Crise no Olympique de Marseille: por que um gigante precisa desmontar o time para equilibrar as contas

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O Olympique de Marseille começou a temporada 2026/27 vivendo uma situação incomum para um clube de seu tamanho. Jogadores importantes deixaram o elenco, outros podem ser negociados e, mesmo depois das primeiras vendas, a equipe ainda enfrenta limitações para contratar substitutos.

Não se trata apenas de uma escolha esportiva ou de uma reformulação de elenco.

Em junho de 2026, a DNCG, órgão responsável pelo controle financeiro dos clubes profissionais franceses, determinou oficialmente ao Marseille o controle de sua folha salarial e das despesas com transferências. Pouco depois, a UEFA confirmou que o clube havia descumprido regras de sustentabilidade financeira e aplicado sanções que somaram €10 milhões.

A situação atual não surgiu repentinamente nesta janela.

Os números mostram um clube que acumulou prejuízos, manteve uma estrutura salarial elevada e ainda foi atingido pela forte redução das receitas de televisão do futebol francês.

Agora, o Marseille enfrenta um problema difícil de resolver: precisa reduzir custos e vender jogadores para recuperar o equilíbrio financeiro, mas não pode desmontar o time a ponto de comprometer sua própria capacidade de competir e gerar receitas no futuro.

Como o Marseille chegou a esse ponto

O problema financeiro do Marseille não nasceu em 2026.

Os balanços das últimas temporadas mostram uma sequência de resultados negativos. Em 2022/23, o clube registrou prejuízo líquido de aproximadamente €12,7 milhões. Na temporada seguinte, o déficit aumentou para cerca de €39,1 milhões.

Em 2024/25, a deterioração foi muito mais intensa. O Marseille terminou o exercício com prejuízo líquido de aproximadamente €104,8 milhões. Ao mesmo tempo, suas receitas, excluindo as operações com transferências, caíram de aproximadamente €287 milhões em 2023/24 para €188,7 milhões em 2024/25. Uma diferença próxima de €100 milhões em apenas um exercício.

Os custos, entretanto, não diminuíram na mesma proporção. A folha salarial passou de aproximadamente €148,3 milhões para €153,7 milhões, enquanto as despesas operacionais permaneceram acima de €300 milhões.

Isso ajuda a explicar o tamanho do desequilíbrio. O Marseille viu suas receitas caírem fortemente sem conseguir reduzir sua estrutura de custos na mesma velocidade.

O peso da folha e a queda das receitas de televisão

Parte importante dessa redução de receitas veio dos direitos de transmissão.

Em 2023/24, o Marseille contabilizou aproximadamente €67,1 milhões em receitas de televisão. Em 2024/25, foram cerca de €31,9 milhões. Uma queda superior a €35 milhões.

O problema não atingiu apenas o Marseille. A própria UEFA reconheceu oficialmente o que classificou como um colapso significativo e inesperado das receitas domésticas de transmissão que afetou os clubes franceses em 2025/26 e continuou produzindo efeitos em 2026/27.

Esse contexto é importante porque impede uma interpretação simplista da situação.

O Marseille possui responsabilidade pela estrutura de custos que construiu, mas também foi atingido por uma deterioração relevante de uma das principais fontes de receita do futebol francês. O problema aparece quando essa queda encontra uma estrutura esportiva cara.

Em 2024/25, os aproximadamente €153,7 milhões gastos com salários e encargos representavam mais de 80% das receitas do clube excluindo transferências.

E salários são apenas uma parte do custo de manter um elenco. Contratações também produzem amortizações contábeis durante os contratos dos jogadores, além de comissões e outros custos relacionados à montagem da equipe.

Quando as receitas caem rapidamente, essas obrigações não desaparecem na mesma velocidade.

Quando o problema financeiro passa a limitar o futebol

Em junho de 2026, a situação deixou de aparecer apenas nos balanços.

A DNCG determinou oficialmente ao Olympique de Marseille o controle da folha salarial e das despesas com transferências para a temporada 2026/27.

A UEFA também tomou medidas. O órgão europeu concluiu que o Marseille não cumpriu a meta final prevista em seu acordo de sustentabilidade financeira ao descumprir a regra de football earnings no período de monitoramento que engloba os exercícios encerrados em 2023, 2024 e 2025. Além disso, o clube apresentou em 2025 um squad cost ratio superior ao limite de 70% estabelecido pela UEFA.

Esse indicador não considera apenas salários. O cálculo inclui também amortizações relacionadas aos registros dos jogadores, custos com agentes e intermediários e determinadas operações envolvendo empréstimos, confrontados com receitas ajustadas e resultados relacionados às transferências.

As consequências foram concretas. O Marseille recebeu uma multa de €6 milhões pela violação da regra de football earnings e outros €4 milhões por ultrapassar o limite do squad cost ratio. Também recebeu restrições para registrar novos jogadores na Lista A das competições europeias em 2026/27.

