Roberto Carlos construiu uma carreira que o colocou entre os jogadores brasileiros mais reconhecidos de sua geração. Foi campeão mundial com a seleção brasileira em 2002, passou mais de uma década no Real Madrid e conquistou três vezes a Liga dos Campeões. Em setembro de 2026, porém, durante o Portugal Football Summit, em Portugal, falou publicamente sobre um lado muito diferente de sua trajetória ao afirmar que perdeu 99% do que ganhou no futebol.
Segundo seu relato, problemas com um antigo empresário e uma questão familiar grave estiveram envolvidos no episódio. Roberto Carlos descreveu inclusive a percepção de que a situação havia mudado de maneira abrupta: disse que foi dormir numa quinta-feira e, na sexta, recebeu documentos cuja existência desconhecia. “Ali perdi toda a minha história”, afirmou. Também declarou que posteriormente conseguiu reorganizar sua vida financeira e familiar com a ajuda de Paul Brighten e da Entourage Sport & Entertainment.
O contexto precisa acompanhar a declaração. Roberto Carlos falava em um painel dedicado à construção de marca e legado depois do campo e estava ao lado de Brighten, apresentado como seu parceiro na Entourage.
A programação oficial do Portugal Football Summit também identifica a sessão de Roberto Carlos como uma atividade apoiada pela Entourage Sports. Mais importante do que isso, os 99% são uma declaração do próprio Roberto Carlos, e não uma perda patrimonial verificada de forma independente.
Não há, nas informações públicas utilizadas neste artigo, documentação suficiente para determinar quanto ele possuía, quanto efetivamente perdeu, durante quanto tempo isso aconteceu ou como cada problema mencionado contribuiu para o resultado.
Por isso, seria incorreto utilizar Roberto Carlos como prova de que jogadores perdem dinheiro porque gastam demais, investem mal, sustentam familiares ou tentam preservar o padrão de vida da época em que jogavam. Ele não forneceu elementos suficientes para essas conclusões. Seu relato permite formular uma questão mais ampla e mais interessante: como alguém que recebe rendimentos extraordinários durante alguns anos pode ainda enfrentar problemas financeiros graves?
A literatura sobre finanças de atletas, transição de carreira, sociologia do futebol e identidade esportiva mostra que não existe uma resposta única, assim como não sustenta a caricatura de que jogadores são naturalmente irresponsáveis com dinheiro.
O que as pesquisas permitem identificar é uma combinação particular de circunstâncias econômicas, profissionais, sociais e comportamentais que torna a carreira esportiva muito diferente da trajetória financeira experimentada pela maioria das pessoas.
Uma vida financeira comprimida em poucos anos
Uma das melhores evidências quantitativas sobre esse problema não vem do futebol, mas da NFL, a principal liga de futebol americano dos Estados Unidos. Em 2015, Kyle Carlson, Joshua Kim, Annamaria Lusardi e Colin Camerer publicaram na American Economic Review o estudo Bankruptcy Rates among NFL Players with Short-Lived Income Spikes.
A expressão presente no próprio título, short-lived income spikes, ou picos de renda de curta duração, ajuda a definir uma característica central da vida econômica do atleta de elite. Sua trajetória financeira pode ser muito diferente daquela de um trabalhador cuja remuneração cresce gradualmente ao longo de décadas, porque o jogador pode concentrar uma parcela extraordinária dos rendimentos de toda a vida em um intervalo relativamente pequeno.
Os pesquisadores reuniram dados de jogadores selecionados no draft da NFL entre 1996 e 2003 e verificaram posteriormente os pedidos formais de falência. Os resultados contradisseram uma estatística muito mais conhecida, repetida durante anos, segundo a qual 78% dos jogadores da NFL estariam falidos ou sob estresse financeiro apenas dois anos depois de parar.
Os próprios autores afirmam que seus dados não sustentam essa alegação. Na população estudada, aproximadamente 1,9% haviam requerido falência até dois anos depois da aposentadoria e 15,7% até o 12º ano. Os pedidos começavam pouco depois do fim da carreira e continuavam aparecendo durante pelo menos os primeiros 12 anos de aposentadoria. Outro resultado relevante foi que os ganhos totais durante a carreira e a duração da passagem pela NFL tiveram efeito surpreendentemente pequeno sobre o risco posterior de falência.
