O jogador mais caro do seu time provavelmente não é quem você imagina

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A contratação de um atleta costuma provocar uma reação quase automática. Antes mesmo de observar seu desempenho em campo, sua condição física, sua capacidade de elevar o nível técnico da equipe ou o impacto que poderá produzir para a organização, a discussão rapidamente converge para um único número: quanto o clube pagou por ele.

Foi exatamente isso que aconteceu quando surgiram as notícias sobre a contratação de LeBron James pelo Philadelphia 76ers. A informação que mais chamou atenção não foi a expectativa de desempenho do maior cestinha da história da NBA, nem o potencial impacto esportivo de sua chegada. O debate concentrou-se imediatamente no valor do contrato. Para muitos, aquele número parecia suficiente para determinar se a contratação fazia sentido ou não.

Dias depois, porém, outra informação começou a circular. Ela não dizia respeito ao contrato, nem ao desempenho esperado dentro de quadra. Chamava atenção para os possíveis efeitos econômicos que a chegada de LeBron poderia produzir muito além do Philadelphia 76ers, alcançando patrocinadores, empresas, o comércio local e diversos outros agentes ligados ao espetáculo esportivo. Independentemente de essas projeções se confirmarem ou não, elas deslocavam o debate para uma questão muito mais interessante do que simplesmente discutir o valor do contrato.

Afinal, quanto realmente custa um jogador?

Essa pergunta talvez seja uma das mais mal compreendidas do esporte profissional. Em praticamente qualquer modalidade, jogadores continuam sendo classificados como “caros” ou “baratos” quase exclusivamente pelo salário que recebem. A lógica parece óbvia: quanto maior a remuneração, maior o custo para a organização. No entanto, essa forma de enxergar o problema ignora justamente aquilo que a economia procura medir.

Com atletas profissionais ocorre exatamente o mesmo. O salário representa apenas o preço de entrada da operação. A verdadeira pergunta econômica nunca foi quanto um jogador recebe, mas quanto valor ele é capaz de criar a partir desse custo.

Essa diferença muda completamente a maneira como enxergamos o mercado esportivo.

Curiosamente, essa lógica não vale apenas para atletas extraordinários. Em muitos casos, o jogador aparentemente “barato” acaba sendo o mais caro de todo o elenco. Basta que sua presença impeça contratações melhores, reduza o desempenho coletivo, contribua para eliminações precoces ou participe de uma campanha que resulte no rebaixamento da equipe. Seu salário continuará parecendo modesto quando observado isoladamente, mas o prejuízo produzido por sua baixa contribuição poderá superar, com enorme facilidade, o custo de atletas muito mais bem remunerados.

É por isso que o mercado esportivo produz um paradoxo aparentemente contraditório. Existem jogadores que recebem alguns dos maiores salários do mundo e, ainda assim, representam excelentes investimentos. Da mesma forma, existem atletas que recebem valores relativamente modestos, mas acabam custando muito mais caro do que aparentam.

Compreender essa diferença exige abandonar uma ideia bastante difundida: a de que o salário é suficiente para medir o custo de uma contratação. Na realidade, ele representa apenas o ponto de partida de uma análise muito mais ampla. E é exatamente essa análise que faremos a seguir.

Como a economia avalia uma contratação

Se o salário, por si só, não é suficiente para responder quanto realmente custa um jogador, qual é o critério correto?

A economia responde essa pergunta da mesma forma que responde qualquer decisão de investimento.

Quando uma empresa desenvolve uma nova tecnologia, adquire uma máquina ou constrói uma fábrica, o valor desembolsado é apenas o ponto de partida da análise. O que realmente determina se aquele investimento foi bom ou ruim é a quantidade de valor que ele será capaz de produzir ao longo do tempo.

No esporte profissional não deveria ser diferente.

Uma contratação começa no momento em que o contrato é assinado, mas sua avaliação só termina quando seus efeitos podem ser medidos. O salário, portanto, é apenas uma das variáveis dessa análise.

Além disso, principalmente quando se trata de atletas de elite, o valor divulgado pela imprensa raramente representa toda a estrutura financeira da negociação. Dependendo do contrato, a remuneração pode incluir direitos de imagem, luvas, bônus por desempenho, premiações por metas esportivas, gatilhos de renovação automática, participação em receitas comerciais e outras cláusulas que permanecem confidenciais. Em determinadas situações, parte desses valores nem sequer é desembolsada exclusivamente pelo clube, sendo compartilhada com patrocinadores ou parceiros comerciais interessados na exposição gerada pelo atleta.

