margem diminui ainda mais.

O problema é que a relação não funciona como uma regra automática. São Paulo, Fluminense e Atlético-MG também carregam endividamento elevado e enfrentam questões financeiras relevantes, mas conseguem permanecer esportivamente competitivos em 2026. São contraexemplos importantes porque mostram que uma situação financeira difícil pode aumentar a vulnerabilidade de um clube sem determinar, por si só, sua posição na tabela. Gestão esportiva, qualidade do elenco, capacidade de geração de receitas, perfil e vencimento das dívidas, patrimônio, acesso a capital e decisões tomadas ao longo da temporada continuam fazendo enorme diferença.

Essa distinção ajuda a compreender melhor o que ocorre no Rio Grande do Sul. A situação financeira de Grêmio e Internacional não deve ser descartada como explicação para parte das dificuldades esportivas dos dois clubes. Pelo contrário: quando o Internacional deixa de pagar obrigações relacionadas à contratação de jogadores e recebe dois transfer bans, existe uma consequência objetiva da pressão financeira sobre o futebol. No Grêmio, o crescimento do passivo reduz a margem disponível para atravessar erros esportivos sem consequências.

O que a comparação com outros estados demonstra é algo diferente. Endividamento elevado, problemas de liquidez e dificuldade para cumprir obrigações não constituem uma particularidade do futebol gaúcho. Eles aparecem em clubes de diferentes regiões e, em muitos casos, acompanham desempenhos esportivos ruins, em outros, convivem com equipes competitivas. A situação financeira, portanto, pode ajudar a explicar por que determinados clubes perdem capacidade de reação, mas não funciona como causa única para explicar por si só qualquer resultado negativo.

Essa ressalva se torna ainda mais importante quando a análise sai de Grêmio e Internacional. As dificuldades financeiras da dupla Gre-Nal não explicam automaticamente por que o Ypiranga terminou em nono na Série C, por que o São José perdeu o acesso depois de dois empates, por que o Caxias terminou em 14º ou por que o Brasil de Pelotas foi eliminado na Série D. Para estabelecer essa relação seria necessário demonstrar, clube por clube, que existe uma restrição financeira relevante e que ela efetivamente comprometeu sua capacidade esportiva.

Há, portanto, um componente financeiro importante na fotografia de 2026. O endividamento aparece com frequência entre clubes que apresentam baixo rendimento esportivo e, em situações mais graves, produz consequências concretas sobre a montagem e a manutenção dos elencos. Mas os contraexemplos impedem transformar essa associação em uma explicação universal. A questão talvez não seja simplesmente quanto um clube deve, mas em que momento essa dívida começa a retirar dele a capacidade de corrigir os próprios erros.

Também não desapareceu a receita com venda de jogadores

Outra hipótese possível seria uma queda na capacidade de produzir e negociar atletas, tradicional fonte de financiamento dos grandes clubes brasileiros. Os balanços também não sustentam essa explicação para Gre-Nal.

O Grêmio registrou R$ 127,1 milhões em receita bruta com venda de atletas e mecanismo de solidariedade em 2025. Em 2024, as negociações de atletas haviam alcançado aproximadamente R$ 105,3 milhões; em 2023, cerca de R$ 49,2 milhões. A trajetória recente, portanto, foi de crescimento, e não de desaparecimento dessa fonte de recursos.

No Internacional, a movimentação foi ainda maior. O balanço de 2025 registra R$ 185,6 milhões de resultado líquido contábil com negociação de atletas, contra R$ 178,2 milhões em 2024. A receita bruta com negociações, antes das deduções relacionadas às operações, ficou em aproximadamente R$ 286 milhões em 2025.

Isso não significa que vender muito seja necessariamente uma vantagem esportiva. Clubes pressionados financeiramente podem transformar jovens em receita antes de colher durante mais tempo o benefício esportivo de sua formação, e também podem utilizar parte dos recursos para pagar obrigações anteriores, em vez de reinvesti-los integralmente no elenco.

Mas essa é outra hipótese: os números disponíveis não permitem afirmar que a baixa esportiva recente tenha ocorrido porque Grêmio e Internacional simplesmente deixaram de produzir ativos negociáveis. Não deixaram.