Esses resultados precisam ser interpretados dentro do que efetivamente foi medido. O estudo acompanha bankruptcy, um procedimento jurídico formal dos Estados Unidos, e seus números não representam todos os atletas endividados, todos aqueles que perderam patrimônio ou todos aqueles que enfrentaram dificuldades financeiras. Também não demonstram que determinada causa, como consumo excessivo, investimentos ruins ou manutenção de um padrão de vida elevado, tenha provocado as falências observadas.
Os autores discutem mecanismos possíveis, mas isso é diferente de demonstrá-los empiricamente. O resultado mais seguro é também o mais relevante para esta discussão: uma renda extraordinariamente elevada durante alguns anos não garantiu, naquela população, proteção contra falência depois da carreira.
Mas NFL e futebol são populações diferentes
Os percentuais encontrados na NFL não podem ser transportados para jogadores de futebol porque existem diferenças de remuneração, carreira, legislação, cultura e formação entre as duas populações.
Uma delas é particularmente relevante para qualquer discussão sobre educação financeira e preparação para o futuro: o caminho tradicional até a NFL está fortemente integrado ao sistema universitário norte-americano.
A National Football Foundation publicou em 16 de setembro de 2026 sua relação anual de jogadores que continuavam atuando no college football depois de já terem concluído a graduação. Foram 2.687 atletas em 288 instituições. A lista incluía jogadores das diferentes divisões universitárias e foi compilada com auxílio dos responsáveis por informações esportivas das instituições, que identificaram em seus elencos os atletas que já possuíam diploma de graduação.
Esse número não significa que 2.687 jogadores da NFL possuam diploma e também não representa uma taxa nacional de graduação do college football, já que foram 288 instituições que enviaram informações para aquela lista específica.
Sua utilidade é contextualizar uma característica institucional: existe uma presença estrutural do ensino superior no caminho de formação do futebol americano que não possui equivalente direto no futebol profissional internacional. Consequentemente, o estudo da NFL é útil para demonstrar o problema econômico de uma renda extremamente elevada e concentrada no tempo, mas não fornece uma taxa de falência que possa ser aplicada aos jogadores de futebol.
O jogador milionário é uma exceção dentro da própria profissão
Existe outra distorção frequente quando se fala em dinheiro e futebol: utilizar a realidade das estrelas para representar toda a profissão.
O 2016 FIFPRO Global Employment Report, produzido por Aristea Koukiadaki e Geoff Pearson, reuniu respostas de 13.876 jogadores profissionais, provenientes de 54 sindicatos nacionais. O levantamento mostrou que mais de 45% dos participantes recebiam menos de US$ 1 mil líquidos por mês, enquanto apenas 2% estavam na faixa de US$ 720 mil ou mais líquidos por ano. A duração média dos contratos era de aproximadamente 23 meses.
A amostra possui limitações importantes que precisam acompanhar esses números. Argentina, Inglaterra e Holanda não devolveram questionários; Alemanha e México não integravam a FIFPRO, e os dados espanhóis não foram utilizados porque a amostra era pequena demais para preservar adequadamente o anonimato. Mas o próprio relatório argumenta que essas ausências teriam impacto limitado sobre seu objetivo de retratar principalmente as condições da maioria dos profissionais, e não apenas dos jogadores de elite.
Na prática, existem problemas financeiros muito diferentes dentro da mesma profissão. Para grande parte dos jogadores, a dificuldade não está em administrar uma fortuna, mas em construir alguma segurança econômica dentro de uma carreira curta, instável e muito menos remunerada do que sugere a imagem produzida pelas principais competições. Para uma pequena elite, o desafio é outro: transformar poucos anos de rendimentos excepcionalmente altos em patrimônio capaz de sustentar muitas décadas posteriores.
É nessa segunda situação que aparece o problema que estamos investigando.
Quando o salário termina, as despesas precisam ser reorganizadas
Em 2023, Torsten Schlesinger, Michael Barth, Matti Bartsch e Werner Pitsch publicaram na Current Issues in Sport Science o estudo After the gathering comes the scattering? Scenarios of financial transition and corresponding coping strategies of professional football players.
