Toda geração guarda uma convicção íntima: assistiu ao futebol em uma forma mais pura, mais brilhante ou mais verdadeira do que as gerações seguintes. Para alguns, os grandes jogadores pertencem aos anos 1970. Para outros, aos anos 1980. Para muitos brasileiros, a referência afetiva está nos anos 1990 e no início dos anos 2000, quando a Seleção ainda parecia ocupar naturalmente o centro do mundo. Para uma parte dos mais jovens, os ídolos de hoje têm menos relação com a camisa amarela e mais com clubes, ligas e personagens globais.
A pergunta parece simples. Mas esconde várias perguntas dentro dela. Melhor em quê? Para jogar qual futebol? Segundo quais critérios? No campo ou na lembrança? Como desempenho esportivo ou como experiência emocional? A confusão entre essas perguntas é justamente o que torna o debate interminável e também o que o torna revelador.
O futebol que lembramos também fala sobre nós
Um torcedor não se lembra apenas de um jogador. Lembra de onde estava quando viu aquele jogador. Lembra da casa, da televisão, do pai, dos amigos, da cidade, do país naquele momento. O futebol é uma máquina de organizar memórias e a memória não opera como arquivo. Ela seleciona, reorganiza e atribui significado retrospectivo. Os grandes momentos não são lembrados como jogadas quaisquer. Tornam-se símbolos.
A psicologia da nostalgia descreve esse mecanismo com precisão: revisitar um período marcante não é simplesmente recuperar uma informação antiga, é reconstruir sentido para a própria trajetória. E no futebol, esse processo raramente é individual. Torcer é compartilhar. Maurice Halbwachs, referência central no estudo da memória coletiva, argumentava que lembramos dentro de quadros sociais: a lembrança individual não existe isolada da comunidade que a preserva, organiza e continuamente atualiza. O resultado é que Pelé, Zico, Romário, Ronaldo e Ronaldinho não são apenas atletas. São marcadores de época, modos de assistir, de torcer, de imaginar o futebol.
Defender os ídolos da juventude é, em alguma medida, defender a importância daquele tempo. A avaliação técnica e a defesa biográfica chegam juntas na mesma frase.
O problema é que “melhor” não significa a mesma coisa para todos
O problema com a palavra “melhor” é que ela parece objetiva e quase nunca é. Um zagueiro dos anos 1970 foi julgado em um ambiente tático, físico, arbitral e midiático radicalmente diferente do atual. Um camisa 10 clássico tinha liberdade para receber, pensar e acelerar que os sistemas defensivos contemporâneos raramente permitem. Um goleiro moderno é cobrado não apenas por defender, mas por construir jogo, fazer cobertura dos zagueiros e participar da saída de bola, função que simplesmente não existia como tal há vinte anos.
Isso não torna o jogador atual melhor. Também não torna o antigo inferior. Apenas mostra que o futebol não mede excelência sempre da mesma maneira. Cada geração produz seu jogador ideal porque cada geração cria seus próprios problemas. O atleta de 1982 respondia às exigências de 1982. O de 2002, às de 2002. O de 2026, às de 2026. Quando comparamos jogadores de épocas diferentes, frequentemente fingimos que eles disputaram o mesmo jogo. Não disputaram.
O passado chega editado. O presente chega cru
Estamos na semana de abertura da Copa do Mundo de 2026 enquanto escrevo este artigo. Por coincidência, apareceu para mim no YouTube um vídeo com os melhores momentos do amistoso entre Alemanha e Brasil disputado em setembro de 2004, em Berlim. A partida terminou empatada em 1 a 1, com um golaço de falta de Ronaldinho Gaúcho para o Brasil. A última Copa do Mundo antes daquele jogo havia sido justamente a final de 2002, vencida pela Seleção Brasileira contra a própria Alemanha, com dois gols de Ronaldo. Para muitos brasileiros como eu, nascidos nos anos 1980, ele permanece como um dos maiores atacantes que já existiram.