As categorias de base também preocupam, mas não explicam sozinhas

Aqui aparece uma coincidência particularmente interessante. Os resultados recentes de algumas categorias de base de Grêmio e Internacional também pioraram. Em 2025, o Internacional terminou o Campeonato Brasileiro Sub-20 na 18ª posição e foi rebaixado, enquanto o Grêmio ficou imediatamente acima, em 17º. O Juventude, porém, terminou em 8º e avançou às quartas de final. Em 2026, outras categorias de Gre-Nal voltaram a apresentar resultados nacionais abaixo do esperado.

A imagem é tentadora: profissional ruim e base ruim ao mesmo tempo. Mas transformar essa correlação em explicação exigiria uma evidência que ainda não existe.

O próprio Grêmio fornece um contraexemplo. Em 2025, enquanto seu Sub-20 quase era rebaixado, o Sub-17 chegou à final do Campeonato Brasileiro. Além disso, o clube continuou promovendo e negociando atletas formados internamente. O Internacional também continuou fornecendo jogadores às seleções brasileiras de base e ao próprio elenco profissional.

Resultado coletivo de uma categoria de formação e capacidade de produzir jogadores não são exatamente a mesma coisa. Um Sub-17 pode ter uma geração excepcional e, dois anos depois, a geração seguinte apresentar desempenho muito inferior. Os principais jogadores também podem ser promovidos antecipadamente, deslocados para categorias superiores ou negociados, enfraquecendo a equipe de base justamente porque o processo individual de formação funcionou.

Há, portanto, um sinal a ser acompanhado, não uma relação causal demonstrada.

E as enchentes de 2024?

Nesse caso existe uma particularidade verdadeiramente gaúcha.

As enchentes provocaram danos materiais, interromperam treinamentos, deslocaram equipes e afetaram diretamente Grêmio e Internacional. Instalações esportivas foram atingidas, atividades das categorias de base foram interrompidas e os clubes precisaram adaptar durante semanas sua rotina de treinamento e competição.

O impacto econômico extrapolou o futebol: o governo do Rio Grande do Sul estimou perdas relevantes de arrecadação e danos disseminados à atividade produtiva, enquanto estudos posteriores mostraram os efeitos sobre indústria, comércio, serviços, agricultura e infraestrutura.

Mas novamente aparece uma dificuldade quando tentamos utilizar o desastre como explicação geral para 2026. Os clubes foram afetados de maneiras diferentes: Caxias e Ypiranga conseguiram manter atividades em condições distintas das enfrentadas pela dupla Gre-Nal, e o próprio Internacional terminou o Campeonato Brasileiro de 2024 em quinto lugar, poucos meses depois do período mais crítico da enchente.

O desastre é parte indispensável do contexto recente do futebol gaúcho. Pode ter agravado problemas financeiros, prejudicado planejamento, infraestrutura e receitas. O que os dados não permitem é estabelecer uma linha simples ligando a enchente de 2024 ao desempenho conjunto dos clubes gaúchos em 2026.

Há ainda um dado difícil de conciliar com a ideia de colapso

Se o futebol gaúcho estivesse atravessando uma decadência estrutural longa e generalizada, seria razoável esperar que isso aparecesse também nos indicadores nacionais acumulados, o que não é exatamente o que acontece.

No Ranking Nacional das Federações da CBF para 2026, o Rio Grande do Sul ocupa a quarta posição do país, com 39.283 pontos. Está atrás de São Paulo, com 93.528; Rio de Janeiro, com 61.308; e Minas Gerais, com 41.451. O Paraná aparece em quinto, com 31.792. O dado é especialmente relevante porque o ranking não é uma fotografia de 2026: a metodologia da CBF considera o desempenho dos clubes em competições nacionais dos últimos cinco anos.

Isso não significa que o futebol gaúcho esteja bem. Significa que os resultados recentes ainda não configuram, pelos indicadores disponíveis, uma queda estrutural prolongada capaz de retirar o estado do grupo imediatamente abaixo dos dois maiores centros nacionais.

Talvez estejamos procurando uma causa que não exista

Depois de passar pelas hipóteses mais intuitivas, o problema começa a mudar de natureza.

A dívida de Grêmio e Internacional é real. Os transfer bans do Inter são reais. A situação financeira de outros clubes é preocupante. As enchentes tiveram consequências concretas. Algumas categorias de base tiveram resultados ruins. Clubes tradicionais perderam espaço na pirâmide nacional. O que não aparece é o elemento capaz de conectar tudo isso em uma única cadeia causal.