A pesquisa entrevistou 25 jogadores profissionais alemães, 15 deles já aposentados, e utilizou análise qualitativa de conteúdo para investigar como esses atletas percebiam a perda da renda produzida pelo futebol e quais comportamentos adotavam durante a transição. Os pesquisadores encontraram que uma redução significativa da renda podia representar um problema sério e produzir preocupações existenciais para alguns entrevistados.
Na análise dos autores, duas capacidades eram cruciais para uma transição financeira positiva depois da carreira: adaptar, inclusive reduzindo, as despesas e produzir novas fontes de renda.
O estudo não calcula quanto dinheiro esses jogadores perderam nem mede a velocidade de deterioração de seus patrimônios, razão pela qual não seria correto utilizá-lo para afirmar que ex-jogadores perdem milhões em determinado número de anos. O que ele demonstra é mais específico: quando a renda esportiva diminui significativamente, a adaptação das despesas e a criação de novas receitas tornam-se elementos centrais da transição financeira.
A partir daí, a consequência contábil é simples. Se alguém recebe menos do que gasta, a diferença precisa ser coberta por reservas, venda de ativos, endividamento ou alguma outra fonte de financiamento. É aí que aparece uma distinção fundamental entre renda e patrimônio.
Durante a carreira, um jogador de elite pode possuir simultaneamente patrimônio acumulado e um enorme fluxo mensal de dinheiro. Depois da aposentadoria, pode continuar sendo milionário em patrimônio e, ao mesmo tempo, perder grande parte daquele fluxo. Antes, o salário ajuda a financiar o padrão de vida; depois, se não existir outra renda suficiente, o próprio patrimônio passa a financiar esse padrão.
Essa diferença entre estoque e fluxo ajuda a compreender por que o valor nominal de uma fortuna diz menos do que parece sobre sua sustentabilidade. Um atleta pode possuir imóveis, aplicações financeiras, participações empresariais e outros bens avaliados em milhões sem que todo esse patrimônio esteja disponível imediatamente em dinheiro ou produza renda suficiente para cobrir suas despesas.
Se o custo de vida construído durante os anos de salário milionário continuar superior à nova renda, o déficit terá de ser financiado. Até aqui, não estamos falando de comportamento específico de jogadores, mas de uma relação contábil. A dimensão humana começa quando equilibrar essa conta exige modificar um padrão de vida construído durante anos.
Quando consumo, status e pertencimento se encontram
É nesse ponto que a sociologia do futebol acrescenta uma dimensão que a planilha não consegue mostrar. Graeme Law, Daniel Bloyce e Ivan Waddington publicaram na International Review for the Sociology of Sport um estudo sobre dinheiro, status e administração da imagem entre jogadores profissionais na Inglaterra.
A pesquisa utilizou entrevistas com 29 jogadores e ex-jogadores profissionais do sexo masculino e analisou suas relações com dinheiro dentro e fora do vestiário por meio, entre outros elementos, do conceito sociológico de consumo conspícuo.
A amostra não deve ser tratada como representativa de todos os jogadores ingleses. O acesso aos jogadores foi difícil e o recrutamento envolveu métodos intencionais e de conveniência, favorecidos pelo fato de o pesquisador principal ter sido jogador profissional. Os próprios autores relatam que mais de 100 cartas enviadas a jogadores e ex-jogadores na tentativa de ampliar a amostra não produziram uma única resposta. Entre os 29 participantes efetivamente entrevistados, 14 haviam chegado à Premier League.
Dentro desses limites, o estudo identificou relações entre dinheiro, status, apresentação de si e imagem no ambiente do futebol profissional. Determinados bens podiam funcionar não apenas pela utilidade que proporcionavam, mas também como demonstrações visíveis de sucesso econômico e posição social.
Isso não significa que comprar um relógio, um carro ou roupas caras leve um jogador à falência, porque o estudo não demonstrou essa causalidade. Sua contribuição é mostrar que decisões econômicas também são tomadas dentro de um ambiente social no qual dinheiro e consumo podem carregar significados relacionados a status, imagem e pertencimento.