Isso significa que, mesmo conhecendo o salário de um jogador, dificilmente conhecemos o investimento completo realizado para contratá-lo.

Mas suponha, apenas para simplificar o raciocínio, que todas essas informações fossem públicas.

Imagine que um clube invista R$ 50 milhões por temporada em determinado atleta. À primeira vista, trata-se de uma contratação extremamente cara. Agora suponha que esse mesmo jogador aumente significativamente a venda de ingressos, impulsione o programa de sócios, fortaleça contratos de patrocínio, amplie a comercialização de produtos oficiais, ajude a equipe a conquistar uma competição internacional e, como consequência, gere dezenas de milhões de reais em premiações, novas receitas de televisão e valorização do elenco.

Continuaríamos dizendo que ele foi caro?

Agora imagine a situação oposta.

Outro atleta recebe apenas R$ 200 mil mensais. Seu contrato parece bastante modesto, mas seu desempenho fica muito abaixo do esperado. A equipe perde competitividade, precisa contratar outro jogador para a mesma posição, é eliminada precocemente das principais competições e termina a temporada rebaixada para a segunda divisão.

Qual das duas contratações produziu o maior prejuízo?

É nesse ponto que a lógica econômica se afasta da percepção mais comum do torcedor. O valor desembolsado continua sendo importante, mas deixa de ser suficiente para responder se uma contratação foi boa ou ruim. A verdadeira medida passa a ser a relação entre o investimento realizado e o valor produzido ao longo do tempo.

Essa conclusão, entretanto, ainda resolve apenas parte do problema.

Até aqui, tratamos como se toda a riqueza gerada por um atleta permanecesse com o clube responsável por sua contratação. Na prática, isso quase nunca acontece. Um jogador pode criar valor para patrocinadores, emissoras, ligas, parceiros comerciais, cidades inteiras e até para si próprio, sem que a organização que assumiu o investimento consiga capturar integralmente esse benefício.

É justamente essa diferença entre criar valor e capturar valor que explica por que algumas contratações aparentemente caríssimas se transformam em excelentes investimentos, enquanto outras, muito mais modestas, acabam produzindo um prejuízo muito maior do que o salário fazia imaginar.

Quando uma estrela muda toda a economia

Durante muito tempo, a economia do esporte concentrou sua atenção quase exclusivamente dentro das quatro linhas. Avaliava-se se um jogador fazia mais gols, distribuía mais assistências, defendia melhor ou aumentava a probabilidade de vitória da equipe. Embora tudo isso continue sendo fundamental, essa perspectiva revela apenas uma parte do fenômeno.

Atletas extraordinários não transformam apenas o desempenho esportivo de um clube. Eles alteram o comportamento econômico de um ecossistema inteiro.

Poucos exemplos ilustram isso melhor do que Lionel Messi.

Quando o argentino anunciou sua transferência para o Inter Miami, em 2023, o impacto ultrapassou imediatamente o ambiente esportivo. O clube passou a vender ingressos por valores muito superiores aos praticados anteriormente. Camisas esgotaram em diversos mercados. Patrocinadores ampliaram seu interesse pela organização. A audiência internacional da MLS aumentou de forma significativa. A Apple, detentora dos direitos globais de transmissão da liga por meio do MLS Season Pass, transformou Messi em uma das principais peças de divulgação do produto em escala mundial. A Adidas também estruturou parte importante de sua estratégia comercial em torno da chegada do jogador. Em poucos meses, o Inter Miami deixou de ser apenas mais um clube da liga americana para tornar-se uma marca acompanhada diariamente por torcedores de praticamente todos os continentes.

Os efeitos econômicos apareceram rapidamente. Segundo a Forbes, a receita anual do Inter Miami, que antes da chegada de Messi girava em torno de US$ 56 milhões, passou para aproximadamente US$ 200 milhões. No mesmo período, estimativas de mercado apontaram uma valorização expressiva da franquia, cuja avaliação ultrapassou a marca de US$ 1,3 bilhão. Naturalmente, seria metodologicamente incorreto atribuir toda essa valorização exclusivamente ao argentino. Diversos fatores influenciam o valor de uma organização esportiva. Ainda assim, poucas dúvidas existem de que Messi foi o principal catalisador dessa transformação.

Cristiano Ronaldo produziu um fenômeno semelhante, embora com características diferentes.