A comparação com outros estados é particularmente importante. Se apenas os clubes gaúchos estivessem altamente endividados, haveria uma pista. Se apenas os pequenos do Rio Grande do Sul operassem com receitas insuficientes, haveria outra. Se os grandes tivessem deixado de gerar dinheiro com transferências, teríamos um terceiro caminho. Se o estado estivesse despencando continuamente no ranking nacional, a hipótese de decadência estrutural ganharia força.

Mas nenhuma dessas condições aparece com clareza.

Existe ainda um exercício simples que ajuda a dimensionar o peso da conjuntura. O Ypiranga terminou a primeira fase da Série C em 9º lugar; alguns pontos adicionais poderiam tê-lo colocado entre os oito classificados. O São José chegou aos playoffs que definiam uma vaga na Série C e ficou sem o acesso depois de dois empates com o Goiatuba. O Juventude, longe de representar decadência, está a um ponto dos líderes da Série B depois de 29 rodadas.

E imagine que quatro ou cinco resultados diferentes ao longo das 28 rodadas da Série A tivessem colocado Grêmio e Internacional algumas posições acima. As dívidas continuariam existindo. Os balanços seriam os mesmos. As enchentes teriam ocorrido. As receitas com transferências seriam iguais. As categorias de base teriam os mesmos resultados. Caxias, Brasil de Pelotas e Guarany continuariam enfrentando seus próprios problemas. Mas provavelmente a pergunta sobre uma “crise do futebol gaúcho” teria muito menos força.

Problemas diferentes na mesma fotografia

Nada disso transforma a situação atual em algo irrelevante. Pelo contrário: o passivo de Grêmio e Internacional merece preocupação, a necessidade de equilibrar competitividade e sustentabilidade financeira é evidente, os transfer bans são sinais objetivos de que determinadas obrigações já começaram a limitar decisões esportivas, e a posição de clubes tradicionais nas divisões inferiores também merece atenção, assim como os resultados recentes de algumas categorias de base.

A diferença está em não transformar automaticamente todos esses problemas em manifestações de uma mesma doença. O Grêmio pode ter seus problemas financeiros, administrativos e esportivos. O Internacional pode ter outros. O Brasil de Pelotas atravessa uma realidade institucional própria. Caxias e Ypiranga possuem estruturas econômicas e esportivas diferentes. São José chegou muito perto do acesso. São Luiz avançou três etapas na Série D. Guarany teve uma campanha muito ruim. E o Juventude, submetido ao mesmo ambiente regional, disputa novamente uma vaga na Série A.

Quanto mais se procura uma explicação única para a crise do futebol gaúcho, mais aparecem problemas específicos dos clubes e menos aparece um problema exclusivamente gaúcho.

Talvez, a pergunta inicial precise ser reformulada. Em vez de perguntar qual foi a causa da queda do futebol gaúcho, talvez seja necessário perguntar primeiro se existe uma única queda a ser explicada.

A temporada de 2026 produziu uma concentração incomum e desconfortável de resultados negativos, principalmente porque colocou Grêmio e Internacional simultaneamente na zona de rebaixamento da principal competição do país.

Ao redor deles existem clubes endividados, tradicionais camisas nas divisões inferiores e resultados ruins também em algumas categorias de formação. A combinação é suficientemente forte para produzir a imagem de uma crise coletiva. Só que, depois de confrontar essa imagem com os dados, uma causa comum não aparece.

Isso não permite afirmar que tudo seja mero acaso, coincidências não podem ser demonstradas da mesma maneira que receitas, dívidas, pontos ou classificações. Também não permite excluir a possibilidade de que tendências ainda pouco perceptíveis se tornem mais claras nos próximos anos.

O que é possível afirmar hoje é mais limitado, mas também mais honesto: há problemas estruturais importantes em diferentes clubes do Rio Grande do Sul, mas não há evidência suficiente para afirmar que exista uma causa estrutural comum capaz de explicar o baixo desempenho esportivo conjunto observado em 2026.

Talvez o futebol gaúcho não esteja vivendo uma única crise.

Talvez esteja vivendo algo mais raro e, de certa forma, mais difícil de explicar: várias crises particulares, algumas temporadas ruins e alguns resultados decisivos convergindo para a mesma fotografia.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *