Durante décadas, o Brasil pareceu produzir camisas 10 em uma velocidade que nenhum outro país conseguia acompanhar. De uma geração para outra surgiam jogadores capazes de organizar o jogo, controlar o ritmo das partidas e enxergar espaços que pareciam invisíveis para os demais. O país revelou Pelé, Rivellino, Zico, Raí, Alex, Djalminha, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e diversos outros jogadores que transformaram a posição em uma espécie de patrimônio cultural do futebol brasileiro.
Hoje, porém, a sensação é diferente. O Brasil continua produzindo atletas de alto nível, continua exportando talentos para os maiores clubes do mundo e continua revelando jogadores tecnicamente refinados. O que parece cada vez mais raro é justamente a figura do camisa 10 clássico: o jogador que concentra a organização ofensiva da equipe, dita o ritmo da partida e transforma sua visão de jogo em vantagem coletiva.
A explicação mais comum costuma apontar para a evolução tática do futebol moderno. O jogo teria se tornado mais rápido, mais físico e mais intenso, reduzindo o espaço para o organizador clássico. Existe verdade nesse argumento. O problema é que ele não responde completamente à pergunta que interessa ao torcedor brasileiro. Afinal, por que o país que durante décadas revelou uma sequência quase ininterrupta de grandes camisas 10 passou a produzir esse perfil com muito menos frequência?
A resposta parece estar menos na posição em si e mais no ambiente que a produzia.
O camisa 10 era consequência de um ecossistema
Existe uma tendência de atribuir a formação dos jogadores quase exclusivamente às categorias de base dos clubes. No caso dos grandes camisas 10 brasileiros, porém, essa explicação parece insuficiente. A maioria deles não foi criada dentro dos centros de treinamento. Chegou aos clubes carregando características desenvolvidas muito antes da formação esportiva formal.
Durante boa parte do século XX, milhões de crianças brasileiras passaram horas jogando futebol em ruas, quadras, praças, terrenos baldios e campos improvisados. Não havia treinadores interrompendo a atividade para corrigir posicionamentos, nem exercícios planejados para desenvolver comportamentos específicos. Havia apenas o jogo e os problemas que o próprio jogo apresentava.
Nesse ambiente, os jovens eram obrigados a encontrar soluções por conta própria. Precisavam aprender a proteger a bola em espaços reduzidos, escapar de adversários mais fortes, identificar linhas de passe e antecipar movimentos. A criatividade não era um atributo treinado de forma isolada; era uma consequência natural da prática constante. O camisa 10 surgia porque o ambiente recompensava exatamente as habilidades que definem um grande organizador.
Essa realidade dialogava com características mais amplas da própria sociedade brasileira. A vida cotidiana no país foi marcada por elevados níveis de informalidade econômica e social. Em diferentes esferas da vida, brasileiros frequentemente precisavam encontrar soluções improvisadas para problemas que não possuíam respostas prontas ou estruturas formalizadas. Embora essa característica seja muitas vezes associada ao chamado “jeitinho brasileiro”, sua manifestação no futebol produzia efeitos específicos.
Não por acaso, muitos dos jogadores que simbolizaram a criatividade do futebol brasileiro desenvolveram sua formação em ambientes nos quais a solução para cada problema precisava ser construída no momento em que ele surgia. O improviso não era um recurso ocasional. Era parte da própria lógica de aprendizagem.
Por isso, talvez seja um erro imaginar que os clubes produziam esses jogadores sozinhos. Em muitos casos, eles apenas refinavam e formalizavam algo que já havia sido construído em milhares de horas de futebol informal.
A profissionalização resolveu problemas e criou outros
As categorias de base brasileiras são hoje muito mais organizadas do que eram há quarenta anos. Os atletas recebem acompanhamento físico, nutricional, médico e psicológico. Os treinamentos são planejados, a carga de trabalho é monitorada, de forma geral os campos são muito melhores e o desenvolvimento passou a ser tratado de maneira muito mais profissional.
Essa transformação trouxe ganhos evidentes. Os jogadores chegam ao profissional mais preparados fisicamente, compreendem melhor os aspectos táticos do jogo e convivem desde cedo com padrões de treinamento semelhantes aos encontrados nos grandes centros do futebol mundial. Em muitos clubes brasileiros, atletas das categorias de base passaram a ter acesso a estruturas de preparação física, fisioterapia, nutrição, análise de desempenho e acompanhamento multidisciplinar que eram raras ou inexistentes mesmo em equipes profissionais durante as décadas de 1990 e início dos anos 2000.