Sua transferência para o futebol saudita não alterou apenas a realidade do clube que o contratou. Estudos acadêmicos identificaram aumentos relevantes de público tanto nos jogos do Al Nassr quanto nas partidas disputadas como visitante. A presença de Cristiano elevou a exposição internacional da Saudi Pro League, ampliou o interesse de patrocinadores, fortaleceu negociações envolvendo direitos de transmissão e contribuiu para posicionar a liga em um patamar de visibilidade muito superior ao observado anteriormente. Nesse caso, uma parcela importante do valor gerado não permaneceu necessariamente com o clube, mas espalhou-se por toda a competição.

O caso de LeBron James revela um terceiro tipo de impacto.

Pouco depois de anunciada sua contratação pelo Philadelphia 76ers, a consultoria Boyd Company publicou uma projeção estimando que sua presença poderia movimentar entre US$ 250 milhões e US$ 430 milhões em atividade econômica adicional na região da Filadélfia durante sua primeira temporada. A estimativa incluía setores como hotelaria, restaurantes, comércio, entretenimento e turismo, impulsionados pelo aumento do fluxo de visitantes e da atenção gerada pela equipe. Mais uma vez, trata-se de uma projeção, não de um resultado efetivamente realizado, mas ela evidencia algo importante: o impacto econômico de um atleta pode ultrapassar, em muito, os limites financeiros do clube que paga seu contrato.

Pesquisas acadêmicas realizadas em diferentes mercados chegam à mesma conclusão por outro caminho. Estudos sobre o retorno de LeBron a Cleveland, por exemplo, identificaram aumento na atividade econômica de estabelecimentos localizados nas proximidades da arena e crescimento do emprego em determinados setores ligados ao entretenimento e à alimentação. O atleta não alterava apenas o desempenho da equipe. Sua presença modificava o comportamento de consumidores, empresas e investidores.

Todos esses casos possuem uma característica em comum.

O salário pago ao atleta representa apenas o ponto de partida da história. O valor efetivamente produzido espalha-se por diversos agentes econômicos que sequer participam da negociação do contrato.

E é exatamente aqui que surge uma pergunta muito mais interessante do que simplesmente saber quanto um jogador ganha.

Quem fica com toda essa riqueza?

Criar valor não significa capturar valor

Até aqui, a análise parece bastante intuitiva. Atletas extraordinários conseguem movimentar receitas muito superiores ao valor de seus contratos. Se isso é verdade, bastaria comparar quanto um jogador custou com o quanto ele ajudou a gerar para descobrir se a contratação valeu a pena.

O problema é que essa conta ainda está incompleta.

Ela parte da premissa de que toda a riqueza criada por um atleta permanece com o clube que o contratou. Na prática, isso quase nunca acontece.

Quando Lionel Messi chegou ao Inter Miami, por exemplo, não foi apenas o clube que passou a faturar mais. A MLS tornou-se mais valiosa. A Apple ganhou um produto muito mais atrativo para promover mundialmente sua plataforma de transmissões. A Adidas ampliou o potencial comercial de sua parceria com a liga e com o próprio atleta. Patrocinadores passaram a receber uma exposição incomparavelmente maior. Em dias de jogo, hotéis, restaurantes, empresas de transporte e o comércio local também passaram a receber consumidores que, em muitos casos, sequer estariam naquela cidade se Messi não estivesse em campo.

Em outras palavras, o argentino criou riqueza para um número enorme de agentes econômicos.

Isso, porém, não significa que toda essa riqueza tenha permanecido com o Inter Miami.

Esse detalhe muda completamente a análise.

Imagine uma empresa que desenvolva uma tecnologia revolucionária. Sua inovação transforma completamente um mercado, aumenta a produtividade de outras empresas, cria novas oportunidades de negócio e gera bilhões de reais em riqueza para consumidores, fornecedores e parceiros comerciais. Ainda assim, por força dos contratos que assinou ou da estrutura daquele mercado, ela consegue capturar apenas uma pequena parcela de todo esse valor.

No esporte acontece exatamente a mesma coisa.

Um atleta pode gerar um enorme aumento de audiência, impulsionar vendas, fortalecer patrocinadores, elevar o interesse da imprensa internacional e aumentar o valor da própria competição. Ainda assim, a organização responsável por pagar seu contrato pode capturar apenas parte desse retorno.

Essa distinção é fundamental porque ela separa dois conceitos que frequentemente aparecem como sinônimos, mas não são.