É por isso que a ideia de simplesmente “gastar menos” depois de parar pode ser matematicamente correta e, ao mesmo tempo, socialmente incompleta.
Os estudos apresentados não demonstram que ex-jogadores, como grupo, insistam em manter exatamente o mesmo padrão de vida da época em que estavam em atividade, mas oferecem duas evidências que podem ser colocadas lado a lado sem transformar associação em causalidade.
Schlesinger e seus colegas encontraram que adaptar as despesas à nova renda é parte importante da transição financeira dos futebolistas entrevistados, enquanto Law, Bloyce e Waddington mostraram que consumo, dinheiro, status e imagem podem estar relacionados dentro do ambiente profissional.
Um jogador pode passar anos construindo uma vida compatível com uma renda extraordinária, na qual casas, automóveis, viagens, funcionários e outras despesas são perfeitamente sustentáveis enquanto os contratos milionários continuam chegando. Quando a renda muda, a sustentabilidade daquele padrão também muda. A decisão economicamente racional pode exigir reduzir custos fixos, vender bens, alterar hábitos e aceitar que a atividade profissional seguinte provavelmente não reproduzirá o salário do auge esportivo.
Na planilha, trata-se apenas de ajustar despesas à receita. Mas para uma pessoa que viveu durante anos dentro daquele ambiente econômico e social, a transformação pode ser muito mais ampla.
A aposentadoria também modifica a identidade
A literatura sobre aposentadoria de atletas mostra que o encerramento da carreira pode envolver mudanças profundas de identidade. Em 2024, Catherine Haslam e outros pesquisadores publicaram na Psychology of Sport and Exercise o estudo “I’m more than my sport”: Exploring the dynamic processes of identity change in athletic retirement, baseado em entrevistas com 21 atletas de elite aposentados.
Antes das entrevistas, todos participaram de uma sessão psicoeducacional sobre os desafios da transição para fora do esporte, uma característica importante da amostra e que precisa acompanhar a interpretação dos resultados.
A análise qualitativa encontrou três grandes temas relacionados ao papel da identidade no desempenho esportivo, à adaptação à perda da identidade de atleta e às tentativas de reconstruir ou redirecionar essa identidade depois da aposentadoria. A experiência variava também conforme o indivíduo possuía identidades múltiplas ou uma identidade mais exclusivamente ligada ao esporte.
O trabalho não é um estudo financeiro e não demonstra que dificuldades de identidade provoquem perda de patrimônio. Sua contribuição para esta discussão está em contextualizar o tamanho da transição enfrentada pelo atleta: deixar o esporte pode significar mais do que perder uma fonte de renda, porque pode exigir também reconstruir parte da maneira como a própria pessoa se percebe.
Outro trabalho de Catherine Haslam e colaboradores, publicado em 2021 na mesma revista, examinou essa questão quantitativamente em duas amostras de atletas aposentados, 215 provenientes de países ocidentais e 183 de países orientais.
Os pesquisadores mediram perda da identidade atlética, pertencimento a grupos sociais, percepção de sentido na vida e controle pessoal, além de indicadores de adaptação à aposentadoria. Em ambas as amostras, maior perda da identidade atlética estava associada a pior adaptação. A análise de trajetórias utilizada pelos pesquisadores indicou caminhos envolvendo redução do sentido percebido na vida e do controle pessoal, enquanto a manutenção e a criação de grupos sociais apareciam relacionadas a uma adaptação melhor.
Como o próprio desenho da pesquisa é transversal, esses caminhos estatísticos não devem ser transformados automaticamente em uma sequência causal comprovada ao longo do tempo. O que os dois trabalhos permitem afirmar é que a aposentadoria esportiva pode envolver uma reorganização importante de identidade e relações sociais, exatamente no mesmo período em que o atleta precisa reorganizar sua vida econômica.
A segunda carreira pode nem estar planejada
Essa reorganização econômica depende também da capacidade de produzir novas receitas, mas a atividade seguinte nem sempre está definida.
Em 2021, a FIFPRO divulgou a pesquisa Mind the Gap, respondida por 282 jogadores e ex-jogadores de 33 países. Entre eles, 78% eram homens, 68% ainda estavam em atividade e 45% haviam atuado por suas seleções nacionais.
