Em 2019, o Como disputava a quarta divisão italiana. Sete anos depois, entrou em campo pela primeira vez na Liga dos Campeões. A distância entre esses dois momentos parece suficiente para produzir uma narrativa simples: investidores bilionários compraram um clube pequeno, gastaram muito dinheiro e aceleraram sua chegada à elite europeia.
O dinheiro, de fato, é parte indispensável da explicação. Os demonstrativos financeiros do próprio Como mostram que a transformação foi sustentada por volumes muito elevados de capital dos proprietários. Mas reduzir o projeto a isso também deixa de fora uma parte relevante do que aconteceu às margens do Lago de Como.
O clube está tentando construir uma estrutura na qual futebol, desenvolvimento de jogadores, tecnologia, turismo, hospitalidade, varejo, moda e conteúdo façam parte do mesmo negócio.
Cesc Fàbregas ocupa uma posição incomum dentro dessa arquitetura, com influência esportiva que vai além da função tradicional de treinador. E a própria localização do clube, ao lado de um dos destinos turísticos mais conhecidos do mundo, deixou de funcionar apenas como cenário para se transformar em ativo comercial.
Existe, porém, uma diferença importante entre construir um modelo e provar que ele funciona economicamente. Os números disponíveis mostram que o Como cresceu muito. Também mostram que esse crescimento continua exigindo enormes recursos de seus controladores.
É nessa diferença que está a parte mais interessante da história.
Da Serie D à Champions
O ponto de partida da atual transformação pode ser localizado com precisão.
Em 4 de abril de 2019, o Como foi adquirido pela SENT Entertainment Limited, empresa britânica ligada ao grupo empresarial da família Hartono. O clube vinha de anos de instabilidade, incluindo falência, leilão e problemas que haviam provocado seu retorno à Serie D.
A própria história institucional publicada pelo Como registra a aquisição pela SENT e informa que a nova propriedade iniciou investimentos na estrutura corporativa, infraestrutura esportiva, categorias de base, estádio e equipe principal.
O avanço esportivo foi rápido.
O clube conquistou a Serie D e subiu para a Serie C. Na temporada 2020/21, venceu sua divisão da Serie C e chegou à Serie B. Depois de três temporadas na segunda divisão, terminou 2023/24 na segunda colocação e conseguiu o acesso à Serie A, encerrando uma ausência de 21 anos.
Na primeira temporada após o retorno, 2024/25, terminou o Campeonato Italiano na décima posição. Em 2025/26 veio outro salto: quarto lugar, 71 pontos e a primeira classificação da história do clube para a Liga dos Campeões.
Em setembro de 2026, sete anos depois de estar na Serie D, o Como disputou sua primeira partida na Champions.
A velocidade dessa transformação chama atenção. Mas ela não aconteceu apenas pela melhoria do desempenho dentro de campo.
Primeiro veio o capital
Para compreender o projeto é necessário começar pelos números.
Os documentos societários publicados pelo próprio Como mostram que, ainda na temporada 2023/24, quando o clube disputava a Serie B, o crescimento já exigia um volume significativo de financiamento de seus proprietários.
O grupo apresentou naquele exercício prejuízo próximo de €50 milhões. O relatório consolidado registra aportes da SENT Entertainment destinados à cobertura de perdas, constituição de reservas e financiamento da operação. O próprio documento afirma que parte predominante das necessidades financeiras era atendida por fluxos provenientes do grupo controlador.
Portanto, a ascensão não foi construída fundamentalmente com receitas que o próprio futebol do Como conseguia gerar. Foi capital privado financiando expansão.
A entrada na Serie A modificou de maneira profunda a capacidade de geração de receita, mas não eliminou essa característica. Pelo contrário: enquanto as receitas cresceram, os investimentos e custos cresceram ainda mais.
Na temporada 2024/25, a primeira novamente na primeira divisão, o Como registrou aproximadamente €55 milhões em receitas, contra menos de €10 milhões no exercício anterior, segundo os números divulgados a partir das demonstrações do clube.
A principal mudança veio naturalmente dos direitos de transmissão. Mais de €31 milhões passaram a ser gerados por televisão e mídia. As receitas de estádio também avançaram, chegando perto de €6 milhões.