Criar valor significa aumentar a riqueza produzida pelo ecossistema.

Capturar valor significa conseguir transformar parte dessa riqueza em benefício efetivo para quem realizou o investimento.

Quanto maior a diferença entre essas duas variáveis, mais difícil se torna justificar economicamente uma contratação apenas observando a repercussão produzida pelo atleta.

Naturalmente, essa captura não ocorre apenas por meio de receitas comerciais.

No futebol, parte relevante do retorno aparece dentro do próprio desempenho esportivo.

Um jogador que ajuda sua equipe a conquistar um campeonato produz premiações financeiras. Um atleta decisivo pode garantir uma classificação para uma competição internacional, abrindo caminho para novas cotas de televisão, maiores receitas de bilheteria e contratos comerciais mais valiosos. Em outros casos, sua contribuição evita um rebaixamento, preservando dezenas ou até centenas de milhões de reais que deixariam de entrar no caixa do clube caso a equipe disputasse uma divisão inferior.

Há ainda um efeito menos imediato, mas igualmente importante.

Equipes vencedoras costumam valorizar seus próprios ativos. Jogadores jovens passam a valer mais no mercado. O elenco torna-se mais atrativo para novos patrocinadores. A marca do clube ganha força. A capacidade de negociação aumenta. Até futuras contratações podem tornar-se mais fáceis quando uma organização passa a ser percebida como competitiva. Tudo isso também representa captura de valor.

Por essa razão, avaliar uma contratação exige responder, pelo menos, a quatro perguntas diferentes.

A primeira é relativamente simples: quanto custou o atleta, considerando todas as informações públicas disponíveis sobre seu contrato.

A segunda é mais complexa: quanto valor ele ajudou a criar, tanto esportiva quanto comercialmente.

A terceira talvez seja a mais importante de todas: quanto desse valor permaneceu efetivamente com o clube que assumiu o investimento, e quanto foi apropriado por ligas, patrocinadores, parceiros comerciais, emissoras, cidades ou pelo próprio atleta.

Por fim, existe uma quarta pergunta que quase nunca aparece nas discussões esportivas: esse valor capturado foi suficiente para justificar o investimento realizado?

É justamente a resposta a essa última pergunta que separa uma contratação cara de um investimento extraordinário.

O verdadeiro jogador caro

A maneira como normalmente discutimos contratações no futebol costuma produzir uma curiosa inversão de perspectiva. O debate quase sempre começa e termina no valor do contrato, como se esse número, por si só, fosse suficiente para determinar o sucesso ou o fracasso de uma operação.

Ao longo deste artigo, procuramos mostrar que essa conclusão é precipitada. Avaliar economicamente uma contratação exige compreender quanto foi investido, quanto valor o atleta ajudou a criar e, sobretudo, quanto dessa riqueza permaneceu efetivamente com a organização que assumiu o investimento. Somente a combinação dessas três dimensões permite responder se um jogador foi, de fato, caro ou barato.

Essa mudança de perspectiva parece apenas uma diferença metodológica, mas altera profundamente a forma como interpretamos algumas das maiores contratações do futebol contemporâneo.

É por isso que discussões baseadas exclusivamente no salário ou no custo da transferência costumam ser insuficientes. Elas observam apenas o investimento inicial, mas deixam de lado a pergunta que realmente interessa: o que aconteceu depois que o contrato foi assinado? Foi ali que o clube passou a criar riqueza ou simplesmente financiou riqueza para outros agentes? Quanto do valor produzido permaneceu dentro da própria organização? Sem responder a essas questões, qualquer julgamento permanece inevitavelmente incompleto.

Poucas operações recentes oferecem uma oportunidade tão interessante para aplicar esse modelo quanto o retorno de Neymar ao Santos.

Desde o anúncio de sua contratação, multiplicaram-se análises sobre receitas, patrocínios, exposição internacional, venda de produtos oficiais, crescimento do programa de sócios e aumento dos custos envolvidos na operação.

O debate, entretanto, permaneceu concentrado quase exclusivamente em uma tentativa de decidir se a contratação deu certo ou deu errado. Talvez essa não seja a pergunta mais adequada.

A questão economicamente relevante não é simplesmente saber quanto Neymar custou ao Santos, nem mesmo quanto valor ajudou a criar para o futebol brasileiro. O verdadeiro desafio consiste em medir quanto dessa riqueza permaneceu efetivamente com o clube que decidiu realizar o investimento. É precisamente essa análise que desenvolveremos outro artigo.

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