Há ainda uma consequência potencialmente mais grave. Caso não cumpra a meta de football earnings estabelecida para 2026/27, o Marseille será excluído da próxima competição da UEFA para a qual se classificar dentro das três temporadas seguintes.

A necessidade de ajustar as contas deixou, portanto, de ser apenas uma preocupação administrativa. Ela passou a interferir diretamente na capacidade do clube de montar seu elenco.

Por que vender jogadores se tornou parte da solução

O impacto apareceu claramente no mercado.

Durante a janela, o Marseille negociou jogadores importantes, entre eles Mason Greenwood, Facundo Medina, Gerónimo Rulli e Pierre-Emerick Aubameyang. Leonardo Balerdi também deixou o clube por empréstimo para a Roma. Mesmo assim, segundo relato publicado pelo Guardian em 31 de agosto, nenhuma contratação havia sido realizada até aquele momento.

Depois da derrota por 2 a 0 para o Monaco, o técnico Bruno Génésio afirmou que seriam necessárias outras três ou quatro saídas para permitir o registro de uma ou duas chegadas. A declaração explicou por que simplesmente vender jogadores não resolve imediatamente o problema.

Uma transferência pode produzir diferentes efeitos financeiros. Ela pode gerar caixa, produzir resultado contábil com a negociação do atleta e retirar salários futuros da folha. Para um clube submetido simultaneamente ao controle da DNCG e às regras de sustentabilidade da UEFA, esses efeitos podem ser tão importantes quanto o valor anunciado da própria transferência.

Por isso que a situação do Marseille não pode ser analisada apenas perguntando quanto o clube arrecadou com as vendas. O problema é estrutural.

O clube precisa fazer com que o custo de seu elenco volte a ser compatível com sua capacidade de geração de receitas.

O paradoxo: melhorar as contas pode enfraquecer o time

Essa é a parte mais difícil do ajuste.

Os jogadores capazes de produzir as maiores receitas no mercado normalmente também estão entre os ativos esportivamente mais importantes. O Guardian apontou Igor Paixão como um dos jogadores de maior valor comercial do atual elenco. Sua eventual negociação poderia ajudar financeiramente o clube, mas também retiraria qualidade de uma equipe que já perdeu vários jogadores durante a janela.

Isso cria um conflito inevitável. Financeiramente, vender ativos e reduzir salários pode aproximar o Marseille das exigências impostas pelos reguladores. Esportivamente, fazer isso em excesso pode diminuir a qualidade e principalmente as opções do elenco. O próprio Génésio reconheceu o problema ao comentar as ausências da equipe no início da temporada.

O Marseille ainda terá de disputar competições nacionais e a Europa League com um grupo que passou por uma redução importante durante o mercado. Isso não significa que o ajuste financeiro necessariamente produzirá resultados esportivos ruins automaticamente. Essa relação não pode ser afirmada antecipadamente.

Mas não podemos ignorar o risco econômico evidente. Classificações para competições europeias, premiações, bilheteria e parte da capacidade comercial de um clube dependem de sua competitividade.

Se a redução de custos for profunda demais, a solução utilizada para recuperar as finanças pode diminuir a capacidade esportiva necessária para gerar receitas futuras.

O verdadeiro desafio do Marseille

O caso do Olympique de Marseille mostra como uma crise financeira no futebol raramente pode ser resolvida simplesmente vendendo alguns jogadores.

O clube terminou 2024/25 com €104,8 milhões de prejuízo, enquanto suas receitas excluindo transferências caíram para aproximadamente €188,7 milhões e sua folha salarial permaneceu próxima de €154 milhões.

No exercício seguinte, a consequência regulatória chegou.

A DNCG passou a controlar salários e despesas com transferências. A UEFA aplicou €10 milhões em multas, restringiu registros e condicionou a permanência futura do Marseille nas competições europeias ao cumprimento de uma nova meta financeira. Vender jogadores tornou-se, nesse cenário, parte do ajuste.

Mas existe uma diferença importante entre reduzir custos e construir sustentabilidade. Para recuperar o equilíbrio de maneira duradoura, o Marseille precisa adequar sua estrutura esportiva às receitas que consegue gerar sem depender continuamente de resultados extraordinários no mercado ou de receitas esportivas que não estão garantidas.

E precisa fazer isso sem destruir aquilo que sustenta boa parte dessas receitas: um time competitivo.

Essa convergência de objetivos quase antagônicos é o maior desafio do clube. Quanto mais jogadores importantes o Marseille vende, maior pode ser o alívio financeiro imediato. Mas, se o processo ultrapassar determinado limite, maior também pode ser o impacto sobre a capacidade esportiva do clube.

O desafio não é simplesmente vender. É descobrir quanto é possível cortar para salvar as contas sem cortar também as condições necessárias para voltar a fazê-las crescer.

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