Seria possível olhar apenas para esses números e enxergar um negócio que multiplicou sua receita em poucos meses. Mas o outro lado da demonstração financeira conta uma história diferente.
O Como encerrou aquele exercício com prejuízo aproximado de €105 milhões.
Quando são incorporadas também as demais empresas que formam o ecossistema criado ao redor do clube, o resultado consolidado pro forma do grupo para 30 de junho de 2025 apresenta perda próxima de €132 milhões.
Esse é um dado fundamental para compreender o projeto.
A chegada à Serie A aumentou fortemente as receitas. Mas o clube aumentou seus gastos em velocidade ainda maior.
A folha cresceu junto com a ambição
Uma parte relevante dessa expansão ocorreu na estrutura esportiva.
As despesas com remuneração dos profissionais do clube avançou para aproximadamente €80 milhões no exercício 2024/25, dependendo da classificação contábil utilizada para os encargos relacionados. Um ano antes, ainda na Serie B, estava próxima de €30 milhões.
Há também amortizações referentes à aquisição de jogadores, comissões de agentes e outros custos diretamente relacionados à construção de um elenco capaz não apenas de permanecer na Serie A, mas de competir em níveis cada vez mais altos.
É por isso que a situação financeira do Como não pode ser interpretada simplesmente olhando para crescimento de receita.
O clube ganhou muito mais dinheiro depois do acesso. Mas gastou muito mais do que passou a ganhar.
Essa diferença foi absorvida pela capacidade financeira dos proprietários.
Os registros públicos britânicos da SENT Entertainment ajudam a dimensionar esse suporte. A empresa passou por sucessivas emissões de capital durante o período de expansão do Como. Seu capital declarado chegou a £335 milhões em junho de 2025.
Isso não significa que £335 milhões tenham sido investidos no clube italiano. A SENT possui uma estrutura empresarial mais ampla e seria incorreto transformar o capital social da controladora em investimento direto no Como.
O dado demonstra algo importante: o crescimento esportivo ocorreu paralelamente a uma intensa capitalização da empresa que controla o projeto.
O dinheiro não é detalhe.
Ele é uma das condições que tornaram possível acelerar o projeto.
Mas dinheiro sozinho não explica a escolha dos jogadores
Há clubes com proprietários ricos em diferentes países. O elemento mais interessante do Como está em como esse capital começou a ser convertido em uma estratégia esportiva identificável.
No início da construção de um elenco para a Serie A, jogadores experientes tiveram espaço importante. Com o desenvolvimento do projeto, porém, cresceu a presença de atletas jovens, tecnicamente valorizados e com possibilidade de apreciação futura no mercado.
Nico Paz, Máximo Perrone, Assane Diao, Martin Baturina, Jesús Rodríguez, Jacobo Ramón e outros jogadores contratados ou desenvolvidos nos últimos anos ajudam a revelar o perfil.
O Como não procura apenas montar um time capaz de vencer partidas imediatamente. Existe também a tentativa de construir patrimônio esportivo.
Um jogador jovem adquirido antes de atingir seu pico pode produzir três tipos de retorno: contribuir esportivamente, aumentar seu valor e eventualmente gerar receita em uma futura transferência. O princípio não é novo no futebol, muitos clubes utilizam estratégias semelhantes.
O diferencial do Como está na quantidade de capital disponível para executar essa política e na possibilidade de combinar atletas de alto potencial com investimentos que clubes de porte semelhante dificilmente conseguiriam realizar.
Na janela mais recente, estimativas publicadas pela imprensa italiana colocaram os investimentos em transferências próximos de €130 milhões. Como esses valores dependem de bônus, condições contratuais e diferentes critérios de contabilização, devem ser tratados como estimativas de mercado, e não como números de balanço.
Mas a ordem de grandeza deixa clara a mudança de patamar.
O Como já não opera financeiramente como um pequeno clube recém-chegado à Serie A.
Fàbregas ocupa um lugar pouco convencional
Cesc Fàbregas chegou ao Como em 2022 ainda como jogador. Encerrou a carreira no ano seguinte e passou a trabalhar no desenvolvimento de atletas e nas categorias de base. Poucos meses depois, assumiu temporariamente a equipe principal.
Em julho de 2024, foi oficializado como treinador com contrato de quatro anos. Essa cronologia descreve apenas parte de sua função.