O fato interessante é que, ao assistir ao vídeo, algo chamou minha atenção. Ronaldo desperdiçou pelo menos três oportunidades claras de gol. Nada extraordinário. Nada incompatível com a carreira de um grande atacante. Ainda assim, a sensação foi curiosa. A lembrança preservada pela memória era a de um jogador quase perfeito. O vídeo mostrava algo mais humano: um atleta extraordinário que, como qualquer outro, também errava.
Como costuma acontecer em semanas de Copa do Mundo, fui bombardeado por vídeos relacionados ao tema. Em meio a esse fluxo de lembranças, tive sensação semelhante ao rever Brasil x Uruguai, em 1993, a partida decisiva das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1994. Para muitos torcedores, trata-se de uma das maiores atuações individuais da história recente da Seleção Brasileira. O jogo transformou-se em símbolo. Romário, outro ídolo máximo da minha geração, marcou os dois gols da vitória por 2 a 0 e praticamente carregou o Brasil para a Copa do Mundo que seria conquistada no ano seguinte.
Mas ao rever também os melhores momentos, minha atenção foi despertada pelo mesmo motivo. Durante o jogo, Romário também desperdiçou pelo menos três oportunidades claras. E, novamente, isso não diminuiu a atuação. Pelo contrário. Mesmo desperdiçando chances, foi quem resolveu o jogo mais importante daquele ciclo.
Os dois episódios ilustram um mecanismo importante. O tempo costuma preservar os grandes momentos e descartar os ruídos. As arrancadas permanecem. Os gols decisivos permanecem. As atuações históricas permanecem. As falhas menores desaparecem. É por isso que o passado frequentemente parece mais brilhante do que o presente. Não porque seja falso, mas porque já passou pelo processo de seleção que a memória coletiva realiza naturalmente.
Os grandes jogadores do passado são lembrados principalmente por seus momentos de grandeza. Os jogadores atuais são acompanhados em tempo real, inclusive nos jogos ruins, nas lesões, nas fases de baixa confiança, nas entrevistas mal interpretadas e nas estatísticas que expõem limitações. O tempo funciona como curador. O presente funciona como auditor. Um erro que antes desaparecia no fluxo da memória hoje circula em cortes, memes e debates intermináveis.
Isso não significa que a memória esteja errada. Significa que ela tem natureza própria. Quando pensamos em Ronaldo, lembramos dos gols na Copa do Mundo de 2002. Quando pensamos em Romário, lembramos dos gols na Copa do Mundo de 1994. A história preserva os momentos que definiram suas carreiras. Os erros ficaram pelo caminho.
Talvez seja por isso que comparar Pelé de 1970 com qualquer jogador de 2026 seja, em parte, comparar uma obra-prima editada com um making of transmitido ao vivo.
A geração que nunca viu o Brasil campeão
O Brasil conquistou seu quinto título mundial em 2002. Em 2026, qualquer brasileiro com menos de 24 anos nasceu depois daquela final em Yokohama. Mesmo quem tinha quatro ou cinco anos dificilmente construiu uma memória esportiva plena daquele torneio. Para boa parte da juventude brasileira atual, a Seleção campeã do mundo não é uma experiência vivida. É uma narrativa recebida.
A distinção importa mais do que parece. Uma conquista transmitida pode ser admirada, mas não produz o mesmo vínculo que uma conquista vivida. A memória herdada cria respeito. A memória vivida cria pertencimento. Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho, Cafu e Roberto Carlos chegam a essa geração como personagens de arquivo, de YouTube, de documentário, de relato familiar. Não como protagonistas de sua própria formação emocional.
A pesquisa clássica de Robert Cialdini sobre identificação esportiva mostrou como pessoas tendem a incorporar o sucesso de grupos esportivos à própria identidade social quando o time vence, o “eles” vira “nós”. A geração que nunca viu o Brasil vencer uma Copa do Mundo não acumulou esse capital identitário pelo canal mais direto. E um espaço simbólico que não é preenchido por experiência própria acaba sendo preenchido por outra coisa.