Entre os participantes, 67% disseram não ter certeza sobre qual caminho profissional seguiriam depois do futebol e 54% afirmaram não ter recebido assistência para planejar a carreira seguinte.
Esses números não constituem uma estimativa representativa de todos os jogadores profissionais do planeta, mas documentam algo relevante naquela população: para muitos dos jogadores consultados, a atividade profissional posterior ao futebol não estava claramente definida.
Existe uma particularidade econômica importante nisso. Em várias profissões, a experiência acumulada durante décadas pode aumentar a capacidade de produzir renda. No esporte de alto rendimento, conhecimento e experiência podem continuar crescendo enquanto a capacidade física necessária para exercer a atividade que produzia o maior salário se aproxima do fim. O jogador pode terminar a carreira ainda relativamente jovem e continuar possuindo enorme conhecimento sobre futebol, sem que isso signifique encontrar imediatamente uma profissão capaz de pagar o que recebia para jogar.
Os problemas podem aparecer antes mesmo da aposentadoria
Uma pesquisa realizada na Bélgica mostra que vulnerabilidades financeiras não surgem necessariamente apenas depois que a carreira termina. Matteo Balliauw e Tomas Van Den Spiegel publicaram em 2018, no Sport, Business and Management: An International Journal, o estudo Managing professional footballers’ finances to avoid financial problems: A Belgian survey, baseado em dados coletados em 2014 com 102 jogadores de cinco clubes da primeira divisão belga.
Na questão sobre dificuldades financeiras, respondida por 99 jogadores, 23 relataram problemas financeiros ocasionais, enquanto nenhum declarou enfrentá-los frequentemente.
Isso não significa que aproximadamente um quarto estivesse falido, insolvente ou profundamente endividado, mas exatamente aquilo que foi perguntado e respondido: 23 dos 99 participantes daquela questão relataram dificuldades financeiras ocasionais. Como todos eram jogadores em atividade, o estudo também não pode ser utilizado como prova de deterioração patrimonial depois da aposentadoria. Sua contribuição é mostrar que problemas financeiros já podiam existir durante a própria carreira na população analisada.
A pesquisa acrescenta ainda uma dimensão importante sobre o dinheiro destinado a outras pessoas. Na versão revisada por pares, 32% dos 85 jogadores com dados disponíveis nessa variável declararam fornecer apoio financeiro a terceiros, e o modelo encontrou associação estatística entre essa variável e dificuldades financeiras na amostra. Associação, porém, não significa causalidade: o estudo não demonstra que ajudar familiares ou amigos provoque problemas financeiros, não permite transportar aquele percentual para jogadores de outros países e tampouco sustenta a ideia de que as pessoas próximas ao atleta necessariamente acreditam que o dinheiro seja infinito.
O que pode ser afirmado é economicamente mais preciso. Quando uma renda muito elevada permite que uma pessoa assuma despesas ou compromissos em benefício de terceiros, esses pagamentos passam a integrar a estrutura financeira construída durante os anos de maior remuneração. Se a renda esportiva posteriormente cai, manter todos esses compromissos exige recursos que precisam vir de algum lugar.
A decisão pode envolver não apenas reduzir o próprio padrão de vida, mas também rever uma rede de relações econômicas construída enquanto o salário permitia sustentá-la. A rede pode permanecer, a renda que a financiava, não necessariamente.
Quando o problema não é gastar, mas confiar
Existe ainda um risco completamente diferente, porque o atleta pode perder dinheiro não por consumir demais, mas por ser vítima de fraude. Todd Haugh e Jacob Waugh desenvolveram o estudo Elite Athletes Defrauded: An Empirical Analysis of Financial Victimization in Sport. Existe uma versão pública no SSRN e, atualmente, a página institucional de Haugh na Indiana University registra o trabalho como “2027, in press” na Marquette Sports Law Review.
Os autores construíram uma base a partir de duas décadas de reportagens e documentos judiciais, identificando 46 esquemas, 62 atletas de elite vítimas e quase US$ 800 milhões em perdas documentadas.