Fàbregas também integra o grupo proprietário do clube. Documentos e comunicados oficiais do Como já o identificaram como membro dessa estrutura, enquanto Mirwan Suwarso, principal representante da propriedade, descreveu publicamente o espanhol como uma espécie de “Football CEO”.
A expressão não deve ser entendida como um cargo societário formal. É a maneira usada pela direção para explicar a extensão de sua influência. Fàbregas participa de uma lógica na qual modelo de jogo, contratação, desenvolvimento e planejamento esportivo são tratados de maneira integrada.
Isso reduz uma das contradições frequentes dos clubes de futebol.
Muitas organizações contratam jogadores por decisão de uma diretoria, depois escolhem um treinador com outra ideia de jogo e, alguns meses mais tarde, precisam reconstruir novamente o elenco quando esse treinador é substituído.
O Como tenta fazer o caminho inverso. Primeiro existe uma identidade esportiva. Depois procura-se contratar jogadores compatíveis com ela.
A vantagem potencial é aumentar a coerência entre investimento e utilização esportiva. O risco também é evidente: concentrar influência demais em uma única figura pode tornar a estrutura excessivamente dependente dela.
Enquanto os resultados aparecem, Fàbregas funciona como um dos principais ativos do projeto.
O teste mais difícil virá quando o ciclo mudar.
O Como não quer vender apenas futebol
É aqui que o projeto começa a se afastar do desenho tradicional de um clube.
O Como joga diante de um mercado local relativamente pequeno e utiliza o Giuseppe Sinigaglia, estádio com capacidade oficial pouco superior a 12 mil espectadores. Mesmo com preços elevados e ocupação próxima do limite, existe um teto evidente para a receita produzida apenas pela venda convencional de ingressos.
Ao mesmo tempo, o clube está instalado ao lado de um dos destinos turísticos mais valorizados da Europa. A administração decidiu transformar essa geografia em parte do produto.
O site oficial do Como já vende experiências que combinam futebol com passeios pelo lago, gastronomia, turismo e hospitalidade. Existem pacotes premium que incluem ingressos, áreas VIP, passeios privados de barco e atividades na cidade.
A partida deixa de ser o produto completo. Ela passa a funcionar como um componente de uma experiência maior.
Essa estratégia ajuda a entender por que a estrutura empresarial ao redor do Como inclui negócios ligados a turismo, varejo, propriedades, conteúdo digital e formação esportiva.
No consolidado de 2025 aparecem empresas como Sent Academy, Sent Property, Sent Retail e Sent Digital dentro do ecossistema criado ao redor do clube, além das operações ligadas a turismo.
A lógica é relativamente clara. Um clube tradicional tenta transformar torcedores em compradores de ingressos, camisas, produtos licenciados e serviços de hospitalidade. O Como tenta também transformar visitantes do Lago de Como em consumidores do clube.
É uma diferença importante.
A cidade funciona como plataforma de distribuição
Mirwan Suwarso já explicou publicamente que, quando os proprietários chegaram, a marca internacional mais conhecida não era o clube.
Era Como. Mais especificamente, o Lago de Como.
O destino recebe visitantes de alta renda, possui associação internacional com turismo de luxo e já carregava uma identidade global que o time de futebol simplesmente não possuía.
Em vez de competir contra essa diferença, a administração resolveu utilizá-la.
A estratégia comercial passou a aproximar o clube de moda, design, turismo e hospitalidade premium. Parcerias com marcas como Brioni, Hublot e outras empresas do segmento ajudam a posicionar o produto em um ambiente diferente daquele encontrado normalmente em clubes de dimensão esportiva semelhante.
O Como também criou eventos como o Football on the Lake, no qual futebol é associado a música, gastronomia, moda, arte e entretenimento.
É uma estratégia de aquisição de audiência.
O futebol traz atenção. A localização aumenta o valor percebido dessa atenção. E os negócios construídos ao redor do clube tentam monetizá-la por diferentes caminhos.
Tecnologia também entrou na estrutura
Outro elemento começa a aparecer de maneira mais clara.
Os documentos financeiros de 2023/24 já registravam investimentos em plataformas digitais destinadas ao scouting global e à identificação de jovens jogadores.