Mas toda evolução envolve escolhas, e escolhas produzem consequências. A criatividade é um atributo difícil de medir. Velocidade pode ser cronometrada. Força pode ser testada. Altura pode ser observada imediatamente. Já a capacidade de interpretar espaços, controlar o ritmo de uma partida ou encontrar soluções improváveis costuma se revelar de maneira mais lenta e menos objetiva.
Em ambientes altamente competitivos, existe uma tendência natural de privilegiar aquilo que pode ser identificado com maior facilidade ou que produz resultado imediato. Não porque treinadores ou coordenadores ignorem a importância da criatividade, mas porque sistemas de avaliação frequentemente favorecem características mais visíveis. Um ponta extremamente veloz pode se destacar aos 14 anos. Um zagueiro com porte físico diferenciado também. Já o futuro camisa 10 raramente impressiona apenas pelos atributos físicos. Seu diferencial costuma estar na capacidade de interpretar o jogo, perceber espaços, controlar o ritmo da partida e tomar decisões melhores que os demais. São qualidades fundamentais, mas que frequentemente exigem mais tempo para serem plenamente reconhecidas. Em um sistema pressionado por resultados e avaliações precoces, isso pode representar uma desvantagem.
O Brasil passou a formar para um mercado global
Outra transformação importante ocorreu fora das quatro linhas. Durante grande parte do século passado, os clubes brasileiros formavam jogadores principalmente para suas próprias equipes. O objetivo era abastecer o mercado interno e fortalecer elencos que permaneceriam relativamente estáveis por vários anos.
Hoje a realidade é diferente. O futebol brasileiro tornou-se um dos maiores exportadores de talentos do planeta. Nesse contexto, os interesses dos compradores passaram a influenciar aquilo que será produzido. E os grandes mercados internacionais frequentemente procuram jogadores capazes de oferecer impacto imediato por meio de atributos como velocidade, explosão, intensidade física e versatilidade tática.
Isso não significa que a criatividade tenha perdido importância. Significa apenas que os incentivos mudaram. Quando determinados perfis encontram maior demanda, mais recursos tendem a ser direcionados para desenvolvê-los. Trata-se de um mecanismo comum a praticamente qualquer mercado globalizado. Os produtores se adaptam às preferências dos compradores.
O futebol não é diferente.
Quando os maiores formadores tentam recuperar o que foi perdido
Curiosamente, alguns dos clubes que mais revelam e vendem jogadores no futebol brasileiro parecem ter chegado a uma conclusão semelhante. Em vez de aprofundar indefinidamente a padronização dos processos de formação, passaram a buscar maneiras de reintroduzir elementos que fizeram parte da construção histórica do talento brasileiro.
No Palmeiras, uma das iniciativas mais emblemáticas foi a criação do chamado Projeto Favela. Desde 2016, categorias da base passaram a realizar atividades em campos de terra e ambientes de várzea, enfrentando condições muito diferentes das encontradas nos modernos centros de treinamento. Posteriormente, o clube chegou a retirar a grama de uma área do próprio CT para reproduzir essas características dentro da Academia de Futebol. A justificativa apresentada pelos responsáveis pela formação era clara: estimular improviso, coragem, imprevisibilidade, autonomia e resgatar aspectos da chamada pedagogia do futebol de rua.
A iniciativa chama atenção justamente porque parte de um dos clubes mais estruturados do continente. Não se trata de uma defesa do amadorismo ou de um abandono dos métodos modernos de treinamento. Trata-se do reconhecimento de que algumas competências dificilmente surgem em ambientes excessivamente controlados. Em determinadas fases da formação, a criatividade precisa de espaço para errar, experimentar e encontrar soluções próprias.
No Flamengo, movimento semelhante surgiu a partir da reformulação conduzida pela nova direção do futebol. José Boto e os profissionais portugueses que assumiram funções estratégicas nas categorias de base passaram a defender publicamente que o futebol brasileiro perdeu parte de sua identidade ao tentar reproduzir modelos europeus de formação. Em uma das declarações mais simbólicas desse debate, o diretor Alfredo Almeida argumentou que a Europa não procura no Brasil jogadores fisicamente semelhantes aos que já forma em abundância. O que continua atraindo atenção é justamente a capacidade de improvisação, criatividade e resolução de problemas que historicamente diferenciou o jogador brasileiro.
É significativo que essas reflexões venham justamente de Palmeiras e Flamengo, dois dos maiores vendedores de atletas do país nos últimos anos. Quando organizações que operam na fronteira mais avançada da formação de jogadores começam a discutir formas de recuperar características associadas ao futebol informal, talvez o debate deixe de ser uma disputa entre passado e presente. Talvez seja um sinal de que a criatividade, longe de ser uma herança garantida, tornou-se um recurso escasso que precisa ser deliberadamente cultivado.