Esses números não representam a prevalência de fraude entre atletas profissionais e não permitem estimar qual percentual dos jogadores será vítima desse tipo de crime. Demonstram algo mais restrito: perdas patrimoniais substanciais provocadas por fraude contra atletas aparecem em casos documentados.
Um exemplo recente chegou a julgamento nos Estados Unidos. Em 4 de março de 2026, um júri federal em Nova York considerou o consultor financeiro Darryl Cohen culpado de fraude eletrônica e fraude relacionada à atividade de consultoria de investimentos. Segundo o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, Cohen explorou suas relações fiduciárias com Chandler Parsons, Courtney Lee e Jrue Holiday e participou de um esquema que retirou dos três jogadores profissionais de basquete mais de US$ 5 milhões entre aproximadamente 2017 e 2020.
Esse caso ajuda a mostrar por que é inadequado colocar todas as perdas financeiras de atletas na mesma categoria. Gastar dinheiro, investir e perder e ser fraudado por alguém encarregado de administrar o patrimônio são mecanismos completamente diferentes, ainda que todos possam produzir o mesmo resultado final: redução da riqueza acumulada.
Investimentos e negócios ruins exigem a mesma cautela
Empreendimentos malsucedidos aparecem repetidamente nas histórias individuais de atletas, e economicamente existe uma diferença importante entre consumo e destruição de capital.
Comprar um ativo por R$ 5 milhões não significa necessariamente perder R$ 5 milhões, porque o dinheiro foi convertido em outro patrimônio, ainda que esse ativo possa posteriormente se desvalorizar e gerar despesas. Aplicar R$ 5 milhões em uma empresa que fracassa pode produzir um resultado diferente, com perda substancial do capital investido.
Isso torna investimentos empresariais um mecanismo potencialmente capaz de acelerar perdas patrimoniais, mas existe um limite importante para o que podemos afirmar, as pesquisas apresentadas neste artigo não demonstram que negócios malsucedidos sejam uma das principais causas gerais dos problemas financeiros de ex-jogadores.
Para sustentar essa afirmação seria necessária uma base que acompanhasse investimentos empresariais de uma população de atletas, seus resultados e seu impacto sobre o patrimônio.
O mesmo cuidado precisa ser aplicado a apostas, divórcios, impostos, empréstimos, garantias oferecidas a terceiros e outros fatores frequentemente encontrados em histórias individuais. Todos podem ser decisivos em casos concretos, mas isso não permite atribuir a eles um peso estatístico geral que os estudos disponíveis não mediram.
O que as pesquisas realmente permitem concluir
Depois de separar aquilo que os estudos demonstram daquilo que apenas parece intuitivo, a explicação se torna menos espetacular, mas muito mais sólida.
Não existe nas pesquisas apresentadas uma “taxa de falência dos jogadores de futebol”, assim como não existe um prazo médio cientificamente demonstrado para que uma fortuna desapareça depois da aposentadoria. Também não há evidência aqui de que a maioria dos jogadores milionários perca tudo.
O que existe é um conjunto de evidências sobre partes diferentes da transição.
O estudo da NFL demonstra que uma renda extraordinária e concentrada em poucos anos não impediu que parte daquela população entrasse posteriormente em falência formal e que ganhar mais durante a carreira ofereceu menos proteção do que seria intuitivamente esperado.
O estudo alemão mostra que, entre os jogadores entrevistados, adaptar as despesas e desenvolver novas fontes de renda eram elementos centrais da transição financeira.
A pesquisa sociológica inglesa demonstra que dinheiro, consumo, status e apresentação da própria imagem podem estar relacionados dentro do ambiente do futebol profissional, enquanto os estudos sobre identidade mostram que deixar o esporte pode envolver também uma reorganização pessoal e social.
A pesquisa da FIFPRO documenta incerteza sobre a segunda carreira entre grande parte dos atletas que participaram daquele levantamento.
E o estudo belga mostra que dificuldades financeiras ocasionais já podiam aparecer enquanto os jogadores ainda estavam em atividade.
Por fim, pesquisas e registros judiciais demonstram que alguns atletas também sofrem perdas porque são vítimas de fraude.