Em 2026, o clube, a Como Ventures e o Google DeepMind lançaram o projeto Data on the Lake, utilizando dados reais do Como em um ambiente destinado ao desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial para problemas do futebol profissional.
Isso não significa que algoritmos estejam escolhendo jogadores ou tomando decisões esportivas pelo clube.
Seria exagerado afirmar isso.
O que é possível dizer é que o Como está incorporando análise de dados e desenvolvimento tecnológico à infraestrutura de decisão do projeto. A criação da Como Ventures amplia ainda mais essa lógica. A plataforma foi desenhada para aproximar o clube de startups, investimento e inovação ligados ao esporte.
Mais uma vez, aparece a mesma arquitetura, o futebol continua sendo o centro.
Mas os negócios começam a ultrapassar o campo.
O estádio é ao mesmo tempo vantagem e problema
O Giuseppe Sinigaglia talvez seja a representação física mais clara dessa contradição.
Sua localização é excepcional. O estádio fica praticamente às margens do Lago de Como, integrado a uma das paisagens mais conhecidas da região. Com pouco mais de 12 mil lugares, porém, sua capacidade limita fortemente o potencial de receita de matchday de um clube que agora disputa competições europeias.
A administração já iniciou investimentos e conduz um projeto mais amplo de requalificação. O processo avançou administrativamente junto ao município, embora isso ainda não permita tratar todas as propostas apresentadas como obras definitivamente aprovadas ou executadas.
A intenção declarada pela direção é utilizar o estádio para muito mais do que partidas.
Restaurantes, hospitalidade, turismo e atividades que possam funcionar também nos dias sem futebol aparecem no conceito apresentado publicamente.
É a mesma lógica aplicada ao restante do projeto: fazer um ativo esportivo produzir receita durante mais horas, para mais públicos e por diferentes motivos.
O grande teste não aconteceu ainda
Depois de olhar para a velocidade da ascensão esportiva, é tentador declarar o projeto um sucesso empresarial. Os próprios números impedem essa conclusão.
O Como já demonstrou que consegue transformar capital em competitividade esportiva. Demonstrou que consegue aumentar rapidamente suas receitas quando sobe de divisão. Demonstrou que consegue utilizar sua localização para criar produtos comerciais pouco convencionais no futebol. E começou a demonstrar capacidade para transformar jogadores jovens em ativos esportivos de grande valor.
O que ainda não demonstrou é que toda essa estrutura consegue financiar a si própria.
Um prejuízo consolidado próximo de €132 milhões em 2024/25 não é compatível com a ideia de autossuficiência financeira. É compatível com uma fase agressiva de investimento e crescimento financiada pelos proprietários.
Essa distinção é essencial.
O Como pode estar construindo um modelo economicamente sustentável para o futuro. Isso é diferente de dizer que já possui um.
A Champions modifica novamente a equação. A competição aumenta direitos de transmissão, premiações, exposição internacional, valor comercial da marca e capacidade de atrair patrocinadores e consumidores. Também aumenta exigências esportivas e pode estimular novos investimentos no elenco.
Por isso, os próximos balanços serão provavelmente mais reveladores do que os resultados atuais. Eles mostrarão se a distância entre receita e investimento começa efetivamente a diminuir.
De um clube de futebol para uma plataforma
O projeto do Como talvez possa ser melhor compreendido quando se abandona a ideia tradicional de que todas as receitas precisam nascer diretamente do jogo.
A propriedade está financiando um clube capaz de gerar audiência internacional. Fàbregas e a estrutura esportiva tentam transformar dinheiro em desempenho e patrimônio esportivo. O Lago de Como oferece uma marca geográfica que já era global antes de o time chegar à elite. Turismo, hospitalidade, varejo, moda, tecnologia e mídia tentam capturar economicamente essa combinação.
Não existe garantia de que funcionará.
Existe apenas uma hipótese empresarial sendo testada em escala cada vez maior. Talvez seja justamente isso que torne o Como um caso mais interessante do que a simples história de um clube pequeno financiado por bilionários.
O dinheiro explica como foi possível acelerar.
Não explica sozinho o que está sendo construído.
A pergunta que acompanhará o Como nos próximos anos é outra: quando o crescimento deixar de depender tanto do capital dos proprietários, haverá receitas suficientes para sustentar o clube que esse dinheiro ajudou a criar?