O camisa 10 amadurece mais tarde
Talvez exista ainda uma explicação menos discutida. Os atributos que transformam um jogador em um grande organizador costumam aparecer mais tarde do que outras características valorizadas pelo mercado.
Um ponta extremamente veloz pode chamar atenção aos quinze anos. Um zagueiro com porte físico diferenciado também. Já um futuro camisa 10 frequentemente depende de competências que amadurecem ao longo do tempo: leitura de jogo, tomada de decisão, controle emocional, percepção espacial e compreensão do ritmo da partida.
O problema é que o futebol moderno exige decisões cada vez mais precoces sobre quais atletas receberão investimento, estrutura e oportunidades. Nesse processo, algumas qualidades podem simplesmente não ter tempo suficiente para se desenvolver plenamente. O sistema tornou-se mais eficiente para identificar talentos precoces, mas isso não significa necessariamente que tenha se tornado mais eficiente para identificar todos os tipos de talento. Principalmente os talentos mais raros.
Vale uma reflexão incômoda. Se um adolescente como Lionel Messi surgisse hoje em uma categoria de base brasileira, ele seria imediatamente reconhecido como um talento excepcional? Talvez em alguns clubes, sem dúvida. Mas a própria pergunta ajuda a ilustrar o problema. Aos 13 anos, Messi não impressionava pela força física, pela altura ou pela capacidade atlética. Seu diferencial estava em aspectos muito mais difíceis de medir: percepção espacial, velocidade de raciocínio, controle da bola em espaços reduzidos e capacidade de tomar decisões em frações de segundo.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado a um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro. Quando chegou ao Flamengo aos 14 anos, em 1967, Zico era tão franzino que passou anos submetido a um programa específico de fortalecimento físico. Felizmente para o futebol brasileiro, alguém enxergou além daquilo que era imediatamente visível. O garoto magro que gerava dúvidas tornou-se o maior ídolo da história do Flamengo e um dos maiores camisas 10 que o país já produziu.
A questão não é se Messi ou Zico seriam aprovados ou reprovados pelos sistemas atuais. A questão é outra: quantos jogadores com características semelhantes podem ter ficado pelo caminho porque suas principais qualidades demoravam mais tempo para se tornar evidentes? Quanto mais cedo um sistema precisa decidir quem merece continuar recebendo oportunidades, maior tende a ser o risco de perder talentos cujo valor aparece apenas em estágios mais avançados de desenvolvimento.
Talvez a pergunta mais desconfortável seja esta: quantos camisas 10 o futebol brasileiro deixou de produzir sem perceber? Não porque faltassem talento ou criatividade, mas porque as características que definem esse tipo de jogador costumam amadurecer mais lentamente do que aquelas que tradicionalmente chamam atenção nos processos de seleção.
Talvez a abundância tenha sido a verdadeira exceção
Existe ainda uma hipótese dificilmente abordada. Talvez estejamos comparando o presente com uma exceção histórica.
O mundo nunca produziu muitos camisas 10. A posição sempre foi rara. O que aconteceu foi que o Brasil, durante várias décadas, produziu uma quantidade extraordinária desses jogadores. Talvez aquela abundância tenha sido resultado de uma combinação muito específica de fatores sociais, culturais e esportivos: futebol de rua, popularização do futsal, grande volume de prática informal, menor especialização precoce e um mercado interno forte o suficiente para permitir que muitos desses atletas amadurecessem antes de serem vendidos.
Quando essas condições de um recorte histórico do país começaram a desaparecer, o resultado mudou junto. Não porque o talento brasileiro tenha desaparecido, mas porque o ambiente que transformava esse talento em organizadores de jogo deixou de existir na mesma intensidade.
Nenhuma dessas mudanças é necessariamente negativa. Muitas delas trouxeram avanços importantes para o futebol brasileiro. Mas elas alteraram o tipo de jogador que o ambiente tende a produzir.
Por isso, o desaparecimento do camisa 10 talvez não seja um mistério. Talvez seja apenas a consequência natural da transformação do ecossistema que o criou. O que ainda não sabemos é se o futebol brasileiro simplesmente deixou de produzir esse tipo de jogador ou se continua produzindo, mas perdeu parte da capacidade de identificá-lo e desenvolvê-lo. A diferença entre uma hipótese e outra pode determinar como serão formados os próximos grandes talentos do país.