Nenhuma dessas evidências, isoladamente, explica por que um jogador específico perdeu seu patrimônio, mas juntas mostram por que olhar apenas para quanto ele ganhou durante a carreira é insuficiente.
O comportamento humano não pode ser retirado da equação
Há uma tentação de reduzir toda essa discussão à educação financeira. Ela certamente importa, mas o problema apresentado pela literatura é mais amplo.
O atleta precisa tomar decisões financeiras dentro de uma profissão que pode concentrar rendimentos extraordinários em poucos anos, pode construir seu padrão de consumo em um ambiente no qual dinheiro e status possuem significado social e precisa reorganizar despesas quando a renda cai. Ao mesmo tempo, pode não ter uma segunda carreira definida, atravessar uma mudança importante de identidade e de grupos sociais e, em determinados casos, administrar compromissos financeiros com outras pessoas.
Nada disso torna o jogador irracional. O que torna sua situação particular é a combinação de comportamentos humanos comuns com uma trajetória econômica incomum. Essa talvez seja a razão pela qual a explicação aparentemente simples de que “era só guardar dinheiro” esclarece tão pouco.
A decisão financeiramente correta aos 35 ou 40 anos pode exigir que a pessoa abandone comportamentos, símbolos, relações e expectativas construídos justamente durante os anos em que alcançou o ponto máximo de sua carreira.
Isso não significa que todos terão dificuldade para fazer essa transição. Significa que a transição financeira não acontece separada da transição profissional, social e pessoal, e que compreender uma sem considerar as outras produz uma explicação incompleta.
O dinheiro acumulado precisa durar muito mais do que a carreira que o produziu
No fim, existe uma diferença elementar que organiza todo o problema: renda é fluxo e patrimônio é estoque.
Enquanto o jogador recebe salários extraordinários, o fluxo pode absorver despesas elevadas, compensar determinadas perdas e permitir que erros financeiros sejam corrigidos por receitas futuras. Quando a carreira termina, essa capacidade de reposição muda.
O patrimônio acumulado pode continuar sendo enorme, mas, se as novas receitas não cobrirem as despesas, é esse patrimônio que passa a financiar a diferença. Se existem ativos pouco líquidos, compromissos elevados, outras pessoas dependentes daquela renda ou perdas adicionais, a administração se torna ainda mais complexa.
Nada disso significa que uma fortuna necessariamente acabará, significa apenas que o tamanho da fortuna no momento da aposentadoria é uma parte da equação, e não a equação inteira.
Importam também as despesas que ela precisará sustentar, a renda que continuará sendo produzida, a liquidez dos ativos, os riscos assumidos e o horizonte durante o qual aquele patrimônio deverá financiar a vida do ex-atleta. Uma carreira pode durar dez ou quinze anos, enquanto o dinheiro produzido por ela talvez precise sustentar outras quatro ou cinco décadas.
É nesse ponto que podemos retornar a Roberto Carlos sem tentar encaixar sua história artificialmente nos estudos.
Sabemos que ele afirmou ter perdido 99% do que ganhou, que mencionou problemas com um antigo empresário e uma questão familiar grave, que descreveu parte do episódio como algo de que tomou conhecimento de maneira abrupta e que afirmou ter posteriormente reorganizado sua vida financeira e familiar com ajuda profissional.
O relato de Roberto Carlos não oferece a resposta para o fenômeno, mas ajuda a formular a pergunta. Uma carreira esportiva de elite pode produzir em poucos anos uma quantidade de dinheiro que a maioria das pessoas levaria várias vidas para receber, o que torna intuitivo imaginar que esse patrimônio seja praticamente impossível de perder.
A literatura mostra por que essa percepção é incompleta: o desafio não termina em ganhar muito dinheiro, mas em transformar uma renda extraordinária e temporária em uma estrutura econômica capaz de continuar funcionando quando aquele salário desaparecer.
É essa diferença que torna o tema mais complexo do que uma história sobre jogadores que gastaram demais.
Uma carreira pode produzir uma fortuna em poucos anos; fazer esse patrimônio sustentar décadas de vida depois que a principal fonte de renda desaparece é um problema financeiro, profissional, social e humano completamente diferente.