Quando os ídolos deixam de ser nacionais
No caso brasileiro, essa outra coisa foi o futebol europeu, e não por acidente. Enquanto a Seleção deixava de ganhar Copas, a Champions League, a Premier League e La Liga ampliavam sua presença diária na vida do torcedor. O jovem brasileiro não depende mais da televisão aberta ou do jornal local para formar seu repertório. Ele acompanha Vinicius Júnior, Haaland, Bellingham, Mbappé, De Bruyne e Messi em tempo real, dentro e fora do campo. O ídolo deixou de ser apenas quem decide jogos. Passou a ser quem aparece todos os dias no feed.
Levantamentos sobre comportamento de torcedores da Geração Z apontam consistentemente para essa mudança: maior conexão com atletas individuais do que com instituições, e resposta intensa a vídeos curtos, bastidores e conteúdos nativos de redes sociais. O estudo “Os torcedores do futuro”, voltado a jovens paulistanos e clubes europeus, identificou a presença crescente dessas equipes no cotidiano dos jovens brasileiros, associada não à traição à identidade nacional, mas à mídia, qualidade percebida e identificação com o espetáculo global.
O Brasil continua produzindo jogadores de elite. Mas o local de consagração mudou. O talento brasileiro é cada vez mais lapidado, exibido e monetizado em clubes europeus. O CIES Football Observatory registrou, em relatório de 2024, novo recorde de jogadores expatriados em ligas monitoradas e crescimento de quase 20% desde 2020. O resultado cultural é preciso: o Brasil exporta talento, mas a Europa organiza a vitrine. A narrativa que consolida Vinicius Júnior como ídolo global é construída em Madrid, não no Maracanã.
O jovem brasileiro que se conecta com o Real Madrid, segue um jogador norueguês, admira um francês e torce pela Seleção. Não está rejeitando o Brasil. Está vivendo o futebol que lhe foi oferecido: mais fragmentado, mais internacional, mais digital, mais centrado em indivíduos. A identidade esportiva, nesse contexto, não é traição é composição.
O erro é transformar a mudança em decadência
Há uma armadilha neste tema: transformar a análise em lamento. Dizer que antes havia ídolos verdadeiros e hoje há marcas. Que antes havia amor à camisa e hoje há algoritmo. Que antes havia futebol e hoje há conteúdo.
Essa leitura é sedutora e pobre. O passado também tinha mídia, interesses comerciais, mitificações e exageros narrativos. O que mudou não foi a existência de mediação. Mudou a tecnologia da mediação. Antes, a memória esportiva era construída por transmissão televisiva, rádio, jornal, álbum de figurinhas e conversa de bar. Hoje, é construída também por redes sociais, highlights, estatísticas, streaming, videogames, podcasts e documentários. Cada época tem seus filtros. Nenhuma vê o futebol diretamente. Todas veem o futebol através das lentes disponíveis em seu tempo e tendem a chamar essas lentes de realidade.
Talvez estejamos comparando mundos diferentes
Não há laboratório histórico capaz de colocar Pelé, Zico, Maradona, Romário, Ronaldo, Messi e Mbappé em condições idênticas. Não há como separar talento de contexto e memória de afeto.
Mas a impossibilidade da resposta não torna a pergunta inútil. Ao contrário, ela revela o que o futebol realmente organiza. Quando um torcedor mais velho defende os jogadores de sua juventude, está defendendo uma experiência de mundo. Quando um jovem escolhe ídolos globais, está vivendo o futebol que lhe coube. Quando uma geração que nunca viu o Brasil campeão preenche esse espaço com referências europeias, não está abandonando nada. Está fazendo o que toda geração faz: reconhecer a grandeza a partir das experiências que viveu.
Os jogadores da nossa época eram melhores?
Provavelmente eram os melhores do mundo que nos formou. E continuarão parecendo maiores do que talvez tenham sido, não porque a memória seja falsa, mas porque o futebol nunca foi apenas o que aconteceu em campo.

